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O pensamento de Roberto Simonsen

2. A segunda fase do pensamento de Simonsen: a afirmação da indústria e a ‘longa elaboração’.

2.1. A necessidade da indústria e uma reorientação de prioridades.

Em Orientação Industrial Brasileira existe uma síntese de alguns importantes argumentos de Simonsen, desenvolvidos nas décadas seguintes. Esse texto consiste no discurso de solenidade da fundação do CIESP em 1928. O argumento que se destaca é a resposta que Simonsen dá à questão da inflação: não são os preços que são altos, mas sim os salários é quem são baixos, e isso porque a economia é pobre; e é pobre por causa das assimetrias nas trocas internacionais. A baixa competitividade da economia brasileira no mercado internacional é causada pelas fortes desigualdades em termos de capacidade produtiva em comparação com os países industrializados. A saída dessa situação de aprisionamento consiste na industrialização; no texto de 1928 Simonsen coloca como condição para a industrialização câmbio estável e política protecionista.

País vastíssimo, com populações disseminadas e pouco condensadas, com abundância de matérias-primas, e com dificuldades de transportes oriundas da sua formação topográfica e geológica, o Brasil iniciou no período colonial as primeiras indústrias locais, de caráter primitivo, pára o fabrico de produtos indispensáveis (SIMONSEN: 1973, p.53).

Para Simonsen a indústria tem como finalidade principal a independência econômica, condição para a plena independência política. Tal independência necessita da forma industrial de organização da economia, a qual também eleva o bem estar, uma vez que torna o mundo da produção mais eficiente e aumenta o nível de riqueza, o que incentiva o consumo e, novamente, a produção. Evidente seria, portanto, o papel civilizador da indústria, visto que melhora as condições de vida e não apenas da produção, e incentiva o desenvolvimento científico e tecnológico, assim como fomenta a cultura erudita em geral, e dá condições para a difusão do ensino em todos os níveis.

Em 1929, no texto A Era do Industrialismo, Simonsen reafirmaria contundentemente a troca de papéis da indústria frente a agricultura. Aqui novamente a

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indústria deve ser o eixo dinâmico não apenas de uma nova economia, todavia mesmo de um novo país, visto que ela significa o caminho para a modernidade.

Um moderno escriptor, (1) apreciando o dynamismo das sociedades humanas, e de como elle se projecta na tela da Historia, accentúa obedecer esse movimento a phases pronunciadamente cyclicas. [...]

Em cada periodo existem forças que actuam predominantemente na evolução co cyclo e faz esse autor resaltar que, na phase actual da humanidade, o industrialismo é sem favor, um dos agentes predominantes na formação do cyclo em que vivemos. (SIMONSEN: s/d, p.184)

Em nota de rodapé, Simonsen atribui a idéia a Bertrand Russel. A outrora aliança café-indústria agora parece desmontar pelos alicerces: diferentemente do que afirmaria também em 1929 em A política brasileira de defesa do café, de que não é possível abandonar a atividade cafeeira porque ela é a mais rentável em vista da pauta de exportações. Esse texto é claramente um recuo de Simonsen em relação aos dois anteriores, e mostra algum grau de incerteza frente à sua posição em relação a agricultura. Sua posição mudaria de maneira paulatina, de modo que As Finanças e a Indústria (1931) parece ser o marco definitivo da inversão de papéis entre agricultura e indústria.

Simonsen colocaria paulatinamente a necessidade de industrialização enquanto condição historicamente necessária para o país. É uma mudança bastante brusca, embora o papel do Estado viesse a padecer de pouca resolução no pensamento simonseano até 1937. Fosse como fosse, a questão da proteção à indústria nacional estava posta mesmo no texto de 1928 como condição de crescimento econômico e independência.

Simonsen em Orientação Industrial Brasileira argumenta ainda que os opositores à industrialização conspiram para o regresso econômico do país. (SIMONSEN: 1973, pp.54-55)

Na formação dos grandes impérios coloniais, o que a nação diretora, o que mãe pátria tem sempre em vista, é a criação de novos mercados para as suas indústrias, mercados esses que lhe ficam em subordinação econômica e política. Basta mencionar que em 1750 a Inglaterra, desejosa de manter para si o monopólio dos mercados coloniais americanos, proibia nestes a fabricação de um simples prego de ferro.

Assim, os brasileiros que combatem a implantação e disseminação das indústrias no país, fazem consciente ou inconscientemente obra a favor das

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nações estrangeiras, interessadas na conquista dos nossos mercados, trabalhando para que retrogrademos à posição de colônia dos produtores estrangeiros à mercê ainda de um bloqueio econômico em caso de guerra. (idem, p.55)

Simonsen em Orientação Industrial Brasileira tentara conjugar interesses entre agricultura e indústria ao desenvolver uma idéia singular de crescimento ‘para dentro’. Existe no texto de 1928 um claro redirecionamento à indústria. Simonsen argumentaria firmemente que o próprio crescimento agrícola dependeria do atendimento à demandas por produtos industrializados no campo, assim como a indústria precisaria de abastecimento constante de gêneros agrícolas – fossem alimentícios ou matéria-prima. (idem, pp.55-56)

O que está em jogo aqui é um argumento desenvolvido a posteriori que é: a necessidade de expandir o mercado interno de produtos industrializados, num primeiro momento. Expandindo para dentro, seria atendida a demanda reprimida no interior por produtos industrializados, assim como a formação de um colosso econômico urbano- industrial geraria demanda efetiva para a agricultura, o que monta um esquema de crescimento em ciclo. Todavia, e nisso Simonsen dava algum sinal de certeza em 1928, o que estaria sendo construído com tal crescimento cíclico seria a economia industrial, modificando as relações econômico-políticas em termos de economia nacional.

O importante quando se fala em indústria são os efeitos na sociedade em que ela gera, principalmente em vista do problema da pobreza. A indústria gera mais valor agregado, aumenta a riqueza do conjunto social, e faz avançar a marcha em direção ao moderno. A partir desse momento rompe-se no pensamento simonseano a relação de dependência que a indústria sofria em relação a agricultura. A indústria é antes de tudo uma relação de produção, e sua relação com o mundo agrícola tradicional e hegemônico deve ser de complementaridade econômica: a indústria não vem mais a reboque da agricultura.

É por isso que Simonsen rebate o argumento de que a “verdadeira indústria” teria que usar apenas matéria-prima nacional. No caso inglês, por exemplo, Simonsen lembra que a indústria importava matéria prima para processar e transformar em produto industrial e tornar a exportar; tendência essa que só veio a aumentar. Simonsen salienta que o valor agregado à mercadoria na forma de trabalho conta muito mais do que a origem da matéria prima, o que conta a favor da indústria. (idem, pp.56-57) Por outro lado, Simonsen rebate, com dados do censo de 1920, o argumento liberal do pleno emprego no Brasil (idem, p.59). Ora, havendo mão de obra em abundância, somada com

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as riquezas naturais privilegiadas do Brasil, temos dois de três fatores fundamentais para o desenlace da industrialização em larga escala – o terceiro fator seria o imenso aporte de capital necessário para tal empreitada, mas que em Orientação Industrial Brasileira ainda não está entre as preocupações fundamentais de Simonsen.

O argumento do pleno emprego sazonal seria um obstáculo à idéia de industrialização, pois os proponentes dessa idéia argumentavam que obras públicas e a industrialização, apoiadas pelo gasto público estatal, desviavam mão de obra da agricultura, gerando demanda de força de trabalho reprimida. Entre os proponentes dessa idéia estava, notadamente, Eugênio Gudin. Toda a mão de obra no Brasil, de acordo com essa corrente, estaria empregada permanentemente; em vista de uma economia então predominantemente agrícola, essas populações estão sempre em diferentes atividades, em vista das diferentes ocupações nas entre-safras. Argumentando pelo contrário, Simonsen sugere que fluxos migratórios viessem a equilibrar a relação entre oferta e demanda entre força de trabalho e produção; todavia, apenas em 1940 no texto Recursos econômicos e movimentos das populações é onde Simonsen desenvolveria o argumento. Pode-se supor que Simonsen quisesse se livrar dessa dificuldade logo em 1929, no texto A política brasileira de defesa do café, quando propõe fortemente a racionalização do trabalho nos cafezais.

As Finanças e a Indústria (1931) entra aqui como um divisor de águas. Até aqui já houvera uma defesa da industrialização enquanto necessidade sócio-histórica. A independência econômica no entender de Simonsen depende decisivamente do aumento da produtividade, o qual depende exclusivamente de uma economia em bases industriais. Todavia Simonsen ainda parece vacilante em pontos fundamentais: deve ser a indústria ou a agricultura segmento prioritário em matéria de política econômica? Deve o Estado intervir de maneira significativa frente a uma reorganização da agenda governamental para a economia nacional e o comércio exterior? É necessária tal reorganização? Pode-se dizer que no texto de 1930, As Crises no Brasil, Simonsen dá uma resposta afirmativa para a segunda questão, enquanto que desenvolve as outras duas no texto de 1931.

Aqui Simonsen avança de maneira mais decidida sobre o papel da indústria frente à questão nacional. Coloca novamente a questão da pobreza, mas pela primeira vez de maneira mais contundente. É a primeira vez em que joga com a renda nacional como variável decisiva para apontar a pobreza como problema nacional, e um plano de como erradicá-la. Retoma idéias que já estavam presentes em O Trabalho Moderno: a

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organização científica da produção é capaz de gerar bem estar social porque aumenta o volume de riqueza para o conjunto social, e dá coesão ao tecido social uma vez que elimina os conflitos de classe, e faz avançar a marcha da civilização. Aqui Simonsen desconecta o último fio que amarrava a indústria a uma situação de dependência em relação à agricultura, e daqui para frente faria uma defesa contumaz da indústria, abandonando definitivamente aquela posição defensiva de outrora.

As Finanças e a Indústria consiste num discurso proferido por Simonsen no Mackenzie em 193129. Nesse texto Simonsen retoma a questão da importância da industria no processo de modernização. O texto é um avanço definitivo em relação ao impasse de Simonsen em 1929 acerca da relação agricultura-indústria: é a indústria quem deve orientar o novo eixo dinâmico da economia. Além disso, Simonsen defende nesse texto que a industria está em consonância com a marcha da civilização, portanto com o alvorecer de uma nova sociedade: superação de antigos problemas, busca de soluções para problemas novos. Notar que Simonsen percebe os problemas trazidos com a modernidade como etapas necessárias de um longo processo civilizador. Ao longo desse processo, a superação ininterrupta dessas dificuldades é quem faz avançar tanto a ciência e a técnica quanto aumentar a coesão social.

No mundo moderno, na era de industrialismo em que vivemos, o enriquecimento dos povos e a sua vida financeira estão intimamente ligados á evolução industrial e o bem estar das populações está dependendo dos magnos problemas que da evolução industrial vão surgindo continuamente, a desafiarem a sagacidade e a intelligencia humanas. (SIMONSEN: s/d, p.219)

Como solução de antigos problemas, Simonsen destaca de uma maneira geral o problema da escassez, seja de bens de consumo em geral, seja particularmente meios de subsistência. Embora substituído pelo desemprego e demais problemas inerentes à modernidade industrial, a fome generalizada e endêmica não pertence ao mundo moderno da afluência (SIMONSEN: s/d, p.223). Ora, esse elemento – crucial para se falar em mundo moderno – é o que liga a industrialização com o processo de formação de um mundo moderno e urbano, em substituição ao mundo arcaico remanescente. O processo civilizador para Simonsen parece ser esse movimento contínuo de superação seguido de novos problemas, com a busca pela nova superação, etc., com o conseqüente

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progresso científico – o qual, ele mesmo, é fator para o próprio progresso da civilização. Sem dúvida, a partir de As Finanças e a Indústria Simonsen atribuiria caráter civilizatório à missão de aumento da renda nacional.

Simonsen assinala a expansão industrial como fator essencial para o enriquecimento das economias nacionais. Aponta primeiramente o caso da Inglaterra: a sua superioridade econômica lhe garantira a conquista da hegemonia internacional frente a superioridade militar francesa durante o século XIX. (SIMONSEN: s/d, pp.220- 221)

Simonsen estabelece uma relação forte entre aumento da renda nacional inglesa (decorrente, notadamente, da industrialização), com o enriquecimento daquela economia nacional, e a conquista da hegemonia internacional. Um detalhe interessante aqui é o fato de Simonsen já ter ciência do trabalho de Josiah Stamp acerca da renda nacional da Inglaterra, cujo modelo Simonsen usaria na controvérsia de 1944-1945 com Gudin, para defender o argumento da baixa renda nacional brasileira.

Comprehenderam os ingleses a fonte formidável de enriquecimento que tinham em mãos e toda sua politica foi, então, encaminhada para a expansão industrial, a conquista de mercados e o estabelecimento de grandes linhas de comércio; a Inglaterra ficaria assim praticamente senhora do mundo. Cessado o bloqueio continental, após a batalha de Waterloo, o enriquecimento da Grã-Bretanha attingiu a cifras consideráveis, tornandose esse paiz, no dizer de Oliveira Martins, a fabrica-banco do mundo. [...] em 1914, Sir Josiah Stamp calcularia a riqueza britanica em 14 bilhoes e 300 milhoes de libras ou sejam 318 libras por cabeça. (SIMONSEN: s/d, 220-221)

A indústria aparece aqui como elemento de progresso civilizatório per si. O barateamento da produção conjugado com o aumento tanto da riqueza do conjunto econômico quanto com a dos próprios salários consistirá no modus operandi do processo modernizador. A modernização da sociedade, a construção do Estado moderno, e o avanço da urbanização são conseqüências do processo de industrialização, assim como também o é a dissolução inexorável do arcaico. Os novos problemas e dilemas trazidos com a modernidade, assim como os movimentos pela própria resolução desses problemas, fazem avançar tanto o processo civilizatório quanto a coesão da vida social e política. Nesse ponto é que Simonsen apontará que, embora a primeira Revolução Industrial tenha trazido problemas em termos de relações de trabalho quanto

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das condições de vida nas primeiras cidades industriais, a resolução desses problemas pela reivindicação sistemática dos trabalhadores e mesmo pela sua organização de interesses fizeram emergir uma sociedade pluralista e mais justa.

De acordo com Simonsen, a modernização trazida com a Revolução Industrial trouxe consigo também uma série de problemas sociais relacionados à desigualdade social e a questão dos direitos. Como resposta a isso, houve ampla resistência dos trabalhadores ao processo de industrialização na Grã Bretanha. Simonsen assinala que o movimento operário inicial, fortemente marcado pelo ludismo, combatia fortemente a concorrência atroz da máquina em relação ao braço humano. Essa reação derivaria da própria alienação do trabalho, notadamente na transformação do artesão em operário na manufatura e maquinofatura. Decorrente do próprio desenvolvimento industrial na Grã Bretanha, os movimentos de greve passaram a “constituir parte da vida orgânica industrial ingleza” (SIMONSEN: s/d, p.222), passando a lutar por direitos sociais e melhores condições de trabalho, em substituição aos primeiros movimentos de destruição de máquinas; trabalhadores organizados constituiriam as “Trade Unions”, reconhecidas a partir de 1871, fazendo com que “o proletariado inglez constituiu um dos partidos políticos preponderantes no grande império” (idem, ibidem).

É interessante notar que Simonsen vê com lentes otimistas a resolução da questão social na Inglaterra pelas vias políticas, embora em O Trabalho Moderno houvesse defendido as vias econômicas como resolução de conflitos no caso brasileiro. É que a própria conciliação de classes por negociação direta, assim como a remuneração em fração consideravelmente individual, constitue parte do projeto industrialista em amadurecimento. Tal princípio entra em consonância com a industrialização acelerada e a eventual queima de etapas decorrente dela, a qual pede solução mais rápida e eficiente acerca de disputas trabalhistas.

Todavia acentuar a preocupação de Simonsen acerca da elevação tanto da renda quanto dos salários. Altos salários garantem coesão social, demanda efetiva, e alguma garantia contra greves. Porém, altos salários, assim como o barateamento da produção, dependem de eficiência econômica, e aqui a racionalização do trabalho tem papel fundamental. Em As Finanças e a Indústria Simonsen destaca com maior atenção a importância dos altos salários e da diminuição das horas de trabalho, conjugadas com o aumento da eficiência produtiva. Essas três coisas casadas poderiam proporcionar tanto um crescimento industrial acelerado – porque em ciclo – quanto bem estar social, uma

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vez que o nível geral de consumo também aumenta paralelamente. Nessa parte Simonsen faz uma opção decidida pelo fordismo.

Foram todos esses aperfeiçoamentos que permittiram a politica dos altos salários, estando victoriosa a opinião entre os chefes da industria americana que os salários altos e o numero reduzido de horas de trabalho são necessários para augmentar o poder de consumo das massas operárias. [...] Emquanto, após a guerra, o custo de vida augmentou de 75%, os salários augmentaram de cento por cento permittindo um grande augmento de bem estar para as classes operarias. Mas é a politica de Henry Ford que fornece um verdadeiro padrão dessa nova mentalidade. (SIMONSEN: s/d, p.227)

A escolha mais pelo fordismo do que pelo taylorismo é outro avanço notável do pensamento de Simonsen em As Finanças e a Indústria. De acordo com Simonsen, enquanto o taylorismo puro enfatizava o aproveitamento ótimo do tempo de trabalho juntamente com a maximização da produção, o fordismo está mais preocupado com a redução do esforço combinada com a maximização da produção. “O trabalhador da Ford pode dentro da tarefa prescripta encontrar seu rithmo pessoal e o trabalho perde, então, a monotonia do systema Taylor.” (SIMONSEN: s/d, p.230). Juntamente com a defesa do sistema de altos salários com o barateamento da produção Simonsen amplia o escopo do projeto industrialista abrindo a possibilidade de ampliar o arco de alianças em direção à classe trabalhadora.

Numa análise do caso da implementação do sistema fordista na Alemanha Simonsen sugere que onde tal sistema é aplicado seus efeitos positivos logo são sentidos. Simonsen discorre longamente sobre os efeitos da organização científica do trabalho na Alemanha, campanha então em pleno êxito. O exemplo é análogo ao caso do fordismo nos Estados Unidos, e o objetivo é mostrar que países que seguem o caminho americano da produção em massa casada com altos salários e mercadorias baratas vislumbram efeitos sociais os mais benéficos. Chama a atenção nessa parte de As Finanças e a Indústria um ataque direto ao marxismo: a sociedade organizada a partir da racionalização do mundo da produção experimenta um aumento geral no nível de riqueza, realizando um movimento amplo e contínuo de expansão da classe média, situação na qual a economia de mercado é capaz de garantir bem estar.

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A racionalização tem profundos effeitos sociaes e age claramente contra idéas fundamentaes do marxismo. A theoria dos altos salários está formando uma classe média muito mais numerosa que, podendo applicar suas economias nos systemas financeiros modernos, se interessa directamente na producção beneficiando-se da parte correspondente aos lucros do capital. O desenvolvimento continuo da cultura technica e profissional, reclamada e recommendada pelos proprios syndicatos operários, a admissão do contrôle operario na solução dos problemas econômicos, vão arrefecendo, naturalmente, a luta de classes annunciada e preconizada por Karl Marx. (SIMONSEN: s/d, p.243)

Frente a polarização ideológica causada pela luta de classes, Simonsen argumenta pela solução técnica dos conflitos, em vista de um entendimento “equilibrado” dos problemas. Ao passo em que tais conflitos são resolvidos se fortalece uma vontade geral a qual dá coesão ao tecido social outrora corroído, pelas próprias forças que vieram com a modernidade.

A própria sciencia com os estudos profundos de psychico-techcnica, da physiologia e da sociologia vae trazendo ao homem os dados para a determinação do verdadeiro equilíbrio entre os elementos que constituem as forças vivas da producção. E a natureza, a sciencia e a experiência secular, vão salientando que os indivíduos, como os povos, são forçados a conquistar pelo trabalho e pelo esforço, sem situações privilegiadas, a posição de relativa normalidade que todos reclamam para viver, dentro de um equilíbrio harmônico entre as grandes forças productivas, animados por um espirito de solidariedade e collocando acima de seus proprios interesses immediatos os da collectividade. (SIMONSEN: s/d, pp.243-244) A ciência, portanto, desempenha papel fundamental na organização do mundo imaginado pelo industrialismo. A solução pacífica dos conflitos, e sua implementação pelo planejamento científico, reforça o consenso social, dá solidez à coesão social, e faz avançar o desenvolvimento econômico e social. É interessante notar que a figura do técnico enquanto tal, a qual viria a emergir com toda força nos anos do nacional- desenvolvimentismo, é uma peça importante no projeto industrialista em formação já nos anos 1930. Notadamente, Simonsen atribuiria a função de formação intelectual dessa elite dirigente dessa nova sociedade à Escola Livre de Sociologia e Política.

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2.2. A independência econômica no pensamento de Simonsen e uma