2.2 A DEGRADAÇÃO DAS CONDIÇÕES NATURAIS
2.2.1 A natureza e a mediação do capital no processo metabólico
Uma análise do processo de degradação do ambiente natural planetário produzido nesta “ordem da reprodução sociometabólica do capital” é apresentada entremeada na obra de Mészáros. Um autor que, compactuando com o pensamento e a práxis de Marx, defende a necessidade de uma mudança estrutural na ordem sociometabólica estabelecida.
O controle do metabolismo social pelo capital na fase de ascensão do sistema, conforme Mészáros (2006), resultou em uma ampliação, nunca antes imaginada, das forças de produção. A ameaçadora multiplicação das forças destrutivas é a outra face desse aumento das forças de produção, o que torna forçoso o controle consciente desse processo, de modo a permitir um “projeto humano positivo”. Todavia, não importando as consequências devastadoras da imposição de seu projeto fetichista, o capital não pode coexistir com um modo alternativo de controle.
Mesmo à custa da devastação do ambiente natural e da consequente destruição da humanidade, a expansão ampliada é a verdadeira preocupação do capital. Dessa forma, o sistema do capital segue a qualquer preço sua lógica e a expansão do capital não reprime a si mesma em benefício de qualquer consideração humana. A lógica do capital, ao contrário, é marcada pela destrutividade autovantajosa, e qualquer coisa que se ache no caminho do impulso expansivo do sistema precisa ser superada. Não fosse assim, a expansão do capital seria interrompida e o capital desapareceria como modo de controle
sociometabólico. Nesse sentido, o sistema do capital – um sistema no qual cada uma das suas partes sustenta e reforça as demais, fundado na dominação do trabalho pelo capital, baseado no antagonismo social e que é concorrencial e contraditório – tem um caráter histórico, tendo o modo de produção capitalista representado um avanço sobre os modos de produção anteriores. Entretanto, no intuito de perpetuar tal modo de controle sócio-reprodutivo, suas personificações não admitem esse caráter histórico do sistema do capital, não obstante os seus riscos com relação à destruição da natureza e a despeito das consequências dessa destruição para a vida humana (MÉSZÁROS, 2007). Mesmo porque, em tal sistema desperdiçador, destrutivo, expansionista e incontrolável, Mészáros (2002, p. 223) adverte:
Causalidade e tempo devem ser tratados como brinquedos dos interesses capitalistas dominantes, não importando a gravidade dos riscos implícitos. O futuro está implacável e irresponsavelmente confinado ao horizonte muito estreito das expectativas de lucro imediato. Ao mesmo tempo, a dimensão causal das condições mais essenciais da sobrevivência humana é perigosamente desconsiderada.
No empenho de eternizar o presente, para esse autor há uma tendência, ao abrigo do mando do capital impossibilitado de solucionar as suas contradições, à representação enganosa do tempo histórico, seja ele passado ou futuro11. E o fruto dos interesses que se encontram na origem da relação do capital com o tempo é o capital ser incapaz de uma perspectiva de longo prazo, como também ser incapaz de um entendimento de urgência, mesmo diante do prenúncio de uma explosão. Além do enfrentamento dos problemas do desemprego estrutural e dos conflitos econômicos, políticos e militares internacionais é exigência o enfrentamento da destruição ecológica generalizada. No entanto, a escala temporal de tal obra não será medida em séculos; ela talvez só possa ser medida em décadas (MÉSZÁROS, 2003). E, percebendo que o tempo está se esgotando, o autor compreende que “[...] seria suicídio encarar a realidade destrutiva do capital como o pressuposto do novo e absolutamente necessário modo de reproduzir as condições sustentáveis da existência humana” (Op.cit., p. 21).
Desse modo, Mészáros (2007) observa que, quando o capital surgiu na história com sua vitalidade que tudo usurpa, a margem de segurança de seu impacto sobre a natureza, independentemente da amplitude da destruição causada por sua
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Entre as principais contradições observadas no sistema do capital que Mészáros (Op.cit.) julga ser necessário superar está a contradição entre o crescimento da produção a qualquer preço e a simultânea destruição ambiental. Uma contradição que é, cada vez mais, do conhecimento de todos, embora de uma forma alienada.
intervenção no processo metabólico, era tão ampla que as implicações pareciam não fazer diferença. E mesmo hoje, quando já é evidente que os recursos naturais não são infinitos, o capital não admite limitações a seu modo de reprodução sociometabólica. São- lhe inadmissíveis considerações sobre o tempo, caso exijam a restrição de seu imperativo de expansão. Nem mesmo quando as consequências devastadoras já são evidentes no que se refere à produção e à ecologia, não pode haver nada isento desse imperativo. E, com o triunfo da tendência de vendabilidade universal, até o que ameaça a vida da humanidade parece natural, imutável e admissível. Entretanto, o metabolismo social abrange o intercâmbio entre os homens e entre a totalidade dos homens e a natureza. E a relação entre os indivíduos e a humanidade depende do modo como a interação entre os seres humanos e a natureza é mediada por um conjunto de relações sociais historicamente determinadas.
Antunes (2000) observa sobre essa questão que, neste sistema de metabolismo social do capital, produzido quando na história a divisão social subordinou o trabalho ao capital, as mediações de primeira ordem ou mediações primárias básicas, em que os indivíduos dotados de certa autodeterminação e objetivando a preservação da vida individual e social relacionavam-se e mantinham-se em constante intercâmbio com a natureza, são sobrepostas e conduzidas pelo sistema de mediações de segunda ordem. Então, conforme Mészáros (2002), o sistema do capital das mediações de segunda ordem – mediações componentes deste modo estabelecido de controle sociometabólico, as quais se sustentam reciprocamente num círculo vicioso destrutivo da mediação primária entre os seres humanos e a natureza –, controla os homens com base nos imperativos objetivos da expansão do capital.
O problema, em princípio insuperável para o sistema do capital, Mészáros (2007) assevera, é que ele sobrepõe às inevitáveis mediações de primeira ordem entre a humanidade e a natureza um conjunto de mediações alienantes de segunda ordem, criando um círculo vicioso. E, desse modo, as mediações de segunda ordem do capital são assumidas como mediações de primeira ordem da interação sociometabólíca.
Se comparadas as mediações de primeira ordem com as determinações das mediações de segunda ordem do capital, segundo o autor, percebe-se que tudo se altera com o surgimento do capitalismo, pois todas as demandas mediadoras primárias devem ser modificadas de modo a adequar-se às necessidades autoexpansivas de um sistema de controle reprodutivo social fetichista e alienante, que subordina tudo ao imperativo da acumulação de capital. Como consequência, o valor de uso, correspondente à necessidade, só adquire o direito à existência se estiver em consonância com os imperativos do valor de
troca, e o interesse pela utilidade não-lucrativa é eliminado e substituído pela mercantilização universal dos objetos e das relações humanas.
Desse modo, de acordo com Mészáros (2002), no sistema do capital, que ilude os homens com relação às suas motivações como agentes livres e ainda em relação à margem perceptível de suas ações, a lógica da sociedade é invertida. Ao tempo em que o valor de uso das coisas é subordinado totalmente ao seu valor de troca, aprofunda-se a separação entre a produção para o atendimento das necessidades humanas e a produção voltada essencialmente à acumulação do capital. A natureza, todavia, não deixa de ser o substrato da existência humana nesse sistema do capital, em que nada está isento do imperativo de sua expansão e em que suas leis, produzidas pelos homens, participam do processo destrutivo geral. No entanto, Marx, que percebia a necessidade imprescindível da relação metabólica entre o homem e a natureza, já antecipava a sua degradação.
Segundo Altvater (2006), para Marx esse metabolismo entre o homem e a natureza, ao tempo em que obedece às leis desta, encontra-se regulado pela dinâmica da formação social capitalista. Todavia, a reprodução da natureza obedece às leis naturais. E como essas leis naturais somente podem ser utilizadas pelos homens, elas não podem ser por estes modificadas, elas precisam ser respeitadas. Mas, com o desenvolvimento contraditório da economia, a integridade da natureza é violada a partir da sua degradação ou, até mesmo, da sua destruição.
O cumprimento da lei da relação da humanidade com a natureza é, conforme Mészáros (2007), uma exigência vital. Entretanto, essa relação é transgredida pelo capital de todos os modos. Mesmo ao preço da destruição da natureza, as leis do capital, em razão do seu domínio, são baseadas na falsa prioridade da inversão da relação entre a natureza e o capital. Este, sempre operou com base na inversão referente à relação entre o absoluto, a natureza, e o relativo historicamente criado, o capital. O capital se definiu como o absoluto e tudo o mais em relação a essa autodeterminação como o relativo subordinado e dispensável. Tal modo de atuar foi a chave de seu dinamismo e do seu sucesso. A ampla margem de segurança original desapareceu; a subversão pelo capital da relação entre o absoluto e o relativo está conduzindo, com a destruição da natureza, ao fim da vida humana como tal. Caso o processo de reprodução sociometabólica do capital não seja levado a um fim, a absolutização do relativo e a relativização do absoluto carregam a certeza da autodestruição humana.
Nenhum modo anterior de reprodução societária, o autor explica elucidando essa sua tese, apresentou um impacto comparável ao da ordem sociometabólica do
capital sobre as condições vitais de existência. Afinal, a dimensão histórica a longo prazo não está presente na visão desse modo de controle sociometabólico. Esse sistema apresenta como um defeito estrutural a ausência da dimensão da racionalidade geral, o que elimina a possibilidade da consciência histórica. Quando são introduzidos, em uma situação crítica, elementos de uma racionalidade mais abrangente, isto é fundamentado em um entendimento de que as medidas acatadas serão eliminadas logo que seja possível. E com o fim da emergência, o mercado que é anunciado como a solução de todos os problemas, retorna com mais força. Nesse sentido, deveria ser uma exigência o planejamento abrangente das condições de reprodução sociometabólica da humanidade. O desperdício voltado ao lucro põe em risco a própria sobrevivência da humanidade. No entanto, o desperdício encontra-se em toda parte. Os imperativos destrutivos, que são explicados nos termos da lógica do capital, aplicam-se à questão da economia. O significado verdadeiro desta somente pode ser considerá-la a longo prazo. Mas o significado original de economia como economizar foi perdido com o desenvolvimento histórico do capital, pelo imperativo do processo de autorreprodução expansivo do sistema. Sob o domínio do capital, a expansão foi subordinada ao imperativo da acumulação, para a qual não se poderia aceitar limites.
No passado, de acordo com Mészáros (2002), os advogados do sistema do capital, com um ponto de vista alinhado ao avanço da escala de intervenção do capital, podiam exaltar com alguma justificativa sua capacidade de destruição produtiva, inerente à dinâmica positiva do progresso.
A invasão pelo capital de tudo o que poderia ser invadido ou usurpado [...] deu sustentação à idéia da ‘destruição produtiva’, ainda que sempre mais problemática conforme aumentava a escala. A destruição envolvida poderia ser generosamente lançada como parte inevitável dos ‘custos da produção’ e da reprodução ampliada, se a constante ampliação da escala das operações do capital trouxesse o benefício adicional do deslocamento das contradições do sistema. No entanto, as coisas ficaram muito piores com a consumação da ascensão histórica do capital e a ativação dos limites absolutos do sistema. Sem outras possibilidades de invasão na escala requerida, o fator destrutivo dos ‘custos totais da produção’ [...] torna-se cada vez mais desproporcional e em última análise proibitivo. Historicamente passamos da prática de ‘destruição produtiva’ da reprodução do capital para uma fase em que o aspecto predominante é o da produção destrutiva [...] (MÉSZÁROS, 2002, p. 267).
Para esse autor, mesmo absolutamente vital, devido às restrições imprescindíveis aos processos de produção reclamadas para a sua realização, a imperativa
proteção ambiental, que, como “questão única”, suscita a articulação dos programas de reforma de diferentes grupos do movimento verde como estratégia de adentrar na estrutura de poder e nos processos decisórios, mostrou-se “inadministrável” ao sistema do capital. Este, de tal modo, revelou-se insensível à reforma até de sua face mais destrutiva.
Na falta da indispensável restrição produtiva, Mészáros (2007) observa, uma grande força positiva do desenvolvimento econômico é convertida em uma negatividade destruidora. A ideia da admissão de restrições reguladoras à acumulação de capital no empenho do desenvolvimento verdadeiramente sustentável foi eliminada. Ela não seria apoiada pelas determinações sistêmicas do capital. Desse modo, independentemente das consequências humanas e ambientais, a economia se torna idêntica a tudo o que conduza à expansão e à acumulação.
Em um mundo de recursos finitos, segundo o autor, o desperdício do modo de controle sociometabólico vigente se torna pior a cada dia, sem que se observem sinais de abordagem das determinações subjacentes na escala necessária. Porém, a necessidade imperiosa da supressão do desperdício surge no horizonte, como um dos requisitos fundamentais para o desenvolvimento sustentável. Nesses termos, sustentabilidade significa os homens controlarem os processos sociais, econômicos e culturais essenciais, pelos quais eles, além de sobreviverem, encontram realização, de acordo com os fins que colocaram para si mesmos, em vez de permanecerem à mercê de forças naturais e determinações socioeconômicas. Em outras palavras,
[...] equivale ao controle consciente do processo de reprodução metabólica social por parte de ‘produtores livremente associados’, em contraste com a insustentável e estruturalmente estabelecida conflitualidade/adversidade e a destrutividade fundamental da ordem reprodutiva do capital (MÉSZÁROS, 2007, p. 220).
De acordo com Chesnais (2009, n.p.):
Num dos últimos capítulos de O Capital, Marx abre ‘aos homens socializados, que se tornaram produtores associados’, a perspectiva de ‘combinar racionalmente e de controlar suas trocas materiais com a natureza, de forma a realizá-las com o mínimo dispêndio de força e nas condições mais dignas e mais conformes à natureza humana’. Marx escreve que a proteção da natureza contra a mercantilização capitalista é inseparável do homem enquanto parte da natureza. Em outros termos, toda política que encarar firmemente a questão ecológica combaterá também a alienação [...], e isso com uma eficácia superior à das campanhas de ‘defesa do emprego’ nas quais os sindicatos aliam-se com os empregadores acerca de medidas como as normas em matéria de poluição! Em suma, trata-se de fazer com
que o indivíduo ‘individual’ [...] possa se tornar um produtor associado, capaz de administrar suas relações com o seu meio ambiente natural de acordo com uma racionalidade coletiva.
Caso o desenvolvimento futuro não seja verdadeiramente sustentável, Mészáros (2007) adverte, não haverá desenvolvimento significativo. A condição da busca por desenvolvimento sustentável é a efetivação da igualdade substantiva. Entretanto, a ideia de “Igualdade”, proclamada na época da Revolução Francesa, foi rejeitada no curso do desenvolvimento da história. Ignorando-se que se vive em um mundo finito, não se vincula o crescimento aos objetivos sustentáveis relativos à necessidade humana. A determinação do sistema que estabelece a submissão dessa necessidade humana à necessidade da expansão do capital, e que tem consequências destrutivas, elimina dessa ordem produtiva a possibilidade de controle racional geral.
Ao violar a relação entre o uso e a produção humana e ao substituí-la pela relação de mercadoria, o autor explica, o capital abriu as possibilidades da expansão. Essa, do ponto de vista do sistema do capital e das personificações do capital, que, estando no comando desse sistema, tem de agir sob os seus objetivos, não poderia admitir limites. Outrora, esses limites podiam ser ignorados com relativa segurança. Contudo, afirmados tais limites, nenhum sistema produtivo não racional e desperdiçador é capaz de fugir das consequências destrutivas, por mais dinâmico que ele seja. Livre de qualquer dependência relacionada ao impacto do modo de reprodução sociometabólica do capital sobre a natureza, uma produção sem limites deve ser perseguida a todo custo. Sob a vigência do capital, essa busca é forçosa, ainda que não haja segurança de que no mercado ocorrerá a comercialização das mercadorias, e de que poderão ser garantidas no futuro as condições materiais para produzi-las. E, desse modo, pondo em risco as condições da existência humana, o caráter destrutivo do controle sociometabólico do capital promove a devastação do ambiente natural.
Mas o autor ainda chama atenção para outra questão que constata hoje, relacionada a essa realidade, em que é manifesto o risco que representa para o amanhã dos seres humanos os excessos empreendidos pelo capital a natureza no curso da história. Nesse sistema do capital verificam-se “[...] tentativas de explorar capitalisticamente cada aspecto possível da deterioração das condições ecológicas pela suposta apresentação de ‘soluções ecológicas’ – por certo, comercialmente lucrativas” (MÉSZÁROS, 2007, p. 372).
A partir dessa proposição em torno da presente exploração econômica da degradação da natureza e em função das características que o ecoturismo apresenta,
conclui-se que essa atividade econômica, que cresce em todo o mundo nas últimas décadas, representa uma dessas “soluções ecológicas” lucrativas. Uma solução ecológica que, neste sistema do capital que se desdobra dinamicamente, atualmente é proposta pelos capitalistas bem como pelo Estado como uma forma de contribuir com a conservação da natureza nos Parques Nacionais.
E nestes termos, convém ressaltar que reside sobretudo no atributo do sistema do capital se desdobrar dinamicamente, o entendimento de o ecoturismo poder ser percebido, no limite, como uma dessas “soluções ecológicas” lucrativas. Ou seja, essa atividade econômica constituir uma entre as inúmeras criações que o sistema do capital utiliza para explorar o resultado de todo o descomedimento que ele próprio comete em relação à natureza, um modo de explorar as implicações para a natureza da mediação do capital no processo metabólico, ou uma forma singular de explorar a degradação da natureza.