Le Coadic (2004) pergunta: “O que leva uma pessoa a procurar informação?” Exigência oriunda da vida social, de saber, de comunicação, a necessidade de informação se diferencia das necessidades fisiológicas ou naturais. Entretanto, a existência de um problema a resolver, de um objetivo a atingir e a constatação de um estado anômalo de conhecimento pode incidir sobre uma necessidade básica, pensamento que leva Le Coadic a deduzir que a necessidade de informação pode pertencer à categoria das necessidades humanas fundamentais.
Neste sentido, Bronislaw Malinowski5, ao formular uma teoria das necessidades (que deu origem à pirâmide das necessidades criada
5 O antropólogo polonês nasceu em 1884 e faleceu em 1942. Segundo sua estudiosa, Eunice Ribeiro Durham, sua carreira foi rápida mas ele se tornou uma das figuras centrais da geração de antropólogos de sua época. Uma marca de seu trabalho foi a riqueza, vivacidade e complexidade da descrição etnográfica. (DURHAM, Eunice Ribeiro. Malinowski: uma nova visão da antropologia. In: THOMAZ, Omar Ribeiro. A dinâmica da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2004).
por Maslow6), enfatizou que qualquer comunidade, desde a mais primitiva até a mais civilizada, possui uma “intendência tribal que é determinada principalmente pelas necessidades nutritivas do metabolismo humano, mas que, em si mesma, produz novas necessidades, tecnológicas, econômicas, legais e mesmo mágicas, religiosas ou éticas.” (DURHAM, 1986, p. 186).
Le Coadic (2004) traz à tona uma tipologia das necessidades de informação definindo duas grandes classes: a necessidade em função do conhecimento (desejo de saber) e a necessidade em função da ação (para fins materiais). Esta última refere-se a questões de ordem prática, das realizações profissionais e de sobrevivência como trabalhar, dormir, comer, descansar e reproduzir-se.
A primeira classe de necessidades citada anteriormente, portanto, deriva do impulso do homem em saber mais, o que torna relevante fazer um paralelo com a natureza do pesquisador tratada por Salomon (2006) em sua obra, que ele mesmo chama de ensaio sobre a problematização no processo do pensar, pesquisar, criar e viver. O autor menciona a natureza humana e a vocação do homem para ser estimulado e provocado diante do novo, do insólito e do desconhecido. Como animal racional, o homem reage de maneira espontânea e controlada, uma dualidade que se dá através da indagação.
Diante da situação nova surge em sua mente o interrogativo adequado a indicar ao ser interrogador a natureza do problema e a direção a tomar no processo do pensar ou do agir. Tais interrogativos proporcionam ao ser humano começar o processo de identificar a realidade, descrevê-la, interpretá-la, explicá-la, prever seu comportamento futuro, agir sobre ela e comunicar o conhecimento obtido a seus semelhantes. Em se tratando do processo de agir possibilita o tipo de ação a empreender. (SALOMON, 2006, p. 6).
A informação constitui-se, portanto, substancialmente importante para a reflexão ética. A capacidade de conhecer e aprender é o que melhor distingue os seres humanos dos outros seres. Entretanto, o
6 Abraham Maslow, estadunidense, psicólogo, nasceu em 1908 e faleceu em 1970. Estudioso do comportamento organizacional, seu trabalho foi marcado pela influência da psicanálise e da antropologia cultural. (SAMPAIO, Jáder dos Reis. O Maslow desconhecido: uma revisão de seus principais trabalhos sobre motivação. Revista de Administração, São Paulo, v. 44, n. 1, p. 5-16, jan.-mar. 2009.)
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conhecimento pode se tornar muitas coisas para o homem, conforme alerta Demo (2001). Pode se tornar a ideologia com base científica a serviço de uma elite, sobretudo quando se vende como isenta de valores; pode se tornar a artimanha do homem de utilizar a consciência crítica para deturpá-la nos outros, usando ciência apenas em sentido estratégico; pode se tornar a perversidade do ser humano quando é produzido e utilizado para a destruição. Entretanto, também pode se tornar a virtude do ser humano, quando figura como alavanca central da emancipação, principalmente na superação da pobreza política; pode se tornar o método central de análise da realidade, dando ao indivíduo a condição de intervir de forma consciente e competente.
A defesa da informação como necessidade não tenta colocá-la em um rol de prioridades em detrimento de outras necessidades básicas. Como afirma Almeida Júnior (1997b), o suprimento da necessidade de informação, como de alimento, por exemplo, devem acontecer concomitantemente. A relação se faz necessária porque, assim como acontece com outras necessidades humanas, o acesso à informação também não é privilégio de todo indivíduo. As experiências acumuladas ao longo da história da humanidade e o avanço científico e tecnológico conquistado não foram suficientes para dar conta do problema da exclusão. Para Jodelet (2008, p. 53) a exclusão, percebida como marginalização, traduz-se através da “manutenção do indivíduo à parte de um grupo [...]. Decorrendo de um estado estrutural ou conjuntural da organização social, ela inaugurará um tipo específico de relação social.” A exclusão é um estar subjugado que, conforme Silva (1995, p. 62), é o rosto (critério ético por excelência) de pessoas concretas que está sendo negado e, embora à margem, ele “ascende, deixando transparecer o clamor ético por justiça.” Martins (1997) entende que um grupo ou categoria social só se reconhece e é reconhecido como sujeito quando atua como sujeito.
A leitura não é boa nem má em si mesma, o valor lhe é atribuído pelo uso que dela se faz. Historicamente se demonstrou um instrumento de poder e de exclusão social, primeiro em nome da religião, mediante o controle dos textos sagrados e monopólio dos escritos divinos, posteriormente por governos, poderes políticos e interesses econômicos que buscam o seu benefício. (CASTRILLÓN, 2007). Se a leitura é dependente do contexto em que se dá, seja ele histórico, cultural e/ou político, Petit (2008) destaca a relevância da mesma como um meio de acesso ao saber, de apropriação da língua, de “estrapolação” dos espaços
geográficos e temporais, de conjugar as relações de inclusão e de oferecer círculos mais amplos de pertencimento. (PETIT, 2008).
O ato de ler não é garantia, mas possibilidade para a leitura crítica da realidade, o que Freire (1986), aludindo a Gramsci, denominou instrumento de ação contra-hegemônica, quando associada a práticas políticas de mobilização e organização social.