3. A ECONOMIA DO COMPARTILHAMENTO PODE SER O FIM DO
3.1. A MUDANÇA NA BASE MATERIAL DO CAPITALISMO
Encontramo-nos em um momento de grande mudança tecnológica ao nível de processos produtivos em razão da aplicação da microeletrônica. Essa mudança é tão profunda que tal transformação técnica é por vezes tida com a Terceira Revolução Industrial ou a Revolução Microeletrônica. Porém, essa alteração no grau de automação com a inserção da chamada automação de base microeletrônica, também origina fundadas preocupações sobre os impactos da automação, especialmente no que se refere ao nível e a composição do emprego.
Após a década de 1970 foi possível observar transformações explícitas no processo de produção propriamente dito e nas relações de trabalho. Tais mudanças tiveram contribuição significativa da introdução da base técnica microeletrônica nos processos de produção, a qual resulta ao mesmo tempo e por consequência em um aumento no grau de automação. A introdução do microchip tem a mesma relevância nesta transformação que teve a máquina a vapor, a eletricidade e a linha de montagem em outros períodos, um avanço ímpar no desenvolvimento da tecnologia na história da humanidade.
O mercado, por sua vez, também passa por severas modificações, fruto da globalização e do incrível avanço tecnológico verificado nas últimas três décadas.
A Revolução Industrial que ocorreu em meados do século XIX, foi marcada pelo aprimoramento do capitalismo por meio da adição do uso da força de trabalho pelo capital, ou seja, em algum estágio do trabalho o trabalhador foi substituído pelo uso de máquinas. Ocorreu nesta fase o denominado desemprego tecnológico, especialmente pela introdução dos teares mecânicos no século XVIII. (RIFIKIN, 2001).
No final do século XIX e início do século XX ocorreu a incorporação da ciência ao capital, provocando o crescimento da produção e dos lucros. Ocorreram ainda inovações tecnológicas, e esse modelo de produção e execução caracterizou-se por duas fases: a) Taylorismo: Separa a fase da concepção da fase da execução do trabalho, cada trabalhador fazia apenas
simples tarefa, uma etapa do processo como um todo e b) Fordismo: A produção de bens era realizada em larga escala, diminuindo assim os custos do produto. A esse momento foi denominado de Segunda Revolução Industrial.
É possível perceber nestas fases, que qualquer dos modelos de produção visavam sobretudo os lucros, que seriam reinvestidos em novas tecnologias que por sua vez economizariam mão-de-obra, possibilitando aos capitalistas dispensar trabalhadores, diminuir os custos unitários e aumentar o volume de vendas. Estas duas Revoluções carregaram consigo um modo abrangente de ver o mundo que legitimou o capitalismo, propagando que seu funcionamento era uma representação da forma como a natureza organizava-se e, portanto, incontestável.
A Revolução Telemática caracterizou-se como a introdução de máquinas e gerência científica na indústria, possibilitou a automação de base eletromecânica, substituiu a mão-de-obra do operário, por equipamentos com a capacidade de realizar os ciclos produtivos, essas máquinas chamadas de “inteligentes” tendo a capacidade de realizar funções conceituais, gerenciais e administrativas, impulsionaram sobremaneira o desemprego. O que está acontecendo agora é que estamos no curso de uma terceira revolução industrial (RIFKIN, 2001).
O padrão de desenvolvimento alicerçado no crescimento infinito e na extensão das relações de mercado se depara com o esgotamento após a crise enfrentada pelos países desenvolvidos no final dos anos 70 (Gorz, 1983).
A partir dos anos 80 com o surgimento dos computadores pessoais, com o aumento do uso das redes de comunicação como a internet, a humanidade é colocada em novo movimento de severas transformações. A velocidade com que a informação é transmitida através dos canais de comunicação ao redor do mundo, é denominada por alguns estudiosos de “sociedade do conhecimento”. As tecnologias desenvolvidas nesse período se caracterizam por acelerar, horizontalizar e tornar menos tangível o conteúdo da comunicação, através da digitalização e da comunicação via redes. A adoção e a forma de usar estas novas tecnologias que permitem captar, transmitir e distribuir informações como
textos, imagens sons e vídeos possibilitou o surgimento da “sociedade da informação12”.
Por possuírem características inovadoras estas transformações na tecnologia, bem como seu resultado sobre a produção e a organização do trabalho, e da sociedade, podem indicar que trata-se de uma “revolução”. Nas palavras de Gorz (1983): “a robótica na indústria permite uma economia ao mesmo tempo dos investimentos, da mão-de-obra e das matérias primas. Esta é grande novidade, que explica totalmente a denominação ‘revolução microeletrônica’”.
Esta ‘revolução’ intensificada a partir da mudança de milênio, contém um resultado que jamais fora concebido sobre a forma de pensar das pessoas nela inseridas. É possível observar benefícios e malefícios advindos desta grande transformação proporcionada pelo avanço tecnológico.
Essa mudança da base técnica do Capitalismo é informada em uma comparação feita por Tauile (1984). A Revolução Industrial pode ser caracterizada como a transferência de informações e conhecimento humano expressos pelas habilidades de trabalhar a ferramenta em uma peça a ser produzida para um mecanismo móvel, a qual cristaliza-se sob a forma social de capital fixo e sua base técnica compõe-se desde as mais simples máquinas- ferramenta até as mais complexas linhas de montagem, passando por diversos mecanismos geradores de energia que potencializam sua produtividade, erigindo uma tendência à desqualificação do trabalho, à perda do controle do ritmo da atividade e à consequente perda do poder de barganha por parte do trabalhador frente ao empresário.
Na Revolução Tecnológica da Microeletrônica, até as atividades manuais de maior complexidade, versáteis e flexíveis são automatizáveis economicamente. Mais do que isso, aos equipamentos microeletrônicos passam a ser incorporadas informações e conhecimentos usados em atividades de concepção, planejamento, controle e supervisão. Como dizia o anúncio da IBM: "Há uma vantagem mental". Tauile (1984).
Por um lado, o uso dos recursos tecnológicos possibilitam maior rapidez e quantidade na produção, proporcionando a oferta de produtos com preços mais
12Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTICs) são as tecnologias e métodos para secomunicar que surgiram no contexto da Revolução Informacional.
baixos e com melhor qualidade. De outro lado a adoção da tecnologia implica muitas vezes em danos ao meio ambiente e, sobretudo, na diminuição de postos de trabalho, pois o uso intensivo de máquinas nas indústrias, no campo e no comércio, substitui o trabalho das pessoas causando o chamado desemprego estrutural.
Para Castells (1990): esse aumento imprevisível de recursos tecnológicos modificou os processos de produção e distribuição, gerando uma infinidade de novos produtos e alterando de maneira substancial a localização das riquezas e do poder global. A Revolução Tecnológica é fundamental para que o capital que, ao apropriar-se dela, possa dar continuidade à concentração de capital.
A velocidade e agilidade com que a informatização é disponibilizada para as pessoas desde o final do século XX, impulsiona-as a rever suas perspectivas temporais e espaciais e a criar novas formas de relacionar-se na economia. Essas inovações não tratam-se de meras ferramentas a serem utilizadas, mas de processos a serem aprimorados, em que clientes e fornecedores se confundem pelo fato da criação dar-se durante o uso. A mente do homem passa a ser uma força direta e não mais um dos elementos do processo de produção. Dessa forma a matriz produtora de saberes, não é mais única, estando em constante mudança e produção.
Essa mudança na base tecnológica provoca um novo modo de organizar-se, em que não existe um ponto de comando, controle e decisão e segue uma sistemática de organização em rede. A estrutura portanto, ainda que não intencional, é reproduzida pela descentralização e interconexão, impossibilitando, dessa forma, um controle único.
Neste sentindo informa Florão (2006, p. 48):
O crescimento da interdependência entre os povos e países da superfície terrestre, que alguns preferem denominar de ‘Aldeia Global’, pois parece que o Planeta está ficando menor, e todos parecem se conhecer (assistem a programas de televisão, ou através da Internet, ficam sabendo o que ocorre no mundo todo, no mesmo dia e, muitas vezes, no ato do conhecimento), se deve ao enorme desenvolvimento nos meios de transporte, comunicação, nas viagens e no turismo internacional, nas trocas comerciais entre os países.
As mudanças de conceitos ocorridas em grande parte pela globalização, concomitantemente à sociedade informacional provocaram alterações estruturais na forma como as pessoas se relacionam no mercado, comprando e vendendo bens e serviços. Dentre as várias transformações que o desenvolvimento tecnológico e das comunicações vem operando na sociedade de consumo contemporânea, está o surgimento da denominada economia do compartilhamento.