2. BASE TEÓRICA CONCEITUAL
2.7 A Natureza dos Contratos
Racionalidade limitada, complexidade e incertezas, oportunismo e especificidade de ativos tornam problemática a contratação da transação no momento de negociar, redigir e garantir sua execução. Existem diversas formas de contratos e cada forma é construída de acordo com a configuração de custos de transação. Coase em 1937, por meio de seu artigo intitulado “The nature of the firm” (A natureza da firma), inova a teoria da firma, onde até então apenas os detalhes dos custos de produção eram levados em consideração pela economia neoclássica. Coase busca definir a empresa existente no mundo real. Os neoclássicos afirmavam que os únicos custos que importavam para a firma seriam aqueles relativos aos custos de produzir. Coase afirma que além do custo de se produzir a firma incorre em outros custos tão expressivos quanto o custo de produção, estes custos estão associados aos processos de vender, comprar, e outros (ZYLBERSZTAJN, 1995).
Coase questiona a respeito das razões que levam a empresa se estruturar hierarquicamente e construir várias formas de coordenação do processo produtivo.
Buscava entender ainda, porque a produção não poderia ser organizada por indivíduos distintos, de tal forma que cada um deles ficasse responsável por uma das partes do processo produtivo onde cada agente por meio de uma cadeia de acontecimentos comprasse a mercadoria daquele agente que se encontra em uma etapa anterior do processo de produção, até que o produto final seja disponível para o consumo (fosse vendido). De forma mais resumida, ele buscava entender, o que leva diferentes etapas do processo produtivo ser organizadas verticalmente ou horizontalmente, bem como entender a coordenação produtiva que passa ser estabelecida (FIANI, 2002).
A resposta a todas essas indagações, é que, devido à natureza complexa do processo produtivo de bens e serviços, deve-se escolher uma forma de coordenação da produção que possibilite a redução dos custos de transações, que não podem ser negligenciados. Todas as vezes que os agentes se utilizam do mecanismo de mercado, eles incorrem em custos associados ao processo de transação. Estas relações
transacionais estabelecidas requererem um processo de negociação assegurado por uma estrutura de contrato que lhe garanta o cumprimento dos acordos. Os desenhos contratuais estabelecidos para tal finalidade são permeados por significativos custos.
Devido à racionalidade limitada e alta complexidade da negociação, os agentes precisam de informações com o maior grau de precisão possível para afastar as incertezas que rodeiam o ambiente transacional.
Assim, à contratação de uma transação torna-se muito problemática, principalmente se os acordos forem estabelecidos com cumprimento para o futuro, ou seja, utilizando-se de contratos futuros, pois quanto mais distante estiver a obrigação de cumprir com os termos acordados, maiores serão as implicações da racionalidade limitada dos agentes, complexidade e incertezas além de práticas oportunistas influenciando sobre o cumprimento das cláusulas contratuais estabelecidas. Esses ambientes onde envolvem diversas transações complexas, necessitam de diferentes desenhos contratuais (FIANI, 2002).
Em particular, as relações transacionais que envolvem produtos agrícolas, como é o caso do algodão, defrontam-se com inúmeras situações de riscos que podem comprometer o bom desempenho da transação caso esta não seja protegida por desenhos contratuais. No caso da cultura do algodão, os riscos que cercam o ambiente transacional mais comumente observados seriam a falta ou excesso de chuvas, pragas e doenças, riscos de preços por excesso de produção, queda na demanda e políticas governamentais. Esses fatores podem causar instabilidades para toda a cadeia, “antes e pós- porteira,” gerando elevados custos de transações.
A escolha entre um tipo de contrato ou outro, será definido pela medida em que cada um se ajusta melhor a uma dada configuração de custos de transações. Neste sentido, o autor apresenta quatro tipos básicos de contratos (FIANI, 2002).
1) Contratos que especificam no presente uma determinada performance que só ocorrerá no futuro.
2) Contratos que especificam no presente uma determinada performance que ocorrerá no futuro, desde que os eventos futuros que virão a ocorrer sejam antecipados, ou seja, previstos no presente. Este tipo de contrato é conhecido como contratos condicionais.
3) Existem ainda os chamados contratos de pouca duração. Ele é realizado basicamente para garantir momentaneamente as condições
necessárias para que a transação venha ocorrer. Também conhecido como contratos de curto prazo sequenciais.
4) Por último, segundo o autor, ainda existem os contratos celebrados no presente com direito de selecionar no futuro a performance específica dentro de outras possibilidades de performance estipuladas previamente, isto é, estabelecer uma relação de autoridade.
A estrutura de contrato (1) não é apropriada para transação que envolva complexidade e incertezas, pois não permitem flexibilidade para ajustes às mudanças nas circunstâncias futuras. Neste caso específico o melhor é descarta-lo. No mundo dos negócios, principalmente onde os acordos são estabelecidos e cumpridos no futuro, são extremamente suscetíveis à instabilidade econômica, como é o caso do setor agrícola brasileiro que além de enfrentar a instabilidade econômica, também tem que conviver com incertezas climáticas e ambientais. As performances estabelecidas no presente, quando se trata de produtos agrícolas podem não vir a se concretizar no futuro, ou a performances observada, dada que o cumprimento da obrigação acordada pode não ser o esperado.
Os produtos agrícolas, principalmente as grandes commodities9 como soja, algodão, milho e outras, estão subordinadas à imposição dos preços internacionais, que por sua vez são influenciados pelos estoques mundiais, acordos comerciais e crises mundiais. Nestes casos, os desenhos contratuais devem ser construídos de tal forma que venha prever as incertezas que cercam o ambiente dos negócios. O autor ressalta que este tipo de contrato na medida em que não permite nenhuma flexibilidade na existência de mudanças nas circunstâncias futuras, é mais apropriado para transações que não se prolonguem no longo prazo, mas que se estabeleçam no curtíssimo prazo.
2.7.1 Contratos de cláusulas condicionais
Com a finalidade de se precaverem das possíveis incertezas que cercam o futuro, nos contratos de cláusulas condicionais, as partes que o celebram estipulam um dado desempenho em função dos acontecimentos que ocorrerão no futuro. Segundo Fiani (2002) este tipo de contrato permite certa flexibilidade desde que sejam bem definidos
9 Commodities ainda pode ser definida como um tipo de produto no qual não há diferenças qualitativas entre os mercados onde é negociado, ou seja, entre negócios de um mesmo produto em mercados diferentes, não existe preferência, em termos de qualidade, por parte dos compradores do produto (PEREIRA. L, p. 16, 2009).
os casos. O autor cita o exemplo de uma rede de lanchonetes que estabelece contrato com o seu fornecedor, cujas cláusulas contratuais já prevêem a possibilidade da lanchonete demandar mais sorvete além da quantidade já definida pelo contrato. Isto porque, no verão as vendas de sorvetes podem aumentar e a empresa, no caso as lanchonetes, necessitarão de quantidades maiores do produto além das quantidades estabelecidas no contrato.
O autor ainda afirma que este tipo de contrato apresenta algumas dificuldades como as geradas pela redação das cláusulas contratuais, pois, à medida que o ambiente de negócios começa a se tornar mais complexo, mais complexo e difícil fica identificar todas as variáveis que poderiam de alguma forma comprometer o acordo entre as partes.
As informações não são perfeitas e mesmo que se tente comprar as melhores informações, certamente os custos envolvidos inviabilizariam o processo. Em virtude da racionalidade limitada dos agentes, todos os fatores que cercam o ambiente transacional não podem ser previstos antecipadamente, logo as providências que poderiam antecipadamente ser tomadas para assegurar a negociação, falham.
Destaca Fiane (2002) a dificuldade de se garantir o cumprimento do contrato. A garantia da execução do contrato está condicionada as regras já estabelecidas que demonstrem que a execução está se realizando a cada instante do tempo. Assim, faz-se necessário conhecer as condições e estados do mundo que cercam o ambiente para que a efetiva execução do contrato aconteça. As identificações das condições devem ser feitas a baixo custo e com muita precisão, pois possibilitará visualizar possíveis atuações oportunistas dos agentes inseridos na negociação. Quando não é possível identificar as condições do estado do mundo com precisão e baixo custo, os agentes que estão transacionando passam a agir de forma oportunista identificando dentre as possibilidades, aquelas que melhor atendem a seus objetivos individuais, obtendo assim vantagens oportunistas.
Mesmo que o estado do mundo pudesse ser identificado com muita precisão e a baixo custo, ainda existiria a dificuldade de saber se a parte responsável pela execução do contrato utilizou-se das medidas apropriadas em função do estado do mundo que se apresenta. O que se verifica é que, em ambientes complexos, é necessário obter o maior número de informações de alta precisão para inibir as práticas oportunistas. Este modelo de contrato é verificado mais em casos onde se busca preservar os laços entre compradores e vendedores, que exibe algum nível de especificidade de ativos e que
embora o ambiente que cerca a transação seja complexo, este não tem consequências fortes sobre os custos de transação e garantia dos contratos (FIANI, 2002).
2.7.2 Contratos de curto prazo sequenciais
O vínculo contratual entre comprador e vendedor não é duradouro. As transações são realizadas buscando o mercado como melhor alocador dos preços, as ofertas são feitas a todo instante. Este mercado à vista também é conhecido como mercado Spot. Os demandantes adquirem o produto em função de suas necessidades atuais, não prevendo necessidades que venham a ocorrer no futuro. Os acordos entre as partes são bem definidos, reduzindo assim os problemas de adaptabilidade entre os contratantes. Como os contratos de compras e vendas são realizados no prazo presente, as incertezas e dificuldades que se encontram no futuro são descartadas. Embora os agentes tenham racionalidade limitada, os contratos estabelecidos no mercado à vista são bem desenhados, pois é possível conhecer as variáveis que fazem parte das cláusulas contratuais. Neste caso não é necessário fazer muito esforço para se conhecer com precisão as condições do mundo, pois no presente todas as dificuldades já se revelaram, sendo possível assim conhecer bem o ambiente em que ocorre a relação transacional (FIANI, 2002).
Em geral, esta modalidade é mais indicada para transações em que o ativo não seja específico, pois caso o for, certamente esta estrutura contratual não será capaz de proteger os acordos estabelecidos no contrato. Mesmo realizando a transação no mercado Spot, os contratos estabelecidos ainda podem ser alvo de ações oportunistas.
Em relação a esta teoria contratual, Fiani (2002, p 275) explica que:
[...] antes das transações se efetivarem haja realmente um caso de grandes números, após a efetivação da transação pode ser que o ocorra à transformação fundamental vista anteriormente, Isto é, que um processo de aprender fazendo leve o vendedor a adquirir informações privilegiadas sobre o comprador, passando a ter vantagens na competição com os demais vendedores.
Estabelecida assim a vantagem, o vendedor pode adotar atitudes oportunistas.
Casos como estes conforme exemplo citado por Fiani (2002) são mais comuns em licitações que envolva o setor público. Neste caso, embora exista a condição de igualdade entre os licitantes, o vencedor desse processo pode ter se beneficiado por
conseguir informações estratégicas sobre o serviço prestado, garantindo a ele maior vantagem sobre os demais licitantes.
Ainda seguindo essa mesma linha de pensamento, o autor cita o caso do mercado de trabalho. Embora todos os candidatos no momento do processo de seleção estarem na mesma situação de igualdade, o exercício de sua função proporciona conhecimento que dão vantagens frente a outros candidatos no mercado, desde que a empresa tenha por objetivo contratar trabalhadores utilizando-se de contratos sequenciais de curto prazo. Esses contratos de curto prazo sequenciais são mais utilizados em transações onde não há interesse em preservar o vínculo entre as partes contratantes, e onde a transformação fundamental “aprender fazendo”, também não se verifica, impedindo assim práticas e atitudes oportunistas dos agentes que transacionam.
2.7.3 A relação de autoridade
Segundo Fiani (2002), a relação de autoridade é definida como sendo a relação que um agente tem sobre o outro, ou seja, faculta ao primeiro à definição do que o outro agente deverá executar, no conjunto de possíveis ações definidas. A faculdade atribuída a um dos agentes é o instrumento que permite que ele analise, avalie dentre as diversas ações passíveis de serem realizadas por outro agente subordinado, a escolha que melhor venha representar e contribuir para determinada situação. No seu trabalho Fiane (2002, p. 276) explica que: “Assim, um gerente administrativo pode determinar, dentre as várias ações admitidas para um funcionário administrativo, qual é a mais adequada para determinada situação”. De forma semelhante, pode-se citar a decisão de um gerente sobre determinado insumo que deverá passar de uma etapa na fábrica para outra seguinte estabelecendo condições. Este gerente de produção está estabelecendo e escolhendo, dentre o elenco de ações definidas, qual seria o setor chave responsável pela execução daquela etapa dentro da empresa. Ao definir, o insumo e o setor, o gerente está exercendo uma relação de autoridade sobre o setor, que será utilizado no próximo processo industrial da matéria prima.
O autor afirma que a relação de autoridade possui algumas vantagens como o fato de que não precisa antecipar todas as circunstâncias futuras, nem mesmo as possíveis ações determinadas para cada circunstância. Logo, a racionalidade limitada dos agentes, como é caso dos contratos condicionais onde o ambiente transacional é extremamente complexo, é suprida pelo sistema de autoridade, pois, não existe a
necessidade de se gerar uma árvore prevendo todas as possíveis decisões antecipadamente.
Outra vantagem a respeito da relação de autoridade é que não é mais necessário recontratar sucessivamente etapas do processo industrial, pois dentro da estrutura estabelecida pela relação de autoridade todos os setores da firma completam o ciclo do processo produtivo do produto final. Como não é mais necessário recontratar sucessivamente partes dos processos industriais, os custos de transações relacionados ao ato de elaborar e redigir contratos são reduzidos significativamente principalmente quando envolvem ativos específicos, o que representa certamente uma vantagem quando comparado por exemplo, aos contratos sequenciais de curto prazo.
Fica evidente que a forma de coordenar e organizar um processo produtivo implica em redução dos custos de transações. Coase centrava sua preocupação em entender quando seria mais apropriado a uma firma realizar todo o processo produtivo, ou quando o ideal seria realizar sucessivos contratos com outros agentes responsáveis por partes dos sistemas produtivos.
Com certeza, a decisão depende das características do ativo. A existência de ativo de alta especificidade requer uma estrutura transacional que garantam às partes contratadas, a execução dos acordos estabelecidos. Dado que existam práticas oportunistas relacionadas mais precisamente à existência de ativo específico, caso o acordo não venha a se concretizar, gerará perdas significativas para uma das partes. A relação de autoridade enfatiza a importância da integração vertical como instrumento mitigador dos custos associados às transações em razão da existência de ativos específicos. Desse modo, a decisão de integrar verticalmente ou não uma produção depende especialmente de fatores relacionados à existência ou não de ativos específicos inseridos nas transações entre os agentes e a presença de elevado grau de complexidade das transações (FIANI, 2002).
2. 8 Característica dos Agentes
Com base na análise tradicional do mercado, principalmente pela teoria neoclássica, observa-se que esta se distingue muito da teoria dos contratos. A alocação dos recursos seria realizada pelo sistema de preços e de forma perfeitamente racional. O comportamento dos agentes no mercado seria benigno, ou seja, tais agentes não poderiam agir de forma oportunista. O pressuposto relacionado à racionalidade do agente se vê em desvantagem, pois existe a incapacidade dos indivíduos em interpretar
corretamente o ambiente que cerca suas decisões. Portanto, a característica comportamental dos agentes é importante para a definição do desenho dos contratos.
O oportunismo é uma característica do comportamento do agente que visa levar vantagens, rompendo contratos ex-post com a intenção de apropriar-se de quase renda associadas àquela transação. Existem fatores que mesmo havendo a possibilidade do agente oportunisticamente quebrar o contrato o mesmo não o faz. Tais fatores que levam os indivíduos a permanecerem nos contratos estão relacionados à reputação, garantias legais e princípios éticos (ZYLBERSZTAJN, 1995).
A reputação dificulta o rompimento do contrato pelo agente em decorrência da remuneração pecuniária, pois se o fizer irá comprometer o ganho de renda futura de forma que o custo de rompimento será superior aos benefícios. Com relação às garantias legais, a atuação das instituições legais daria suporte ao funcionamento da economia executando mecanismos punitivos caso os agentes deixem de cumprir com as cláusulas contratuais. Portanto, estas ações punitivas criam desestímulos para os agentes econômicos praticarem a quebra contratual oportunista (FRANCO, 2009).
Existem organizações que acreditam na estabilidade de seus contratos por meio de princípios éticos e morais dos seus membros, ou seja, dos códigos de conduta definidos pelo grupo. Elas vêem no código de conduta uma relação tácita entre os agentes. Desse modo, a quebra contratual poderá ocorrer, a despeito dos princípios. Os agentes procuram ser racionais nas suas decisões, mas só conseguem parcialmente, ou seja, não conseguem ser perfeitamente racionais, em virtude do meio em que tais agentes se inserem ser de extrema complexidade (FRANCO, 2009).