1.1- A temática do futuro como motivo da mudança
A historiografia teológica76 está de acordo em indicar a mudança mais significativa no trabalho teológico de Schillebeeckx à volta dos anos 1966-1967. A mudança é gradual e dinâmica. O antecedente próximo da mudança é o confronto com o tema da secularização77 provocada por algumas tentativas de reinterpretação da fé sobre alguns temas escaldantes da teologia78. Já nestes escritos se entrevêem os avisos da mudança que está às portas.
O equilíbrio rompeu-se precisamente sob os golpes da introdução maciça em teologia da temática do futuro e, portanto, pelo sublinhar da função da liberdade histórica no processo hermenêutico, como resultado de um ulterior e decisivo confronto com a secularização79. A viagem aos Estados Unidos desde Novembro-Dezembro de 1967 foi
76 Cfr. AA. VV., Les catholiques hollandais, Bruxelles 1969, pp. 7-11; AWERDA, R., Le dossier
Schillebeeckx, Bruxelles 1970, pp. 69.125.128; BOURGY, P., Edward Schillebeeckx, in Bilancio della teologia del xx secolo, Roma 1972, IV, pp. 247-264, 260 ss.; T.M.SCHOOF, The later theology of E. SCHILLEBEECKX, in “The Clergy Review” 55 (1970) 943-960: 949-952; ARDUSSO et alii, La teologia contemporanea, Turim 1980, pp. 471-506, 476-477; WILLEMS, in Lessico dei Teologi del xx secolo, Brescia 1978, pp. 698-705, 704-705; AMBAUM, J., Glaubenszeichen. Schillebeeckx’ Auffassung von den Sakramenten, Regensburg 1980, pp. 196, 218; IWASHIMA, op. cit., pp. 1, 87.
77 SCHILLEBEECKX, E., Dio e l’Uomo… op. cit., pp. 123-295.
78 Cito alguns exemplos particularmente conseguidos: RELAÇÃO IGREJA-MUNDO: “Concilium” 1 (1965)
1: pp. 63-83, pp. 9-34; “Comunicação” no Congresso Internacional dos Teólogos 26 de Setembro-1 Out. 1966 (Acta Congrgationis Internationalis de Theologia Concilii Vaticani II, Roma 1968, pp. 45-53); Eclesia in mundo huius temporis, “Angelicum” 43 (1966) pp. 340-352. SOBRE A EUCARISTIA: Cfr. Transubstantiation, transfinalization, transsignification, in “Worship” 40 (1966) pp. 324-338.
79 Trata-se do “ateísmo cristão” e/ou “teologia radical” e do movimento da “morte de Deus”. Para a
bibliografia cfr.: para além do caso jornalístico suscitado por Honest to God de J. A. T. ROBINSON, recordar-se-ão os artigos aparecidos em 1965 em “The New York Time”, “The New Yorker”, “The N.Y. Herald Tribune” a propósito dos assim chamados teólogos radicais e/ou a teologia da morte de Deus.
43 catalisador decisivo da mudança80, por declaração própria do autor81, no confronto com a secularização, emergindo então a dimensão histórico-prática 82. Confirmação disto pode encontrar-se na publicação hermenêutica de mais amplo folgo do autor83.
A mudança cultural em acto coloca-se no contexto da crise da “fenomenologia existencial”.
Schillebeeckx cita duas correntes de modo diferenciado: entre os primeiros T. ALTIZER- W.HAMILTON, Radical Theology and the Death of God, New York 1966; T. ALTIZER, The Godspel of Christian Ateism, Philadelphia 1966; entre os segundos recorda duas obras de H. COX, The Secular City e God’s Revolution and Man’s Responsability, Valley Forge 1965 e dois de G. VAHANIAN, The Death of God, New York 1961 e No Other God, New York 1966, ao qual acrescenta sob o plano bíblico H. BRAUN, Gesammelte studien zum Neuen Testament und seiner Umwelt, Tubingen 1962 e sob o plano analítico P. VAN. BUREN , The Secular Meaning of the Gospel, London and New York 1963. – Para uma introdução geral ao tema da secularização veja-se: sob o perfil histórico H. LUBBE, Sakulariisierung. Geschichte eines ideenpolitischen Begriffs, Freiburg 1965; sob o perfil sociológico (-religioso) A. J. NIJK, Secolarizzazione, Brescia 1973: aí se encontra também um esboço histórico-teológico, pp. 23-99; R. L. RICHARD, Teologia della secolarizzazione, Brescia 1970 (orig. 1969 ); finalmente um quadro sintético (com bibliografia) encontra-se em Secolarizzazione, Sacramentum Mundi, Brescia 1977, VII: col. 586-600; Cf. PERA, Marcello, Porque devemos chamar-nos cristãos. As raízes religiosas das sociedades livres, Frente e Verso, Braga, 2013, pp. 38, 68, 73, 88, 95, 112, 124, 133, 143. 153, 167, 171, 203, 208.
80 Todos citam este momento como decisivo: antes de mais o próprio Schillebeeckx o recorda três vezes: pp.
5, 184 in Les catholiques hollandais… op. cit., pp. 7-8 (entrevista); cf., AWERDA, R., Le dossier Schillebeeckx, pp. 120-134 (entrevista). Depois ainda in Le dossier Schillebeeckx, pp. 69-73, com uma descrição minuciosa do tempo, dos encontros, das modalidades e dos comentários à viagem de Novembro- Dezembro 1967: 42 conferências num mês e meio!
81 “Regressado dos Estados Unidos tive oportunidade de reflectir sobre as discussões lá havidas com colegas
e estudantes. Saiu dele um estudo depois levado ao fim do volume presente” Dio, Futuro del Uomo, Roma, Paoline 1970 , p. 5, que Shillebeeckx recomenda considerar o ponto de vista para a leitura dos outros estudos. Eis a lista indicada por ele próprio (é interessante ver aqueles que ele inclui: Dio, Futuro del Uomo… op. cit., p. 183, n. 1):
- Fede Cristiana e aspettative terrene, in La Chiesa nel mondo contemporaneo, Brescia 1967, pp. 103-135 (retomado em mC, pp. 73-124).
- os quatro artigos dos Cap. 2, 3, 4, 5, de Dio, Futuro del Uomo… op. cit..
- ainda: o artigo relatado outras duas vezes em Dio, Futuro del Uomo, pp. 7-58 e em Intelligenza della Fede. Interpretazione e crítica (Saggi teologici V), Roma, Paoline 1975, pp. 1-11.
- finalmente: Theology of Renewal talks about God, in Theology of Renewal, I, Montreal 1968, pp. 85- 105; tr. Fr. La théologie du renouveau parle de Dieu, in La théologie du renouveau, I, Paris 1968, pp. 91-109; tr. it. La teologia del rinnovamento parla di Dio, in La teologia del rinnovamento, Assis, pp. 21-40 (citamos do francês): é a intervenção no Congresso de Toronto de 1967. O artigo é uma reelaboração sintética de Dio, Futuro del Uomo… op. cit., pp. 59-99.
82 In SCHOOF, T. M., The later Theology of Edward Schillebeeckx … op. cit., p. 950 e in Les catholiques
hollandais… op. cit., p. 15 encontra-se a notícia que desde 1966 Schillebeeckx tem em curso sobre este argumento aos estudantes da faculdade teológica de Nimega. O seu curso dizia respeito – afirma Schoof – a várias escolas alemãs (Bultmann, a ‘nova hermenêutica’ postbultmaniana, Gadamer, Pannenberg e mais recentemente Habermas particularmente); Paul Ricoeur e o estruturalismo em França, a análise linguística e a filosofia analítica da Inglaterra, Escandinávia e Estados Unidos. Deve-se sublinhar o seu interesse para o estudo da escatologia (Les catholiques hollandais, pp. 16-17; Le dossier Schillebeeckx., p. 31). Daqui derivaram alguns artigos: “Concilium” 5 (1969) 1: pp. 38-51, tr. It. 5 (1969) 1: pp. 58-73 – SCHILLEBEECKX, E., Intelligenza della Fede… op. cit., pp. 13-29.
44 “No mundo dos filósofos, a fenomenologia existencial está a perder terreno. Orientações precisas, se bem que ainda não demasiado claras, como o estruturalismo francês, as correntes que se ligam ao princípio esperança de E. Bloch, a teologia da história do círculo á volta de Pannenberg (…) submetem a uma pesadíssima crítica a orientação até agora dominante” 84.
E acrescenta:
“Noutros tempos o homem estava voltado sobretudo para o passado, hoje, pelo contrário, olha dinamicamente para o futuro. A mudança radical, isto é, a afirmação resoluta do primado do futuro sobre o passado (e, portanto, sobre a tradição) pode ser considerada o expoente de todo o processo de transformação”85.
Historia e futuro, futuro como novo paradigma da transcendência são as novas cifras da cultura actual.
“A categoria ‘futuro’ agora tem de novo o primado naquilo a que chamamos ‘história’86.
Isto deve-se, observa Schillebeeckx, à importância sempre maior das ciências da natureza e do comportamento que plasmam a nova figura do homem voltado para o futuro. Deste modo a escatologia propõe-se como uma questão que faz parte da existência e da experiência humana87.
A descoberta do futuro implica uma releitura da temática da transcendência de Deus. O autor apresenta aqui algumas temáticas da “teologia da esperança”. A velha cultura estava orientada para o passado. Por isso,as categorias vinham entendidas no sentido da protologia88.
84 IDEM, Dio, Futuro del Uomo… op. cit., pp. 95, 195 e Les catholiques hollandais… op. cit., p. 13. 85 IDEM, Dio, Futuro del Uomo… op. cit., p. 187
86 “Concilium” 5 (1969) 1: pp. 38-51; tr. It. 5 (1969) 1: pp. 58-73.
87 SCHILLEBEECKX, E., Intellizenza della fede… op. cit., p. 16: dever-se-á distinguir, porém, entre escatologia intra mundana (futuro na história: história futura) e escatologia teológica (futuro da história: fim e cumprimento da história).
88 “Numa cultura constantemente orientada para o passado existia logicamente uma forte atracção entre
45 “o crente, não apenas o homem, terá começado a reconhecer o primado do futuro na nossa temporalidade, preferirá ligar a ele a transcendência de Deus”89.
Instaura-se um nexo fecundo entre a realidade de Deus e a futuridade do homem com nova imagem de Deus que vai do “totalmente outro” ao “totalmente Novo”90.
Todavia , segundo a Bíblia, não se pode defender algum “primado do futuro à custa da actual relação de comunhão com o Deus da aliança reactualizante do passado”91:
“a interpretação israelita da história como promessa de Deus, como agir salvífico de Deus, como aliança, e em tudo isso como revelação, tem como base uma tradição vivida: uma história de tradição (Uberlieferungsgeschichte)”92.
Tal concepção da história como ‘história de tradição’, colhida de Pannenberg93, torna
possível entender de modo concreto a experiência de Israel como história da promessa. Passado e futuro interagem entre si.
Esta primeira fase depois da mudança tem sido denominada a fase hermenêutico- crítica.
Intelligenza della Fede…op. cit., p. 18 e ainda antes em Dio, Futuro del Uomo… op. cit., pp. 196-197. Nota- se claramente o carácter descritivo de tal apresentação, sem o esforço de chegar à forma de pensamento subjacente como em Moltmann.
89 IDEM, Dio, Futuro del Uomo… op. cit., p. 197, retomado em Intelligenza della Fede… op. cit., p. 18. 90 IDEM, Dio, Futuro del Uomo… op. cit., p. 197, retomado em Intelligenza della Fede… op. cit., p. 18. 91 IDEM, Intelligenza della Fede… op. cit., p. 19, no artigo paralelo de “Concilium” 5 (1969) 64 acrescenta:
“Como diz justamente o célebre estudioso do A.T., T. Vriezen: ‘A espera do futuro está na certeza da nossa fé, na relação real com Deus’”.
92 IDEM, Intelligenza della Fede… op. cit., p. 21: é no texto de “Concilium” que é relatado também o termo
técnico alemão.
93 IDEM, Intelligenza della Fede… op cit., p. 21 n. 4 onde se faz referência ao volume que recolhe o debate entre Pannenberg e diversos teólogos americanos, publicado simultaneamente em alemão e em inglês (J. M. ROBINSON e J.B. COBB ): Theologie als Geschichte, coll. Neuland in der Theologie, Zurich 1967 (Tr. Ingl.: Theology as History, coll. New Frontiers in Theology, New York 1967) que comporta uma exposição sintética da sua teologia feita por W. PANNENBERG, Die Offenbarung in Jesus von Nazaret, pp.135-169 e depois da discussão uma sua resposta Stellungnahme zur Diskussion, pp. 285-351 (Schillebeeckx aponta para esta resposta nas pp. 321-325, nn. 30-31). Sobre o debate veja-se R. Gibellini, Teologia e Ragione. Itinerario ed opera di W. Pannenberg, Brescia 1980, pp. 90-106 (com bibliografia completa de Pannenberg até 1980). Para a ideia sistemática de “história da tradição” veja-se: I. BERTEN, Histoire, révélation et foi. Dialogue avec Wolfhart Pannenberg, Paris 1969 (com prefácio do próprio Schillebeeckx), pp. 17-27: 25 nn. 10, 11: o conceito sistemático de história das tradições é colocado por Pannenberg sob o fundo da sua conexão da história universal com a totalidade da história.
46 1.2- A revisão da hermenêutica: o princípio fundamental
A historiografia schillebeckxiana94 é unânime em ressaltar o posto central que o problema hermenêutico tem no seu pensamento. S. distingue duas séries de questões interdependentes: 1) como se pode entender e justificar como inteligência cristã (isto é, coerente com a mensagem evangélica) uma nova interpretação contemporânea (é a hermenêutica teológica verdadeira e própria); 2) como se pode justificar a própria interpretação cristã da realidade diante da pluralidade de interpretações – religiosas ou não religiosas – do mundo e da vida (é a instância teológico-fundamental) 95. Parece-nos que as
duas questões subentendem um problema ainda mais fundamental, recordado explicitamente por Schillebeeckx mas depois esquecido diante da prioridade da questão do ´sentido´, isto é, a necessidade de fazer a correlação entre o saber da fé (e a sua forma crítica que é a teologia)96 com a estrutura originária e universal da abertura do homem à verdade ( e a sua forma metódica de execução, que é a epistemologia).A concentração schilebeeckxiana sobre esta temática cobre um amplo espaço de tempo (1966-1972), absorvendo na prática toda a sua reflexão teológica97.
Segundo Schillebeeckx, a hermenêutica teológica deve desenvolver-se como hermenêutica da história.98. Poderia parecer que a posição de Schillebeeckx se sobrepõe praticamente à de Pannenberg, mas para Pannenberg, à tese da revelação como história correspode sob o aspecto hermenêutico a tese da hermenêutica teológica como
94 BOURGY, P., Bilan de la Théologie du XX siècle… op. cit., pp. 261-263; SCHOOF,T. M., The later
Theology of E. Schillebeeckx… op. cit., pp. 949-958; ARDUSSO et alii, La teologia contemporanea, Turim 1980, pp. 745-746; AUWERDA, R., Le dossier Schillebeeckx., pp. 71 ss, 125-130; IWASHIMA, T., op. cit., pp. 94-166; AA.VV., Les catholiques holandais… op. cit., pp. 12-17. A este aspecto do pensamento de Schillebeekcx foi dedicada uma tese de doutoramento R.SANCHEZ CHAMOSO, La teoria hermenêutica de E. S. La reinterpretación de la fe: contexto, pressupuestos, princípios y critérios, Ex diss.Univ. de Salamanca, n. 54, 1978 retomada en ID., Una hermenêutica para la relectura actualizadora de la tradición Cristiana. Los critérios hermenêuticos de E. S., “Salmanticensis” 25 (1978) pp. 361-422: sobre este ponto p. 368, nn. 26, 27. (Cito do artigo “Salmanticense”).
95 SCHILLEBEECKX, E., Intelligenza della Fede… op. cit., p. 7.
96 Evidentemente que não se quer defender com esta expressão uma versão intelectualista da fé. A fé contém
um certo saber implícito (que vem depois articulado de forma crítica pela reflexão teológica), mas este saber colooca-se no interior de um sàpere (no sentido latino de saborear, apropriar-se). São, definitivamente, os dois aspectos da fé como fides quae e fides qua.
97 SCHILLEBEECKX, E., Rivellazione e Teologia… op. cit., p.8.
98 Do Magistério, aos Concílios, às testemunhas históricas da fé, até à Escritura e à história da revelação:
47 hermenêutica histórica99, pois a “história é a realidade na sua totalidade”100. Mas para Schillebeeckx, a expressão tem outro sentido dado que o modelo subentendido é diverso: trata-se do módulo da “inter-humanidade histórica”. Assume-se a teoria gadameriana da “fusão dos horizontes”. Schillebeeckx acolhe criticamente o módulo de Gadamer, corrigindo-o101. Dada a profunda influência de Gadamer na fase cristológica de
Schillebeeckx (1974-1989), julgamos necessário desenvolver um pouco este tema.