Sobre as políticas públicas: a ideia da narrativa e a agenda das políticas públicas
1.2. A agenda das políticas públicas
1.2.1. A narrativa e formulação da agenda das políticas públicas
O problema que nos colocamos é compreender o processo de construção de uma agenda de uma política pública. No caso deste trabalho, a política pública que nos propusemos analisar é a política do livro didático. Melhor, talvez, seja falar em políticas públicas do livro didático. O uso do plural parece se justificar na medida em que temos, ao longo de mais de um século, diversas políticas públicas para o livro didático. Por outro lado, para afirmar que existiram políticas públicas de livro didático, no Brasil, ainda no século XIX, é necessário considerar as políticas públicas como dinâmicas que se desenvolvem de acordo com uma determinada lógica que se entende como ciclo de políticas publicas. Assim, se algumas dessas políticas não se efetivaram na forma de uma ação que levou a algum resultado mensurável, por outro lado, podemos reconhecer, isso sim, desde o século XIX, a presença de elementos necessários para o processo de construção de políticas públicas. Elementos que, se não se objetivam diretamente em ações, determinam princípios que se mantém e que estabelecem um modo de compreender e interpretar algum dos aspectos da realidade considerada. São evidências de que havia intenções e algum tipo de movimento no sentido da construção, pelo menos, da agenda de uma política pública para o livro didático.
O elemento central para que se estabeleça a agenda de uma política pública é a apresentação de uma narrativa que, no contexto do debate político, reúna elementos que contribuam para a construção de uma compreensão, por parte do Estado e da sociedade, a cerca da realidade e da pertinência de as instituições do Estado dispensarem atenção em relação a algum aspecto dessa realidade. Ao mesmo tempo, essa narrativa se torna uma referência para, em etapas posteriores, os agentes do Estado tomem decisões. Essa narrativa, contribuirá, ainda, para que se estabeleça um consenso mínimo no sentido de mobilizar os recursos necessários para a ação do Estado e, enfim, determinar a própria implementação da política pública.
Se a narrativa é o elemento central da construção da agenda de uma política pública, e contribui ainda para que o ciclo da política pública se estabeleça, é necessário apontar uma referência sobre o que se entende como narrativa. Para tanto tomamos a contribuição para
discussão sobre a narração apresentada por Walter Benjamin7. Ele nos mostra como a narração e o narrador teriam desaparecido no cenário das mudanças da modernidade e da afirmação da sociedade burguesa.
O desaparecimento da narração, no entanto, não significa o seu fim. Consideramos que ela está presente dentro dos textos literários – o próprio Walter Benjamin faz referência ao escritor russo Nikolai Leskov, apresentado como exemplo de narrador8.
Para aproximar a proposta de Benjamin do tema da agenda das políticas públicas vamos considerar, como mostramos, ao tratar da presença do trabalho qualificado no interior dos processos de produção que se caracterizam pelo emprego do trabalho humano geral e da prática do ensino de artes e ofícios dentro da formação profissional racionalizada, que aspectos do antigo se escondem no interior daquilo que se considera ou é tomado como moderno. Que formas que aparentemente desapareceram, ou não são evidentes, podem se apresentar no interior de outras manifestações. Em nosso caso, entendemos que existe, dentro dos diversos discursos que circulam em torno de uma política pública, a expressão de uma narrativa que tem a função de construir algum consenso a respeito de pontos que são essenciais para que se decida sobre o que será considerado verdade, por parte do Estado, e que se estabelecerá como referência para a formulação e implementação de uma política pública. Assim, procuramos compreender a formulação da política pública, em especial a construção da agenda das políticas públicas a partir da noção de narrativa proposta por Walter Benjamin. Para tanto, pensamos na presença ou persistência do trabalho vivo humano no interior do trabalho humano geral.
Uma narração é um intercâmbio de experiências, é a experiência comunicável. Empobrecida a experiência, cessa o fluxo do que pode ser comunicado, apaga-se o ser humano e, com ele, a narrativa. Benjamin (1985, p. 198) faz referência ao fato de que os soldados que voltaram da 1ª Guerra Mundial voltavam mais pobres de experiências comunicáveis. O ser humano se
7 Trata-se, especificamente do texto O narrador – Considerações sobe a obra de Nikolai Leskov (BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasilense, 1985 (Obras Escolhidas, v. 1). p. 197-221).
8 Benjamin, faz menção de que outro autor russo, Liev Tolstói, além do escritor americano Edgar Alan Poe, assim como Leskov, escritores que viveram no século XIX, seriam representantes da categoria dos narradores. Consideramos que, dentro do entendimento proposto por Benjamin, o brasileiro João Guimarães Rosa e o argentino Jorge Luis Borges, ambos escritores que surgiram no cenário literário após a morte de Benjamin, também poderiam ser considerados como exemplos de narradores.
defrontou com uma mudança para a qual ele não estava preparado: nada ao redor, aquilo que compunha a paisagem, parecia mudado. Mas, tudo estava mudado, e o ser humano se viu insignificante diante da crueza da guerra real. Bloqueou-se a experiência – no nosso entender, um processo de alienação (como no trabalho na fábrica). O resultado disso era um ser humano calado, incapaz de narrar.
A experiência como fonte da narrativa caracteriza aquele que será qualificado como narrador. Este possui dois modelos arcaicos: o viajante – que conheceu o mundo e viu muitas coisas – e, o homem sedentário, ligado à sua terra, que é o acumulador da tradição. Esses dois tipos foram sintetizados no artesão das corporações de ofício. Um artesão antes de se fixar num lugar, tinha, muitas vezes, de percorrer diversas localidades procurando trabalho e, ao final, um lugar para estabelecer a sua banca. Por outro lado, a condição de partícipe de uma corporação obrigava-o a manter uma tradição. Daí a síntese do viajante e do sedentário num mesmo sujeito.
Narrar é, assim, um trabalho de artesão. É puro trabalho qualificado, que se distingue, pois transforma em realidade alguma coisa que está apenas na imaginação. Não é regra prescrita, é trabalho, é uso da capacidade que é própria ao narrador de juntar, selecionar, fundir e apresentar as experiências.
“Senso prático é uma das características de muitos narradores natos (…). Ela tem sempre em si, às vezes de forma latente, uma dimensão utilitária. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida – de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar conselhos, mas, se ‘dar conselhos’ parece hoje algo de antiquado, é porque as experiências estão deixando de ser comunicáveis (…). Aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuidade de uma história que está sendo narrada. Para obter essa sugestão é necessário primeiro saber narrar a história (…)” (BENJAMIN, 1985, p. 200).
Contudo, narrar não é informar. A informação procura explicar algo – para não deixar dúvida, ocupar o sujeito apenas com aquilo que a própria informação contém. A narrativa deixa
liberdade para interpretação da história e abre possibilidades que não são permitidas na simples comunicação. A narrativa não explica. Contudo, ela tem o potencial de provocar tentativas de explicar.
A narrativa é artesanal – uma forma artesanal de comunicação.
“Ela não está interessada em transmitir o ‘puro em si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso” (BENJAMIN, 1985, p. 205).
O trabalho artesanal é um trabalho lento e persistente – diferente do trabalho no mundo industrial que é rápido e feito para alcançar resultados no menor tempo possível. Nesse sentido, podemos imaginar a preocupação taylorista com a organização dos postos de trabalho e da fábrica como um todo, no sentido de reduzir o tempo da produção, como uma manifestação da tentativa de impedir o fluxo da experiência humana e, portanto, da possibilidade de narrar. O trabalho reduzido a tempo de trabalho humano geral – como já foi mencionado, a partir da análise da mercadoria realizada por Marx –, ou o trabalho alucinado – como nos mostra Charlie Chaplin no filme Tempos modernos.
A narrativa se opõe à informação, ao relatório. Mas, um relatório pode carregar dentro dele a narrativa. Da mesma forma como o trabalho industrial carregando dentro dele o artesanato, o que é ilustrado no trabalho do ferramenteiro que constrói, manualmente, um molde para injeção de termoplástico. Um exemplo de relatório institucional que carregava dentro dele uma narrativa foi o do grupo de conhecidos relatórios elaborados por Graciliano Ramos, na condição de prefeito de Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas, na década de 19209. Benjamin associa a narrativa à autoridade: “Na origem da narrativa está essa autoridade”. Sem a autoridade a narrativa não provoca e não é percebida como narrativa, enfim, não se afirma.
A narrativa, portanto, se afigura como experiência humana que é comunicável, carregada de
9 Os referidos relatórios, referentes aos anos de 1928 e 1929, estão publicados em RAMOS, Graciliano. Os
um sentido que revela a sua existência como experiência e convida os demais seres humanos a interpretar, a prosseguir, enfim, a própria narrativa. Resultado que é de um processo artesanal, de lenta maturação, na qual o sujeito apresenta aos outros algo que poderá ser, que se propõe a construir.
O sentido de construção de algo é a essência da política pública – uma resposta ao desafio colocado pela realidade à sociedade. A agenda das políticas públicas é um terreno incerto das informações sempre incompletas, à espera de novos elementos que vão compor um quadro que permita que um tema ganhe sentido no debate político e, ao ser interpretado, possa receber a atenção do Estado.
O trabalho de racionalização que se empreende no sentido de fazer da administração pública uma atividade previsível – um empreendimento moderno – carrega, no entanto, componentes antigos, da narrativa, do artesanal. Assim, é a narrativa que constrói a política pública: cada vez mais marcada pela tecnicidade e, contraditoriamente, amarrada ao essencial da narrativa, a de ser “experiência comunicável”, ou seja, capaz de ser ouvida e produzir o efeito de mobilizar os seres humanos, da mesma forma que só pelo trabalho do artesão, presente no trabalho do ferramenteiro, seria possível construir o molde de termoplástico que sustenta a possibilidade da produção em massa de peças de plástico. Se a narração fosse impedida viria o silêncio da morte, os seres humanos não se entenderiam, a política não seria possível.