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4 AS MULHERES NO SISTEMA PRISIONAL CATARINENSE E OS REFLEXOS

4.1 A MULHER NO SISTEMA PRISIONAL CATARINENSE

O Levantamento de Informações Penitenciárias - INFOPEN, criado no ano de 2004, reúne informações estatísticas do sistema penitenciário brasileiro, através de um formulário de coleta de dados preenchido pelos gestores dos estabelecimentos prisionais do país. A partir do ano de 2014, o citado Levantamento passou por uma reestruturação de sua metodologia visando a ampliação dos dados coletados (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, p. 05).

Foi por meio desse processo de reformulação metodológica que o Ministério da Justiça e Segurança Pública, através do Departamento Penitenciário Nacional, pode fornecer um diagnóstico acerca da mulher no sistema prisional, publicando, no ano de 2015, a primeira edição do INFOPEN Mulheres. Esse novo levantamento, voltado exclusivamente para o

público feminino, permitiu a elaboração de estatísticas a partir da perspectiva dos serviços penais oferecidos para a garantia de direitos das mulheres em situação de prisão, abordando temas como idade, raça e a situação de maternidade e gestação dentro dos ergástulos, dados que foram ampliados na sua segunda edição (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, pp. 06- 07).

Desta forma, diante das informações disponibilizadas pelo INFOPEN Mulheres, passará a se abordar, a seguir, o encarceramento feminino no Estado de Santa Catarina, bem como o perfil das mulheres que residem nos estabelecimentos prisionais catarinenses, com o fim de identificar, por exemplo, a natureza dos crimes cometidos por elas, eventual superlotação carcerária, o índice de maternidade entre as reclusas e o percentual de presas sem condenação.

4.1.1 Breve esboço acerca do encarceramento feminino catarinense

Como já mencionado nos capítulos anteriores, a população prisional feminina no Brasil cresceu de maneira exponencial no curso do presente século. A exemplo, no mês de junho de 2016, a população de mulheres encarcerados no país atingiu a marca de 42 mil pessoas, o que equivale a um crescimento de 656% em relação a quantidade de presas no primeiro semestre do ano de 2000 (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, p. 14).

O Estado de Santa Catarina, também no mês de junho de 2016, contava com 1.506 presas, ocupando a 9ª colocação entre os estados com a maior população carcerária feminina e a 11ª em relação a taxa de aprisionamento de mulheres, com 43,7 presas a cada 100 mil habitantes (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, pp. 16 e 18).

Dentre esse universo 1.506 mulheres privadas de liberdade em Santa Catarina, 481 presas não possuíam condenação, 432 foram sentenciadas em regime fechado, 369 foram sentenciadas em regime semiaberto, 223 mulheres foram sentenciadas em regime aberto e 1 mulher encontrava-se em tratamento ambulatorial em decorrência de medida de segurança (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, p. 20), podendo-se concluir que 31,94% das mulheres privadas de liberdade no Estado de Santa Catarina no mês de junho de 2016 não haviam sido condenadas. Ou seja, essas 481 presas poderiam, no curso de seus processos criminais, ser inocentadas, terem suas penas privativas de liberdade substituídas por restritivas de direitos ou serem condenadas ao regime aberto.

Quanto à taxa de ocupação, o INFOPEN Mulheres destaca que as unidades prisionais femininas catarinenses no mês de junho de 2016 atingiam o percentual de 207% e as unidades

mistas, que abrigam presas e presos em alas distintas de uma mesma instituição, possuíam taxa de ocupação de 153% (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, p. 35). Desta forma, conclui-se que em um espaço destinado a 100 pessoas nas unidades femininas 207 encontravam-se encarceradas, enquanto nas unidades mistas 153 estavam privadas de liberdade em um espaço para 100 presas, fato que demonstra uma superlotação carcerária no Estado acarretada pelo crescente contingente de mulheres presas e pela falta de infraestrutura para abrigá-las.

Demonstrada a situação de superlotação carcerária enfrentada pelo Estado de Santa Catarina, passará a se entender quem são as mulheres que se encontram privadas de liberdade nas unidades prisionais catarinenses, a partir dos dados disponibilizados pelo INFOPEN Mulheres no mês de junho de 2016.

4.1.2 O perfil da mulher aprisionada no Estado de Santa Catarina

O INFOPEN Mulheres começa a traçar o perfil sociodemográfico da população feminina privada de liberdade no Brasil pela faixa etária. A representação da faixa etária das mulheres privadas de liberdade em Santa Catarina será demonstrada no gráfico a seguir.

composta por mulheres jovens.28 Além disso, verifica-se que 63% encontram-se dentro de período mais fértil para gerar descendentes.

Em relação à raça/cor, em que pese 62% da população brasileira privada de liberdade ser composta por negras, em Santa Catarina, de acordo com o INFOPEN Mulheres, a maioria do contingente populacional, ou seja, 62%, é composto por mulheres classificadas pela cor/raça branca, enquanto a população negra corresponde a 38% do total de mulheres privadas de liberdade em Santa Catarina (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, pp. 40-42).

Quanto à escolaridade, constata-se que a maior parte das mulheres em junho de 2016 não haviam ingressado no ensino médio. Salta aos olhos que 55% da população feminina privada de liberdade não havia concluído o ensino fundamental, enquanto a porcentagem com a conclusão do ensino médio, levando-se em consideração quem ingressou no ensino superior, atingiu a marca de 20% (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, p. 43).

No tocante à natureza dos delitos cometidos, seguindo as estatísticas nacionais, 62% das mulheres privadas de liberdade em Santa Catarina haviam sido condenadas ou aguardavam julgamento pelo crime de tráfico de drogas. Além disso, verifica-se uma maior incidência nos crimes sem violência ou grave ameaça (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, pp. 53-54), conforme pode-se verificar no gráfico abaixo.

28 Entende-se por jovens “as pessoas com idade entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos de idade”, os termos

Ademais, é possível se verificar que 49% das mulheres eram casadas ou estavam em união estável no mês de junho de 2016. Por outro lado, 42% das mulheres eram solteiras (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, p. 45).

Outro dado importante diz respeito aos filhos. Isso porque, apesar do reconhecimento da pouca adesão dos gestores das unidades prisionais em fornecer tal informação, foi possível averiguar, com base apenas nos dados disponibilizados pelas unidades prisionais, que somente 26% da população prisional brasileira não possuía filhos (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, p. 52). Embora não haja um dado específico acerca da taxa de maternidade no Estado de Santa Catarina, o INFOPEN Mulheres destaca que, em junho de 2016, 23 pessoas privadas de liberdade eram gestantes ou lactantes (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, p. 31) e que 8 crianças, todas elas dentro da faixa etária de 0 a 6 meses, residiam com suas mães dentro das unidades prisionais (INFOPEN Mulheres, 2017, 2ª edição, p. 52).

Tomando por base os dados acima expostos, é possível traçar o perfil da mulher privada de liberdade no Estado de Santa Catarina: são mulheres, em geral, brancas, jovens ou adultas, dentro do período fértil para gerar uma prole, sem estudo, mães e que cometem crimes sem violência ou grave ameaça.

Além disso, considerando que 31,94% da população prisional feminina catarinense no mês de junho de 2016 não possuía condenação e que, como visto, a maioria eram mães, poderiam elas ter sido beneficiadas com a aplicação dos incisos IV e V do art. 318 do Código de Processo Penal, uma vez que o Estatuto da Primeira Infância já havia sido promulgado e entrado em vigor. Ao contrário, em uma rápida consulta ao sítio do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, utilizando-se como filtro “domiciliar preventiva”, foi possível identificar que, no mês de junho de 2016, todos os habeas corpus julgados que visavam a substituição da prisão preventiva pela domiciliar para as mulheres mães foram negados (SANTA CATARINA, 2016a; SANTA CATARINA, 2016b; SANTA CATARINA, 2016c; SANTA CATARINA, 2016d; SANTA CATARINA, 2016e).

Portanto, pode-se perceber que, não obstante a permissão legal para a substituição da prisão cautelar pela domiciliar, existia uma tendência, pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina, em manter mães e gestantes presas preventivamente. Como consequência, em razão da possibilidade das crianças e dos adolescentes conviverem com os pais privados de liberdade e do confinamento de crianças até 7 anos de idade com suas mães dentro dos ergástulos, o Judiciário catarinense era conivente com a institucionalização dos filhos das reclusas preventivamente, motivo pelo qual é de suma importância entender como o sistema

prisional catarinense se apresenta para recolher gestantes, mães e filhos dentro das unidades prisionais.

4.2 A INFRAESTRUTURA PRISIONAL PARA ALBERGAR GESTANTES, MÃES E