3 TRABALHO PROFISSIONAL E OS RECURSOS TEÓRICO-
3.1 O martelo: recursos teórico-metodológicos e as exigências cotidianas
3.1.1 A navegação do Projeto Profissional pelos mares do trabalho
O Projeto Profissional do Serviço Social é compreendido como uma estrutura dinâmica que se transforma a partir de modificações contidas no quadro de necessidades sociais, com as quais a profissão opera. Está aliado às transformações sociais, econômicas e culturais que ocorrem em diferentes momentos históricos e do desenvolvimento do próprio processo de ampliação da profissão. Sendo assim, a dimensão política lhe é inerente e está diretamente relacionada aos projetos de sociedade, presentes em cada fase histórica (NETTO, 1996).
Os recursos teórico-metodológicos inscritos na tradição marxista, juntamente com os documentos produzidos pelas entidades, o Código de Ética e o próprio papel assumido pelas entidades representativas da categoria expressam o substrato que sustenta o Projeto Profissional. Essas formulações têm sido assimiladas de forma bastante diversa no marco da agudização das lutas ideopolíticas, entre diferentes projetos, direções e requisições de demandas profissionais imediatas, tensionadas pela reconfiguração do trabalho profissional sublinhado pela reforma do Estado e das políticas sociais.
As tendências e novas exigências ao trabalho do assistente social moldam e edificam respostas diversas no âmbito da categoria profissional, afetando os posicionamentos e os princípios presentes no Código de Ética. Cada vez mais comprometida, a matriz teórico-metodológica tem dificuldades de encontrar ressonância no trabalho miúdo dos assistentes sociais.
A imediaticidade das respostas requisitadas pelos demandantes dos serviços e das políticas sociais, e também pelas instituições empregadoras, confere um status pragmático como representação ideal da profissão e como respostas socialmente adequadas do ponto de vista ideopolítico do capitalismo. A “incorporação de uma determinada racionalidade, que se constitui como modo de pensar o real e sua imediaticidade e em uma forma de conceber a relação teoria e prática” (GUERRA, 2013, p. 40), molda as respostas profissionais socialmente exigidas e determinadas pela cultura da performatividade.
À categoria mediação é atribuída uma importância impar e recorrente no trabalho cotidiano, ao assumir, no atendimento aos usuários, uma intencionalidade que busca superar o imediatismo das necessidades e respostas encontradas no pragmatismo das políticas e no próprio trabalho dos assistentes sociais. Assim, pode-se localizar uma intensa apreensão da realidade, mas esse processo não é tarefa fácil aos profissionais. Ao realizar a unidade imediata, o profissional realiza e manifesta o pensamento e a ação, não com profundidade. Com isso, pode incorrer na eliminação das mediações teóricas ou, como aponta Guerra (2013, p. 41), “a abstração das mediações, como resultado de uma apreensão da realidade na sua imediaticidade, é o procedimento da consciência comum, própria do cotidiano, que não questiona a gênese e não alcança a apreensão dos fundamentos”.
Um dos desafios postos aos profissionais é a superação da fragmentação dos programas e políticas sociais, o esquartejamento das demandas. Por meio do atendimento, deve-se compreender a totalidade do indivíduo, mesmo que a organização dos serviços e as ações não permitam atender todas as necessidades apreendidas e mesmo constatadas. Devido à configuração da estrutura social, os usuários jamais conseguirão ter todas as necessidades atendidas.
O movimento dos profissionais em direção aos princípios do Código de Ética e da direção social, subscrita com a matriz teórico-metodológica assumida pela profissão,
é matéria inalcançável em sua totalidade. Não pode ser realizada unicamente com o trabalho miúdo do assistente social. Tampouco pode o profissional depositar todas as suas esperanças no enfrentamento solitário a um projeto mais forte e superior a ele. A frustração é matéria recorrente.
O Estado e as políticas sociais, mesmo replicando o vocabulário da profissão53, caminham noutra direção, seguem associados às respostas instrumentais e
pragmáticas. Pragmatismo que Netto (2009, p. 117) chamou de Serviço Social tradicional até o processo de ruptura, denominando-o de “prática empirista, reiterativa, paliativa e burocrática”. Manifesta-se atualmente na lógica das competências instrumentais e quantificadoras do trabalho cotidiano.
As políticas sociais, percebidas também como produção intelectual que expressam certa objetividade, são incorporadas e implementadas pelos profissionais responsáveis pela ação prática. Esses também são os únicos responsabilizados, caso a implementação não ocorra como pretendido no texto da lei. Sendo assim, o processo que engloba a produção e a implementação das políticas sociais é confuso, caótico e complexo. Confuso por expressar a pouca nitidez do texto da lei, pela composição caótica de um conjunto de tendências insociáveis conceitualmente. Isso torna complexa a execução da política, por tantas variações de compreensão e formas de operacionalização. Percebe-se como instável e, em alguns momentos, contraditório. Perpassa por conflitos, lutas multifacetadas, valores, interesses e significados.
Durante o processo, o que se percebe é que os sujeitos que põem em movimento as políticas, sendo responsáveis pela sua transformação, enquanto texto ou discurso para a ação prática, não são os mesmos formuladores. Assim, os sujeitos envolvidos modificam e recontextualizam a política por meio de “definições criativas” na operacionalização, dado o contexto de influência, de produção, da prática, dos resultados
53 Tendencialmente assistentes sociais vem compondo os quadros de formuladores de políticas e programas
sociais, além da participação das conferências setoriais das políticas sociais, essa participação, gradativamente tem possibilitado avanços ideopolíticos, mas ao mesmo tempo que o Estado absorve a textualidade e o vocabulário da profissão no texto de leis e deliberações de Conferências isso não significa uma transmissão do conteúdo conceitual do termo para a política, no âmbito do desenvolvimento e aplicação da política as correntes funcionalistas são sobreposta as terminologias como “emancipação política ou emancipação humana”, o rigor desses conceitos não é estrutural na execução da política social, apenas figurativo.
esperados e das estratégias políticas, que são expressões da profissionalidade de cada um e de sua consciência mais ampla (BOWE, BALL e GOLD, 1992).
Esse estado das políticas sociais tem fragilizado o trabalho profissional e sua direção, uma vez que a fórmula da política atribui ao usuário a situação de “problema”. Nunca a política pode tornar-se mais um instrumento de penalização pela condição de pobreza expressa pelo sujeito, mas sim um instrumento de atenção às suas necessidades biológicas e sociais. Essa corrente tem sido reforçada pela natureza das políticas sociais e peculiarizada pela recorrente reatualização do conservadorismo cristão em sua forma pentecostal, que naturaliza a pobreza, mas a pune como fracasso ou falta com o sobrenatural, em alguns aspectos reforçando a proposição da ativação em outro campo.
A reatualização do conservadorismo pela proliferação de igrejas cristãs tem abarcado um número maior de pessoas, especialmente nas periferias das cidades. Segundo esses dogmas, a pobreza é culpa do sujeito, por não se esforçar suficientemente no trabalho ou na submissão de qualquer trabalho, para, com isso, adquirir qualquer tipo de rendimento e cumprir suas obrigações com o dízimo dessas igrejas. A pobreza, então, passa a ser reforçada como questão moral e não como determinante estrutural da sociedade. Por essa incursão, a proposição da ativação se faz presente mesmo na fé e nas crenças ao sobrenatural, ou apenas é reatualizada onde parece ter surgido.
As tentativas e estratégias que os assistentes sociais vêm desenvolvendo pautam o trabalho profissional na intenção de ir além do arcabouço tecnocrático e burocrático das políticas e programas sociais. As táticas buscam refletir com o usuário, quando possível, sua posição no mundo enquanto sujeito, desconstruir preconceitos, refletir sobre a importância da participação em espaços coletivos. Por esse viés, os profissionais conseguem se aproximar dos princípios da matriz teórico-metodológica e do Projeto Profissional. E com suas devidas restrições e limitações ir além do imediatismo pragmático.
Os assistentes sociais encontram-se numa fronteira delicada entre o policiamento da pobreza e a atenção das necessidades dos usuários, tarefa permeada de interesses e intencionalidades, que não inicia ou termina com o trabalho desses profissionais.
Questões mais gerais são expressas pelo corpo profissional, recorrente em textos, discursos, debates, dentre outros. Reeditam motes relacionados aos Direitos Humanos ou associam o trabalho do dia a dia à atenção das necessidades mais visíveis dos usuários, a questões ligadas à efetivação dos Direitos Humanos. Contudo, nessa trincheira percebe-se e contradição do trabalho, pois ao mesmo tempo em que se realizam ações e serviços para viabilizar serviços sociais à população, também estão submetidos à fragmentação das políticas, ao Estado mínimo e às implicações desse arsenal neoliberal no cotidiano. Grosso modo, na execução do trabalho os profissionais percebem os limites institucionais, políticos e técnicos para efetivação das diretrizes do Projeto Político e de tudo o que ele representa para a categoria.
As ações mais simples e corriqueiras, em muitos momentos, geram pontos de tensão, não somente entre os profissionais e a instituição detentora do monopólio dos serviços e prestações sociais onde o profissional atua, mas, sobretudo, também com os profissionais que assumem cargos na hierarquia institucional ou são lotados em outros serviços.
As denúncias recorrentes, dirigidas às Comissões de Fiscalização dos Conselhos Regionais de Serviço Social e entre os assistentes sociais, apontam profissionais que ocupam instâncias superiores na hierarquia institucional e rompem com os princípios acordados pela categoria. Contraditoriamente, assumem um discurso progressista, mas efetivam uma prática burocratizada, pautada em exigências numéricas e no desempenho individual dos assistentes sociais que estão na linha de frente dos serviços.
Como expressões da manifestação desse processo, que além de corroer a imagem profissional transmutam seus princípios, pode-se citar: a criação de cargos genéricos, como o de analista; a reforma das nomenclaturas de cargos em governos; a criação de competências ao invés de elencar profissões para preenchimento de determinados cargos no setor público. Outra questão refere-se ao comprometimento de profissionais de outros serviços auxiliares, contratados pela rede socioassistencial, que desempenham o seu trabalho em ambientes precarizados, mal remunerados, pouco valorizados, com limitações físicas e de recursos. Conduzem ao atendimento os casos mais urgentes entre os já urgentes, reforçando a fragmentação dos serviços e acirrando o descompasso na atenção às necessidades e demandas dos usuários.
A disputa de forças entre profissionais institucionalizados no setor público com profissionais que prestam serviços às ONGs também tem se apresentado como uma questão delicada. Em tempos sombrios para o mercado de trabalho, pela rápida ampliação de oferta de profissionais formados nas mais diversas modalidades e com o aligeiramento da formação, a crítica rasa de uma parcela crescente de profissionais apreende as ONGs como espaço de trabalho de excelência, e os profissionais assumem um discurso pró- Terceiro Setor, com destaque às ONGs.
Esse movimento pode ser compreendido a partir dos elementos já apresentados no presente texto, com base na qualificação de estratos subalternizados, parcos de capital cultural e que buscam melhores condições de vida e trabalho, com a ascensão a uma profissão de nível superior. O posto de trabalho na ONG e sua defesa perpassam pela compreensão e posição que o profissional ocupa na estrutura social, considerando os benefícios que lhe são conferidos ao comparar sua posição com outros membros do estrato social de onde proveio.
Esses elementos contêm um dado fundamental para compreender que o Projeto Profissional acorre com mais precisão no campo ideológico do que teórico- prático. No isolamento do trabalho cotidiano, os profissionais assumem posições pessoais, valores e entendimentos diversos, representados no trabalho com os usuários, com visões de acompanhamento muito distintas, por exemplo. Ou, ainda, quando exercem a passividade diante das requisições tecnicistas.
3.2 O saber fazer e a reificação: competências e atribuições no trabalho dos