CAPÍTULO II - O POVO WARAO: DA ALDEIA À CIDADE
2.3 OS WARAO ENQUANTO INDÍGENAS URBANOS
2.3.3 A mulher Warao no contexto de migração externa
digno, escolhem a exploração de seu corpo como um modo de resolver suas dificuldades.
Sobre esse aspecto, Lafée-Wilbert e Wilbert (2008, p. 142, tradução da autora), relatam:
É muito difícil determinar em que momento certas mulheres tomaram a prostituição como uma alternativa para conseguir recursos. O que sabemos é o que elas mesmas nos transmitiram de maneira muito confidencial. Para algumas, simplesmente, a prostituição resulta ser "um trabalho" que gera dinheiro e lhes ajuda a resolver seus problemas econômicos.
Simultaneamente, estas mulheres haviam mantido contatos sexuais desde muito jovens (13-14 anos) e, com o tempo, a transformaram em uma alternativa para obter recursos econômicos. Nesse sentido, temos copilado testemunhos sobre a prostituição exercida por mulheres e moças Warao em alguns centros urbanos do país.
Apesar do dinheiro coletado que ajuda na obtenção de bens, as mulheres que saem para pedir dinheiro são submetidas a experiências traumáticas, como a xenofobia, a violência física e roubos de seus pertences. Também há as famílias que não participam dessa empreitada, uma vez que os homens conseguiram empregos temporários nas cidades desempenhando funções que não exigem escolaridade ou documentação. Essa prática tem descaracterizado a dinâmica familiar Warao e o resultado tem sido a distorção das estruturas políticas e sociais, além da desconfiguração da família estendida (LAFÉE; WILBERT, 2001).
Sobre o processo de mudanças ocorridas nos aspectos socioeconômicos no núcleo familiar Warao, esses autores advertem que está-se presenciando o desmoronamento de uma sociedade cujas instituições, talvez ao longo de milhares de anos, baseia-se na mulher como o elo-motor de seu ambiente socioeconômico” (IBIDEM).
Os Warao não viajam sozinhos. Tanto as redes de parentesco como os grupos formados ao longo do caminho são de fundamental importância para suas estratégias de fixação e mobilidade, enquanto população indígena transeunte em busca de sustentabilidade num novo contexto.
A decisão de vir para o Brasil, muitas vezes, é tomada depois que ouvem relatos de experiências de outros Warao que já migraram. "Fatores como notícias sobre fechamento e abertura de fronteiras, bem como a intensidade da circulação de notícias sobre as condições de vida no Brasil também importam para as decisões" (TARRAGÓ, 2020, p. 129).
A entrada no Brasil é feita por transporte terrestre entre San Félix e Santa Elena de Uairén, cidade localizada na fronteira com o estado brasileiro de Roraima, onde cruzam a linha para chegar a Pacaraima (RR). De lá, viajam para Boa Vista, capital do estado (Figura 8). Essa entrada no Brasil trata de um tipo migratório peculiar, uma vez que não há relatos de deslocamentos de indígenas em situação de refúgio para o Brasil (SIMÕES et. al., 2017).
Figura 8 - O caminho percorrido pelos Warao
Fonte: www.brasildefato.com.br. Ilustração: Fernando Bertolo.
Segundo dados do ACNUR (2021), os deslocamentos Warao no Brasil, inicialmente, ocorriam de maneira similar à dinâmica utilizada na Venezuela, mantendo-se o protagonismo feminino: eram as mulheres, acompanhadas pelos filhos menores, que realizavam a primeira viagem para outra cidade. Os Warao viajavam em grupos de mulheres e crianças, todas pertencentes à mesma família extensa.
Algumas vezes, um ou dois homens as acompanhavam, mas, via de regra, eles se mantinham no local de partida, esperando que elas retornassem ou enviassem dinheiro para
que fossem ao seu encontro. O protagonismo feminino decorre do fato de que eram as mulheres, por meio do ato de pedir dinheiro, que arrecadavam doações em espécie ou em gêneros alimentícios, necessárias à subsistência do grupo familiar e também ao financiamento das viagens.
Ao chegarem na cidade de Boa Vista, no estado de Roraima, o ponto de encontro dos Warao foi estabelecido em dois locais: a Rodoviária Internacional José de Oliveira, na Feira do Passarão; e uma feira de funcionamento diário, no Bairro Caimbé, local que recebeu boa parte dos venezuelanos que chegaram à Boa Vista. Lá, houve a divisão entre dois grupos: os que foram encaminhados para abrigos mantidos pelas autoridades e instituições religiosas e os que, por diversos motivos, ficaram morando nas ruas, em barracas improvisadas (SIMÕES, et. al. 2017).
Nesse processo de mudança de país, as famílias Warao permaneceram unidas e a dinâmica familiar permaneceu alterada, cabendo à mulher continuar sua prática de pedir dinheiro nas ruas enquanto os homens cuidavam dos filhos e dos pertences (Figura 9). A
“profissão” era a mesma. O que mudava era a língua, assim como a percepção das pessoas sobre ela – mulher imigrante, indígena, pedinte.
Figura 9 - Mulher Warao pede esmolas com criança no colo em Boa Vista (RR)
Fonte: Site Folha BV (Foto: Rodrigo Sales) - 2016.
Ao viver um certo período nas cidades de Roraima, centenas de Warao decidiram partir. De acordo com Rosa (2020), dentre as razões alegadas para deixarem Boa Vista, destaca-se: o desestímulo às doações de dinheiro aos indígenas; as condições de abrigo, principalmente em virtude dos conflitos com venezuelanos não indígenas e da alimentação
insuficiente e pouco diversificada; dificuldade em conseguir trabalho e concorrência para a venda de artesanato devido ao alto número de indígenas na cidade.
No caso Warao, é a mulher quem determina o novo local de migração dos grupos em trânsito. Segundo Silva e Torelli (2018), as mulheres Warao têm desempenhado papel fundamental como agentes sociais da promoção do fluxo migratório, assumindo funções econômicas para sustentar os coletivos. São elas que costumam fazer o deslocamento inicial antes dos demais das suas famílias, arrecadando fundos por meio da venda de artesanato e, primordialmente, da chamada coleta de dinheiro:
Este deslocamento coletivo de mulheres, geralmente, tem sido realizado com o acompanhamento de alguns homens Warao da família extensa ou do grupo, que se sobressaem enquanto lideranças ao longo do fluxo migratório e viajam na companhia de grupos numerosos de mulheres. Foi assim de Boa Vista para Manaus e também de Manaus para Santarém e Belém. É comum maridos, pais e irmãos ficarem marcando posição enquanto suas mulheres, irmãs e filhas desbravam novas oportunidades e fontes de renda (SILVA;
TORELLI, 2018, p. 9).
Após alguns meses, muitos desses indivíduos decidiram continuar sua peregrinação até Manaus, chegando à capital amazonense em grande quantidade a partir de dezembro de 2016, "através de Pacaraima - município de Roraima fronteiriço à Venezuela - e Boa Vista, capital do estado. Muitos cruzam a fronteira a pé" (RIBEIRO, 2021, p. 32).