3. A QUESTÃO DO GÊNERO E A EVOLUÇÃO SOCIOECONÔMICA DA MULHER
3.2. A MULHER PORTUGUESA: ENTRE AS LIBERDADES CONQUISTADAS E
Nas últimas décadas do século XIX, após um período de grande tremor e inquietação nas finanças dos países europeus a economia equilibra-se; devido à
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expansão científico tecnológica, nascerá o “progresso” marcado por um clima de euforia e otimismo, o tempo da prosperidade.
Na economia o progresso era visível a capacidade de produção acelerou de forma impressionante e a comunicação ágil facilitou a expansão do mercado um mundial, as transações econômicas eram feitas com rapidez, o sistema econômico internacional com um grau significativo de integração dos mercados era compatível e às vezes maior do que existe hoje:
Há momentos em que o desenvolvimento está a tal ponto amadurecido em todas as áreas da economia capitalista –no terreno da tecnologia, dos mercados financeiros, do comércio, das colônias- que é preciso ocorrer uma expansão extraordinária do mercado mundial. O conjunto da produção mundial será aumentado a um nível novo é mais abrangente. Neste momento, o capital começa a entrar num período de avanço impetuoso (Hobsbawm 2007: 57).
Após longo período como “oficina do mundo”21 a Inglaterra perde sua hegemonia industrial; Alemanha e Estados Unidos tornam-se fortes concorrentes, mas está perda não abalaria a importância britânica na esfera do poder mundial (virtual e efetivo) já que sua influência nos países da América Latina, Ásia e África se mantém avassaladora.
Este período, segundo o historiador Eric Hobsbawm, é a passagem de uma crise em que as preocupações e incertezas eram imensas para uma euforia intensa e a certeza do progresso era inabalável. Os economistas do período buscaram várias explicações para este fenômeno; surgem as teorias de Kondratiev22 e
Schumpeter23 e até Marx24 precisará ser revisto - afinal nem ele previa esta reviravolta do capitalismo.
Em Portugal, a partir do século XIX também ocorreram as incerteza e crises que foram agravadas pela saída da Família Real, posteriormente às turbulências do período a Independência do Brasil, à guerra civil entre os Liberais que defendiam D.
21 A Inglaterra recebeu o título de “oficina do mundo”, devido a sua posição pioneira durante a
Primeira Revolução Industrial por volta de 1780.
22 Nicolai Dimitrievich Kondratiev (1892-1938), economista russo. Primeiro a demonstrar
estatisticamente os ciclos econômicos de 50 anos que ficaram conhecidos por ciclos de Kondratiev.
23 Joseph Alois Schumpeter (1883-1950), economista austríaco. Sua teoria sobre os ciclos
econômicos e o conceito de empreendedorismo é fundamental para a economia contemporânea.
24 Karl Heinrich Marx (1818-1883), filósofo, cientista social alemão de origem judaica, fundador do
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Pedro e os Miguelistas (absolutistas) que estavam ao lado de D. Miguel e enfim a vitória dos liberais e as suas consequências. O triunfo liberal gerou mudanças de âmbito social e econômico de forma mais lenta do que em outros países como já abordamos. O crescimento nas cidades de Lisboa e Porto foi de maior monta, mas outros concelhos também tiveram uma grande expansão. A cidade de Lisboa no final do século XIX viu as ruínas do terremoto dar lugar às avenidas e às galerias comerciais seguindo o modelo parisiense, segundo o escritor Ramalho Ortigão:
Dir-se-ia que nossos pais morreram para nós muito mias completamente do morreram para eles seus avós e os seus bisavós, levando consigo, ao desaparecerem, tudo quanto os rodeava na vida: a casa, o jardim, a rua que habitavam ( Ramos 2009: 545).
Este novo panorama levou a mudanças do comportamento feminino; na capital a vida social era mais agitada, havia uma tradição cosmopolita e o novo
modus vivendi inspirado nos valores burgueses criava uma possibilidade de um
novo olhar com relação à mulher que era anteriormente totalmente excluída de uma participação social efetiva.
As mulheres das classes populares também sofreram alterações comportamentais, devido ao crescente número de imigrações para o Brasil e suas implicações em âmbito familiar (os maridos, pais e filhos saíam do país deixando as mulheres como detentoras do poder familiar) que lhes possibilitou a emancipação gradual.
As transformações do panorama das mulheres na sociedade portuguesa aconteciam em dois campos distintos; em uma vertente há as mais abastadas socialmente reivindicando seus direitos à instrução e à participação social e em outra vertente há as mulheres no mercado de trabalho, principalmente desenvolvendo trabalhos ligados à indústria, o que possibilitava a elas remuneração.
Nas primeiras décadas do século XX a mulher portuguesa contemplava um panorama que permitia algumas incursões femininas ao universo público, as feministas publicavam artigos que externavam o desejo de participação social e educação, possibilitada por um regime liberal.
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Sob a égide da República as mulheres buscaram galgar uma projeção de seu papel na esfera pública; um novo papel começou a ser desenvolvido pelas mulheres, o de educadora em oposição aos seus papeis costumeiros na esfera do privado, esposa e mãe. Esta nova configuração mudou de alguma forma as aspirações femininas que viam no matrimônio a única forma de realização. A realização profissional começou a entrar em pauta no imaginário feminino, a busca de participação nas configurações dos projetos políticos da nação também tornava-se importante.
Entre os muitos compromissos das feministas, figurava a causa maior do pacifismo, igualmente de suma relevância a nível internacional. A Liga Portuguesa da paz presidida por Alice Pestana (co-fundadora da Sociedade Altruísta), foi inaugurada em 1899, com o objectivo de defender os princípio da independência das nações e da liberdade dos indivíduos, dentro do quadro do direito Internacional.A luta pacifista, ainda que enquadrada nas virtudes atribuídas ao sexo feminino, tornou-se uma importante bandeira de intervenção das mulheres na esfera pública, confundindo-se, por isso, com a militância feminista. Igual sinal de modernidade foi o predomínio do género feminino nas novas de “apostolado laico”(Silva apud Vaquinhas 2011: 400).
Um marco de mudanças comportamentais em relação às mulheres foi o período da Primeira Guerra Mundial; há uma “invasão” nas esferas do público motivada pela necessidade de substituição nas frentes de trabalho, já que os homens foram deslocados para as frentes de batalha e a retaguarda deveria ser mantida e em produção. Os trabalhos apenas executados por homens, são agora desempenhados também pelas mulheres; elas tornam-se responsáveis por setores que em outros momentos eram apenas permitidos para o sexo masculino.
Uma iniciativa das mulheres na Primeira Guerra Mundial foi a organização da Cruzada das Mulheres Portuguesas (CMP), criada em março de 1916 para prestar assistência material e moral para os que necessitassem e estivessem envolvidos com a guerra.
Apesar das conquistas das feministas no período de guerra, tais como as mudanças comportamentais proporcionadas pela emancipação financeira e uma certa irreverência nas atitudes, após o termino haverá um retrocesso.
Um dos grandes motivadores para este retrocesso está ligado ao sistema político salazarista, fundamentado em uma visão machista que fomenta a volta da
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mulher ao espaço privado, invocando o papel da dona de casa virtuosa e a mãe de família exemplar:
Em nome da “natureza” feminina, as mulheres viram ,desta forma,negada pelo Salazarismo a completa igualdade com os homens. A ideia de “natureza” remete para a já antiga querela da natureza contra a cultura, em que o público domina o privado, O Salazarismo permaneceu profundamente enraizado na ideia tradicional de que as mulheres se situam do lado da “natureza” e os homens, implicitamente, do lado da cultura. Desta forma, O Estado Novo manteve-se fiel às mensagens inalteravelmente repetidas, com um intervalo de quarenta anos, pela Igreja Católica, nas encíclicas
Rerum Novarum (1891) e Quadragesimo anno (1931), em que a “natureza” predispôs
as mulheres a ficarem em casa a fim de educarem os seus filhos e de se consagrarem às tarefas domésticas.
Partindo da constatação de que o homem e a mulher não possuem a mesma força física, Rerum Novarum enunciava : “Existem trabalhos menos adaptados à mulher , que a natureza destina antes aos trabalhos domésticos”. Mensagem semelhante na
Qudragesimo anno: “ É em casa antes de mais, ou na dependências da casa, e entre
as ocupações domésticas, que se encontra o trabalho das mães da família.”
A mulher foi concebida para ser mãe, foi a “natureza” que assim decidiu. O Salazarismo acrescentou que deve ser uma mãe devota à pátria e ocupar-se do “governo doméstico”. (O Salazarismo e as mulheres.Uma abordagem comparativa. Disponível em www.ics.ul.pt/static/anne_cova.html . Acesso 14.04.2013)
As restrições às “liberdades conquistadas” não foram suficientes para apagar o caminho trilhado pelas mulheres, mas o retrocesso moldou os comportamentos levando a posturas austeras que eram o pilar mestre do salazarismo.