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A mudança nas políticas de competitividade dos EUA

2. Evolução e Perspectivas da Indústria de Bens Eletrônicos de Consumo no Plano

2.2. Evolução das indústrias nacionais de BEC: governos e firmas no cenário global

2.2.2. As indústrias nacionais de BEC a partir de meados/ fins da década de 1980

2.2.2.1. A mudança nas políticas de competitividade dos EUA

Para os EUA, bem como para Canadá e México, meados e fins dos anos 1980 marcaram o começo das negociações que resultariam no Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA). Em 1987, os Estados Unidos e o Canadá já celebravam entre si um acordo de livre-comércio. Em 1992, era assinado o acordo entre os três países e dois anos mais tarde, o NAFTA entrava em vigor. Ressalte-se ainda a Iniciativa das Américas (Iniciativa Bush) de 1990, embrião das negociações para a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). A ALCA tomou corpo na Cúpula das Américas, realizada em Miami em 1994, já no mandato do presidente norte-americano Bill Clinton. Nela, tomaram parte 34 países do continente – Cuba ficou de fora – que se comprometeram a deslanchar as negociações, com término previsto para 2005, ano previsto também para o início da ALCA.

No plano das políticas de competitividade, em 1984, com a promulgação do National Cooperative Research Act, o governo estadunidense deu partida a diversas iniciativas de ordem tecnológica para o setor civil. Mas seria na gestão Clinton que as mesmas receberiam a atenção devida e a mudança na política tecnológica ganharia ímpeto. Em 1993, o National Competitiviness Act entrava em vigor. Este previa desde o aprimoramento de medidas fiscais em prol da P&D a inversões em infra-estrutura tecnológica e na economia de energia, passando pela promoção de tecnologias seja de produção, seja de educação e formação. (Erber e Cassiolato, op. cit.: p. 47.)

É óbvio que tais ações acabariam por abarcar ou afetar a eletrônica de consumo. A crescente digitalização – incluindo a transição dos padrões analógicos do rádio e da tevê para os digitais e de alta definição – abriu espaço para se reconstruir condições de competitividade do país na indústria eletrônica, até por ampliar a área cinzenta, entre BEC, informática e telecomunicações. Com esse fito, três iniciativas do Governo, mais diretamente relacionadas ao ramo em causa, merecem menção:

• Adoção, em 1990, forçada pela FCC, do sistema digital Simulcast para a TV digital e de alta definição, tentando anular esforços não só do Japão, mas também da Europa, na tecnologia de TV digital (TVD), incluindo a HDTV analógica. Seguiu-se então a formação do consórcio Digital HDTV Grand Alliance, integrado pelas empresas AT&T General Instruments; MIT David Sarnoff Research Center; Zenith; Philips; e Thomson. Esse consórcio desenvolveu o padrão a ser adotado nos EUA, referendado pela FCC em 1996: ATSC Digital Television Standard;

• Formação do US Display Consortium (USDC) pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (ARPA) em 1993, com dotação de US$ 20 milhões destinados a incrementar a capacitação nacional em painéis de tela plana de alta definição;

• Programa de P&D em visores de tela plana (FPDs – flat panel displays) do Departamento de Defesa iniciado em 1994 com duração prevista para quatro anos, incluindo US$ 587 milhões de fundos públicos.

Tal mudança na conduta do setor público dos Estados Unidos pode ser lida como uma resposta aos programas de longo prazo em curso no Japão e Europa, dotados de expressivos recursos públicos. Porém os equívocos do período anterior ainda repercutiam. Em 1990, a lendária McIntosh, que fabricava amplificadores de renome junto ao meio audiófilo, foi comprada pela japonesa Clarion, conhecida por seus auto-rádios. Em 1995, a coreana LG adquiriu a última sobrevivente da indústria de tevês de propriedade de residentes dos EUA, a Zenith. Essa companhia já encerrara suas atividades produtivas em solo natal em 1992, fabricando aparelhos de TV apenas em suas plantas no México. O interesse maior da LG em adquiri-la recaía no fato da Zenith ter se aliado à AT&T para desenvolver um sistema de HDTV viável para os EUA.

Mas deve se ter cautela seja em relação à ausência de empresas estadunidenses no mercado de televisores, seja quanto à efetividade das referidas ações governamentais. Segundo Murtha, Lenway e Hart (2001), na indústria de FPD, as iniciativas do setor público partiam, em boa medida, de um conhecimento insuficiente sobre a inserção e a capacidade empresarial estadunidense. Isto é, a despeito da derrocada da RCA e da localização inicialmente prevalecente das linhas produtivas de FPD no Japão, não se conhecia a contento o papel que estavam desempenhando as corporações dos EUA no emergente segmento de telas planas. As norte-americanas Corning, Applied Materials e IBM adentraram nesse ramo, calcadas em sua experiência acumulada na aplicação industrial da ciência física e na presença física em solo japonês. Suas filiais nipônicas já haviam desenvolvido capacitações organizacionais bem antes que a indústria de FPD decolasse. A primeira, a Corning, entrou nessa atividade na condição de fornecedora de materiais, tal como atua na cadeia produtiva de cinescópios para tevês e monitores de vídeo diversos. A Applied Materials o fez principalmente como produtora de equipamentos para deposição de vapor químico (CVD – chemical vapor deposition). Já a IBM, com participação primacial da IBM Japan (IBMJ), montou, em 1989, com a Toshiba uma joint venture sediada em território japonês, a DTI, para produzir LCD do tipo thin film transistor (TFT-LCD). Se, por um lado, a atuação das empresas estadunidenses no segmento de FPD tem sido contundente, incluindo a realização de atividades de P&D dentro dos EUA, por outro, não se observa equivalente contundência quanto à produção desses dispositivos dentro das fronteiras norte-americanas.

Na indústria de BEC propriamente dita, apesar da falta de atores com o peso que teve a RCA no passado, ressalte-se a presença de firmas importantes na área de áudio de alta-fidelidade e no emergente setor de videoprojetores domésticos. No aludido segmento de áudio, além da Harman International, outras empresas detêm bastante força, a exemplo da MSB Technology, Sherwood, da Sunfire, entre outras. Convém qualificar que o segmento de áudio hi-fi tende a se beneficiar da interação entre usuários e fornecedores, incluindo aquelas do mercado de áudio profissional. Este abrange equipamentos para estúdios de gravação para a indústria fonográfica; aparelhos para salas de teatro, cinemas, casas de espetáculo e sistemas para shows; e a indústria cinematográfica e de programas de TV. A dimensão da indústria de entretenimento dos EUA é superlativa, causando efeitos de

transbordamento para seus fornecedores de equipamentos de áudio. Desse modo, firmas americanas não só usufruem um mecanismo de aprendizado via interação com os aludidos usuários, como obtêm economias de escala e escopo pela diversificação do mercado final, ao atenderem tanto o segmento profissional, quanto o doméstico de maior exigência.

Quanto aos projetores de vídeo, esse segmento também se beneficia de diferentes perfis de usuário. São aparelhos cujo uso original foi mais voltado para atender às necessidades de conferências profissionais. Assim firmas estadunidenses cresceram e se firmaram no ramo, como a 3M, Boxlight, a InFocus, sem falar da Texas Instruments, que, embora não produza tais equipamentos, criou os microprocessadores com tecnologia DLP (digital light processing), gerando uma nova família de videoprojetores.

Há ainda uma produção de monta por parte das filiais de corporações européias e asiáticas estabelecidas no país, tanto em áudio, quanto em vídeo. Não se pode esquecer também que os Estados Unidos exportam para o México porção expressiva dos cinescópios usados nas linhas de montagem de aparelhos de TV instaladas em território mexicano e que a norte-americana Corning é um grande fornecedor de insumos para esses tubos.