Em seu texto Duas Teorias Psicológicas da Linguagem (1976), Fodor apresenta uma importante contribuição epistemológica ao desenvolver uma crítica à linha de pesquisa em psicologia, linha que ele denomina de empirista-associacionista-behaviorista sobre linguagem,
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Teoria da Mente Modular FODOR
cognição e comportamento. No desenvolvimento dessa crítica, tendo como fundamentação
Syntactic Structures de Chomsky (1957), Fodor defende a perspectiva nativista-estruturalista- mentalista de pesquisa sobre a linguagem. Nas linhas de pesquisa os três termos estão agrupados,
pois, segundo Fodor, enquanto projeto de pesquisa, são indissociáveis:
se somos empiristas, o mais provável é que também sejamos associacionistas e behavioristas. Inversamente, se somos nativistas a respeito da aprendizagem, também sustentaremos, provavelmente, uma concepção estruturalista do pensamento e da percepção, e um ponto de vista mentalista para a explicação psicológica (Fodor, 1974, p.55).
O interesse de Fodor é definir o estatuto epistemológico de uma psicologia cognitiva contemporânea que deve abandonar a visão empirista vigente até então, visão esta que toma o cientificismo moderno de uma forma praticamente dogmática. A psicologia, na perspectiva cientificista do empirismo, era entendida exclusivamente como a ciência do comportamento (do comportamento observável) e excluía a pesquisa sobre os processos mentais subjacentes. Em sua opinião, uma melhor definição contemporânea para a psicologia vai além de uma “ciência do comportamento” e é também uma “ciência dos processos mentais que causam o comportamento”.
Assim, o caráter de pesquisa em psicologia não se reduziria ao comportamento, mas incluiria os eventos mentais que os causam e estes seriam mais importantes que o próprio comportamento153. Esta redução comportamental (estímulo e resposta) da pesquisa da psicologia se deve à predominante influência do empirismo tradicional, onde a ciência é exclusivamente observacional, indutiva. A partir daí, a psicologia consolidou-se como uma sistematização dos dados observáveis do comportamento, suas conexões estímulo-resposta, sistematização pautada nos princípios associacionistas. O associacionismo fundou a noção de que, independentemente da estrutura do comportamento, esta será sempre algo que emerge da “operação de variáveis que determinam a probabilidade de certos estímulos provocarem certas respostas” fornecendo assim fundamentos epistemológicos para o behaviorismo. Para Fodor, portanto, o behaviorismo está diretamente ligado ao empirismo e, assim, como ao associacionismo.
153 Fodor faz uma analogia com a física para mostrar o alcance de área de pesquisa da psicologia: “a questão ‘a
psicologia é sobre o comportamento ou sobre os eventos mentais que os causam’ é diretamente análoga à questão ‘a física é sobre a leitura em mostradores ou sobre os campos, partículas e interações que fazem os ponteiros oscilarem nos mostradores?’” (1974, p.57).
Como veremos, Fodor (1983b, p.27) adota uma posição distinta do associacionismo, uma vez que exclui a preocupação com os processos mentais. O comportamento humano não exibe necessariamente as características gerais que o associacionismo pretende postular, uma vez que é um recurso metodológico que não corresponderia de forma evidente à realidade.
É no campo da linguagem que Fodor buscará a fundamentação para sua crítica a esta postura empirista-behaviorista-associacionista. A sistematicidade do comportamento verbal, para o psicólogo empirista de tendência associacionista, refere-se exclusivamente às conexões estímulo-resposta, buscando investigar a verbalização mediante estados de entrada (insumo,
input) e saída (produção, output) dos indivíduos. Para Fodor, não é claro que exista uma
constante regularidade entre estímulo e resposta, pois muitas vezes o que o indivíduo fala independe do que ele está vendo, sentindo ou experimentando no momento de sua fala. A comunicação produz algo interno e que não é necessariamente uma “resposta” no sentido behaviorista: “consideração ou não do que foi dito” ou “atualização da imagem do mundo ou do interlocutor”, seriam alguns exemplos. Conforme Fodor, é evidente que a linguagem possui outros níveis de sistematicidade que foram ignoradas pela abordagem associacionista.
Os avanços obtidos nos estudos da lingüística154 mostraram que os princípios associacionistas são insuficientes para a pesquisa do comportamento verbal, principalmente por desconsiderar aspectos fundamentais da linguagem, tais como hereditariedade e processos internos. A influência associacionista-behaviorista, de cunho anti-nativista, coloca a experiência muito acima da hereditariedade ou até nega a hereditariedade. Uma teoria que desconsidera ou nega a existência de processos inatos, para Fodor, não deve ser verdadeira155.
154 Os avanços da lingüística mencionados por Fodor é uma referência, embora indireta, às pesquisas de Noam
Chomsky.
155 Para demonstrar que sua posição se ajusta melhor a alguns fatos importantes sobre a cognição, Fodor apresenta o
seguinte exemplo: “consideremos [...] o reconhecimento de um cubo. Um psicólogo associacionista dirá que a nossa capacidade para reconhecer um cubo é exaustivamente caracterizada por referência ao fato de que aprendemos a dizer ‘cubo’ ou a fazer alguma outra resposta identificadora, na presença de um certo arranjo visual de linhas e superfícies. A explicação da nossa capacidade para reconhecer cubos refere-se, portanto, ao tipo de adestramento que é requerido – seja ele qual for – para nos levar a dizer ‘cubo’ quando o arranjo característico se apresenta. Ele pressupõe que o que precisa ser explicado é a ligação entre a apresentação do arranjo e a ocorrência de uma resposta identificadora. Mas qual é esse ‘arranjo característico’? Note-se que a capacidade de reconhecer um cubo não consiste apenas numa capacidade para dizer ‘cubo’ quando um objeto-estímulo particular é apresentado. O conjunto de objetos que satisfariam as condições para ser um cubo é infinitamente vasta e. desses cubos infinitamente numerosos, há uma quantidade astronômica que nunca vimos antes, mas somos perfeitamente capazes de reconhecer
O reconhecimento de formas, melodias, frases, rostos, segundo Fodor, não é oportunizado exclusivamente pelo estímulo recebido, mas exige uma representação de estruturas matemáticas extremamente complexas. “Nossa capacidade perceptiva inclui a aptidão necessária para corrigir instantaneamente as enormes distorções de certas espécies estritamente
determinadas” (1974, p.62), o que garante uma regularidade psicológica à percepção que não se
expressa em termos de ligações estímulo-resposta. Esta regularidade psicológica, que possibilita, então, o reconhecimento de formas, melodias, frases, rostos... residiria em relações estruturais entre estímulos individuais e estímulos externos. A percepção é um processamento de estímulos que relaciona o input (o insumo) com um conceito de caráter possivelmente abstrato.
A insuficiência do associacionismo, de acordo com o exposto acima, está no fato de reduzir a função básica da mente a uma questão de memória e não reconhecer que a memorização é um recurso da mente para cumprir sua verdadeira função básica: a resolução de
problemas ou tomada de decisão. A capacidade de percepções não se reduz a relembrar e
associar o que já foi visto (associacionismo), mas está em aprimorar as capacidades de resolução de problemas (complexificação).
O comportamento verbal, de acordo com Fodor, não é controlado por fatores ambientais. Exemplos bem simples mostram isso156. Portanto, as inferências obtidas exclusivamente da observação do comportamento externo não são confiáveis devido à dificuldade a insuficiência de conexões regulares entre a verbalização e a estimulação ambiental, local, pois “verbalizações não são, no sentido associacionista, respostas”. Ainda mais, uma verbalização depende de questões que estão além das condições de estímulos locais tais como:
- se o indivíduo acredita que o outro queira saber o que ele está dizendo; - se o próprio indivíduo se interessa dizer aquilo que o outro quer ouvir;
como cubos. [...] duvido que alguém queira seriamente sustentar que a nossa capacidade para reconhecer cubos se
reduz a capacidade para reconhecer aqueles a cujo respeito fomos adestrados.” (Fodor, 1974, p.61).
156 Reproduziremos aqui desses exemplos simples do cotidiano apresentado por Fodor: “Consideremos um exemplo
trivial da ação voluntária, como dizer ‘Eu acho que pode ser que chova amanhã’. [...] Em primeiro lugar, parece claro que não temos a menor idéia de quais possam ser as condições de estímulo que causam uma tal elocução. Com efeito, parece evidente que ‘Eu acho que pode ser que chova amanhã’ é algo que podemos dizer, praticamente, a qualquer hora, praticamente em qualquer lugar e a praticamente qualquer pessoa (incluindo nós próprios). Talvez valha a pena acentuar que não precisamos sequer acreditar em que vá chover amanhã para dizer que vai; podemos estar mentindo, ou estabulando uma conversa ou talvez seja apenas algo que nos ocorreu dizer” (1974, p.63).
- se o indivíduo acredita que possui provas confiáveis do que está dizendo (o indivíduo pode dizer algo que não tem certeza, mas diz como se tivesse);
- se o indivíduo pensa que o outro acreditará no que ele vai falar;
- se o indivíduo acredita que o outro já saiba o será dito e, por isso, será desnecessária sua informação...
Notemos que a verbalização depende de uma série de atos157 que são processos internos do indivíduo, não identificáveis pela observação comportamental. “Se o que eu escolho dizer depende do que eu quero, do que eu creio e, sobretudo, do que eu creio serão as conseqüências do que eu disser, então a falta de tais teorias tornará normalmente possível a previsão de comportamentos voluntários, como a verbalização” (1974, p.64). Esta é a razão da dificuldade de prever o comportamento voluntário, a não ser, como menciona Fodor, em condições altamente constrangedoras e artificiais de laboratório.
Sendo assim, a insuficiência e inconsistência do associacionismo está diretamente vinculada à insuficiência e inconsistência do behaviorismo. A discussão metodológica que Fodor levanta sobre o associacionismo se identifica ao problema da simplificação de uma teoria, que desenvolvemos no primeiro capítulo deste trabalho158, o que se aplica ao modelo E-R do behaviorismo159.
Fodor expõe sua posição nativista ao afirmar que os estados e operações mentais dos organismos constituem o objeto principal da pesquisa em psicologia. A tendência behaviorista, portanto, é incoerente, uma vez que só se preocupa com o comportamento manifesto dos organismos, reduzindo a capacidade geral da aprendizagem às suas recompensas.
Nesse sentido, a questão da aprendizagem toma outra direção. É evidente que um indivíduo adulto possui um conjunto de procedimentos de cálculo que o torna apto a manipular dados perceptíveis no sentido de converter formas visuais ou reconhecer sinais acústicos fragmentados, assim como decidir que tipo de informação será mais importante durante um diálogo. No entanto, como tais procedimentos de cálculo foram aprendidos? Eles são adquiridos pela mera repetição da ação? Fodor apresenta exemplos que, sobre esta questão, reforçam uma
157 Eis o aporte analítico de Fodor. 158 Ver, no primeiro capítulo, o item 1.4.
posição nativista: o fato de certos dados pré-existem antes de um possível adestramento. A aprendizagem da língua pelas crianças é um exemplo clássico: “quando uma criança atinge os três anos de idade, já possui, segundo parece, como parte da sua competência lingüística funcional160, todas as principais estruturas gramaticais que estão à disposição do usuário adulto da língua” (1974, p.65).
Tradicionalmente, observa Fodor, o bebê humano é entendido como uma tabula
rasa e sua aprendizagem se dá mediante associações entre estados de insumo (estímulo) e
produção (resposta) de uma forma muito genérica. Para ele e para outros autores161, esta concepção é equivocada e se opõe a ela. Nesta nova concepção da psicologia cognitiva, a criança não é um mero receptor passivo, mas “uma coleção de algoritmos de aprendizagem com propósitos relativamente específicos”. Para cada input (insumo, estímulo), a criança já possui um algoritmo específico que lhe permite realizar análises específicas e que opera de maneira independente162.
A insuficiência do associacionismo também é identificada em comparação com os estudos da IA. Fodor afirma que ainda não é possível simular um grande número de capacidades cognitivas humanas, o que demonstra que a linha de pesquisa associacionista não deve corresponder com a realidade: se nossas capacidades cognitivas fossem apenas conexões entre estímulo e resposta, não haveria impedimento algum para construir uma máquina que tivesse as características do comportamento cognitivo superior163.
160 Esta afirmação está em concordância com as idéias de Chomsky, para o qual competência lingüística é, como já
dissemos, a capacidade que o falante tem de, a partir de um número finito de regras, produzir um número infinito de frases. Está noção sustenta a tese da gramática universal: a capacidade do ser humano de produzir e compreender um número infinito de sentenças sem, na maior parte dos casos, nunca antes ter ouvido ou produzido, mesmo perante uma escassez de estímulos verbais do ambiente ao qual estão expostas, sem terem recebido instruções formais sobre tal língua.
161 Pinker, por exemplo, sustenta uma consistente oposição à tese associacionista. Cf. Pinker (1998, 2002, 2004) 162 Fodor faz, aqui, menção a sua teoria modular de mente, publicada em 1983.
163 Vale lembrar que este ensaio foi escrito há mais de três décadas e ainda impõe grandes desafios à Inteligência
Artificial, embora não a negue. “Nós ultrapassamos agora a primeira década [década de 70] de simulação mecânica do reconhecimento de formas visuais e de simulação mecânica do reconhecimento da fala, e o que se descobriu foi, primordialmente, que uma máquina que se comporta como um ser humano, nesses aspectos, terá de ser muito mais complicada do que tudo o que podemos atualmente imaginar. Problemas realmente difíceis como a simulação mecânica da tradução de línguas foram, em grande parte, abandonados” (Fodor,1974, p.68).
Cabe ressaltar que Fodor não pretende negar a possibilidade de uma reprodução da cognição humana, e também não tem objeções à computação164. O que ele pretende é chamar a atenção ao modelo E-R predominante da psicologia, que possui embasamento metodológico associacionista e influência empirista: “se existem modos de representar as capacidades cognitivas como simples conexões de insumo-produção, problema de simular tais capacidades deveria estar bem próximo de ser resolvido. Mas não está.” (Fodor, 1974, p.66). Portanto, questões como a organização do pensamento e o caráter dos procedimentos de cálculo envolvidos em sua produção ainda estão abertos. Temos muito ainda a dizer sobre estas questões. Fodor, ao nosso ver, foi um dos pesquisadores que mais se preocupou com tais discussões filosóficas da psicologia, como melhor desenvolveremos ao longo do texto.