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Para a teoria da multimodalidade, o texto multimodal é aquele cujo significado se realiza por mais de um código (FERRAZ, 2008). Detendo-se em tal perspectiva o texto chargístico encaixa nessa teoria por nele estarem reproduzidas as linguagens verbal e não verbal. Em relação à produção chargística, Marcuschi (2008) adota a perspectiva de que em uma sequência de imagens, em que elementos linguísticos e não linguísticos interagem para produzir os efeitos desejados, joga-se com aspectos referenciais e com conhecimentos prévios de seu interlocutor.

Absorver as múltiplas linguagens do mundo moderno exige preparação, mas não é algo impossível de se realizar, pois a capacidade do homem em articular conhecimentos e absorver novas formas de mensagens é que o leva a uma interpretação plausível, além de desenvolver a

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sua capacidade de organizar o pensamento, de aprofundar o seu conhecimento, e com isso transmitir ideias, informações e opiniões.

Como a interação entre os indivíduos e o meio social é mediada pela linguagem, considerando-se que nela encontram-se inúmeras formas e realizações, é que, em dias atuais, esta multiplicidade de linguagens pode ser percebida atentando-se para as diversas maneiras

de apresentação de um texto. Dessa forma, como a linguagem do mundo atual privilegia

modalidades diferentes da escrita, a multimodalidade nesta pesquisa se torna apropriada. Pois um texto, no qual predomina uma única linguagem, não atende mais às novas necessidades da sociedade atual, que, na visão de Ferraz (2008, p. 3), “um texto pede maior quantidade de informação em frases de tamanho reduzido”.

Em relação às linguagens que perpassam a interação entre os indivíduos remete-se à língua originada da fala e manifestada pelos canais sonoro da fala, gráfico da escrita, visual da aparência, dos gestos, do olhar, do sorriso, da postura, da imagem, da cor, entre outros. Assim, têm-se as linguagens verbal e não verbal que se complementam por meio da linguagem dos quadrinhos (RAMOS, 2010).

Como a charge é um gênero multimodal e pertence ao gênero dos quadrinhos há, segundo Ramos (2010, p. 74), também representação visual dos “elementos paralinguísticos da conversação, nome dado aos aspectos não verbais presentes no ambiente em que a fala é produzida. Os signos visuais permitem que o leitor observe os gestos e as expressões do corpo dos personagens”.

Nesta pesquisa, como o gênero tratado não está restrito somente ao uso da linguagem verbal, observa-se a necessidade de analisar a interação dessas linguagens para se apreender os assuntos que o perpassam. Além de buscar conjugar e dar à devida importância às diversas linguagens, como também objetiva dar sentido a sua produção.

Na charge, como as estratégias de representação da oralidade simulam a estrutura de uma conversa natural, os balões “seriam uma representação dos turnos conversacionais”, (RAMOS, 2010, p. 63), a fala representada pela linguagem verbal e a imagem representada pelo elemento paralinguístico.

Dessa forma, a linguagem é considerada como um ato de comunicação, por ser a capacidade humana de articular significados, promovendo uma ação individual na interpretação, dando

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sentido à charge que, segundo Marcuschi (2008, p. 95), possui vários aspectos curiosos como não ter “orações sequenciadas”, não se restringir “apenas ao uso da linguagem articulada” e servir-se “de um sistema semiótico diferente do que o linguístico”, portanto, “trata-se de um gênero multimodal”.

Assim, como o texto multimodal é composto pelas linguagens verbal e não verbal, observa-se a necessidade de se estudar a interação dessas linguagens, pois cada vez mais os textos multimodais são apresentados à sociedade. Muito se sabe sobre o processamento de textos verbais, mas sobre a leitura, por exemplo, de uma charge - que abrange as características de um texto multimodal -, é algo que a cada dia está sendo estudada e interpretada.

Partindo dessa premissa, tem-se na elaboração do texto chargístico múltiplas informações condensadas. Nesse sentido, na elaboração de seu texto não entram somente fenômenos estritamente linguísticos. Apesar de as estratégias que envolvem a elaboração de um texto serem relevantes, para Marcuschi (2008, p. 94) “um texto só se completa com a participação do seu leitor/ouvinte”.

Reportando-se novamente a Marcuschi (2008, p. 94) que diz que “um texto é uma proposta de sentido e ele só se completa com a participação do seu leitor/ouvinte”, cabendo a esse leitor compreender/interpretar o verbal, e o não verbal com o objetivo de uma apreensão que vai além do superficial, lendo nas entrelinhas. Essa leitura é possível por meio dos conhecimentos de mundo acumulados no dia a dia desse leitor, sabendo dos fatos sociais que o cercam.

A linguagem utilizada no texto chargístico é sintetizada, apresentando-se por meio da combinação de imagens com pouco texto escrito. No caso das charges que se utiliza somente a linguagem não verbal, percebe-se com clareza que nesse texto há unidade de produção de linguagem situada, acabada e autossuficiente, do ponto de vista da ação que produz uma comunicação efetiva entre os interlocutores.

Dessa forma, a linguagem é considerada como um ato de comunicação, por ser a capacidade humana de articular significados, promovendo uma ação individual na interpretação, dando sentido à charge que, segundo Marcuschi (2008, p. 95), possui vários aspectos curiosos como não ter “orações sequenciadas”, não se restringir “apenas ao uso da linguagem articulada” e servir-se “de um sistema semiótico diferente do que o linguístico”, portanto, “trata-se de um gênero multimodal”.

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Neste trabalho, como se escolheu abordar o texto chargístico, em que há a combinação das linguagens verbal e não verbal no seu contexto de uso, será também necessário considerar a maneira como a linguagem não verbal provoca significação. Por ser esse gênero composto também de imagem que remete a algo referente a um momento sócio-histórico, provocando interpretações, é que será pertinente trabalhar com base na visão de Joly (2010, p.29), que constata que “um signo só é ‘signo’ se ‘exprimir idéias’ e se provocar na mente daquele ou daqueles que o percebem uma atitude interpretativa”. Partindo dessa perspectiva, pode-se afirmar que tudo pode ser signo, uma vez que, ao sermos seres socializados, aprendemos a interpretar o mundo ao nosso redor seja ele natural, seja cultural.

Em decorrência da imagem chargística, salienta-se que, neste trabalho, não se almeja discorrer sobre as origens da semiótica, entretanto, são necessários alguns apontamentos, especialmente para melhor se compreender o que é uma imagem, ou “o que ‘diz’ uma imagem e, sobretudo, como o diz”, segundo Joly (2010, p.32). Para tanto, a imagem é observada “sob o ângulo da significação e não, por exemplo, da emoção ou do prazer estético” (JOLY, 2010, p.28).

É nesse aspecto que se pretende trabalhar o sentido de imagem nesta pesquisa, porque o corpus aqui explorado se refere às charges veiculadas num importante jornal capixaba durante o período de campanha política. No geral, pode-se dizer que as charges “são consideradas prevalentemente de cunho político” (LOPES, 2008, p.43). Isso implica afirmar que o enfoque dessas charges englobam, acima de tudo, aspectos que estão direta ou indiretamente atrelados a um profundo teor de reflexão político-social, como a atitude do eleitor com relação aos candidatos. O chargista procura despertar no eleitor que a responsabilidade está com ele na escolha do político, por estar em suas mãos o poder dessa escolha – o voto. Dessa maneira, além de mostrar a fórmula de se optar pelo melhor candidato, de certa forma também está direcionando o eleitor para a questão social, pois depende de políticos responsáveis e atuantes a implementação de políticas públicas para amenizar as diferenças sociais. Assim, espera-se que em parte se solucione a questão da violência que tanto aflige a sociedade.

Joly (2010), ao discorrer sobre a heterogeneidade da imagem, auxilia a enquadrá-la no conceito de imagem chargística, mesmo que a charge seja constituída de linguagem verbal- icônica. Dessa forma,

o primeiro princípio essencial é provavelmente, a nosso ver, que o que se chama “imagem” é heterogêneo. Isto é, reúne e coordena dentro de um quadro (ou limite) diferentes categorias de signos: “imagens” no sentido teórico do termo (signos icônicos, analógicos), mas também signos plásticos

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(cores, formas, composição interna, textura) e a maior parte do tempo também signos linguísticos (linguagem verbal). É sua relação, sua interação, que produz o sentido que aprendemos a decifrar mais ou menos conscientemente e que uma observação mais sistemática vai ajudar a compreender melhor (JOLY, 2010, p. 38).

Para esta autora, a imagem é percebida como representação, implicando dizer que não há regras para a sua construção. A autora assevera que “se essas representações são compreendidas por outras pessoas além das que as fabricam, é porque existe entre elas um mínimo de convenção sociocultural” (JOLY, 2010, p.40).

Nesse ponto, ao tratar da mensagem linguística, concorda-se que ela seja determinante na interpretação da imagem em seu conjunto, porque essa poderia produzir muitas significações diferentes que a mensagem linguística canalizaria. Com isso, Joly (2010, p. 109) conclui que a imagem é polissêmica “porque veicula grande número de informações, como qualquer enunciado um pouco longo”. Quanto à interpretação da imagem, a autora afirma que

ela pode se orientar diferentemente segundo esteja ou não em relação com uma mensagem linguística e segundo a maneira como essa mensagem, se é que há mensagem linguística, corresponde ou não à expectativa do espectador (JOLY, 2010, p. 109).

De acordo com Roland Barthes (apud JOLY, 2010, p. 109, 110), o texto acoplado à imagem tem uma função de ancoragem ou de revezamento. Ancoragem quando o texto interage com a imagem, indicando um “nível correto de leitura”. Revezamento quando imagem e palavras se tornam elementos complementares, assumindo o texto a função de enunciar aquilo que a imagem dificilmente conseguiria expor. A partir da problemática da interação e da complementaridade, sempre com base na teoria de Barthes, Joly reconhece a especificidade de cada linguagem – a da imagem e a das palavras – mostrando, ao mesmo tempo, que elas se complementam, que uma precisa da outra para funcionar, para ser eficaz. O que corresponde dizer que “a complementaridade das imagens e das palavras também reside no fato de que se alimentam umas das outras” (JOLY, 2010, p.121).

A charge, conforme definiu Lopes (2008), é um texto sincrético que compartilha duas linguagens, a imagética e a textual. Explicitada dessa forma, a charge ganha nova projeção, enquadrando-se perfeitamente no conceito de complementaridade, uma vez que a significação só se estabelece quando há a inter-relação entre a imagem e o texto. Assim, todo significado de sentido que a compõe precisa dessa complementaridade para poder construir o seu

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processo de textualização. A charge, portanto, corresponde a um texto que se constrói mediante a articulação da linguagem sincrética num mecanismo coesivo e de inferência, podendo ser sintetizada num único quadro. Ramos (2010, p. 149) trata, nesse caso, que “o antes e o depois da narrativa ficam condensados no mesmo quadrinho”, chamando-o de recurso de redução42.

Sobretudo, o que se analisa nesta pesquisa não é propriamente o humor construído a partir do que é dito, mas o que se apreende de tal artifício para perceber se o que está sendo dito e mostrado numa charge pertence ao período de campanha eleitoral. Dá-se atenção a todos os aspectos que envolvem a elaboração desse gênero multimodal, porém sem aprofundar na questão da imagem, buscando em cada uma delas apenas o tópico abordado pelo artista. Para isso é preciso buscar uma contextualização.

42 Grifo de Ramos (2010).

Capítulo III

Explorando o Corpus de análise

3. Natureza do corpus e método de análise

O conjunto de charges escolhido para análise foi publicado no jornal A Gazeta, entre março e outubro de 2006. O recorte temporal demarca, especificamente, o período de campanha eleitoral, evento que mobilizou grande atenção do criador das charges, que retratou várias polêmicas e episódios relevantes acerca dessa disputa. A composição do corpus será analisada, portanto, de modo a descrever a organização tópica através das estratégias que o chargista Amarildo usou para respeitar um quadro sequencial que varia tematicamente, ora dando enfoque ao contexto local, ora aos acontecimentos relativos ao contexto nacional e internacional.

A etapa eleitoral do ano de 2006 foi selecionada dentre campanhas políticas anteriores, em decorrência da particularidade no Espírito Santo, pois, no primeiro momento, pode-se citar a relevância adquirida pelo Estado, nesse momento, no âmbito do cenário nacional, por conta do forte incremento no setor econômico, providenciado pelo incentivo à instalação de empresas e indústrias de grande porte na região, além do crescente processo de urbanização que atingiu suas principais cidades (BITTENCOURT, 2006). Tal condição, de caráter econômico-social, tem colaborado para a progressiva visibilidade espírito-santense.

Outra explicação que se pretende acrescer a justificativa da pesquisa diz respeito aos motivos que levaram a escolha do suporte43, centrado na mídia impressa A Gazeta. No período de campanha política, o chargista tratou o tema da eleição publicando uma sequência de charges com diferentes abordagens sobre esse assunto e outros que fizeram parte do cenário estadual, nacional e internacional.

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A outra particularidade que caracterizou as eleições ocorridas, em 2006, reside na conjuntura da primeira reeleição instituída, no Espírito Santo, para governador. Até então, todos os mandatos, desde a instauração da República, quando os Presidentes de Província foram substituídos pelos Presidentes de Estado, haviam sofrido sucessão sem repetição imediata de liderança, com exceção do período em que a administração estadual ficou sob a responsabilidade dos Interventores e das Juntas Governativas, à época de Getúlio Vargas na presidência federal. Findada esta etapa, retornaram aos palcos políticos os eletivos Governadores do Estado que, desde 1947, mantiveram-se enquadrados no modelo democrático brasileiro, que não permitia a extensão de mandatos.

No entanto, a partir de uma emenda constitucional aprovada em 1997, a reeleição tornou-se uma possibilidade consentida por lei. A delimitação cronológica desta pesquisa é sustentada, principalmente, por essas duas especificidades, que terminam por vincular a sua temporalidade às edições do jornal A Gazeta, publicadas no intervalo de março de 2006 a outubro do mesmo ano, quando as atividades publicitárias e os debates de campanha foram encerrados.

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