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CAPÍTULO 3: NOSSO MODO DE CONTAR – AS NARRATIVAS DE VIDA E A

3.2 A narrativa de vida e a intergeracionalidade

A narrativa de vida conta a história de uma vida, antes de mais nada é necessário que façamos uma distinção entre a história real e a história que se conta, esta última como veremos perpassa pela subjetividade do sujeito que faz uma retrospectiva de sua vida passada em sua totalidade, a percepção e a avaliação dos sujeitos sobre sua própria história é cruzada pelas relações sociais construídas ao longo de sua vida, importância essa ressaltada por Bertaux (2010)

Não podemos compreender as ações de um sujeito, nem a própria produção dos sujeitos, se ignorarmos tudo sobre os grupos dos quais ele/ela fez parte em algum momento de sua existência. Seu próprio projeto de vida, decidido em certo momento de sua existência. Seu próprio projeto de vida, decidido em certo momento de sua existência, não foi elaborado in abstrato dentro de uma consciência isolada, mas foi falado, dialogado, construído, influenciado e negociado ao longo da vida em grupo.” (BERTAUX, 2010. p.53)

Dentro dessas relações podemos destacar a que nos é apresentada desde a mais tenra idade, as relações intrafamiliares. Esses laços são formados por relações intersubjetivas permeadas pelas relações afetivas, morais e geradoras de sentido na vida de todos nós. Nosso principal objetivo no que se refere as relações intrafamiliares se dará

dentro da constatação que cada família coexiste em sua própria dinâmica, já que entre todas as famílias existem diferenças de classe, costumes, projetos, etc. Deveremos sob o olhar etnociológico compreender essas relações e estabelecer suas similaridades dentro de suas diferenças, já que disporemos de vários depoimentos do mesmo fenômeno, o abuso sexual na infância e cruzando-os, esperamos isolar “um núcleo comum às experiências” (BERTAUX, 2010. p.52).

Por ora, vamos nos focar na importância da esfera familiar na construção da narrativa de vida, já que é através dele que adquirimos habitus, aprendemos tradições, e é nesse ambiente que a maioria dos seres humanos estruturam suas personalidades, ou seja nas

(...) narrativas de vida – e os históricos de famílias procedendo por narrativas cruzadas, no âmbito de uma mesma família –, podem contribuir para o conhecimento sociográfico de formas e tipos de família recolocados em seus contextos sociais e sua época(...) (BERTAUX, 2010. p.55)

Em nosso estudo nos parece essencial compreender, então como essas narrativas são cruzadas, como essas relações intrafamiliares e arriscamos dizer entre várias gerações de uma mesma família se apresentam dentro das narrativas de vida com as quais vamos nos deparar, pois como mostramos em uma seção anterior desse estudo inicial a família tem papel elementar nos casos de abuso sexual na infância. Esse contato geracional intrafamiliar pauta a intergeracionalidade que abordaremos, ou seja, como as narrativas de diferentes gerações se cruzam, como essas vozes se comportam.

O contato com outras gerações e como elas se comportam diante de algumas situações, como defende Ferrigno (2006) “A construção social das gerações se concretiza através do estabelecimento de valores morais e expectativas de conduta para cada uma delas, em diferentes etapas da história.” (FERRIGNO, 2006. p. 67). Entendendo que as gerações estão em constante construção social e cultural e que aos mais velhos é designado o papel de ensinar as outras gerações memórias culturais, valores éticos através da construção, na maioria das vezes, de narrativas de vida (Ferrigno, 2016) miramos a construção dessas histórias.

Quando falamos na construção de uma narrativa, como já dissemos na seção anterior, nos parece oportuno falar das várias vozes que evocamos no discurso, pois “existe em nós um mundo muito maior do que aquele que desejamos acreditar, povoado

de muitas histórias latentes, implícitas.” (LANI-BAYLE, 2018. p.57) o que foi abordado por Lani-Bayle (2018) ao falar do sentimento de continuidade, uma espécie de transmissão geracional, que se origina na linhagem familiar a qual detém uma espécie de pré-texto.

Essa espécie de mensagem geracional traz sentimentos de continuidade e confiança ao sujeito, e potencializaria uma sequência a ser aprendida, o ser testemunha do que aconteceu. (LANI-BAYLE, 2018). Esse saber anterior é pautado muitas vezes pelo silêncio e pode ser acessado pela insciência que é o

(...) não saber que sabemos – um saber interior – o que se sabe mesmo estando proibidas as palavras ou faltando palavras para dizê-lo.(...) Ele constitui o nosso estoque de potencial, nosso alforge, o que não foi (ainda) conscientizado, explicitado com palavras. (LANI-BAYLE, 2018. p.56)

Nos é permitido, então afirmar que nosso saber acerca de nossa própria história se forma não só por nossas próprias experiências, mas que se mescla as mensagens intergeracionais deixadas em nossa insciência. Um saber, que muitas vezes é proibido por uma fronteira marcada por segredos principalmente no que diz respeito às crianças, que parecem estar na ponta mais protegida na cadeia geracional. Porém, mais uma vez o insciente age e sob um impulso a palavra nos surge. Podemos constatar que o efeito dos segredos na mensagem perpassada intergeracionalmente são nefastos e muitas vezes são causados por dissonâncias em nossa própria história. Podemos então assumir que cada um modelará sua narrativa ao seu “saber não sabido”,

Para esse estudo nos interessará saber como os sujeitos narram os “saberes não sabidos”, as mensagens geracionais secretas em suas experiências vividas e como essas relações intrafamiliares se organizam.

Mais especificamente a nós interessa a história de mulheres que foram abusadas na infância, antes de mais nada assumindo que há uma pressão existente para cada membro no seio familiar e que nos parece mais pesado para as mulheres quando colocado na balança de várias culturas e em vários meios sociais existentes nas sociedades, é o que exemplificou Bertaux (2010)

(...) levar em consideração a esfera familiar já é suficiente para compreender vários planos da existência das mulheres em muitas sociedades “tradicionais”, onde elas estão destinadas

exclusivamente à esfera dita doméstica aos seus trabalhos antroponômicos como mães, mas também fora, como avó, filha mais velha ou criada.” (BERTAUX, 2010. p.54)

Quando se trata então da mulher há latentes diferenças na esfera familiar e social, vemos culturalmente em nossa sociedade de caráter tradicional que a mulher assume todos os papéis atribuídos por Bertaux (2010). Culturalmente chamada de “sexo frágil” nos parece que as mulheres são oprimidas no seio familiar desde cedo, além do mecanismo de protecionismo infantil que já discutimos anteriormente, por ser considerada frágil desde seu nascimento, o papel da mulher já assume um papel delicado perante a sociedade.

Vamos passar então a observar mais de perto como essas relações de poder se organizam no seio familiar dentro do discurso e como a questão da sexualidade está implícita nas narrativas e como elas se organizam dentro do que foi proposto para esse estudo.

4 METODOLOGIA

Nessa seção discutiremos os procedimentos teórico-metodológicos utilizados nessa pesquisa, nos baseando na Teoria da Narratividade de Greimas (1979), na Análise de Narrativas de Vida proposta por Bertaux (2010), na Intergeracionalidade de Lani- Bayle (2018) e das discussões acerca das relações de poder de Van Dijk (2017). Também nos ocuparemos em caracterizar a pesquisa, delimitar o universo e a amostra. Por fim, nos ocuparemos em mostrar os procedimentos utilizados para coleta e análise de dados.

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