Conforme apontado no Capítulo 3 desta tese, para que a Neutralidade da Rede seja efetivamente aplicada, é necessário estabelecer normatizações ou regulações, na forma de regras, leis, diretrizes, entre outros, a serem seguidas pelos ISP’s. Sem normatização, os ISPs têm autonomia para decidir como devem efetuar o gerenciamento de tráfego nas suas redes. Porém, estas decisões tomadas pelos ISPs podem acarretar em prejuízo aos usuários e serem nocivas para a evolução da Internet, conforme ela foi concebida. Deste modo, é por meio da normatização que as regras para gerenciamento de tráfego razoável são estabelecidas e, a partir dela, é que os agentes de controle dos governos, responsáveis pelo setor de Telecomunicações, podem tomar providências cabíveis, a fim de monitorar, punir ou coibir práticas perniciosas a este setor econômico.
No contexto econômico, a discussão que permeia a normatização da Neutralidade da Rede envolve questões como a manutenção da competitividade e da inovação na Internet, em consonância com a evolução da rede, que, nesta tese, é definida como a manutenção ou incremento dos investimentos visando à ampliação e modernização da infraestrutura da rede. Esta evolução deve ocorrer de modo a permitir que a Internet venha a suportar o crescimento contínuo de usuários, bem como de serviços e produtos disponíveis na rede.
Para alguns autores, a Neutralidade da Rede é um esforço para criar regulações que definam quais práticas de gerenciamento de tráfego da rede são permitidas ou proibidas, considerando a concorrência, a competição, a inovação, o gerenciamento da rede neutro sem distinção de preço, tendo em vista os dados trafegados, bem como sua origem e seu destino (LEMLEY; LESSIG, 2001; WU, 2002; VAN SCHEWICK, 2010;
ECONOMIDES; TAG, 2012).
Além disso, a Internet deve ser mantida como uma estrutura universal e livre para todos, sendo que o gerenciamento de seu tráfego deve ser guiado por motivos técnicos e éticos, e não políticos ou comerciais (CGI, 2009b; UN, 2012). Desta forma, as regulações da Neutralidade da Rede devem seguir os preceitos da não discriminação na rede e da universalização do acesso, possibilitando aos usuários a liberdade de escolha e o controle sobre suas atividades na rede. Além disso, as regulações da Neutralidade da Rede devem imputar aos ISPs a transparência das informações sobre a
qualidade do serviço que prestam e as políticas adotadas para o gerenciamento do tráfego em suas redes (INTERNET SOCIETY, 2015b).
Em contraponto, alguns autores afirmam que em uma indústria de rápida evolução, a adoção da Neutralidade da Rede é prejudicial para a Internet, pois priva os ISPs de encontrar alternativas de serviços, produtos ou até mesmo modelos de negócio que ofereçam melhor custo-benefício (YOO, 2005; HAHN; WALLSTEN, 2006; THE STATE…, [2014]). Por este motivo, estes autores acreditam que os governos deveriam focar na remoção das barreiras regulatórias que, de acordo com os mesmos autores, dificultam a evolução da Internet. Assim, os governos deveriam dar liberdade aos ISPs para adotarem as práticas de gerenciamento de tráfego que considerarem adequadas, inclusive permitindo acordos comerciais com os provedores de conteúdo. Por trás desta linha de raciocínio está a consideração de que não é responsabilidade apenas dos ISP’s garantir a evolução da infraestrutura da Internet, mas de todos os atores envolvidos com a rede.
Por outro lado, autores e entidades como a OECD (Organization for Economic Co-operation and Development) afirmam que as discussões sobre a Neutralidade da Rede são essenciais para garantir e incentivar a inovação, a concorrência e o investimento na Internet (OECD, 2016; VAN SCHEWICK, 2010). De acordo com esta linha de pensamento, o debate da Neutralidade da Rede entra em processo de regulação naturalmente, conforme amadurece nos países. A discussão em torno dos pontos cruciais a fim de manter a evolução da Internet faz parte deste processo. Esta evolução deve ocorrer de modo que os investimentos na infraestrutura da rede possam suportar o crescimento contínuo do número de usuários, bem como a ampliação contínua na oferta de conteúdo e serviços disponibilizados na rede. Neste sentido, a (FCC, 2010) ressalta que uma Internet neutra fomenta um círculo virtuoso de inovação no qual novos usos da rede, incluindo novos conteúdos, aplicações, serviços e dispositivos, criam uma maior demanda de usuários finais de banda larga, o que impulsiona a evolução da própria infraestrutura da rede, levando a novas formas de uso inovadoras.
Este círculo virtuoso ocorre da seguinte forma: (i) as melhorias ou as ofertas de baixo custo introduzidas pelos provedores de conteúdo, aplicativos, serviços e dispositivos, estimulam a demanda dos usuários finais e incentivam os ISPs a expandir suas redes e a investir em novas tecnologias de Internet; (ii) os desenvolvedores criam conteúdos e aplicativos que os consumidores desejam, o que os leva a contratarem, dos ISPs, os serviços e equipamentos. Isto, por sua vez, impulsiona o investimento na
infraestrutura da rede e em novas tecnologias em resposta à demanda do consumidor;
(iii) essas melhorias na rede geram novas oportunidades para os ISPs, estimulando-os a inovar ainda mais; (iv) cada rodada de inovação aumenta o valor da Internet para os ISPs, as empresas on-line e os consumidores. No entanto, a FCC (FCC, 2010) ressalta também que a continuação deste círculo virtuoso depende de baixas barreiras à inovação e à entrada dos ISPs, que impulsionam a demanda dos usuários finais. Restringir a capacidade dos ISPs de alcançar os usuários finais e limitar a capacidade dos usuários finais de escolher os ISPs reduz a taxa de inovação na borda da rede e, provavelmente, a taxa de melhorias na infraestrutura da rede (FCC, 2010).
A União Europeia, por intermédio do BEREC, em 2016, ressalta que pretende proteger os usuários finais e, simultaneamente, garantir o funcionamento contínuo do ecossistema da Internet como um motor de inovação (BEREC, 2016b). A União Europeia considera que a Internet desenvolveu-se ao longo das últimas décadas como uma plataforma aberta para inovação, com baixas barreiras de acesso para usuários finais, para provedores de conteúdo, aplicativos e serviços, e para os ISPs. O Japão, por sua vez, por meio de seu agente regulador, o MIAC, enfatiza em seu relatório do painel sobre a Neutralidade da Rede, de 2008, que realizou suas próprias investigações sobre um arcabouço para manter a Neutralidade da Rede. Em tal contexto, o Japão julgou que se tornou necessário investigar o arcabouço para suportar o ônus do custo do fortalecimento das redes de comunicação, que permita um aumento acentuado do tráfego. O arcabouço de um esforço conjunto dos interessados, incluindo os provedores de conteúdo, os ISPs, as operadoras de telecomunicações e os usuários (MIAC, 2008).
A Coréia do Sul, visando obter uma taxa de crescimento econômico anual superior a 4% em 2013, por meio da KCC, seu órgão regulador do setor de Telecomunicações, estabelece que precisará fazer novos investimentos em novas redes, para atender a demanda de tráfego cada vez maior (KCC, 2012). O Canadá, por meio da CRTC, enfatiza que o investimento na rede é uma ferramenta fundamental para lidar com o congestionamento e deve continuar a ser mantido pelos ISPs (CRTC, 2009). O Chile, por sua vez, em sua Lei 20.453 de 2010 que trata da Neutralidade da Rede, determina que os ISPs publiquem em seu site a velocidade ofertada e a qualidade dos enlaces de comunicação, diferenciando entre as conexões nacionais e internacionais, assim como a natureza e garantias do serviço e outras informações relativas às características do acesso à Internet ofertado (CHILE, 2010), incentivando desta forma, o investimento contínuo na infraestrutura da rede, por parte dos ISPs.