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A natureza pode trazer problemas ao trabalho

5.2 A vida na colônia

5.2.4 A relação com a natureza

5.2.4.2 A natureza pode trazer problemas ao trabalho

Os membros das famílias respeitam a natureza, principalmente quando reconhecem que podem sofrer conseqüências ao seu trabalho agrícola pelas interferências naturais e climáticas. Eles destacam alguns exemplos, como o risco de prejuízo na apicultura durante o inverno, principalmente nas épocas de geada, em que as abelhas morrem com maior facilidade e produzem menor quantidade de mel. A geada parece ser um dos principais fatores climáticos que interferem no trabalho agrícola, porque a baixa temperatura sobre as plantas interfere no seu

desenvolvimento. Além disso, é comum ocorrer destruição pela geada sobre o capim, utilizado como trato, que é o alimento para os animais.

Os temporais e as fortes chuvas atrapalham, muitas vezes, o deslocamento das famílias rurais por modificar a superfície das estradas de terra e também por favorecer o estrago das plantações de milho.

A condição natural da propriedade rural também foi levantada como obstáculo para a realização de alguns serviços, especialmente pela existência de muitos aclives e declives, os quais exigem resistência física para caminhar e também o uso de recursos automotores (jipe). Nós temos que buscar muito trato, porque é só morro, o pasto (avó Girassol). No caso de um núcleo de aquisição, a presença da criança levou à necessidade de a mãe que, ao mesmo tempo cuida da filha e trabalha na roça, respeitar as ocorrências climáticas para proteger a saúde da criança. Dificuldade é quando não dá sol, porque com chuva tem que ficar dentro de casa, por causa dela (mãe Rosa).

Discussão dos resultados

As tarefas desempenhadas pelos membros e que se destinam ao cuidado da família rural para consigo e para com a terra, passam por mudanças vinculadas à necessidade de sobrevivência e de manutenção da propriedade familiar e, às condições de trabalho pela idade, posição na família e gênero. Desse modo, as tarefas agrícolas também podem ser percebidas como de desenvolvimento, uma vez que sofrem mudanças ao longo das fases de vida de cada membro e da família num todo. Concomitante às mudanças de tarefas, pode haver a incorporação de novos papéis pelos membros, como o de dono da propriedade, a responsabilidade pelo cuidado dos pais idosos, além dos papéis parentais. As mudanças relacionadas às tarefas, ao longo do ciclo vital, respeitam a capacidade de desempenhá-las, que é determinada pela força física dos membros, a idade, o sexo e o aprendizado de tais tarefas.

O aprendizado das atividades agrícolas pelos jovens é uma tarefa presente desde a fase de aquisição da família rural, principalmente, quando há crianças. Os membros mais velhos são responsáveis por ensinar, estimular e incluir os membros mais jovens nas atividades rurais, designando as tarefas apropriadas para cada idade. No campesinato estudado por Woortmann e Woortmann (1997), o saber para

o trabalho é transmitido no próprio trabalho, pois se relaciona com a hierarquia familiar e o saber-fazer do chefe da família, via regra do pai. Esta transmissão do saber não envolve apenas as técnicas de trabalho agrícola, mas também os valores e a construção de papéis.

Quanto ao trabalho agrícola, percebe-se o forte papel das mulheres nas famílias estudadas, que participam quase que igualitariamente das tarefas realizadas pelos homens. Segundo a análise de Brumer (1996), sobre os fatores que afetam a inserção das mulheres rurais em atividades produtivas, a partir de algumas pesquisas realizadas na América Latina e outros países, parece que as mulheres encontram espaço em tarefas produtivas no meio rural, predominantemente, em atividades manuais e de colheita, ao processamento de produtos agrícolas, trabalhos de horta e doméstico, cuidado de animais, incluindo a criação e a retirada de leite, além das tarefas reprodutivas, dentre elas, o cuidado de crianças. Ainda que estas tarefas tenham sido citadas pelas famílias rurais estudadas, perceberam- se algumas diferenças relacionadas ao desempenho de tarefas específicas entre as mulheres e os homens e entre os jovens e os mais velhos. Em comparação, os sitiantes do nordeste estudados por Woortmann e Woortmann (1997), mostram que existem circuitos de atividades masculinas e femininas, definidas pelos espaços de domínio para cada trabalho. Assim, o pasto e a roça são considerados circuitos masculinos e o que diz respeito à casa, é circuito feminino. Isto não afasta a possibilidade de compartilhar os mesmos espaços de trabalho agrícola, pois nos momentos do plantio, da capina e da colheita, homens e mulheres desenvolvem o mesmo tipo de trabalho, ou seja, as atividades agrícolas.

Discutindo-se sobre os papéis de gênero, Bandeira e Vasconcelos (2002) revelam que as relações de gênero são socialmente construídas e, desta maneira, homens e mulheres podem desempenhar papéis de gênero iguais ou diferenciados. As autoras mencionam que tais divisões de papéis estão relacionadas a uma dimensão inter-subjetiva, dando a entender que as diferenças biológicas e culturais são muito mais complexas.

A produção agrícola é caracterizada pelas diferenças entre o tipo de trabalho, o qual se reporta à força física despendida pelos membros para a sua realização. Neste sentido, há um misto de situações que estabelecem quando e quais os membros das famílias rurais que desempenham as atividades consideradas “trabalho leve” e “trabalho pesado”. Os membros mais jovens, do sexo feminino e

com filhos pequenos, geralmente iniciam a sua participação na produção agrícola, realizando o trabalho leve. Enquanto que as mulheres mais velhas, mais experientes no trabalho com a terra, mesmo que portadoras de algum problema de saúde podem realizar o trabalho leve e parte do trabalho pesado. Os homens mais jovens são responsáveis por grande parte do trabalho pesado, ainda que o seu papel seja ajudar os homens mais velhos que são os principais responsáveis por estas tarefas. No entanto, quando os homens mais velhos se encontram com alguma doença, abandonam o trabalho pesado e passam a orientar os mais jovens para estas tarefas, começam a desenvolver o trabalho agrícola mais leve e, consequentemente, as mulheres mais jovens e mais velhas têm que assumir maior parte do trabalho leve e do trabalho pesado também. Estas situações citadas estão sugerindo a existência de um ciclo que inclui as tarefas e os papéis familiares. Paralelamente a estas situações, pode-se mencionar o que Woortmann e Woortmann (1997, p. 138) perceberam em seu estudo:

“há, pois, uma relação entre o ciclo de vida dos instrumentos, o ciclo de vida das pessoas, a hierarquia e o gênero, na própria medida em que ao longo do ciclo de vida mudam de espaço. A “vida útil” dos instrumentos tem significado para mais além do trabalho visto em sua materialidade. Terminada a sua utilidade imediata para o homem, começa sua utilidade para a hiearquia”.

As tarefas externas à propriedade rural, representadas pelo trabalho de alguns membros nas empresas, especialmente nas serrarias, possibilitam visualizar a evolução do processo de industrialização das áreas colonizadas pelos imigrantes alemães, ampliando as perspectivas de desenvolvimento de novos papéis na família rural, designados pela figura do colono-operário. Seyferth (1974) corrobora com esta observação ao dizer que a possibilidade de trabalhar nas fábricas abriu novas oportunidades para os colonos mais pobres já na época em que a industrialização se iniciava, mas ao mesmo tempo, provocou a atomização das propriedades rurais porque os colonos que trabalhavam como operários dedicavam pouco tempo ao trabalho na lavoura. Com isto, percebe-se que hoje esta é uma realidade cada vez mais freqüente nas famílias de pequenos agricultores, onde os demais membros, na maioria dos casos as mulheres, mantém as atividades agrícolas da propriedade, auxiliadas em determinadas atividades pelos homens que, por sua vez, desempenham também tarefas estabelecidas pelo sistema de trabalho industrial.

As percepções das famílias estudadas sobre a vida no campo e os valores que fundamentam as normas familiares estão calcadas na consciência da coletividade. Desde a divisão dos produtos entre os membros até a colaboração dos núcleos maduros para a realização dos planos de vida aos núcleos de aquisição, há uma tendência dos membros das famílias em se manter unidos e não abandonar a propriedade familiar. Segundo Woortmann (1990, p. 54), “tal coletivismo expressa a oposição entre o ‘nosso’ e o ‘do outro’”. Embora os membros das famílias revelem trabalhar para o coletivo familiar, há projetos de vida individuais, especialmente os de continuidade dos estudos pelos jovens, que não são subordinados à coletividade.

Dentre as vantagens da vida no campo destacadas pelas famílias rurais, optou-se por discutir o que os núcleos de aquisição consideram vantajoso para eles, como exemplo, os menores gastos para a construção e a manutenção de casa própria, permanecendo na propriedade da família. Esta idéia pode ser justificada pela sucessão das terras aos filhos que permanecem, uma vez que, os demais filhos saem da propriedade para trabalhar e construir as suas famílias. Esta atitude já era observada no século XIX, nas áreas rurais de colonização alemã, onde os pais não tinham condições de comprar terras para todos os filhos se estabelecerem na agricultura, obrigando-os a abandonar a propriedade dos pais e, algumas vezes, afastando-se da região para se tornar assalariados em propriedades mais ricas ou mesmo, como operários das fábricas (SEYFERTH, 1974).

Por outro lado, as dificuldades econômicas são percebidas pelos membros dos núcleos maduros como o maior desafio para a sobrevivência no campo, além de se constituir no principal problema enfrentado nesta fase de vida familiar. Apesar de o estudo de Cerveny (2002) ter sido realizado com famílias paulistas de classe média, a busca por ajustamento do orçamento às possibilidades atuais e a queda do poder aquisitivo, tanto pela aposentadoria, quanto pelo padrão de vida nos últimos tempos são características apontadas para esta fase. No caso das famílias rurais estudadas, as dificuldades econômicas estão voltadas para os gastos constantes com tratamento médico para ambos os cônjuges idosos e, dessa forma, insuficiência do recurso financeiro da aposentadoria para suprir os demais gastos da família.

O campo interativo da vida familiar vai além das relações dos membros com o ambiente doméstico, de trabalho e comunitário quando manifestam a sua relação com a natureza. A natureza é reconhecida como o motivo da opção de vida e de trabalho no contexto rural, em função do compromisso com a terra da família. Ao

mesmo tempo, a natureza é a fonte dos recursos que possibilitam o desenvolvimento da família e do trabalho. Conforme Woortmann (1990, p. 62), “a relação com a terra é uma relação moral com a natureza. De outro lado, a relação com a terra-patrimônio é uma relação de honra e de hierarquia.” O autor complementa esta idéia ao dizer que o trabalho é o processo que transforma a terra de Deus e, logicamente, da natureza, em patrimônio da família. E, dessa maneira, a terra como patrimônio passa a ser mais do que coisa, isto é, pessoa moral. Esta relação é reforçada também pelo significado atribuído a terra, o qual está presente no discurso de que a venda da terra é considerada pelos colonos ainda nos dias de hoje, como uma traição à família e ancestrais (WOORTMANN, 1990).

O cuidado familial inclui os papéis e as tarefas dos membros das famílias rurais, podendo estar diretamente e indiretamente voltado para os núcleos familiares. Quando retratada a rotina de cuidado da terra e dos animais, percebe-se a transformação dos produtos agrícolas pelo trabalho como cuidado de subsistência da família rural. Esta idéia reporta o atributo de promoção da vida e do bem-estar para o cuidado familial, conforme menciona Elsen (2002), assim como os valores e as normas sugerem um cuidado familial destinado à cultura, à moral e à identidade das famílias rurais, as quais se revelam como atributo de orientação para a vida. A natureza aparece como fator facilitador para o cuidado familial que é retribuído a ela, através da preocupação em preservar o ambiente de vida dos animais e das plantas.