Capítulo 3. Mulheres Artistas Paraenses: narrativas, poéticas, subversões e protestos
3.1. A mulher paraense de Antonieta Santos Feio
A pintora Antonieta Santos Feio (1897-1980) é uma das grandes artistas do modernismo paraense. Estudou desenho e pintura na Escola de Belas Artes de Florença, na Itália, especializando- se em retratos. A artista foi professora de desenho e pintura no Instituto de Educação do Pará e participou de diversas exposições pelo Brasil. Inseriu-se no debate sobre a construção e representação de identidades para a nação brasileira da década de 1940. A mulher tipicamente paraense e o seu universo regional foram eternizadas na série de telas da pintora: Vendedora de Tacacá10 (1937), Vendedora de Cheiro11 (1947) e Mendiga (1951) preservadas no Acervo do Museu de Arte de Belém / MABE.
Antonieta Santos foi escolhida para este capítulo por suas obras que representam o olhar da mulher artista sobre o feminino. Entretanto, a pintora não foi a única mulher atuante profissionalmente na capital paraense, e ressalta-se a presença de outras mulheres artistas que surgiram no mesmo período de uma efervescência artística das Belas Artes em Belém. A partir da década de 1940, surgiram Salões Oficiais para expor e avaliar obras que eram produzidas na cidade. Nesse período, muitas mulheres destacaram-se pela forte presença de obras de práticas artísticas
10 Alimento muito popular no estado do Pará. O tacacá é uma iguaria da região amazônica brasileira, consiste em um
caldo extraído da mandioca, servido quente em cuia com acompanhamentos típicos da região.
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O cheiro consiste em uma combinação de cascas, paus aromáticos, raízes e diversos ingredientes que são encontrados na região amazônica. São popularmente usados para perfumar banhos, roupas, gavetas, bolsas, baús e guarda-roupas.
diversas com qualidade técnica e criatividade, sendo reconhecidas por críticos e premiadas pelos salões, dentre elas estão: Dahlia Déa, Carmen Sousa, Maria de Lourdes Acatauassú Nunes, Graciema Cruzeiro, Irene Azevedo, Alba Maranhão e Maria de Nazaré Figueiredo.
Duas telas foram escolhidas para esta pesquisa, a Vendedora de Tacacá (Fig. 19), onde a artista apresenta uma mulher paraense mestiça e vendedora de comida típica da região; a segunda tela também traz uma mulher que trabalha nas ruas, a Vendedora de Cheiro (Fig. 20), mulher negra e comerciante, representa um importante momento histórico de mudança na arte em relação à representação dos negros nas pinturas da época. São mulheres populares, trabalhadoras, tipos atemporais de vendedoras que transitam na região Norte desde o século XIX e encontradas ainda hoje nas cidades paraenses.
Figura 19. Antonieta Santos Feio: Vendedora de Tacacá, 1937. Óleo/tela, 94,6 x 118,2 cm 95/1.1/0065.
O cenário desta cena foi montado para representar o ambiente de ação da vendedora de tacacá, Num dia qualquer de trabalho, em cima de uma mesa improvisada estão os objetos regionais típicos que foram cuidadosamente divididos na disposição do quadro, como as cuias nas quais se servem o alimento, as panelas enroladas em panos que preservam a temperatura do caldo e da goma, o cesto de palha no chão que armazena o camarão, a garrafa de barro acima da mesa que deve conter água e a bacia de barro com água que limpa as cuias depois de servir o tacacá. A vendedora harmonicamente vestida de branco (a mesma cor da toalha e panos da mesa) chama a atenção pelo olhar fixo para o observador do quadro e pela luz que emana de toda a cena.
A importância desta obra para esta pesquisa refere-se ao fato de contradizer a sociedade da época em suas arcaicas afirmativas sobre a submissão feminina e a confinação obrigatória da mulher ao ambiente doméstico – ordens tanto rogadas na época. A artista nos traz à tona os aspectos regionais particulares do cotidiano mediante as questões sociais, históricas, mestiçagem na Amazônia, aspectos políticos, culturais e econômicos da região. As mulheres retratadas por Antonieta estão presentes ainda hoje na sociedade paraense, o que revela a importância histórica dessas obras para a preservação da memória feminina regional. A Vendedora de Tacacá representa a mulher paraense conquistando o seu espaço profissional na sociedade, mas é importante assinalar que esse espaço social ainda estava confinado a funções então consideradas femininas – neste caso, a culinária.
Figura 20. Antonieta Santos Feio: Vendedora de cheiro, 1947. Óleo/tela, 105,6 x 74,3 cm, 95/1.1/0067.
Fonte: Acervo do Museu de Arte de Belém, MABE, Pará.
A representação de uma mulher negra simples aparência de escrava, diferente de muitos quadros do início do século que mantinham a imagem do negro escravo, indica mudanças na sociedade paraense que vivia tempos de alforria limitada na arte que buscava a sua identidade nacional incentivada pelo movimento do modernista a partir de 1920. As roupas da vendedora de cheiro são claras e novas, os adereços que ela usa em seu cabelo, orelhas e braço indica uma preocupação com a imagem, na mão direita segura firme um cesto de palha com cheiros embalados em papel que podem representar sua única fonte de renda; o cenário de madeira envelhecida e mal pintada atrás da modelo nos remete a condição de pobreza a que muitos descendentes de negros foram relegados.
O fato de a vendedora ter sido representada como uma mulher que trabalha fora de casa, também indica mudanças na situação da imagem das negras agora independentes financeiramente,
não mais destinadas somente ao trabalho doméstico não remunerado. O cordão em seu pescoço representa a fé vivenciada pelo sincretismo religioso entre duas religiões, a católica que é representada pela imagem da crucificação de Jesus, pendurado junto com a imagem da figa que está ligada ao misticismo e às crenças africanas trazidas pelos escravos negros para o Brasil. A mistura cultural e a miscigenação brasileira são evidentes nesta tela, configurando o que para a época era considerado como a identidade nacional. Entretanto, o grande destaque desta obra é a valorização da mulher negra honestamente representada pela pintora. Tanto nesta obra, quanto na anterior, Antonieta Feio quebra com os típicos paradigmas da representação da mulher burguesa e da sensualidade estereotipada de certo gênero da pintura.