• Nenhum resultado encontrado

Conforme pôde-se extrair dos dados abordados anteriormente, os índices de feminicídio no Brasil são um relevante problema a ser combatido. A Lei 13.104/15 é relativamente recente e não provocou impactos significativos na redução dos números de feminicídio no país.

77 Disponível em: http://arquivos.proderj.rj.gov.br/isp_imagens/uploads/DossieMulher2019.pdf. Acesso em 07 de Julho de 2019.

Historicamente, o espaço doméstico tem papel brutal na violência sofrida pelas mulheres e com a promulgação da Lei 11.340/2006, “Lei Maria da Penha”, houve um aumento na produção de dados, em especial, sobre os registros policiais e realização de pesquisas. Todavia, a violência de gênero permanece e engloba violências praticadas contra as mulheres em outros espaços que não o familiar, tais como o assédio no mercado de trabalho, a violência decorrente da prostituição e do turismo sexual, a inserção no tráfico de drogas, dentre outras.

Nesse contexto, cabe ressaltar uma peculiaridade histórica muito importante antes da definição de violência doméstica tipificada pela Lei 11.340/06 - e da consequente morte das mulheres pelo feminicídio:

A pena pública foi fundada, no Brasil, sob o predomínio do poder punitivo doméstico, senhorial e inerente ao escravismo, aquele poder que transferia para pessoas (assim coisificadas) as faculdades absolutistas que o direito romano assegurava ao proprietário sobre suas coisas. A casa, como se vê com clareza da antiguidade aos tempos modernos, foi – ao lado do palácio e do templo - um lugar cujos habitantes estavam submetidos a poder punitivo, no caso exercido pelo

pater.78

Assim, a tipificação do crime qualificado de feminicídio não resolveu e dificilmente poderá resolver, por si só, o problema enquanto as suas raízes e especificidades não forem enfrentadas fora da esfera penal.

Se, por um lado, a vigência da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio promoveram uma maior visibilidade da violência contra as mulheres e um espaço à discussão do tema, por outro, depois da tipificação, reduziu-se o debate na tentativa de solução de conflitos de quaisquer desigualdades e problemáticas por meio da intervenção penal.

Pois toda essa riqueza e complexidade desaparecem perante o conveniente simplismo de sua tradução legal: trata-se apenas de caracterizar legalmente a violência doméstica e mandar para a cadeia o agressor, ou submetê-lo a restrições

78 BATISTA, Nilo. Só Carolina não viu: Violência Doméstica e política criminal no Brasil. Jornal do Conselho Regional de Psicologia. Rio de Janeiro, ano 05, março 2008, p. 13.

de direito que, caso descumpridas... prender, prender para que tudo continue igual.79

É preciso, nesse sentido, entender a violência contra a mulher como um fenômeno multifacetado, não sendo possível estabelecer e determinar uma única saída para solucionar o problema, ainda mais se este único caminho for por meio do poder punitivo.

No que diz respeito à questão de gênero, deve-se primar pelas políticas públicas de igualdade, bem como aquelas circunscritas ao campo da prevenção e conciliação, no intuito de eliminar a violência contra a mulher. A implementação de um modelo de solução de conflitos de viés punitivo, segundo o qual se dirige ao autor do crime uma pena privativa de liberdade, tem reduzido algumas hipóteses legislativas que possibilitam a resolução do conflito de forma a conscientizar as partes e que visem a promoção de uma mudança sociocultural de combate à opressão e inferiorização feminina.

Para alcançar o resultado almejado, qual seja, a efetiva redução do quadro de violência de gênero em âmbito nacional, é imprescindível a promoção do conhecimento e a conscientização social para observância dos direitos da mulher, bem como a adoção de formas preventivas à violência de gênero no campo das políticas públicas. Estas políticas públicas serão capazes de reconhecer a dignidade no que tange ao gênero feminino e de efetivar a mulher como titular plena de direitos, o que, indiscutivelmente, conduzirá à redução da violência.

Ter como único caminho de solução de conflitos o modelo punitivo é insuficiente. Isto porque, caso a tipificação não seja acompanhada de mudanças socioculturais, a lógica de opressão ao gênero feminino, baseada no sistema patriarcal de inferiorização e discriminação das mulheres, perpetuará o acontecimento dos feminicídios.

O sistema penal não apenas é estruturalmente incapaz de oferecer alguma proteção à mulher, como a única resposta que está capacitado a acionar, a pena, não cumpre as funções intimidatória e simbólica que lhe

79 BATISTA, Nilo. Só Carolina não viu: Violência Doméstica e política criminal no Brasil. Jornal do Conselho Regional de Psicologia. Rio de Janeiro, ano 05, março 2008, p.16.

atribui. Desta forma, deve-se buscar investir em medidas que procuram atuar nos diversos mecanismos de controle social para reconhecer a mulher e sua dignidade, bem como em políticas públicas de combate aos índices de violência e feminicídio contra a mulher.

Ainda, segundo Vera Regina Pereira de Andrade80, o sistema penal é

ineficaz para proteger as mulheres contra a violência porque, entre outros argumentos, não previne novas violências, não escuta os distintos interesses das vítimas, não contribui para a compreensão da própria violência contra a mulher e gestão do conflito ou muito menos para a transformação das relações de gênero. O sistema penal duplica a vitimação feminina porque além de vitimadas pela violência de gênero, as mulheres o são pela violência institucional que reproduz a violência estrutural das relações sociais e de opressão machistas, sendo submetidas a julgamento e divididas.

Portanto, pouca proteção real ou simbólica pode se esperar de um sistema penal dominado por homens socializados na cultura patriarcal e impregnados de valores profundamente sexistas. Mas, ainda que se eliminasse formalmente o machismo do sistema legal e inclusive se a metade de legisladores e de juízes fossem mulheres, tal sistema não se transformaria, com isto, numa instituição não sexista, livre de qualquer resquício de misoginia (ANDRADE, 2003).

A violência, por vezes, representa a base do controle masculino sobre as mulheres. Conforme se verificou nos dados apurados pelas pesquisas mencionadas no capítulo anterior, o feminicídio é um crime cujo principal sujeito ativo são os parceiros ou ex-parceiros das vítimas, ou seja, aqueles que possuíam uma relação íntima de afeto com elas. Assim, as raízes do feminicídio encontram suporte na objetificação dos corpos femininos e na ideia de supremacia masculina, cujas vontade e necessidade são tidas como preponderantes. A tentativa masculina de tolher o rompimento de mulheres com amarras sociais em busca de liberdade e independência, na busca por recolocá-las nos papéis de gênero historicamente construídos, ocasiona os feminicídios.

80 ANDRADE, Vera Regina Pereira de Andrade. Sistema penal máximo x cidadania mínima: códigos de violência na era da globalização. Porto Alegre: Editora Livraria do Advogado, 2003.

Faz-se, portanto, imprescindível a adoção de políticas públicas de conscientização social acerca da construção histórica dos papéis sociais desempenhados por cada gênero e de conscientização dos homens de respeito aos direitos das mulheres. São necessárias políticas públicas que transformem as relações de gênero, aumentando a autonomia e a integridade física e psicológica das mulheres, bem como iniciativas que possam estimular nas pessoas a identificação e o combate da desigualdade de gênero. São importantes ações que revelem o caráter e circunstâncias do feminicídio e da violência contra a mulher, a fim de evitar seu esquecimento e banalização, permitindo o direito à autonomia das mulheres.

É preciso buscar instrumentos mais eficazes do que o direito penal, pois, além desse sistema repressivo estatal não evitar a ocorrência das condutas que tipifica e etiqueta como crimes, também não soluciona os conflitos sociais que se pretende.