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A Natureza Jurídica do Regime de Previdência Complementar (RPC)

6. O REGIME PRÓPRIO DE PREVIDÊNCIA SOCIAL E O DIREITO SUBJETIVO DO SERVIDOR PÚBLICO

6.6. A Natureza Jurídica do Regime de Previdência Complementar (RPC)

Diversamente do que ocorre com o RPPS, onde seus benefícios previdenciários derivam da própria norma constitucional e da legislação correlata, de natureza estritamente previdenciária, os benefícios previstos no plano de previdência complementar seguem em regra a disciplina dos contratos.

No RPC a principal fonte normativa reside no contrato com a entidade gestora e as normas setoriais editadas pelos órgãos que compõem o sistema de previdência complementar.93

Esse entendimento de que a relação jurídica entre os beneficiários do RPC e a entidade gestora possui natureza contratual, é também evidenciado pela análise o artigo 202 caput da Constituição, alterado pela Emenda Constitucional n. 20/98, que prevê a garantia do “beneficio contratado” com entidade gestora:

Art. 202. O regime de previdência privada, de caráter complementar e organizado de forma autônoma em relação ao regime geral de previdência

93 A Lei n. 12.154, de 23/12/2009, alterou o aparato governamental do Regime de Previdência

Complementar fechado. Esse dispositivo criou a Superintendência Nacional de Previdência Complementar – PREVIC, autarquia de natureza especial com autonomia administrativa e financeira, patrimônio próprio, vinculada ao Ministério da Previdência Social (MPS), responsável pela fiscalização e supervisão das Entidades Fechadas de Previdência Complementar e de execução das políticas para o regime de previdência complementar operados por essas entidades.

social, será facultativo, baseado na constituição de reservas que garantam o benefício contratado, e regulado por lei complementar.

Ainda o § 2º do mesmo artigo 202 da Constituição submete a relação do beneficiário com a entidade gestora as “condições contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada”:

Art. 202. [...]

§ 2° As contribuições do empregador, os benefícios e as condições contratuais previstas nos estatutos, regulamentos e planos de benefícios das entidades de previdência privada não integram o contrato de trabalho dos participantes, assim como, à exceção dos benefícios concedidos, não integram a remuneração dos participantes, nos termos da lei.

Outra notória característica de um regime contratual é o permissivo constitucional em garantir aos beneficiários amplo acesso às informações sobre a gestão do plano de benefícios gerido pela entidade gestora, como confere o § 1º do artigo 202 da carta constitucional, ao determinar a disponibilização de dados sobre a gestão do plano de benefícios, a administração dos ativos e passivos existentes, os custos de administração e outros subsídios essenciais para análise da sustentabilidade do plano e da entidade:

Art. 202. [...]

§ 1° A lei complementar de que trata este artigo assegurará ao participante de planos de benefícios de entidades de previdência privada o pleno acesso às informações relativas à gestão de seus respectivos planos.

Também questão relevante não esquecida na reforma constitucional está no enunciado do § 3º do artigo 202, que determina critério para a estruturação dos fundos de previdência complementar patrocinados pelos entes do poder publico.

Art. 202. [...]

§ 3º É vedado o aporte de recursos a entidade de previdência privada pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios, suas autarquias, fundações, empresas públicas, sociedades de economia mista e outras entidades públicas, salvo na qualidade de patrocinador, situação na qual, em hipótese alguma, sua contribuição normal poderá exceder a do segurado.

O constituinte reformador, ao editar esse dispositivo, certamente objetivou garantir o equilíbrio do custeio e do financiamento na formatação e

manutenção dos planos de previdência complementar destinadas aos servidores públicos.

Essa questão está ligada a tentativa de transformar uma antiga característica que se mantinha junto aos regimes públicos de previdência dos servidores, que sempre foi oneroso aos cofres públicos, tendo em vista, como já visto anteriormente, a falta de paridade entre o cálculo dos benefícios e o regime de contribuições, aliado a uma política de benefícios muito mais generosos do que existia no regime geral de previdência.

A origem desse cenário mantido ainda em muitos RPPS é defendido por Irene da Conceição de Freitas:

Os chamados Regimes Próprios de Previdência Social do Servidor Público – RPPS foram criados como uma extensão da política de pessoal, portanto, sem qualquer preocupação com a sustentabilidade financeira do plano em longo prazo. As motivações políticas e administrativas dos instituidores estavam focados em supostos benefícios imediatos, tais como: I) a redução imediata das despesas com o pagamento dos encargos sociais patronais para o Regime Geral de Previdência Social e para o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço; e II) o aumento da receita com a retenção dos descontos das contribuições previdenciárias dos servidores.94

Portanto essa característica de onerosidade nos regimes previdenciários destinados aos servidores públicos, gera naturalmente um modelo de custeio desequilibrado.

Assim, o dispositivo constitucional, visando diminuir as dúvidas quanto ao custeio dos RPC destinados aos servidores, impõe que os planos de previdência complementar criados por entes públicos deverão observar critérios de custeio e financiamento rateados proporcionalmente entre as entidades patrocinadoras e os servidores beneficiários.

Na mesma sintonia, a norma constitucional, ao reconhecer os vícios que sempre margearam a administração dos RPPS pelo poder público, estabeleceu nos §§ 4º, 5º e 6º do artigo 202, condições para serem obedecidas na relação e na estrutura de gestão das entidades de previdência complementar criadas por entes públicos.

Art. 202. [...]

§ 4º Lei complementar disciplinará a relação entre a União, Estados, Distrito Federal ou Municípios, inclusive suas autarquias, fundações, sociedades de economia mista e empresas controladas direta ou indiretamente, enquanto patrocinadoras de entidades fechadas de previdência privada, e suas respectivas entidades fechadas de previdência privada.

§ 5º A lei complementar de que trata o parágrafo anterior aplicar-se-á, no que couber, às empresas privadas permissionárias ou concessionárias de prestação de serviços públicos, quando patrocinadoras de entidades fechadas de previdência privada.

§ 6º A lei complementar a que se refere o § 4° deste artigo estabelecerá os requisitos para a designação dos membros das diretorias das entidades fechadas de previdência privada e disciplinará a inserção dos participantes nos colegiados e instâncias de decisão em que seus interesses sejam objeto de discussão e deliberação.

Com esse espírito, entendemos que o constituinte reformador recomendou estruturar o RPC destinado aos servidores públicos com os mesmos critérios de gestão, transparência e equilíbrio atuarial que em regra se observa nas instituições de previdência complementar destinadas aos trabalhadores da iniciativa privada.

Dentro desse escopo, a própria norma constitucional remeteu à legislação regulamentadora para especificar os critérios relativos à estrutura e gestão dos RPC, sendo editadas as Leis Complementares n. 108 e n. 109, ambas de 29.05.2001.

A destacada legislação infraconstitucional confere regulamentação ao sistema de previdência privada. A Lei Complementar 109/01 disciplinou as regras gerais relativas ao regime de previdência complementar de natureza privada. E a Lei Complementar 108/01 disciplinou as regras e critérios na implantação dos regimes de previdência complementar destinados aos servidores públicos e patrocinado por entes públicos.

6.7. O Regime das Entidades Gestoras de Previdência Complementar (RPC) de