OS LABIRINTOS EXISTENCIAIS
3.2 A MORTE UTÓPICA
Em Alguien que Anda por Ahí e Deshoras existe uma predominância temática, segundo a visão de Frederic Jameson (1985:113), da morte como tempo transfigurado da utopia revolucionária, isto é, estamos em presença de um tipo de morte não só do ponto de vista pessoal, mas também político e histórico, uma morte onde os corpos podem ou não aparecerem. Mais claramente, desde Libro de Manuel, passando pelos contos analisados no segundo capítulo, percebemos uma narrativa recheada de desaparecidos, de
mortes por torturas, de persistência revolucionária apesar do fatídico fim, de gestos individuais e grupais de esperança de um mundo melhor pela revolução. O destemor revolucionário faz que sigam de encontro a um futuro impossível, barrado pelas forças contra-revolucionárias. Personagens reais – Guevara, Fidel, Cardenal e o próprio Cortázar – juntam-se a personagens supostamente fictíciais – Lozano, os camponeses de Solentiname, Jacobo, Jiménez, Estévez, Toto, Lauro, Mecha e tantos outros inominados – para formarem o agrupamento dos “cidadãos da Utopia” que, conforme Jameson (Op. cit., p. 114),
Ainda enquanto mortais, conhecerão vida eterna, e esta imortal promessa, estas insinuações intensas, apenas indistintamente perceptíveis, do triunfo sobre a morte estão entre os símbolos máximos da esperança, distorcidos em sua forma religiosa de além-túmulo, e agora recuperados, para nós, com toda a força da exaltação da revolução secular.
Com Alguien que Anda por Ahí fazemos uma analogia direta à Triple A67 Argentina – Alianza Anticomunista Argentina – um grupo paramilitar que iniciou uma violenta repressão a partir da morte de Perón. Por ocasião de seu aparecimento, o livro foi prontamente proibido na Argentina, por tratar de problemas ligados ao momento político do país, expondo, ainda que de forma literária, questões como desaparecimento de pessoas, torturas e destruições. E a não disposição de Cortázar em retirar os contos que exigiam fossem cortados para a publicação, vem ratificar o que aceitamos por verdade: Cortázar tinha plena consciência de que escrevia para tocar nas feridas abertas pelo regime ditatorial de seu país e da América Latina e, por mais que sua literatura buscasse seguir o veio estético-literário, o seu posicionamento político- ideológico ali estava, à flor do texto, como algo que precisava ser dito sem interditos.
Entretanto, reconhecemos o seu caráter não doutrinário, pela forma como são conduzidas as narrativas, deixando no leitor a sensação de um final
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A Triple A teve início em 21 de novembro de 1973, responsável por mais ou menos 700 assassinatosentre 1973-76, período em que governaram Perón e sua mulher, Isabel Perón, servindo como base para a instauração do terrorismo ditatorial que se seguiu.
suspensivo e aberto à construção de um pensamento antropológico, para continuarmos usando o raciocínio jamesoniano. Partindo da idéia de que Cortázar deixa em aberto o final de suas narrativas, sem direcionar as conclusões do leitor, embora exigindo sua participação ativa, podemos ainda pensando com Jameson que, por mais que o pensamento utópico tenha no momento a sua eficácia, torna-se perigoso pela impossibilidade de sua realização plena.
Como crítico, acreditamos que seu papel de revolucionário utópico se cumpriu com mais veemência. Basta nos reportarmos ao texto que ele escreve em resposta à crítica que Danúbio Torres Fierro faz ao livro Alguien que Anda pr Ahí, quando considera a leitura feita pela junta militar que o proibiu muito melhor que a do crítico. E reporta-se ao conto Apocalipsis de Solentiname, lançando ao leitor duas interrogações que convocam quem está de fora a participar dos acontecimentos trágicos que envolvem a América Latina:
Que diferença há entre o horror da Argentina, do Chile, do Uruguai e de tantos outros países? (2001:142)
De que serve a “vida para a literatura, se quem vive não quer olhar em torno, não quer ir a Solentiname? (2001:142)
Estes dois questionamentos estão expressos no conto de uma forma literária, ficcional, representados pelas figuras de um narrador, consciente dos problemas e de Claudine, que não foi a Solentiname e, portanto, encontra-se incapaz de entendê-la em sua profundidade, como a maioria dos latino- americanos e como todos aqueles que fazem parte do poder ditatorial. Assim, podemos sentir nestes contos que a morte é utilizada pelo autor como forma de resistência do homem ao sistema, isto é, morrer aqui significa impor-se como ser pensante e dono de seus próprios valores, o que funciona como uma afronta para o opressor que se vê rejeitado em suas idéias. E esse pensamento de Cortázar em relação à Solentiname de Cardenal, ainda que em forma de conto, apresenta os mesmos sinais utópicos. Isso faz lembrar uma conclusão de Gabriel Lomba Santiago (1998:40), para quem a imaginação
utópica é algo que faz parte da vida do homem e, no caso dos dois, a utopia política. Segundo ele,
A manifestação mais popular da imaginação utópica tem sido a utopia política, isto é, uma vida baseada num novo arranjo político da sociedade, firmada em novas estruturas sociais. A imaginação utópica quer ainda que todos sejam tratados igualmente, homens, mulheres e crianças.
Para isso foi criada Solentiname. Por isso, a sua destruição. Podemos afirmar, nesse caso específico, assim como no conto Satarsa, que a morte utópica cortazariana representa a anti-utopia de uma realidade crivada por pesadelos e privações dos direitos humanos. Cortázar mostra a realidade de uma forma irônica e terrificante, sem oferecer sequer a chance de a pensarmos positivamente. Na verdade, o que tem de desejo verdadeiramente utópico nas obras de Cortázar em questão encontra-se em profundidade na visão globalizada que delas formamos. Trata-se de um desejo utópico que se reflete nas imagens que cria da América Latina e de seu povo como um todo, sem individuações. Mais precisamente, ocorre algo semelhante ao que Martin Buber (1987:17) pensa desse tipo de desejo: nada tem a ver com o instintivo nem com a auto-satisfação:
Va unido a algo sobrepersonal que se comunica com el alma, pero que no está condicionado por ella. Lo que en el impera es el afán por lo justo, que se experimenta en visión religiosa o filosófica, a modo de revelación o idea, y que por su esencia no puede realizarse en el individuo, sino sólo en la comunidad humana.
Cortázar pensava utopicamente a morte dentro de uma realidade sofrida como a da América Latina, não como um ativista político, um militante, mas como alguém que, criticamente, toma uma atitude perante o mundo, perante os homens que fazem parte desse mundo. O fato de escrever sobre os temas que envolviam o momento histórico-político, de se revoltar contra a injustiça praticada contra o povo da América Latina, não fazia dele um ativista. Cortázar, ao que se sabe, não pertencia a nenhum partido político, nem os seus escritos – os críticos e os literários – pretendiam repassar nenhum posicionamento em
favor de A ou B. Ele expunha posicionamentos dos personagens, que eram seus também. Fazia-se duplo autoral, duplicava-se em seus textos, contrapunha-se, para depois deixar ao leitor a tarefa de penetrar no seu pensamento e retirar suas próprias conclusões e as exigia que fossem críticas.