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4a Estilos de desenhos escolhidos emmulheres

FOTO 3.4 GEZA F ONTE : A AUTORA , (2002)

3.2.2 A NECESSIDADE DE TATUAR-SE

Quando comecei a tentar compreender o sentido do “fechamento progressivo do corpo”, encontrei-me ante uma resposta generalizada que me deixava com a sensação de estar na superfície do problema. Essa resposta era: “sentir vontade”, como algo forte, intenso, que impulsionava os indivíduos a seguir se tatuando. Assim expressam eles tal sensação:

Tatuar faz falta, se tem vontade de tatuar, é um negócio quase animal... É tudo, é ver o tatuador ai trabalhando em tua pele, botando o desenho ali, que não é um desenho encima de tua pele, é dentro de tua pele, com agulinha, não é para qualquer um, senão todo mundo tinha, tu tem que ser macho para aguentar, entendeu? O melhor tu tem que ser mulher para aguentar porque mulher agunta melhor que homem. Depois que tu sais da tattoo tu comes bem, tu dorme bem, tu te achas a pessoa mias linda do mundo (GESA). A vontade é contínua, isto eu te coloco, eu sempre tive vontade, eu sempre gosto de me tatuar, mas normalmente eu procuro definir um desenho, normalmente eu costumo observar os desenhos que eu tenho e ver aonde eu posso mexê-los (ADRIANO).

Idéias tenho poucas, não tem muita idéia não. Vontade. Aquele tabu que existia já não, um prazer, uma satisfação por ter, cada um sente saudade, sente falta (FABRICIO).

Tenho bastante vontade si de tatuar, da vontade, de tatuar e de ver o desenho, os dois porque a preparação também é legal, o medinho da

agulha também é legal, depois quando está prontinho na pele é legal (SILVANA).

Eu sinto falta quando fico dois, três meses sem me tatuar, vou sentir falta porque eu sempre gosto de fazer um trabalho novo na minha pele, se eu não trabalhasse com piercing eu seria o popular rato de estúdio, ia estar sempre buscando, fazendo trabalho com um e com outro (SAMPAIO, 25 anos, piercing).

Como se pode observar, a “vontade” tem a força do incontrolável, do irresistível, do que está por cima da razão e se coloca na dimensão dos impulsos vitais, quase “animais”, como disse Gesa, uma sensação que, pela força descrita, justificaria em si mesma o ato de seguir se tatuando. Essa é a explicação “nativa”, que, se bem me fornece um caminho de entrada, também me deixa perguntas sem respostas. Como por exemplo, como surge essa sensação? Responde só à impulsividade ou estaria ligada a outras necessidades do sujeito? É independente ou faz parte de um processo? Pode em si mesma explicar tal fenômeno?

A explicação que alguns autores fornecem, como Almeida (2001), psicóloga que faz uma pesquisa sobre a tatuagem e a formação de subjetividade entre sujeitos de classe média de Rio de Janeiro, é que depois da primeira tatuagem existe uma tendência a continuar, a não se poder parar o processo de modificação corporal, que se converte numa “vontade incontrolável que costuma assolar aos tatuados”. Isso só é detido pela pressão social que limita as opções profissionais ou pelo temor que eles sentem de “acabar [se deixando] tatuar inteiramente”. Diante disso, a autora argumenta que se delineia “uma modalidade de ´tentação` tão forte que não oferece ao sujeito outra saída que não o rompimento físico com o grupo de tatuados do qual ele faz parte” (ALMEIDA, 2001, p. 9-10).

Essa perspectiva coloca a análise, em certa medida, no mesmo ponto, na verificação de um fato: os sujeitos não param de se tatuar, sendo sua explicação para isso um impulso incontrolável, que parece situar-se acima do indivíduo e governá-lo. De tal forma, que maior que esse impulso só a renúncia, o temor, ou a busca de “proteção”, ante essa força arrasadora. Esse argumento está sustentado na perspectiva teórica do “Ocasionalismo subjetivo” de Schmitt (1986), no qual as ações, neste caso, tatuar-se, são o resultado das ocasiões, da contingência, dos “impulsos”, sem existir relação entre causa e efeito (ALMEIDA, 2001, p.10).

Sem pretender fazer um debate sobre a pertinência ou não dessa perspectiva teórica e sabendo que o enfoque da presente pesquisa está circunscrito

ao campo da psicologia, quero controverter alguns dos aspectos que a autora coloca. Em primeiro lugar, retornar a mesma pergunta com que comecei a presente reflexão e que em meu conceito ficou sem resposta dentro da argumentação: será que esse impulso é suficiente para explicar por si só o ato de se tatuar? E, se fosse assim, por que há indivíduos que têm esse impulso e outros não? Considero que os prováveis limites desse enfoque estão no fato de que não se leva em conta aspectos que podem ser relevantes para matizar ou entender tal impulso, como o contexto ou o processo que vivem em torno do ato de se tatuar.

Em segundo lugar, o sentido que a autora dá a esse impulso que em meu conceito o reduz a uma “tentação” perigosa que causa temor e da qual o indivíduo tem que se proteger. Uma valoração que me parece demasiada taxativa, sem opções, e que inclusive pareceria estar impregnada de um certo preconceito diante da possibilidade do “fechamento corporal” com tatuagens. Ante o qual surgem as perguntas: será que não existem escolhas intencionadas? Será que posso dizer finalmente que se tatuar (de forma progressiva) é um vício, ante o qual não fica mais alternativa senão fugir tal como o disse Almeida?

Não é fácil uma saída, porque evidentemente o tatuado se depara com um impulso que parece não ter, fora dele, mais explicação. A hipótese, depois de analisar o processo de tatuar e ser tatuado, é que o ato de tatuar-se começa a constituir-se numa necessidade e, como tal, expressada em termos emotivos (de vontade), a partir do momento em que o indivíduo se envolve dentro de uma prática que toca, que afeta, que muda seu ser, não pela tatuagem em si mesma, mas através do todo que vive durante esse processo de construção. E, principalmente, no contato com o tatuador, nos laços de afetividade que se criam com ele, na intimidade que os aproxima, na reflexividade que se produz em torno da busca e da vontade do tatuado, nas intensas sensações que vivem o – flow - durante o ato de ser tatuado. Tudo isso faz desse processo uma experiência total e altamente significativa que, em meu conceito, está ajudando a desvelar o sujeito, a construí-lo.

Ao ver com detalhes os elementos que se mobilizam durante o processo de se tatuar, dou-me conta que existem múltiplas sensações que passam pelo emotivo, afetivo e reflexivo, propiciadas no diálogo e na interação com o tatuador. Tudo está disposto em torno do sujeito que vai se tatuar, ele o centro de atenção, mas dentro de um processo de mediações e contatos, e de um ambiente que não deixa de ter uma certa áurea de sacralidade, de evento ritual, porque se mexe com o sangue,

com o corpo, e com o “psicológico da pessoa”, como disse Mano. Isso não tem um certo sentido religioso? Acredito que sim, no entanto, na perspectiva que coloca D’Allondans, como um tipo de religião pessoal, como ele mesmo afirma:

La crise culturelle et religieuse de la societé ocidentale explique em partie les quêtes plus intime sens. Ne se reconnaissant plus assi massivement dans institutions et les églises, le sujet moderne se construit, de plus en plus fréquemment, une religion personnelle, dans une démarche syncrétique oú transparaissent certes nombre de bricolages hasardeux (D’ALLONDANS, 2001, p. 122).

E, esta busca de “sentido íntimo” é a que leva a escolher a tatuagem entre outras opções, tal como é visto por Adriano, quando afirma que: “Existem outros artifícios, outras cascas, outras máscaras para o ser humano utilizar, porém a tatuagem, para mim ela é vista mais como uma realização pessoal, e quem faz mais por um modismo, muitas vezes acaba transformando o desenho em outra coisa, durante a sua criação de vida, sua construção vivencial”.

Dessa maneira, o processo de se tatuar, como evento que reúne importantes elementos rituais, o tipo de valoração dada pelo indivíduo a esse ato, a busca que faz e a identificação que encontra, levam-me a pensar que a prática da tatuagem assume um papel similar ao da religião, ou seja, de proporcionar ao indivíduo, tal como observou D’Allondans (2001), um pouco mais de sentido a essa dificuldade de existir. Um sentido que faz do corpo o seu próprio ícone.

E, nesse sentido, a “vontade de se tatuar” teria o lugar de uma motivação, tal como coloca Geertz, em sua análise dos sistemas simbólicos religiosos, de: “Tendencia persistente, uma inclinación permanente a realizar cierto clase de actos y experimentar cierta clase de sentimientos en cierta clase de situaciones” (GEERTZ, 2000, p. 93).

Tal motivação surge dentro desse contexto de interação, reforçada de forma rtual, principalmente, com o flow, sensação que acontece durante o momento de se tatuar, que é abrangente, que é total, que envolve o indivíduo numa espécie de paroxismo, assim, descrito pelos tatuados: “Quando tu te sentas para tatuar e tu sentes, claro, a agulha entrando na tua pele, ocorre uma liberação de adrenalina, de outras drogas do teu corpo, que te conduzem a um estado que nenhuma outra possibilidade poderia te oferecer...” (ADRIANO). Isso unido à busca pessoal de dar

um “sentido à sua existência”, transforma o ato de se tatuar numa necessidade, num “impulso” com a força do incontrolável.