O estudo da narrativa evidencia que a narrativa é um meio complexo, mas ao mesmo tempo rico em possibilidades para o processo de aprendizagem da leitura e da escrita, pois ela favorece aos sujeitos a expressão da subjetividade e da própria individualidade, podendo significar e ressignificar seu universo real ou imaginário e desenvolver elementos metalinguísticos necessários para o enriquecimento do processo de aprendizagem: a narrativa é um modo de pensamento e ação e através dela organizamos nossa experiência do mundo social conduzindo-nos a produção textual oral ou escrita.
Todo o processo de produção textual tem a ver com o dizer e o transformar o conhecimento. A principal diferença entre a composição madura (escritores especialistas) e a imatura (escritores novatos) está no modo como o conhecimento é introduzido e transformado ao longo do processo de composição.
Qualquer pessoa que tem de escrever sobre um tema (tópico) em um determinado gênero, por decisão própria ou atribuição de outra pessoa, pode gerar o conteúdo e a forma verbal adequada ao gênero sem um planejamento prévio e sem ter muito claro o objetivo global do texto que está produzindo. (FLOWER e HAYES, 1980 apud LANDSMANN, 1998, p. 97).
Isso é possível porque o processo de ―dizer o conhecimento‖ age da seguinte maneira, segundo Landsmann (1998, p. 97): ―o escritor
constrói algumas representações do que lhe foi atribuído e, a partir das mesmas, localiza os identificadores do tópico e do gênero. Esses agem como disparadores de uma série de procedimentos que darão como resultado o texto‖.
Em outras palavras, dependendo da competência, tomando o conceito de competência como conjunto de conhecimentos, qualidades, capacidades e aptidões que habilitam o sujeito para discussão, consulta e decisão, (PRIMI et al. 2001, p.151) quanto maior a habilidade para o uso da língua, oral ou escrita, provavelmente haverá maior qualidade na comunicação. O aluno que desempenhar de forma mais eficiente e perceber a multifuncionalidade da escrita transitará mais facilmente pelos diferentes gêneros textuais, pois as competências resultam de conhecimentos prévios e dependem do desenvolvimento da subjetividade e da intrasubjetividade. As narrativas, mais do que apenas relatar fatos, exigem iniciativa, criatividade, vontade de aprender, abertura às mudanças, principalmente a narrativa ficcional que transforma o real, ou vai além do real possível. Uma boa narrativa implica conhecimentos científicos (metalinguagem, uso dos recursos linguísticos esperados para o registro escrito) e vários saberes oriundos de várias esferas formais, informais, práticas e tácitas para resolver problemas e enfrentar situações de imprevisibilidade do texto e isso tudo depende muito da prática pedagógica do professor, mas que não será considerada detalhadamente nesta pesquisa.
―Em uma sociedade institucionaliza-se a recorrência de certas propriedades discursivas [...] os gêneros funcionam como horizontes de expectativa para os leitores e como modelos de escrita para os autores.‖ (TODOROV, 1976, apud LANDSMANN p. 36).
As propriedades discursivas envolvem todos os níveis da linguagem, semânticos, sintáticos, pragmáticos e outros, e são elas que aparecerão codificadas de acordo com as convenções do gênero utilizado. Cada gênero tem sua caracterização e particularidade que o sujeito precisa perceber e identificar, mas essas diferenças só são percebidas à medida que se criem conceitos e que esses conceitos passem a ser conhecimento. Nesse processo ocorre uma transformação qualitativa: é uma descoberta do sujeito e essa transformação do conhecimento acontece dentro do espaço do conteúdo. Mas para o processo de composição desempenhar um papel de transformação do
conhecimento, é preciso existir uma interação entre o espaço de conteúdo e o espaço retórico. ―Essa interação só pode resultar de um trabalho consciente e controlado sobre as próprias representações‖ (LANDSMANN, 1998, p.100).
Nesse contexto se integra o processo de ensino aprendizagem da metalinguagem, como, por exemplo, como se ensina e como se aprende concordância verbal (CV). Se for apenas ensino de conceitos vazios de significados para a criança, certamente não teremos um bom resultado.
À medida que a criança vai se desenvolvendo e ampliando seus conhecimentos, é possível ir ampliando, adicionando informações, explicações, justificativas sobre o uso da escrita e as funções linguísticas e metalinguísticas da mesma; isso implica também uma boa didática e um bom conhecimento dos educadores.
Na produção textual, os processos de geração de idéias e de geração de formas devem interagir, mas essa interação só é possível com um trabalho mentalmente comprometido do sujeito. Entendemos mentalmente comprometido como intencional, consciente e controlado. Para haver interação, devem ser dadas, segundo Landsmann (1998, p.101), pelo menos três condições: um objetivo, um plano e uma consideração de audiência. A escola, principalmente por meio dos educadores, e seus projetos educacionais, deve favorecer esse processo. Para potencializar essas condições para a criança, é importante que a criança leia as suas produções e que se façam estudo e reflexão sobre as produções, pois em uma sociedade que prima pela leitura e escrita, saber escrever bem faz diferença: quanto maior o conhecimento metalinguístico, maior a qualidade das produções escritas.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), ao caracterizarem a área de Língua Portuguesa, preocupam-se com o fracasso escolar, e consideram como fracasso justamente a incapacidade de leitura e escrita dos indivíduos e atribuem esse insucesso ao pouco progresso do processo de ensino/aprendizagem realizado nos anos iniciais de escolarização. E afirmam também:
Os resultados de investigações feitas permitiram compreender que a alfabetização não é um processo baseado em perceber e memorizar, e, para aprender a ler e a escrever, o aluno precisa construir um conhecimento de natureza
conceitual: ele precisa compreender não só o que a escrita representa, mas também de que forma ela representa graficamente a linguagem. (PCN, LÍNGUA PORTUGUESA, 1997, p.20)10
Para essa aprendizagem acontecer, é necessário que ocorra um desenvolvimento pessoal do sujeito, que pode se dar tanto na interação entre os sujeitos quanto na individualidade, conforme indicam os novos estudos das neurociências.