2.3 Sustentabilidade
2.3.1 A mudança do paradigma desenvolvimento e o surgimento do
comuns aos três pilares da sustentabilidade.
2.3.1 A mudança do paradigma desenvolvimento e o surgimento do
desenvolvimento sustentável
A mudança do paradigma em questão é o desenvolvimento sustentável. Apesar da grande conscientização das organizações produtivas de que o crescimento deve existir com o mínimo de impacto possível sobre o meio ambiente, essas organizações têm demonstrado extrema dificuldade para garantir tal mudança na prática. Capra (2002, p.109) aponta que “a mudança das organizações tornou-se um dos temas predominantes nos livros de administração.” Mas como garantir esta mudança para que as organizações tornem-se sustentáveis do ponto de vista ecológico ainda é um desafio.
Capra (2002, p.111) enfatiza que, em pesquisas recentes, os diretores executivos relatam que na tentativa de mudar eles “em vez de passar a administrar organizações novas, eles se vêem às voltas com a administração dos efeitos colaterais nocivos dos seus planos.” Isto resulta que, embora tenhamos bons exemplos, principalmente de iniciativas empresariais no caminho da sustentabilidade, os resultados globais são fracos, ou seja, a regra é que não se estão conseguindo as mudanças necessárias e sonhadas para o alcance da sustentabilidade.
Capra (2002) tem um ponto de vista interessante sobre as limitações das organizações produtivas em efetuarem mudanças culturais internas. Ele revela que identificou dois aspectos importantes na concepção das instituições:
1) elas foram criadas para gerar lucro, administrar atribuições do poder político, transmitir conhecimento, ou disseminar uma fé religiosa;
2) essas instituições são, na verdade, comunidades de pessoas que interagem entre si na busca de relacionamentos.
Desta forma, esses dois aspectos necessitariam de dois tipos de mudanças diferentes. À medida que os indivíduos estão vivos, seus processos naturais de mudanças são diferentes das mudanças organizacionais. Esta abordagem de que as organizações são sistemas vivos, segundo (Capra 2002, p.112):
Nos permitirá projetar organizações empresariais ecologicamente sustentáveis, uma vez que os princípios de organizações de ecossistemas – que são a base da sustentabilidade – são idênticos aos princípios de organizações de todos os sistemas vivos.
Este seria o grande desafio - entender estas organizações como sistemas vivos - para então aplicar as diretrizes necessárias para a mudança das organizações.
Observando a visão sistêmica da vida colocada por Capra (2002, p.213), de que todos os sistemas vivos caracterizam-se por uma espontaneidade de um processo de aprendizado e por uma dinâmica de cultura que possibilita a criação do
conhecimento, bem como aplicando a associação dessas duas idéias ao “aprendizado” das organizações, seria possível:
Conhecer claramente as condições sob as quais o aprendizado e a criação do conhecimento efetivamente ocorrem e a formular importantes diretrizes para a ‘organização’ das organizações humanas de hoje em dia.
Isso possibilitará que a viabilização da mudança necessária só será possível garantindo estes dois aspectos nas organizações, ou seja, o segredo para que sejam alcançadas as mudanças nas organizações está na certeza da criação do conhecimento e do aprendizado.
Estes aspectos estão diretamente relacionados com inovação, o que vai ao encontro de pensamento de Holliday; Schmidheiny; Watts (2002, p.31), quando enfatizam que “a inovação também é tema crítico para a sustentabilidade”, pois devido à necessidade de redução do consumo de energia e do uso de recursos naturais e de transparência radical, a inovação seria peça fundamental da sustentabilidade. Portanto, neste aspecto, o WBCSD como Capra caminham na mesma direção.
A garantia da criação do conhecimento e do aprendizado nas organizações parece passar pela mudança de uma visão mecanicista das organizações para uma outra visão onde a organização é composta por redes vivas de inter-relações.
No conceito clássico a organização como sendo uma máquina pressupõe, como diz Capra (2002), que as mudanças internas sejam projetadas pelos gerentes e administradores e imposta à organização. Isso tende a gerar uma rigidez burocrática, não deixando espaço para adaptações flexíveis, aprendizado e evolução.
No novo conceito, admitindo as organizações produtivas como sistemas vivos, a comunicação flui naturalmente em seu interior, mas para isso é necessário que elas sejam organizadas em redes vivas, pois o fluxo de comunicação gera pensamentos e significados que originam outras comunicações, criando então um senso comum de significados, conhecimentos, regras de conduta, limite e identidade coletiva.
Mais uma vez, o WBCSD apresenta um ponto de vista convergente com o pensamento de Capra, uma vez que priorizam a garantia do fluxo de informação interna e externa, transparente com todos os stakeholders, incentivando a polêmica e a discussão com conseqüentes pensamentos inovadores. Isso fica claro no pensamento de Holliday, Schmidheiny; Watts (2002, p.30), quando estes apontam que “a transparência torna difíceis a negligência ambiental e a indiferença social, portanto, a transparência é tema crucial para as empresas movidas pela sustentabilidade.” Esta interação, proposta pelo WBCSD, com todos os
stakeholders, deve ser viabilizada pela divulgação periódica de relatórios confiáveis,
por intermédio de reuniões, palestras e quaisquer outros mecanismos que venham a ser identificados pelos próprios interessados.
É muito importante a comunicação, participação e envolvimento dos
stakeholders para a manutenção da vida na organização e, conseqüentemente, do
seu poder criativo.
Desta forma, é fundamental compreender que as organizações vivas são compostas, então, de duas estruturas que se completam: a primeira suas redes informais e autogeradoras de conhecimento e aprendizado, e a segunda composta por suas estruturas formais que ditam a política, as relações entre as pessoas, as metas, as tarefas e a distribuição de poder (CAPRA, 2002).
Fazendo uma análise deste contexto, parece claro que regras impositivas não serão eficientes, mas o diálogo e a discussão com os envolvidos, no sentido de obter o máximo da criatividade da comunidade em questão, terão excelentes resultados. É o que Capra (2002) chama de influenciar o sistema através de impulsos e não através de instruções.
É condição necessária, mas não suficiente, para que a humanidade comece a melhorar sua relação com a natureza, que as organizações produtivas sejam percebidas como sistemas vivos, para que o conhecimento e o aprendizado fluam naturalmente em seu interior.
Diante disso, a etapa a seguir abordará a sustentabilidade em organizações produtivas, partindo da premissa de que a comunicação interna e externa pode assegurar a geração de conhecimento e aprendizado sustentável.