Capítulo VII. A organização categorial-sequencial da fala-em-interação no Roda
I.3. A mutualidade em um processo comunicacional
Segundo Linnel (1995, pág.179), quando se fala em mutualidade em um processo comunicacional, geralmente o que se referencia são as suposições relevantes e os saberes de fundo sobre a realidade e as premissas para comunicação que são tidas como mutuamente conhecidas pelos interlocutores.
Como vimos, na perspectiva epistemológica, todos esses saberes mútuos dos participantes de um processo comunicacional serão definidos apenas e tão somente por uma suposta objetividade da realidade e de uma língua comum. A mutualidade numa interação seria, desse modo, advinda dos saberes comuns sobre o mundo
17 objetivo e sobre um código, também objetivo, que, por definição, seriam independentes das situações enunciativas.
Já numa concepção praxiológica da comunicação, a mutualidade se daria não pelos saberes comuns sobre um mundo objetivo mas por saberes sobre um mundo intersubjetivo, criado a partir de situações enunciativas concretas. Admitindo a validade dessa concepção, a questão que se coloca é saber como os participantes de um processo comunicacional alcançariam esses saberes mútuos sobre um mundo intersubjetivo construído, localmente, numa situação enunciativa. Se, a partir de um ponto de vista epistemológico, a mutualidade seria oriunda dos saberes de senso comum sobre uma suposta objetividade da realidade, como alcançar a mutualidade quando se concebe a realidade como situada e intersubjetivamente construída e não aprioristicamente mútua?
Pelo ponto de vista praxiológico, mesmo que os participantes do processo comunicacional possam apresentar saberes de senso comum sobre a dimensão objetiva da realidade (que, nesta concepção, não é sua única dimensão), e uma mesma língua, eles dependerão ainda de uma outra esfera de mutualização de saberes, que é negligenciada pela concepção epistemológica: os saberes relevantes sobre as situações enunciativas que instauram. A realidade intersubjetiva, advinda de uma interação concreta, só será evidenciada através das condições de enunciação mutuamente compartilhadas pelos sujeitos participantes da interação. Alcançar a mutualidade comunicacional, a partir de um ponto de vista praxiológico, é tornar mútua a própria situação enunciativa que, como vimos, para essa concepção não é objetiva. Mas como se dá esse processo?
As situações enunciativas – ou condições de enunciação ou, simplesmente, contexto da enunciação – são realizadas nas situações sociais. Uma situação social, de acordo com Goffman, “é um ambiente que proporciona possibilidades mútuas de monitoramento” (2013a, pág.17, grifo nosso). Numa perspectiva epistemológica, considerando o caráter de objetividade que ali se dá para a realidade, as possibilidades mútuas de monitoramento previstas por uma situação social seriam também objetivas e nunca de ordem intersubjetiva. Se tomariam os atributos objetivos desta situação social e, ali, nessa realidade aprioristicamente mútua, os participantes operariam o monitoramento que fazem uns dos outros e do mundo
18 circundante. Em outras palavras, na concepção epistemológica da comunicação, as próprias situações sociais seriam emergências da objetividade da realidade. Consequentemente, as condições de enunciação que se estabeleceriam a partir de uma situação social, também o seriam – ou seja, os contextos enunciativos seriam encarados como sendo objetivos.
Na concepção praxiológica, contudo, uma situação social não é algo dado a priori. Será apenas a partir da definição de focos de atenção mútuos entre participantes de uma interação, com sua autonomia e seus propósitos locais, que a situação social irá emergir e evidenciar suas condições de enunciação – se não independentemente dos atributos objetivos dos participantes, do mundo e do ambiente mutuamente perceptível no início desse encontro, pelo menos na dependência dessas informações objetivas em conjunto com as seleções locais, subjetivas e intersubjetivas, que os participantes operarão sobre elas.
Não bastaria, portanto, que se analisasse apenas a dimensão objetiva das situações sociais para que pudéssemos definir as condições de enunciação ali presentes – e, consequentemente, os saberes ali relevantes – tal como parece ser uma recorrência nas pesquisas que encaram a comunicação a partir de um ponto de vista epistemológico. Como critica Goffman,
Atualmente lida-se com a ideia de situação social da maneira mais inconsequente que há. Por exemplo, se alguém está estudando a linguagem da deferência, então as situações sociais aparecem como ocasiões em que estão na presença umas das outras certas pessoas cujas relações são influenciadas pelo status de cada uma delas. Portanto, extrai-se uma tipologia de situações sociais direta e simplesmente a partir de deduções estatísticas: superior- inferior, inferior-superior e iguais. E o mesmo pode ser dito a respeito de outros atributos da estrutura social. Subentende-se,
então, que as situações sociais não possuem propriedades e estruturas próprias, mas meramente marcam, por assim dizer, a intersecção geométrica de atores que produzem fala e atores que carregam certos atributos sociais. Não acredito que esse
tratamento oportunista do que sejam situações sociais seja sempre válido. A situação social [...] não é algo distante e negligenciável como um primo do interior (2013a, pág. 16, grifo nosso)
O monitoramento mútuo, a partir do momento em que os participantes de uma situação social se reconhecem como parceiros de enunciação, não se dá apenas
19 na dimensão objetiva da realidade – ou seja, nos atributos objetivos dos participantes e nos atributos objetivos do mundo tais como as estruturas socioculturais socialmente compartilhadas. O monitoramento mútuo, quando os participantes de uma situação social resolvem efetivamente interagir – fazendo emergir uma situação enunciativa concreta – incide também, e sobretudo, nas seleções e modulações que os próprios participantes realizam, seguindo seus propósitos locais, na dimensão objetiva das situações sociais em que participam. Em outras palavras, o que deve ser mútuo aos participantes de uma interação, se observarmos a concepção praxiológica da comunicação, não são apenas os saberes comuns sobre a dimensão objetiva da realidade mas, sobretudo, os saberes tornados relevantes pelas escolhas e modulações que nela fazem os participantes da interação.
O que essas duas diferentes concepções de comunicação constroem para a ideia de mutualidade pode ser entendido da seguinte maneira: por um lado, na concepção epistemológica, a mutualidade seria “silenciosa” já que, sendo a realidade algo objetivo – e, portanto, uno e independente das situações sociais – não haveria a necessidade de manifestar as condições de enunciação a cada nova situação social; e, por outro lado, na concepção praxiológica, embora tenha uma face “silenciosa” dada pela dimensão objetiva da realidade (que, por essa concepção, não é a única dimensão, como já ressaltamos), a mutualidade deverá ter, também, uma face manifesta em que as condições de enunciação intersubjetivamente construídas são, passo a passo, explicitadas. A mutualidade dos saberes relevantes para determinada situação social só pode ser completamente estabelecida através da explicitação – da relatabilidade (accountability) nas palavras de Garfinkel (2015) – que os participantes de um processo comunicacional dão para o contexto enunciativo.
Para melhor compreendermos a diferença entre mutualidade “silenciosa” e mutualidade manifesta – assim como as relações entre essas duas dimensões da mutualidade – será proveitoso recorrermos à distinção que Deborah Tannen e Cynthia Wallat fazem entre as noções de “enquadre” e a de “esquema de conhecimento”. Advogamos que a noção de “enquadre” – de matriz goffmaniana e batesoniana – apresenta relações com o que aqui chamamos de mutualidade
20 manifesta, enquanto a noção de “esquema de conhecimento” apresenta relações com o que estamos chamando de mutualidade “silenciosa”.
Segundo Tannen e Wallat,
A noção interativa de enquadre se refere à definição do que está acontecendo em uma interação, sem a qual nenhuma elocução (ou movimento ou gesto) poderia ser interpretada. Para usarmos o exemplo clássico de Bateson, um macaco precisa saber se uma mordida de um outro macaco deve ser entendida dentro do enquadre de brincadeira ou do enquadre de luta. As pessoas constantemente se deparam com essa mesma tarefa interpretativa. Para compreender qualquer elocução , um ouvinte (e um falante) deve saber dentro de qual enquadre ela foi composta: por exemplo, será que é uma piada? Será que é uma discussão? Algo produzido para ser uma piada mas interpretado como um insulto (certamente podendo significar ambos) pode originar uma briga. (2013, págs. 188 e 189)
Como vemos, a noção de enquadre se refere ao que chamamos – de maneira sinônima – de contexto da enunciação, condições de enunciação ou quadro de sentido. Como argumentaremos a partir daqui, os enquadres só serão realizados através da realização recíproca de comportamentos sequencializados na interação que, por sua vez, propiciarão uma manifestação dos saberes tornados mutuamente relevantes para a situação. É dessa mutualidade manifesta que dependerá o sentido dos enunciados ali produzidos bem como o da própria interação. Como afirmam as autoras, “dado que esse sentido é percebido a partir da maneira como os participantes se comportam na interação, os enquadres emergem de interações verbais e não verbais e são por elas constituídos” (2013, pág. 189).
O processo de enquadramento da interação, que evidenciará as condições de enunciação, tem como horizonte – tal como apontado por Goffman (1974) na obra Os Quadros da Experiência Social – a seguinte auto-indagação feita pelos participantes do processo comunicacional: o que está acontecendo aqui agora? Como afirma Michel Binet, “a fala não se efetua num vazio social, mas sim num quadro social resultante da resposta negociada às seguintes perguntas: ‘quem sou eu para ti?’; ‘quem és tu para mim?’; e ‘o que estamos neste momento a fazer aqui?’” (2012, pág. 220). Todas essas questões, se adotarmos o ponto de vista praxiológico, só começarão a ser esclarecidas a partir do início efetivo da interação –
21 na operação de sondagem que os participantes fazem dos comportamentos uns dos outros – mesmo que, antes disso, algumas expectativas já existissem.
Quanto à noção de esquema de conhecimento – e que, aqui, relacionamos com a ideia de mutualidade “silenciosa” – afirmam as autoras: “usaremos o termo “esquema de conhecimento” para nos referir às expectativas dos participantes acerca de pessoas, objetos, eventos e cenários no mundo, fazendo distinção, portanto, entre o sentido desse termo e os alinhamentos que são negociados em uma interação específica” (2013, pág. 189).
Os esquemas de conhecimento guardam relações com a ideia, por nós aqui levantada, de mutualidade “silenciosa” pois são formados, entre outros saberes idiossincráticos, pelos saberes de senso comum dos participantes acerca da dimensão objetiva da realidade, notadamente as estruturas socioculturais compartilhadas, e que geram expectativas comuns sobre a realidade numa determinada cultura e sociedade. Numa perspectiva epistemológica da comunicação, esses saberes – os “esquemas de conhecimento” – pelo menos em sua dimensão social compartilhada, seriam estáticos, pois dados por uma dimensão objetiva única, e portanto reificada, da realidade. Além, disso, seriam o único tipo de saber a ser levado em conta, tanto pelos participantes da interação quanto pelo analista da interação – negligenciando a necessidade de saberes situacionais emergentes, decorrentes dos enquadres – para a interpretação dos enunciados ali produzidos e na identificação do que estaria ocorrendo naquela interação.
Numa perspectiva praxiológica, embora existentes, esses “esquemas de conhecimento” não seriam, como vimos, o único tipo de saber a ser levado em conta na definição do sentido dos enunciados e da interação de maneira geral. A eles seriam articulados os saberes relevantes para a interação concreta, que surgiriam a partir da manifestação dos comportamentos dos interagentes e, consequentemente, da conformação de um contexto enunciativo. Nesse processo, os próprios “esquemas de conhecimento” sofreriam, potencialmente, uma modulação situada.É como se os participantes utilizassem como pressupostos os seus saberes de senso comum sobre uma estrutura sociocultural para, a cada passo da interação, reorganizar esses saberes ao sabor do que efetivamente acontece ali – derivando, daqueles pressupostos apriorísticos, pressupostos situados. Mesmo utilizando os
22 saberes de senso comum – em grande parte estabelecidos por seus “esquemas de conhecimento” – os participantes, a todo momento da interação, os modulam (até mesmo os revogando) de acordo com o(s) enquadramento(s) da interação.
Para melhor compreendermos o que acabamos de dizer, recorramos a um exemplo concreto. Imaginemos a seguinte situação hipotética: dois amigos de infância, sendo um deles médico, que se encontram no mesmo local – um consultório médico dentro de um hospital. Qual seria o contexto enunciativo – ou, dito de outro modo, a situação enunciativa, quadro de sentido ou, simplesmente, enquadre – construído nessa situação social?
A resposta, indubitavelmente, dependeria das seleções e modulações – feitas através dos comportamentos verbais e não verbais – que essas pessoas, enquanto participantes de uma mesma situação social, operariam nos seus “esquemas de conhecimento” sobre os dados objetivos fornecidos por essa situação, fazendo emergir um saber intersubjetivo situado sobre as condições de enunciação. Que identidades eles ressaltariam? A de amigos de infância? A de médico e paciente? A de médico-amigo e paciente-amigo? Um pouco de cada uma dessas três opções? Ou, pensando mais além, poderiam construir para si mesmos, naquele momento, a identidade de recém-inimigos? E o ambiente físico – o hospital – que compartilham? Seria ressaltado como relevante ou seria completamente irrelevante para a atividade que ali decidiriam desenvolver? E, caso seja ressaltada a relação médico- paciente, ao invés da relação amigo-amigo, que aspectos dessa relação, na sociedade e cultura específicas em que esse encontro particular ocorre, seriam ressaltados? E se um deles for católico praticante, isso será por eles ressaltado como relevante ou irrelevante naquela situação?
Como se pode perceber, há uma imprevisibilidade colocada pelas situações sociais e que só mesmo em seu desenrolar concreto, orientado pelas escolhas intersubjetivas realizadas pelos seus participantes, é que poderemos perceber as reais condições de enunciação que a fazem emergir e que dão sentido aos enunciados ali produzidos. Não bastam as informações fornecidas pela dimensão objetiva da situação e que são de conhecimento mútuo – o fato de serem amigos de infância; de um deles ser médico; de estarem num consultório dentro de um hospital; de um deles ser católico; e de toda expectativa social acerca destas
23 informações. É necessário, ainda, que esses dados sejam cotejados com os comportamentos concretos desses participantes naquela situação. Serão esses comportamentos que estabelecerão uma relação interacional particular.
É a configuração concreta e sui-generis que os participantes de uma situação social estabelecem entre os diversos elementos que a constituem – as pessoas, as estruturas sociais, a cultura, os acontecimentos, os dados objetivos de toda ordem – que define as condições de enunciação para que eles possam entender não apenas os enunciados ali produzidos mas o próprio mundo intersubjetivo que está sendo construído naquele momento. Há, portanto, uma precedência da interação em relação aos seus elementos isolados.
Numa concepção praxiológica, para que uma situação enunciativa se realize, não basta apenas uma dimensão objetiva mutualizada silenciosamente mas, sobretudo, as configurações específicas que os participantes da interação imprimem a esta dimensão objetiva, de modo situadamente manifesto. Para que isso ocorra, os participantes devem manifestar, uns aos outros, a dimensão intersubjetiva da situação social.
A maneira concreta, inclusive nos detalhes pormenorizados, com que os participantes de uma interação agem – encarando aqui a ideia de ação tanto pela sua dimensão verbal (como explicitado pela teoria dos atos de fala, AUSTIN, 1962) como não verbal – irá demonstrar a eles mesmos, durante a interação, qual é a orientação local que estão dando à dimensão objetiva da realidade. Seus comportamentos locais explicitam, passo a passo e cooperativamente, os processos de seleção e modulação situados dos dados objetivos da realidade, instaurando uma realidade intersubjetiva e situada. São os próprios participantes da interação – e não um observador externo – que relatam, através de suas micro ações locais, a que dimensão contextual seus enunciados se referem (processo que observaremos mais detalhadamente nos próximos capítulos desta tese).
Como as pessoas avaliam em que contexto se encontram? A quais características do contexto prestam atenção? Um contexto pode ser conceptualizado não simplesmente como decorrência do ambiente físico (cozinha, sala de estar, calçada em frente à farmácia), ou de combinação de pessoas (dois irmãos, marido e mulher, bombeiros). Muito mais do que isso, um contexto se
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constitui pelo que as pessoas estão fazendo a cada instante e por onde e quando elas fazem o que fazem. [...] os indivíduos em interação se tornam ambientes uns para os outros. Em última instância, um contexto social consiste, a princípio, na definição,
mutuamente compartilhada e ratificada, que os participantes constroem quanto à natureza da situação em que se encontram
e, a seguir, nas ações sociais que as pessoas executam baseadas em tais definições. (ERICKSON e SCHULTZ, 2013, pág. 217)
A compreensão de que os processos comunicacionais permitem, não a transferência de conhecimentos sobre um mundo objetivo, mas a construção de um mundo intersubjetivo, nos autoriza a esboçar uma resposta à seguinte questão, colocada por C. Graumann, I. Marková e K. Foppa no prefácio da obra “Mutualities in Dialogue” (1995): “ What exactly is it that we share in the course of a dialogue?” (1995, prefácio, xi)
Para a concepção praxiológica, o que é compartilhado pelos participantes de uma interação não são seus universos cognitivos interiores mas seus comportamentos manifestos. Se, numa concepção epistemológica, o que seria compartilhado seriam conteúdos provenientes de uma objetividade a priori mútua, numa concepção praxiológica é pelo compartilhamento de comportamentos manifestos que os participantes mutualizam, passo a passo e intersubjetivamente, um mundo situado – ou, dito de outra forma, é através do compartilhamento de comportamentos manifestos que os participantes mutualizam um mesmo contexto. Só assim podem, finalmente, se compreender mutuamente, o que, numa concepção praxiológica, significa construir uma perspectiva comum (um dispositivo de mutualização de saberes situados) para a sintonização – sempre arriscada (RODRIGUES, 2016) e tentativa (BRAGA, 2010) – de seus universos cognitivos interiores.
É exatamente esse processo intersubjetivo de construção de relações e atualizações sui-gêneris entre os diversos elementos de um processo comunicacional, permitindo um dispositivo de mutualização de saberes situados – ou seja, um contexto de ação – o que um campo de pesquisa comunicacional de viés praxiológico elege como objeto de pesquisa:
Estamos assim em condições de precisar em que consiste o paradigma comunicacional, enquanto perspectiva de abordagem
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da especificidade das ciências do homem, procurando nos fenómenos sociais o quadro enunciativo no seio do qual os discursos e os comportamentos adquirem sentido. [...] Deste modo, em vez de considerar seu objeto como um conjunto de elementos reificados e estáticos, o paradigma comunicacional procura dar conta dos processos em que os interactantes se envolvem e dos dispositivos de constituição do seu mundo que mobilizam. (RODRIGUES, 2011, pág. 257 e 258)
Encarada dessa maneira, uma pesquisa que adote um ponto de vista praxiológico da comunicação social precisa investigar o processo de construção dos contextos enunciativos que dão sentido aos discursos e comportamentos humanos nas mais variadas situações sociais. Ao invés de buscar o contexto enunciativo procedendo a uma mera operação combinatória de elementos reificados e estáticos, uma pesquisa decididamente comunicacional deverá buscá-lo no processo de seleção e modulação, intersubjetivos e situados, desses elementos que, a partir de agora, só têm existência dinâmica, e portanto efemerizada pelas situações em que aparecem. Nesse sentido, estudar a comunicação humana, ao invés de estudar isoladamente os elementos que a constituem – os sujeitos, a materialidade simbólica, a cultura, as estruturas sociais, a fisicalidade do mundo – é buscar compreender as configurações e relações situadas que os participantes de uma interação específica constroem para esses elementos. O estudo da comunicação humana não pode, portanto, negligenciar o contexto em que esses elementos ganham sentido.
Para a finalização deste capítulo, abordaremos a noção de contexto tentando compreendê-la a partir das duas concepções de comunicação até aqui exploradas. Ao final, argumentaremos que apenas um ponto de vista êmico sobre a noção de contexto garantirá que as pesquisas sobre os fenômenos sociais abordem os processos comunicacionais de modo efetivamente praxiológico.