ANEXO I – Tabela 09 Monte Alegre de Sergipe: Estrutura Fundiária por Tipo de
ESPAÇO E TERRITÓRIO NO DEBATE GEOGRÁFICO
1.2 Um Breve Debate sobre Abordagem do Território no Pensamento Geográfico
1.2.2 A Multidimensionalidade na Abordagem Relacional do Território
Antes de enfocar o debate contemporâneo acerca da multidimensionalidade na abordagem territorial interessa aqui enfatizar, como o fez Paul Boino (2010 a, b, c) que a análise dialética de Reclus, esboçava uma abordagem multidimensional do território, se antecipando em sete décadas ao debate contemporâneo nas várias ciências sociais e humanas – sociologia, etnologia, psicologia e geografia etc, sobre as relações entre sociedade (ou o indivíduo) e o espaço, e, em quase meio século em relação ao surgimento da Geografia Crítica marxista72. Reclus (2010a) mencionava aspectos objetivos e subjetivos em sua análise territorial, coerente com sua concepção de espaço. Na abordagem objetiva do território ressaltava a relação de determinada população com seu território ocupado objetivamente como habitat ou produção e na abordagem subjetiva do território, o sentimento de pertença do indivíduo ou grupo social em relação a um território, ou seja, a territorialidade, exemplificada pelo sentimento patriótico do indivíduo com relação ao território nacional.
Lefebvre inaugura o debate sobre a multidimensionalidade do território retomando da análise marxista os conceitos de infra e superestrutura da sociedade:
[...] utilizar conceitos não limitados a um campo específico de experiência, mas comuns à ciência social em geral. É o que tentamos efetuar neste momento, ao empreendermos a análise do consumo coletivo, a partir do modo de produção, percorrendo, sucessivamente, os problemas teóricos levantados no estudo da infraestrutura do modo de produção capitalista e em seguida na superestrutura. Como boa lógica tal passo é autosuficiente. O único problema, e é o essencial, é reatar este desenvolvimento conceitual a práticas históricas concretas, de modo a estabelecer leis sociais
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Nesta Tese utiliza-se o conceito marxiano de superestrutura e de elementos superestruturais: jurídico-político e ideológico.
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A única referência a Pierre George, anteriormente mencionado como pioneiro da Geografia marxista conforme Paul Boino (2010) desde os anos 1950 é que ele tratou o tema do território e da territorialidade de forma semelhante a La Blache, como gênero de vida. Saquet (2007) destacou na concepção da escola regional francesa lablacheana a territorialidade ativa, a dimensão cultural e identitária, que levantou a grande diversidade cultural da humanidade e das paisagens, retomada na atualidade pela corrente humanista e cultural renovada.
que deem conta dos fenômenos objetivados, ultrapassando as construções puramente formais (LEFEBVRE, 2008, p.5).
Vários autores retomam a ideia de que o território como espaço social, inclui o espaço vivido, incorporando atos sociais, de sujeitos ao mesmo tempo coletivos e individuais, a prática espacial e o imaginário, o espaço mental, certas representações (simbólicas) dessas interferências das relações sociais de produção- reprodução. Dessa forma o espaço social corresponde ao espaço da representação: construído, produzido, projetado, elaborado, vivido (LEFEBVRE, 2008), isto é o espaço existente atravessado pelas representações, nas quais ele distingue: as representações do espaço (conhecimentos, signos, códigos, relações formais) que conformam o espaço concebido (que mistura ideologia e conhecimento elaborados por especialistas/tecnocratas, dominante do espaço vivido; e os espaços de representação, ou os espaços percebidos, isto é, os espaços naturais e sociais práticos, produzidos, apropriados, vividos por um indivíduo ou grupo social a partir do emprego do tempo nos lugares relacionados com as atividades cotidianas, e, ao mesmo tempo simbólicos, porque carregados das referidas representações73 (simbolismos, arte, subterrâneos da vida social,religião).74
Em síntese, o espaço da prática social é aquele que fenômenos sensíveis ocupam sem excluir o imaginário, os projetos e projeções, os símbolos, as utopias75. A prática e a teoria da vida social se desenvolvem também no espaço. No discurso cotidiano surgem diversos espaços que reduzem a escala76 local ao micro: a esquina da rua, da praça, do mercado, do centro comercial ou cultural, de um lugar
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De Lefebvre, Haesbaert (2002) resgata o conceito de espaço produzido como resultado do trabalho humano, como produto sócio-espacial, de relações concretas e simbólicas (potencializando representações sociais e símbolos) em favor de interesses econômicos (acumulação) e políticos (controle), nos discursos cotidianos dos diversos indivíduos ou de grupos, supervalorizando a dimensão ideológica ou cultural.
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Capacidade prática da sociedade de dispor de lugares religiosos (rituais) e políticos; povoados de significante e significado. Uma realidade superior prático - social e espacial se vive antes de se conceber (LEFEBVRE, 2006).
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A “abordagem político-disciplinar e simbólica” do espaço geográfico e do território também afirma conciliar os aspectos objetivos e subjetivos, num diálogo cada vez mais transdisciplinar da geografia com outras ciências sociais. O território é compreendido enquanto mediação espacial do poder que resulta da “[...] interação diferenciada entre as múltiplas dimensões desse poder desde sua natureza mais estritamente política até seu caráter mais propriamente simbólico, passando pelas relações dentro do chamado poder econômico, indissociáveis da esfera jurídico-política”. As redes implantadas na modernidade são compreendidas no âmbito da territorialidade, isto é, vinculadas a identidades culturais, ao sentimento de pertencimento (HAESBAERT, 2004, p.93).
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Os problemas dos geógrafos com a grande variação do tamanho dos fenômenos (objetos de estudo) e dos limites impostos ao conceito de escala na geografia, por sua analogia com a cartografia, é tratado por Castro (2005), que defende que a escala seja entendida como uma estratégia de aproximação do real.
público, um cômodo num apartamento etc. Conjuntamente, ou seja, sem isolá-los, descrevem um espaço social, na medida em que “[...] correspondem a um uso desse espaço, portanto a uma prática espacial da qual elas dizem e compõem” (LEFEBVRE, 2006, p.20)77.
Na década de 1970, conforme Saquet (2007),o debate internacional sobre o território e a territorialidade estava consolidado e abrangente. Porém a qualificação de estudos sobre essas categorias no Brasil, só ocorreram na década de noventa, tendo como marco a divulgação da obra de Raffestin (1993) como a mais expressiva concepção na abordagem econômica e política, sobre a materialidade do território e a imaterialidade das sensações e representações. A análise de Raffestin78 da dimensão imaterial do território (informação e conhecimento) como um “trunfo” é retomada por vários geógrafos críticos: Bertha Becker (divulgadora da obra de Raffestin) e Manuel Correia de Andrade valorizam a territorialidade, sendo que para a autora corresponde à face vivida do poder e do território; e para o autor a elementos do território nacional (objetos, pessoas, ideologia e gestão; recursos como o povo) e ao processo subjetivo de conscientização da população de fazer parte de um território, de integrar-se em um Estado (sentimento de pertencimento ao Estado-Nação, nacionalidade), de forma semelhante à Reclus e Badie. Otávio Ianni também concebeu o território como material e imaterial.
No debate contemporâneo a partir da década de 1990 representantes das duas correntes do movimento de renovação do pensamento geográfico fazem acusações mútuas com relação ao caráter unidimensional de suas análises territoriais, como Fernandes (2005) e Haesbaert (2002)79.
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O espaço tem sido associado, por autores das duas correntes geográficas em análise, a todas as escalas - do macro à micro: global, continental, nacional, regional, da cidade, do bairro, da rua, da casa, ou de um cômodo da mesma, como foram mencionados tanto pelo geógrafo crítico Fernandes (2005), quanto pelo geógrafo humanista e culturalista Haesbaert (2002), que também considera o próprio corpo como um território.
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O próprio Raffestin, segundo Saquet (2007) denominou sua abordagem como estrutural- construtivista, pensada a partir de argumentações de Jean Piaget.
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A Geografia Crítica é acusada de ser unidimensional, especialmente o marxismo mais ortodoxo (predominante na década de 1980) “[...] dos geógrafos engajados em torno de teorias universalizantes e simplificadoras, quase sempre, mas ainda assim dotadas de poder explicativo [...] a tradicional abordagem da organização econômica, produzindo sua divisão territorial do trabalho [...] é preciso reconhecer que o espaço sobrepõe à função produtiva, e às vezes de modo ainda mais enfático, uma função político-disciplinar e simbólica” ausente ou relegada a segundo plano nessas análises, com exceção de Lefebvre; e propõe a superação da dicotomia entre sensibilidade e razão, experiência e representação (HAESBAERT, 2002, p. 09-10 e 14).
Fernandes (2005) questiona o fato de muitos geógrafos e cientistas sociais utilizarem o conceito de território como uma dimensão das relações sociais; isto é, tratarem o espaço geográfico somente como espaço político ou econômico ou cultural, de forma unidimensional. Para ele a Geografia Crítica toma como ponto de partida a análise da dinâmica múltipla do espaço social. Para que se torne compreensível é necessário que se defina o espaço do qual se está falando, levantando teoricamente as qualidades desse espaço, em todas as dimensões que o compõem. A materialização da existência humana conforma o espaço social, formado por espaços materiais resultantes das relações homem-natureza e homem – homem por meio do trabalho, por meio das quais as pessoas produzem espaços no movimento da vida, da natureza e da artificialidade e produção de conhecimento e são frutos dessa multidimensionalidade. Mas, os sujeitos sociais também buscam materializar no espaço um modo de existir, uma identidade, construindo territórios imateriais (políticos, religiosos, culturais, espaços mentais, de pensamento, espaços de conhecimento, um paradigma80, ciberespaços/cibernéticos etc).
A mobilidade dos territórios imateriais sobre o espaço geográfico por meio da intencionalidade determina a construção de territórios concretos. Estes possuem o sentido de “trunfo” que Raffestin (1993) defendeu para o conceito de território. Sem a produção de espaços e de territórios o conhecimento como relação social pode ser subordinado por outros conhecimentos, relações sociais, espaços e territórios. (FERNANDES, 2005, p.4).
Retomando a definição de Santos do território como totalidade, Fernandes considera que, mesmo constituindo-se em frações de outros espaços materiais ou imateriais, o território concreto é multidimencional, é, espaço político, econômico e cultural, portanto, só é compreendido em todas as dimensões que o compõem:
[...] é importante lembrar que o território é um espaço geográfico assim como a região e o lugar e possui as qualidades composicionais e completivas dos espaços. A partir desse principio é essencial enfatizar que o território imaterial é também um espaço político, abstrato. Sua configuração como território refere-se às dimensões de poder e controle social que lhes são inerentes. (FERNANDES, 2005, p.3).
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Para Fernandes (2005) o conhecimento é um importante tipo de território, por isso para a construção de leituras da realidade é fundamental criar métodos de análise que são espaços mentais onde os pensamentos são elaborados; para um uso não servil dos territórios dos paradigmas é necessário utilizar-se a propriedade do método.
Marcelo Souza (2005) também centra sua abordagem na dimensão política do território, como um campo de forças, relações de poder espacialmente delimitado, a partir de uma compreensão multidimensional das relações de poder, isto é, o território significa a materialidade que sustenta a vida, determina as práticas espaciais e processos sociais que envolvem o imaginário, identitarismos (territorialidades). E a partir de Souza, bem como Raffestin e Corrêa, Saquet (2007) teoriza sobre a (i)materialidade do território a partir da noção de espaço construído socialmente (relação espaço-tempo) tanto objetiva quanto subjetivamente destaca a produção do território sob as relações sociedade-natureza, condição para a reprodução social; campo de forças econômicas – políticas – culturais enquanto relações sócioespaciais historicamente determinadas e a abordagem territorial como um caminho para se elaborar e atuar em projetos de desenvolvimento econômico local (SAQUET, 2007, p.126 e 127) 81.
Diferentemente de outros geógrafos críticos acima mencionados Ariovaldo Oliveira (1991) não aborda o território a partir dos conceitos de materialidade e imaterialidade, realçando a abordagem conceitual marxista clássica do modo de produção, que articula as dimensões do processo produtivo em sua integralidade (infraestrutura)82, com as mediações supraestruturais, destacando as mediações políticas (a função de regulação do Estado); como também as mediações ideológicas e simbólicas.
Nesta Tese, considera-se necessário relembrar que a análise marxiana- engelsiana constituía justamente a “crítica da economia política” (liberal clássica) por considerar que seu objeto de estudo não eram as forças produtivas e as relações técnicas de produção, mas “tratava-se de estudar as relações sociais”, as relações sociais de produção em face do desenvolvimento das forças produtivas na sociedade entendida como Modo de Produção (infraestrutura e superestrutura).
Todas as concepções da Geografia Crítica contribuem para a abordagem do território nesta Tese, contudo persegue-se a coerência com o método, filtrando tais
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Saquet (2007) destaca as análises de Deleuze e Guattari sobre as novas territorialidades (i)materiais, nas quais há fluxos, conexões, articulações, codificação e decodificação, poder. As territorialidades são culturais (folclóricas), políticas (do Estado, de partidos e de bairros) e econômicas (centradas na criação e reprodução do capitalismo).
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È importante observar que em Oliveira (2002), aparece a totalidade concreta do processo de produção/distribuição/circulação/consumo que se dá ao nível da infraestrutura econômico-social, ou seja, no âmbito da sociedade civil ou esfera dos interesses materiais, definindo a partir da posição objetiva das classes (classe em si) definida por sua relação com a apropriação/propriedade dos meios de produção, dentre eles a terra.
contribuições teórico-conceituais; destacando-se esse último autor pelo suporte teórico-metodológico marxista ao tratamento analítico dos processos empíricos em tela.
SEÇÃO 2
ESPACIALIZAÇÃO/TERRITORIALIZAÇÃO DAS CLASSES SOCIAIS E O PAPEL