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Capítulo 4 As tecnologias emergentes e o surgimento da nanotecnologia nos

4.2. A nanotecnologia como tecnologia emergente

Para determinadas tecnologias emergentes, nomeadamente as mais disruptivas com maior influência na sociedade, é pertinente a reflexão política e sociotécnica destas tecnologias na sua fase

inicial de investigação. Boon e Moors (2008), sugerem a avaliação da qualidade do impactos futuros (negativos e positivos) nesta fase das tecnologias emergentes. Os autores dão como exemplo, a investigação na área da biomedicina, em particular no desenvolvimento da farmocogenética e fármacos órfãos e os seus impactos socioeconómicos, legais e éticos.

A nanotecnologia como ciência multidisciplinar e de potencial impacto generalizado na sociedade moderna, apresenta diversas características, das quais se pode classificá-la como uma tecnologia emergente (Bainbridge, Montemagno, & Roco, 2003; Battard, 2012; Krsto Pandza, Wilkins, & Alfoldi, 2011).

Bozemam, Larebo & Mangematin (2007), numa edição especial da revista científica Research Policy, definem a nanotecnologia como uma tecnologia emergente e referem-na como uma tecnologia de elevado impacto na industria e na sociedade em geral. Os autores, vão mais longe ao evidenciarem o potencial convergente da Nanotecnologia, com a Biotecnologia, Tecnologias da Informação e Comunicação e das Ciências Cognitivas (NBIC).

Esta convergência tecnológica, reflete não só a capacidade inovativa da nanotecnologia, mas como também o seu ímpeto no desenvolvimento de uma nova indústria. Recuperando a visão da destruição criativa de Shumpeter (2010), a nanotecnologia redefinirá as industrias existentes em novas combinações, criando novas fronteiras para a inovação industrial.

Bozeman et al (2007), refere ainda que a dinâmica industrial das nanotecnologias emergentes, depende da forma como a investigação científica nesta área está organizada. A produção de conhecimento inovativo é resultado de complementaridades entre a interdisciplinaridade, tecnicalidade e a natureza institucional dos atores. Pode-se afirmar que o processo de inovação em nanotecnologia é definido pela agregação de diversas ciências, é impulsionado pela infraestrutura técnico-científica existente e formatada pelas ligações entre atores socioeconómicos de diversas origens institucionais (e.g. Universidades, empresas, centros de I&D).

Focando na natureza institucional destes atores, Bonaccorsi e Thoma (2007), distingue a importância e a natureza da complementaridade na produção de conhecimento entre as ciências fundamentais e as tecnologias emergentes. Nas primeiras, as complementaridades surgem das grandes infraestruturas tecnológicas, enquanto nas últimas, brotam diversidade do capital humano e

60 da interdependência dos atores, caracterizados pela sua natureza institucional (e.g. universidade, indústria).

Os autores (Bonaccorsi & Thoma, 2007) concluem ainda, que os sistemas de inovação em nanotecnologia, caracterizados por um elevado grau de complementaridade institucional, proporcionam externalidades económicas, científicas e inovadoras para as comunidades epistémicas e sociedade em geral.

Como refere Bozeman et al (2007), a natureza institucional dos atores tem importância no desenvolvimento de tecnologias emergentes. Quer seja, pelas “ligações interinstitucionais”, quer pelo ambiente institucional de investigação científica. Os autores dão como exemplo, o papel relevante da academia nos sistemas regionais de inovação em particular na formação de clusters tecnológicos, em áreas como a biotecnologia em São Francisco (i.e. Universidade Califórnia) ou a nanotecnologia em Grenoble, Franca e Twente na Holanda.

Roco, Montemagno e Bainbridge (2003) enumeram quatro campos científicos emergentes de rápido crescimento e com elevado impacto no desenvolvimento e progresso da humanidade a que intitulam de “tecnologias convergentes”: a nanociencia e nanotecnologia; a biotecnologia e biomedicina; as tecnologias de informação; e a ciência cognitiva (i.e. neurociência). Os autores consideram que, a convergência destas quatro tecnologias emergentes, podem acelerar o progresso cientifico e social das sociedades modernas. Igualmente importante para a compreensão da nanotecnologia é a análise da microelectrónica a das diferentes instituições que mobilizaram e promoveram o desenvolvimento da tecnologia electrónica (Choi e Mody, 2009). A história recente de empresas americanas, como a Westinghouse e a IBM, em associação com os laboratórios navais (Naval Research Laboratory) disputaram avanços na industria de semicondutores.

A projeção das TEs, como a nanotecnologia na industrialização das atividades socioeconómicas é resultado da relação funcional entre os fluxos de informação, trabalho e capital de todos os participantes no processo de desenvolvimento das TEs. Na perspetiva sistémica, cada participante do sistema (p.e. sistema nacional de inovação) tem o seu papel bem definido e limitado às suas funções, interagindo com os restantes por via de parcerias ou ações coordenadas para atingir os objetivos socioeconómicos específicos (Huang & Lu, 2009).

A nanotecnologia como sector industrial ou tecnológico é alvo de abordagem sistémica por diversos autores (Islam & Miyazaki, 2008; Miyazaki & Islam, 2007; Pandza & Holt, 2007). São reflexões que conjugam vários pontos de vista complementares à compreensão do fenómeno e das dinâmicas, produzidas pelos atores sociais, económicos e institucionais no desenvolvimento das nanotecnologias.

A nanotecnologia reúne em si vários campos científicos que têm em comum a prática científica à escala nano21. Islam e Miyazaki (2008), confirmam a tendência de as ciências fundamentais, como a física, química, biologia, se fundirem e surgirem como ciências multidisciplinares. A inovação neste campo não está confinada somente à ciência dos “pequenos” materiais; o seu impacto abrange áreas de investigação e produção, da biotecnologia às TICs. O sector da nanotecnologia tem hoje em dia a função de ser o mote para a investigação científica e ao mesmo tempo um elemento de convergência de várias ciências.

Os autores (Islam & Miyazaki, 2008) apresentam análises sectoriais dos sistemas de inovação, nas quais identificam os principais atores sociais e económicos numa rede global. Pode-se verificar nos seus trabalhos, que as universidades, os centros de investigação e as empresas comerciais são os principais atores para o desenvolvimento da investigação nas nanotecnologias. Afirmam que nesta corrida global, a organização dos sistemas de inovação é fator de competitividade e diferenciação entre países e regiões.

Na Europa os esforços para a I&D são feitos sobretudo pela comunidade académica, nomeadamente as universidades e os centros de investigação públicos. Por outro lado, em países como os EUA e o Japão, são as empresas e o meio industrial, os que mais apostam, em I&D para a nanotecnologia. Na análise temporal (1990-2004) a Alemanha, França, Reino Unido e a Itália são os países europeus líderes na produção científica para a nanotecnologia, mas de uma forma geral estes países colaboram entre si, na produção de conhecimento, desenvolvendo parcerias entre os seus sistemas de inovação (idem).

Para estes autores (idem), os sistemas tecnológicos de inovação na nanotecnologia são constituídos por quatro tipos de atores sociais e económicos: as empresas já estabelecidas no mercado, no qual a nanotecnologia não é muito relevante; start-ups em que o principal negócio assenta na nanotecnologia; as universidades, envolvidas na I&D e que são elemento primordial no

62 desenvolvimento desta tecnologia; e os mediadores de conhecimento ou transferência de tecnologia, que são os intermediários e facilitadores dos fluxos entre os diversos atores do sistema de inovação.

Nos estudos empíricos de Krsto Pandza e Robin Holt (2007) é utilizada a abordagem dos sistemas tecnológicos para caracterizar os fluxos de conhecimento existentes entre os diversos atores do sector das nanotecnologias. Da análise Delphi22, os autores referem alguma ambiguidade entre quem tem ou não conhecimento em nanotecnologias, relativamente à implementação futura de processos de nano-industrialização. Identificaram ainda que as principais barreiras para a inovação neste sector são: a viabilidade técnica, a falta de financiamento em I&D, viabilidade económica, educação e qualificações e a aceitação social.

No caso do sector da nanotecnologia portuguesa, as fronteiras do sistema de inovação do sector não acompanham as fronteiras do país. Num estudo recente sobre a participação portuguesa no 7º Programa-Quadro Europeu (Abreu, 2014), verifica-se que as redes que compõem o sector da nanotecnologia português são constituídas por diferentes atores económicos e institucionais, como universidades, centros de investigação públicos e privados de vários países europeus, nomeadamente da Alemanha, Itália e Espanha. Estas redes têm como base o desenvolvimento de produtos de base tecnológica em que empregam o conhecimento e processos da nanotecnologia.

No mesmo estudo, são identificados como elementos de difusão de conhecimento as universidades (p.e. Universidades de Aveiro e IST), e mediadores dos sistemas tecnológicos, tais como a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, e o Laboratório Internacional Ibérico de Nanotecnologia. Este último assume um lugar de importância a par das empresas, como o que mais influencia a rede do sistema tecnológico de inovação.

Sendo um campo emergente e extenso, diversos autores referenciam a nanotecnologia como um setor, sem precedentes e de grande impacto social e económico (Allhoff et al., 2007; Bhat, 2003), como uma tecnologia de utilidade geral, na definição de Bresnaham (Timothy & Manuel, 1995), caracterizada por criar e promover oportunidades transversais a toda a sociedade. Dos cientistas a engenheiros, das empresas menos tecnológicas às start-ups empreendedoras, dos consumidores aos decisores políticos, a nanotecnologia é uma tecnologia de convergência institucional e produção de inovação.

22Os autores elaboraram uma série de entrevistas a diversos especialistas em inovação industrial e responsáveis de

São raros os estudos que cruzam as teorias institucionalistas e o desenvolvimento da nanotecnologia. Pode-se encontrar alguns estudos de inovação e tecnologias emergentes fundamentados na teoria das Variedades do Capitalismo.

Herrmann e Alexander Peine (2011) caracterizam os Sistemas de Inovação dos países europeus, segundo as relações entre o meio académico e o sector empresarial, em particular as qualificações da força de trabalho e o tipo de inovação praticada nas empresas. Segundo os autores, esta matriz organizacional promove três tipos de produtos: inovadores radicais, incrementais e sem inovação. Apesar de encontrarmos uma perspetiva institucional nestes estudos, os autores (Herrmann & Peine, 2011), adotaram uma análise centrada na organização interna das empresas, concluindo que as empresas para serem mais inovadoras (i.e. produtos inovadores radicais e incrementais) devem incluir na sua força de trabalho, indivíduos com maior qualificação como cientistas. Contudo, não referem outras externalidades do ambiente institucional, como os efeitos dos arranjos institucionais.

Ao nível da inovação regional, encontramos estudos que procuram explorar a relação entre as universidades e o sector industrial pela via do estudo de projetos de I&D em diferentes regiões finlandesas (Srinivas, Kosonen, Viljamaa, & Nummi, 2008). Os autores encontraram evidências de que as implementações destes projetos são influenciadas pelas políticas públicas locais.

No âmbito das relações entre o mundo académico e empresarial Toke Bjerregaard (2009) explora interpretações para os fenómenos de interação entre cientistas, nomeadamente os conflitos e convergências institucionais, nos projetos de I&D conjuntos, entre os departamentos de investigação universitários e industriais.

As relações entre atores do sistema de inovação são também abordados por Nina Granqvist (2007), numa coletânea de ensaios sobre o empreendedorismo no campo da nanotecnologia. A autora utiliza o conceito de empreendedorismo institucional para explicar o envolvimento cognitivo, organizacional e espacial dos atores presentes neste campo “embrionário” da ciência. No seu trabalho, apresenta dois estudos de caso comparativo entre a nanotecnologia e os alimentos funcionais, que exemplificam os diferentes níveis de processos alavancados pela emergência dos seus campos de estudos.

64 Este conjunto de ensaios contribui extensivamente para compreender o papel da agência na abordagem institucionalista nos campos da tecnologia emergente. Para os autores (Granqvist & Kauppakorkeakoulu, 2007), a capacidade dos atores influenciarem e facilitarem o desenvolvimento do seu ambiente institucional (p.e. setor da nanotecnologia) é moldada pelas suas competências e posições nesse contexto institucional, que resultam de diferentes formas de agencia, respetivamente, conceptual, política e social

Um outro estudo (Auplat, 2009), parte do pressuposto empreendedorismo institucional, para criar um quadro conceptual que explique o processo da emergência institucional e industrial no setor da nanotecnologia. O novo-institucionalismo proclama que as instituições cooperam entre si para sobreviverem em determinado ambiente. Os autores revelam que a emergência institucional neste campo tecnológico resulta das interações combinadas de 5 grupos específicos de atores institucionais: os empreendedores, comentadores, consumidores, cientistas e decisores políticos.

A emergência do campo da nanotecnologia é retratada por outros autores na convergência dos estudos culturais e produção de conhecimento (Wry, Greenwood, Jennings, & Lounsbury, 2010). Nos seus estudos procuram “reanimar” a análise institucional, olhando para a dinâmica de produção e disseminação de conhecimento, em particular, no caso do desenvolvimento de nanotubos. Os autores encontraram evidências que sugerem a existência de culturas institucionais distintas entre comunidades científicas.

Os resultados da suas pesquisas (Wry et al., 2010), revelam que as regiões possuem distintas formas de produção de conhecimento, originam culturas científica que influenciam o tipo de patentes que produzem na área da nanotecnologia, em particular os nanotubos. Os autores, identificaram dois tipos de comunidades científicas: as pertencentes, a regiões com elevada influencia das universidades de elite, que originam domínios tecnológicos com uma orientação para a ciência “fundamental”; e das regiões com influencia de universidades de “segunda linha”23, que tendem a criar domínios tecnológicos de uma ciência mais “aplicada”.

Recentemente foram publicados alguns estudos comparativos entre países, com o foco nas formas institucionais de desenvolvimento da nanotecnologia. Nadine Hoser (2013) compara o financiamento público das redes de I&D nos EUA e na Alemanha. Com base nos modelos baseados em agentes, a autora analisa o impacto deste tipo de financiamento na difusão da inovação em 23 Os autores definem as universidades de “elite” e “segunda linha” segundo o Academic Ranking of World Universities (ARWU) da Shanghai Jiao Tong University.

nanotecnologia. Conclui que a forma de financiar investigadores tem impactos diferentes na difusão de novas tecnologias na academia, em especial nos EUA, no qual os cientistas principais, têm um papel importante na decisão de financiamento; no caso alemão, estes efeitos não são significativos.

Para a autora (Hoser, 2013), o papel dos “nano cientistas” com maior relevo no panorama científico influenciam de uma forma indireta a distribuição do financiamento federal, por outras palavras, os investigadores que são mais citados e com obras relevantes, são uma vantagem competitiva para os projetos que integram, no momento de decisão do financiamento dos mesmos.

Johannes Eijmberts (2013) foca também no seu estudo a função das instituições governamentais no apoio ao desenvolvimento da nanotecnologia, comparando os EUA e a Holanda, na sua dimensão, forma e prioridades políticas. O autor afirma que o apoio dos governos nacionais ao desenvolvimento da nanotecnologia, assenta nos arranjos institucionais e estruturais de longo prazo. Se por um lado nos EUA, o apoio é coordenado centralmente pela NNI,24 que proporciona

um ambiente pluralista para os arranjos institucionais, na Holanda, esse apoio é criado pela longa prática corporativista das suas instituições, incluindo a relação cada vez mais importante com o governo, nomeadamente em projetos de alto risco e investimento.

Outros autores (Gupta, Fischer, George, & Frewer, 1838), revelam o papel dos especialistas na introdução de aplicações nano tecnológicas no mercado e o seu impacto social. O estudo comparativo contempla a análise de diferentes ambientes tecnológicos, cultura de consumo e regimes regulatórios, em regiões como América do Norte, Europa, Austrália e vários países asiáticos. Os autores referem que o ponto de vista destes especialistas, relativamente à aceitação social dos novos nano-produtos, pode ser homogéneo, independentemente dos fatores contextuais dos locais.

Julia Metag (2013) estuda os impactos dos media na sociedade no contexto das tecnologias emergentes. O seu estudo compara a cobertura jornalística da nanotecnologia na Áustria, Suíça e Alemanha. Apesar da existência de uma ideia negativa sobre o progresso científico no seio da comunidade jornalística, a cobertura das notícias sobre a nanotecnologia é positiva. A hipótese levantada sobre alguma tecnofobia jornalística e o preconceito negativo não é suportada pela cobertura mediática da nanotecnologia.

66 A literatura referenciada demonstra o quanto é incipiente a produção de conhecimento em sectores tecnológicos emergentes. No que respeita à nanotecnologia, pode-se resumir, à visão do empreendedorismo institucional e ao papel das instituições no desenvolvimento do ambiente propício à investigação académica, transferência de conhecimento e regulação do mercado.

A seção seguinte, pretende abordar as mais recentes teorias institucionalistas que podem contribuir para a construção de um modelo empírico de análise institucional aos sistemas de inovação, originados pelas políticas públicas europeias e nacionais, para a ciência e tecnologia, em particular no setor da nanotecnologia.

4.3. A relevância das colaborações na União Europeia e no Programa Quadro