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4.3 CRIMES DE ESTUPRO

4.3.4 A Mulher “Imbecil” (Cx 10 Proc 01D)

Este processo trata do caso de um rapaz que invadiu uma residência e tentou estuprar uma mulher de baixo déficit cognitivo. Em um relatório ao promotor Público de Caxias em 02 de abril de 1935, o delegado relata que foi recolhido à cadeia local um rapaz que tinha invadido uma casa e, por meio de violência, procurava ter relações com uma moça. O delegado dirigiu-se ao local do crime, e lá chegando, ouviu relatos da senhora Olga e de diversas pessoas que presenciaram o ocorrido.

Dona Olga informa que, na parte da frente de sua casa, funciona um mercadinho, localizado na rua Pinheiro Machado nº 1.756. Ali ela se encontrava em companhia de seu filho e, nos fundos da casa estava a sua filha, Emília, que, apesar de ter trinta e três anos, não é possuidora de suas faculdades mentais, tendo dificuldades até mesmo para se vestir (uma pessoa imbecil).

Segundo a genitora, às vinte horas, mais ou menos, ouviu alguns gritos que vinham da direção da cozinha, correu para lá e deparou-se com o acusado e sua filha, essa aos gritos de socorro. Chegou, ao mesmo instante, seu filho e mais dois ou três homens, que agarram o agressor e, posteriormente, entregaram-no à polícia.

Na delegacia, soube-se que o nome do indivíduo que invadiu a casa era Joaquim Santiago, que, segundo o relato da denúncia, forçou Emília, uma infeliz idiota, a ter cópula carnal.

Continuando com o seu relatório, o delegado destaca que o acusado, valendo de força física, quis estuprar a ofendida e que não obteve êxito devido aos gritos da vítima, os quais chamaram a atenção das pessoas que se encontravam na parte da frente da casa (mercadinho) e foram ao socorro dessa.

O delegado qualificou o réu e requereu a sua prisão preventiva, a qual foi decretada, deixou, porém, de ouvir a vítima por ser essa “imbecil”. No exame de corpo de delito, realizado no consultório do Dr. L. F onde também estava presente o delegado, H. S o perito concluiu que encontrou arranhaduras em diversas partes do corpo da vítima, como no joelho, na face, no ombro, mas que não havia lesões nas partes íntimas.

Em 02 de abril de 1935 é decretada a prisão preventiva do réu. Na audiência, que teve início por volta das dez horas do dia 02 de maio de 1935, no prédio da prefeitura, com o juiz, Dr. E. S. L. L presidindo o júri. Nos debates orais, o promotor A. B. B, fez as suas considerações e pediu a condenação do réu em grau médio, por

meio do artigo 196 e no máximo do art. 268, combinado com o art. 13, da Consolidação das Leis Penais.

Foi perguntado ao réu onde ele se encontrava no momento em que se deu o fato, Joaquim Santiago respondeu que se encontrava dentro da cozinha da ofendida, se conhece as testemunhas, disse que não. Acrescentou que saiu de um restaurante por volta das dezenove horas e que, ao passar em frente à casa referida viu um corredor que levava para os fundos e, tendo a necessidade de urinar, adentrou aquele espaço.

Após realizar suas necessidades fisiológicas, viu ao fundo um vulto de mulher e fez alguns gracejos para ela; esta mulher lhe disse alguma coisa que ele não compreendeu. A mulher foi para a cozinha, sendo seguida pelo réu, a luz estava apagada e a mulher começou a chorar.

Ele alegou que somente passou a mão na cabeça da mulher, não fez mais nada. Ao se retirar, informa que a luz da cozinha acendeu e que viu outra mulher e um homem, esse dizia que ele não iria sair dali, pois a polícia seria chamada.

Segundo o réu, houve aglomeração de várias pessoas, criando nele medo e pavor de ser linchado, e se não tivesse tomado demasiadamente vinho em um churrasco, não teria cometido tal falta, nada mais relatou.

Procurar compreender a atitude de um homem de trinta e dois anos, solteiro, em uma sociedade em que os padrões de moral e costumes eram rígidos é entender o que o levou a tentar estuprar uma mulher com déficit cognitivo significativo. Como descrito na análise do processo, optou-se por nos valermos das contribuições de Levi (2000, p. 45) “Durante a vida de cada um aparecem, ciclicamente, problemas, incertezas, escolhas, enfim, uma política de vida cotidiana cujo centro é a utilização estratégica das normas sociais.

Contextualizando essas reflexões, pondera-se: um homem, com pouca aptidão para galanteador, não participante da classe social dominante, com os padrões de preconceito e de moralidade da época, não seria fácil para esse sujeito encontrar uma mulher que responda aos seus interesses sexuais, no entanto, tais atos não se justificam.

Foram inseridas no processo, como testemunhas, a mãe da vítima, senhora Olga, viúva e com quarenta e quatro anos, a qual nada mais acrescentou de novo; o senhor João Valentim Webber, que não trouxe nenhuma novidade, e Luiz Fontana, que disse conhecer o réu há muito tempo como sendo um bom rapaz.

O uso, pelas testemunhas ou mesmo pelos advogados, de artifícios de forma oral ou escrita em defesas de réus e vítimas em processos-crime não é recente, remonta ao século XVl, como no processo do protagonista do livro de Carlo Ginzburg, “O queijo e os vermes”, quando o moleiro italiano fora processado, e, em sua defesa, foi definido como “[...] homem do bem [...]” e em “[...] conseguir outros atestados de boa conduta [...]” (GINZBURG, 2011, p. 34 e 38).

Outro personagem da trama foi beneficiado no processo por ter conseguido atestados de boa conduta, como descrito no enredo “[...] Nicola, por sua vez fora intimado pelo Santo Ofício, mas solto em seguida graças aos atestados de boa conduta assinados por dois religiosos [...]” (GINZBURG, 2011, p. 57).

Igualmente, confirma-se que há muito tempo esse artifício é muito bem-vindo junto aos processos, auxiliando, assim, muitas vezes, os desfechos diferentes do previsto. Assim, como em tempos anteriores, tem-se muitos inocentes atrás das grades e muitos culpados livres, o que neste processo-crime se comprova pela absolvição do réu.

Entender um processo é eleger a tão difícil neutralidade frente aos acontecimentos no desenrolar da análise, procurando entender a dinâmica de dois processos-crime em que Joaquim Santiago esteve envolvido, em um curto período de tempo, crimes esses de violência sexual.

No primeiro processo, com a suposta tentativa de estupro da mulher “imbecil”, que, no desfecho, o exame pericial concluiu que não houve conjunção carnal, e o processo termina com a absolvição do réu.

Por outro lado, no processo que envolve a menor Naira, embora consentido por ela por dinheiro, não se sabe se ocorreu ou não um crime de sedução. Muito esperto, o acusado se valeu da época em que viveu e dos padrões morais, familiares, expondo a menor às mais baixas esferas; os seus testemunhos de defesa, todos do sexo masculino, reforçaram a lei existente na época.

Quando acontece um crime de sedução e a intimidade, tão enfaticamente defendida na sociedade, abre brechas para a intervenção de uma esfera do domínio público como o poder judiciário, este age reforçando esta força de lei natural da família, ao exigir dos envolvidos os padrões e imagens sociais por ela difundidos (SALDANHA, 2005, p. 07).

Nos dois processos envolvendo o acusado Joaquim Santiago ocorreu que, em “A mulher imbecil”, ambos eram pertencentes à classe baixa, porém não foi confirmada a cópula carnal. Assim, nos autos não se deixa claro se houve tempo para

confirmar o ato propriamente dito. Não obstante, no caso denominado “A desonra” nos deparamos com o mesmo réu, um ano depois, envolvido, novamente, em um crime de violência sexual. Nesse caso, ambos confirmaram o fato; por um lado, ele se defende, dizendo que não foi ele quem deflorou a menor, do outro, ela afirma ter sido ele o primeiro caso efetivo, ambos são de classe econômica baixa.