7. A APORIA DOS ESTUDOS DE COMPORTAMENTO INFORMACIONAL
7.5 A mudança de paradigma e a importância do contexto
Partindo da conjuntura especificada anteriormente, os autores Fonseca e Jardim (2004) enfatizam as consequências do impacto das novas tecnologias da informação e da comunicação no âmbito de atuação dos arquivistas. Em decorrência disso, demonstram que o trabalho desses profissionais passa agora a observar os seguintes fatores:
a. o conceito de lugar torna-se secundário tanto para o profissional da informação quanto para o usuário;
b. o acesso à informação passa a ser o fator de maior importância dentro da dinâmica contemporânea;
c. as instituições como arquivos, bibliotecas e centros de documentação adquirem novas funções e passam a revisar as que lhes são históricas; e, d. as tecnologias da informação e comunicação produzem novas demandas aos
arquivos.
Por isso os autores defendem a necessidade de mudança de paradigma no modelo de ação do universo arquivístico, que deixaria de ser direcionado para os arquivistas e passaria a ser focado nos usuários. O usuário e o impacto da informação sobre sua vida passariam a ser levados em consideração, inclusive fora dos espaços físicos desses serviços.
No modelo de arquivos direcionados para os usuários, urge, portanto, perguntar para que se destina a informação e não para quem se destina a informação, considerando que um usuário pode se incluir em várias categorias. Tais categorias se referem à compreensão do usuário como um ator social, apresentando diferentes papéis na sociedade: estudante, docente, pesquisador, administrador, cidadão-comum, entre outros.
(COSTA; SILVA; RAMALHO, 2010, p. 134)
Embora os autores destaquem a importância do usuário no processo de comunicação, importa enfatizar que o receptor da informação arquivística não deve ser utilizado como parâmetro para a organização dos conjuntos documentais. Isso demandaria a existência de um arquivo para cada tipo de usuário, sob risco de perda da confiabilidade das informações pela diluição de seu contexto produtor. E esse não é o intuito dos estudos do comportamento informacional nos arquivos.
O documento típico de arquivo já nasce com as referências contextuais bem indicadas. A informação que nele é colocada pela atividade produtora tende a ser a mais direta possível, para garantir que seu objetivo inicial seja cumprido com êxito; por mais abrangente que essa informação seja, ela é fruto de vontade institucional responsável pela criação do documento e
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carrega suas marcas. A informação que veicula, inicialmente, é indissociada da atividade que gerou o documento, mas pode adquirir uma autonomia relativa. Essa característica provoca importantes desdobramentos relativos à organização documental. (LOPEZ, 2005, p. 31)
Os estudos do comportamento informacional passaram a incorporar o contexto específico em que está inserido o usuário que necessita e busca informação. Afinal, foi reconhecido que o contexto é uma variável importante na determinação do comportamento do usuário. Por que essa mudança de foco em tais estudos e qual seria o propósito dessa nova conduta?
Courtright (2007), em sua revisão de literatura publicada pelo ARIST, traz uma visão ampliada sobre os estudos de comportamento informacional com a incorporação de uma nova abordagem. A autora busca apresentar uma contribuição para as pesquisas de busca informacional baseadas no contexto, comparando os modelos que o abordam. Assim, demonstra como o contexto tem sido definido nas diversas pesquisas em
Information Needs, Seeking and Use (INSU). Percebe-se que o conceito de contexto,
embora ainda não consensual e muitas vezes incongruente, refere-se ao comportamento informacional a partir de uma perspectiva centrada no usuário. Dessa maneira, pode ser considerado como o conjunto de todos os elementos que influenciam, de forma duradoura e previsível, as práticas informacionais.
Thomassem (2001) salienta a importância do contexto de uso da informação arquivística como um dos fatores que determinam como os documentos são produzidos, estruturados, geridos e interpretados. Tais elementos são intitulados pelo autor como parte de um contexto arquivístico amplo e abrangente, que desenha características essenciais ao entendimento do funcionamento e estrutura do arquivo.
Segundo o autor, o contexto de proveniência, propriedade essencial do conjunto documental gerado pelas organizações, estaria dentro da ideia da geração dos documentos, que representa como a instituição está estruturada (contexto organizacional), como suas funções são espelhadas (contexto funcional) e como caminham os seus processos de trabalho (contexto de procedimentos administrativos). Esses elementos definem o contexto de uso, pois se relacionam diretamente ao usuário e ao seu contato com o arquivo enquanto serviço e unidade de informação. As perguntas que fazem ao arquivo e as sucessivas tentativas de respondê-las podem ser insumos preponderantes para um melhor funcionamento do sistema de gestão de documentos.
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1.
Contexto organizacional: representa um espelho das interações realizadasem nível externo pela organização, que culminam na observação da estrutura interna da instituição, dentro das suas funções de negócio. Contexto altamente relacionado com a característica orgânica evidenciada pelas peculiaridades da informação arquivística;
2.
Contexto Funcional: ligado às funções e objetivos da instituição, dentro dasua missão. O que determina de maneira natural o desenrolar de atividades que são desempenhadas para se assegurar a execução de determinadas tarefas. Esse contexto representa a essência dos produtos documentais do arquivo, ou seja, o conteúdo inserido em sua composição;
3.
Contexto de procedimentos administrativos: representa a própria conduta dosprocessos de trabalho na existência das atividades, que geram os dossiês, e das ações e transações, que geram os documentos individualizados. Como a contemporaneidade se caracteriza pela instabilidade cada vez mais frequente das estruturas das organizações, o desenho dos processos administrativos remonta a ideia de criar amarras e fatores de ligação da ST/DFom os documentos de arquivo, tornando-os estreitamente vinculados à sua fonte geradora;
4.
Contexto de administração: relaciona-se à própria gestão de documentos e àsua preservação. São todos os procedimentos e métodos empenhados pelo produtor para assegurar a integridade do conjunto documental. Tal contexto está muito ligado à estrutura do arquivo, também denominado pelo autor como “contexto documentário”;
5.
Contexto de uso: relaciona-se diretamente ao usuário e ao seu contato com oarquivo enquanto serviço e unidade de informação. As perguntas que fazem ao arquivo e as sucessivas tentativas de respondê-las podem ser insumos preponderantes para um melhor funcionamento do sistema de gestão de documentos;
6.
Contexto sócio-político, cultural e econômico: toma o arquivo como parte deum sistema aberto, tocando e sendo influenciado por fatores ambientais. Tal contexto determina a sua estrutura, a forma e o conteúdo de seus documentos.
91 Embora o autor não defina diretamente os arquivos como um sistema aberto, fica evidente esse ponto de vista ao observamos os contextos apresentados. Sob essas definições, os conjuntos documentais de uma organização são tomados como um serviço, onde os conteúdos dos registros são moldados pelas relações da ST/DFom seu ambiente de atuação. Esses pontos acabam por trazer essas características, relacionando- as ao conceito de arquivos difundido pela corrente portuguesa. Isso fica ainda mais exposto pela importância que assume o aspecto de serviço, que observa o ponto de vista dos usuários.