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No tópico anterior, analisamos o processo de ascensão e hegemonização, nos espaços de poder capixaba, do governo Paulo Hartung e do segmento de elite que ele representa, este agregado a ONG empresarial ES em Ação. Consideramos, a princípio, que as elites de poder trazem uma visão de mundo, e, portanto, uma ideologia, que se materializa em determinadas políticas com vistas a empreender determinados processos de desenvolvimento.

Quando invocamos o conceito de ideologia, o fazemos à luz de Marcuse (1964, p.31), que considera que "[...] as conquistas do progresso desafiam tanto a condenação como a justificação ideológicas; perante o tribunal dessas conquistas, a ‘falsa consciência’ de sua racionalidade se torna a verdadeira consciência.” O impacto desse processo ideológico expressa o domínio do Estado que persegue sua objetividade, mas sem o consenso do outro, indicando o caráter totalitário de sua ideologia, na busca por eliminar o outro, ou a visão de mundo do outro. O empreendimento desse processo de hegemonização ideológica contribui para a expansão do domínio arbitrário político e econômico do Estado sobre as massas. E

é a partir dessa compreensão que consideramos a correlação de forças entre o Estado e os segmentos de elite que o constituem, e o MST que, nesse sentido, empreende uma luta contra-hegemônica.

Assim, quando consideramos o atual processo de construção do Estado brasileiro, nota-se que este ainda carrega traços marcantes da herança social e política do passado. São características de um modelo de Estado que nasceu antes da sociedade, cujas bases foram empreendidas sobre o maciço da escravidão, do patrimonialismo, do latifúndio, da oligarquia e de interesses particulares, que, em conjunto, produziram uma enorme fenda em nossa sociedade. Segundo Carvalho (2014, p. 23-24),

Ao proclamar a sua independência de Portugal em 1822, o Brasil herdou uma tradição cívica pouco encorajadora. Em três séculos de colonização (1500-1822), os portugueses tinham construído um enorme país dotado de unidade territorial, linguística, cultural e religiosa. Mas tinham também deixado uma população analfabeta, uma sociedade escravocrata, uma economia de monocultura e latifúndio, um Estado absolutista. À época da independência, não havia cidadãos brasileiros, nem pátria brasileira.

Para além desses fatos, devemos considerar também que o Estado brasileiro foi forjado pela estrutura lusitana, tendo sua ossatura administrativa, política e jurídica oriunda da lógica do direito positivo, ou seja, um direito posto sobre a sociedade, o que nos leva a considerar que o modelo do Estado vigente não se insere na categoria de Estado inclusivo, ou seja, é um Estado que não prima pelo bem estar do cidadão, o que contraria a tipologia de Bobbio (2007, p. 60), o qual adverte que “[...] a função das instituições políticas é a de dar respostas às demandas provenientes do ambiente social ou, segundo uma terminologia corrente, converter as demandas em respostas [...]”.

A esse respeito, convém relembrar as palavras de Lênin, segundo o qual “[...] para Marx, o Estado é um órgão de dominação de classe, um órgão de submissão de uma classe por outra; é a criação de uma "ordem" que legalize e consolide essa submissão, amortecendo a colisão das classes [...]” (LÊNIN, 2011, p 38).

Nessa perspectiva, o Estado brasileiro, compreendido na contemporaneidade, exerce uma lógica e um modelo de Estado liberal próprio, cujas matrizes constituídas historicamente se destoam do modelo clássico, desde a sua base material até o seu nível político. Trata-se de um liberalismo adaptado à realidade

brasileira, moldado dentro de um caráter conservador de determinados segmentos de elites de poder, e que buscou construir, desde cedo, um arcabouço legal jurídico e administrativo que fosse o eixo central para atender aos interesses dessas elites e não para atacar as arbitrariedades produzidas contra o restante da sociedade. Neste contexto, Costa (1999, p.37) acrescenta o seguinte:

[...] Depois da independência, as fórmulas amplas e universalizantes do liberalismo retórico foram definidas nos termos concretos, ficando evidentes os seus limites. A partir de então, ficaria claro para quem e por quem tinha sido o país feito independente. Para as elites que tiveram a inciativa e o co ntrole do movimento, o liberalismo significava apenas a liquidação dos laços coloniais. Não pretendiam reformular as estruturas de produção nem a estrutura de sociedade [...].

Levando tal fato em consideração, devemos enfatizar que o processo de desenvolvimento e de cultura política brasileira se constitui na simbiose entre o progresso e o atraso, tal qual nos sugere Francisco de Oliveira (2003). Para o autor, as contradições sociais existentes no Brasil são semelhantes metaforicamente à figura de um ornitorrinco, um animal de características peculiares e complexo, uma aberração da natureza. “[...] O processo real mostra uma simbiose e uma organicidade, uma unidade de contrários, em que o chamado ‘moderno’ cresce e se alimenta da existência do ‘atraso’, se quer manter a terminologia” (OLIVEIRA, 2003, p.32).

É nesse aspecto que o Estado contemporâneo ajusta as novas realidades do sistema de produção capitalista, funcionalizando as demandas produzidas pelo mercado, ou seja, no campo social funcionaliza a pobreza, o desemprego e a miséria. Na prática, isso significa que a coalisão de forças políticas e econômicas opera não para diminuir as assimetrias sociais, mas para usufruir dessas disparidades. De acordo com Coutinho (2008, p.144-145),

[...] a característica talvez mais determinante deste tipo de Estado foi sempre ter se colocado a serviço de interesses privados, ou, mais precisamente, dos interesses das diversas frações da burguesia. Ora, é precisamente esta a característica que o neoliberalismo quer reforçar, não só privatizando o patrimônio público na esfera da economia, mas também suprimindo os poucos direitos sociais conquistados pelos trabalhadores e escritos na legalidade vigente.

Nessa perspectiva, ao mesmo instante em que o Estado reconhece e recepciona direitos sociais, ele os ignora, operando dessa forma como um agente paradoxal. À

luz dessa questão, temos como exemplo a luta dos movimentos sociais do campo face ao Estado pela hegemonia da educação dos assentamentos. O Estado relativamente reconhece seus direitos, porém de forma antidemocrática determina o fechamento de escolas. Para Dahl (1987, p.25) a “[...] característica-chave da democracia é a contínua responsividade do governo às preferências de seus cidadãos, considerados como politicamente iguais [...].”.

As pressões dos movimentos sociais, forjadas dentro dessa ambiguidade, cujo caráter se dá pela tensão com o Estado, não produziram políticas sociais, tais como esses movimentos desejaram ao longo do tempo. Por essa ótica, percebemos que, ao longo das décadas, essa tensão se deu dentro dos limites estabelecidos pela própria cultura política brasileira, que é a política da conciliação e pela simbiose entre o progresso e o atraso, bem como pelas ambiguidades dela decorrente. Essa é a lógica do desenvolvimento brasileiro que conduz em seu fluxo as regras mediadoras das pressões advindas desses movimentos sociais do campo.

Nesse contexto, quem opera esse gerenciamento do Estado são segmentos da elite, não necessariamente elites econômicas, que possuem uma determinada visão de mundo e sociedade avessa à visão de mundo de movimentos sociais tais como o MST.

Nesse sentido, são interesses distintos que atuam sobre lógicas opostas, mas percebe-se que o Estado, amparado de suas prerrogativas jurídicas e administrativas, impõe de forma sistemática e sistematizadora sua vontade e a vontade dos grupos que ele representa. Tal fato nos leva a crer que o Estado age subordinado, seguindo os seus princípios e interesses e os de terceiros, operando variados interesses em uma cadeia de relações complexas, destoado dos anseios, em grande medida, sociais.

Neste contexto, sendo a educação um organismo que se encontra inserido na agenda do mercado, ela passou também a ser concebida pelo Estado e por demais segmentos econômicos como uma mercadoria negociável, é o que podemos constatar com as investidas políticas da gestão Hartung nos últimos tempos acerca da educação. Nesse aspecto, Mészaros (2005, p. 35) descreve que:

A educação institucionalizada, especialmente nos últimos 150 anos, serviu – no seu todo – ao propósito de não só fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à máquina produtiva em expansão do sistema do capital, como também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes, como se não pudesse haver nenhuma alternativa à gestão da sociedade [...].

Nas últimas décadas, as tentativas de desmonte dessa realidade têm sido uma das principais tarefas históricas a serem postas em prática pelo MST em sua luta pela educação nas Escolas de Assentamento no ES. Porém, devemos considerar que tal trânsito é de via-dupla.

Em primeiro plano, segue a mobilização determinada pelo MST, um fenômeno social marginalizado, que compreende o Estado como agente centralizador das decisões políticas e demais recursos capazes de equalizar as dicotomias produzidas no tecido social, inclusive no campo educacional. Esse movimento social busca a radicalização democrática, a pulverização dos dispositivos de decisões e a descentralização de recursos, e, por fim, a participação efetiva dos entes que compõem a sociedade nas deliberações que emanam do Estado.

Por outro lado, temos o Estado que opera dentro de lógica inversa a do MST. Seu ordenamento político, material e historicamente adaptado aos interesses de determinados segmentos das elites, conservadoras, é bom frisar, não se encontra vinculado às aspirações de nenhum projeto de construção social, mas sim a uma homogeneização conectada a interesses de pequenos grupos econômicos cuja natureza se torna incompatível em relação aos projetos do MST, inclusive de educação.

Se o MST buscou, desde cedo, construir um projeto de educação e de agricultura para o campo como forma de superar o processo de desigualdade em relação às cidades, por outro lado, o Estado foi forjado por alianças históricas definidas com as elites ao longo dos tempos, como forma de preservar sua hegemonia. Corroborando essa compreensão, Bresser-Pereira (2001, p.224) descreve que a

A reforma gerencial do Estado está apenas começando; a formação social continua capitalista embora seja crescente pós- industrial, dada a enorme classe média profissional ou burocrática já existente. De qualquer forma, temos também nessas três fases alianças de classe correspondentes. Na primeira, a aliança do estamento patrimonial com a burguesia mercantil rural urbana, na segunda a aliança da burguesia industrial e a nova classe média profissional, na terceira a progressiva substituição das classes por camadas

ou contratos sociais cujo poder e renda derivam do controle do conhecimento técnico e organizacional [...]

Neste contexto, o Estado brasileiro passou de uma política oligárquica e patrimonial para um Estado autoritário e burocrático, chegando ao estágio democrático e gerencial. Em tais transições e alianças, o Estado operou não como agente representante social, mas em nome de interesses de determinados segmentos de elite. Desse modo, devemos nos ater ao que diz Marcuse (1964, p. 19) :“a maneira pela qual a sociedade organiza a vida de seus membros compreende uma escolha inicial entre alternativas históricas que são determinadas pelo nível de cultura material e intelectual herdado [...]”.

A atuação Estatal, imposta pelas elites de cima para baixo, castra as possibilidades de participação das massas na vida política e econômica do país. Entre todos os fatores de castração, cabe sempre lembrar, o “[...] fator mais negativo para a cidadania foi a escravidão [...]” (CARVALHO, 2014, p. 25). Sob a luz dessa perspectiva, poucas foram as estratégias políticas utilizadas pelo Estado como forma de se encaminhar para resoluções de problemas práticos do cidadão, dentre elas as políticas públicas de distribuição de benefícios sociais, sendo essas responsáveis pela diminuição da desigualdade.

A assimetria social ganha ainda mais corpo quando o Estado passa a defender uma política que produz um processo de precarização das políticas sociais, tal como a educação. Acerca desse problema estaremos apresentando as dicotomias do Escola Viva, projeto defendido pelo governo Hartung no Espírito Santo.