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A NECESSIDADE DE SE CONFERIREM PRERROGATIVAS PROCESSUAIS

4 ISONOMIA E NORMAS FAZENDÁRIAS

4.2 A NECESSIDADE DE SE CONFERIREM PRERROGATIVAS PROCESSUAIS

Pereira (2008, p. 26) faz a seguinte indagação: “são legítimas as diferenciações processuais realizadas em favor da Fazenda Pública?” Com a incumbência de defender o erário e o interesse público, é natural que a Fazenda Pública seja detentora de determinadas prerrogativas a fim de evitar prejuízos à sociedade. Nunes (2012, p. 36) defende que “as prerrogativas são justificáveis, em grande parte, pelo fato de a Administração Pública defender o interesse público.”

Nery Júnior (1996, p. 45) expõe que:

Ora, a Fazenda Pública, que é representada em juízo por seus procuradores, não reúne as mesmas condições que um particular para defender seus interesses em juízo. Além de estar defendendo o interesse público, a Fazenda Pública mantém uma burocracia inerente à sua atividade, tendo dificuldades de ter acesso aos fatos, elementos e dados da causa. O volume de trabalho que cerca os advogados públicos impede, de igual modo, o desempenho de suas atividades nos prazos fixados para os particulares.

Cunha (2013) explica que estes argumentos já seriam suficientes para demonstrar que a Fazenda Pública se apresenta em condição bastante diferenciada, merecendo, por isso, um tratamento diverso daquele que é conferido aos particulares. Dessa forma, para atuar da melhor maneira possível, é necessário que se concedam condições necessárias e suficientes para tanto. Sendo a Fazenda Pública desigual frente os particulares, somente será atendido o princípio da isonomia se lhe for concedido tratamento desigual. Por isso, aliado ao fato da Fazenda ser promotora do interesse público, se justifica a manutenção de prerrogativas processuais e não privilégios, instituídas em favor das pessoas jurídicas de direito público.

Pereira (2008, p. 27) dispõe que:

Em pensamento superficial, a edição de lei destinada à regulamentação de situação exclusiva da Fazenda Pública seria inconstitucional – automaticamente direcionada e sem nenhum grau de generalidade. Mas não. A Fazenda Pública tem status peculiar. Ela, apesar de sintetizada em uma pessoa jurídica, haja vista necessidade dogmática, não pode ser confundida com um simples ente jurídico. Não é mais uma pessoa jurídica. Sua feição é única: não é a projeção de uma pessoa formal, mas de todas as pessoas amalgamadas.

Nunes (2012) ressalta que o Estado é muito acionado em juízo e por possuir um grande quantitativo de processos, deveria possuir igualmente um número de advogados públicos, o que não ocorre na prática. De outro prisma, na advocacia privada, atualmente, existem inúmeros advogados para atender as demandas. Isso porque a procura pela advocacia é grande. Além disso, se o escritório se encontra com muitos processos, pode recusá-los ou contratar mais profissionais. Diferente do que ocorre na administração pública, onde o advogado público não pode deixar de atuar sob pena de responsabilidade funcional. Outra questão peculiar, é que a contratação de servidores exige observância ao princípio da legalidade, do concurso público e da reserva orçamentária.

Alvares (2004) defende, ainda, que se com o regime de precatórios se corre um risco de colapso no sistema, sem o regime de precatórios seria o caos. Isso porque em muitos Municípios, as receitas públicas não conseguem sustentar a máquina estatal, o que em última análise, acarreta prejuízo à população.

Costa (2011) leciona que a Fazenda Pública quando contesta ou recorre, tem sob sua responsabilidade a proteção do erário, o que justifica a concessão da extensão dos prazos. Quando em juízo, a administração encontra muitos empecilhos à sua atuação, seja pela elevada carga de processos, seja pela atuação dos seus procuradores que não tem acesso imediato às provas, pois dependem do fornecimento de documentos por órgãos públicos burocráticos. Dessa forma, as prerrogativas não deixam dúvidas sobre sua constitucionalidade e indispensabilidade.

Alvares (2004, p. 1372) ressalta que:

As razões existentes para justificar as prerrogativas são fortes o suficiente para conferir que a desigualdade legal inserta do ordenamento jurídico teve por fundamento igualar, em tempo real, as partes no processo. E, evidentemente, não se precisa vivenciar o problema internamente para entender que a defesa da Fazenda Pública, em razão da complexa organização da máquina administrativa, sufocada, ainda, pelas sujeições legais e regulamentares, impõe tempo superior ao conferido ao particular. Se

a lei não lhe conferisse prazo em quádruplo para contestar e em dobro para recorrer seria impossível reunir todos os elementos jurídicos necessários à fabricação da peça processual pelos representantes judiciais da União, Estado, Municípios, Distrito Federal, suas autarquias e fundações públicas, fato que somente viria a prejudicar a sociedade, eis que reiteradas perdas judiciais, a nível orçamentário, podem representar sério risco fiscal.

Cunha (2013) ressalta que as vantagens processuais conferidas à Fazenda Pública são revestidas de prerrogativas, as quais possuem fundamento razoável para atender o princípio da igualdade. Além de estar defendendo o interesse público, a Fazenda mantém uma burocracia, tendo seus procuradores, por vezes, dificuldades na consecução de elementos, dados e fatos para instrução de suas peças.

Nunes (2012) explica que a Fazenda Pública somente foi dotada de prerrogativas, pois são necessárias para a concretização da isonomia em sua visão aristotélica. A Fazenda Pública é detentora dessas garantias, uma vez que defende o interesse público, enfrenta dificuldades de se manifestar por meio desses órgãos, enfrenta a multiplicidade de matérias e um grande quantitativo de processos a que está submetia, entre outras particularidades.

Costa (2011, p. 65) dispõe que:

Equiparar, em todas as situações, o particular à Fazenda Pública, além de ser pretensão fadada ao insucesso, poderia trazer consequências desastrosas à Administração, enquanto protetora do interesse público, motivo por que o tratamento desigual, que vise ao equilíbrio de partes desiguais, não deve ser considerado inconstitucional. Pelo contrário, é medida que se justifica desde que aplicada com cautela e em observância ao principio da isonomia, valendo, uma vez mais, ponderar que isonomia não é tratar todos de maneira idêntica, mas evitar que diferenciações injustas e infundadas sejam cometidas.

Cianci, Quartinieri e Ishikawa (2011) explicam que há a necessidade de se estabelecer equilíbrio na relação processual em que o poder público faça parte. Dessa forma, entendem legítima a previsão no ordenamento processual, dando ensejo a uma tutela jurisdicional diferenciada em razão das especificidades do direito material público.

Alvares (2004) dispõe que o regime jurídico administrativo impõe à Administração prerrogativas e sujeições, que identificam a sua atuação traçadas pela fabricação do bem comum e na consecução do interesse público. Dessa forma, as prerrogativas processuais conferidas no ordenamento jurídico não surgem como

exceção à regra, mas como regra a ser aplicada as lides que envolvam a Fazenda Pública em razão do direito público que ela se submete.

Pereira (2008, p. 28) destaca que “presume-se que o poder público esteja sempre debatendo direitos que assumam um colorido de maior destaque”. Esta conclusão não ofende nenhum valor constitucional, muito menos ofensa a isonomia. A razão da diferenciação é justificada.

4.3 PRERROGATIVAS DE ACORDO COM O NOVO CÓDIGO DE PROCESSO

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