Com a edificação de um primado de Direitos Hu-manos, os Estados laicos adquiriram posição de neutra-lidade, isto é, não interfeririam no cenário externo no tocante à intolerância e o que prevaleceria seria o enten-dimento protecional estabelecido pela Organização das Nações Unidas. Já no âmbito interno, os Estados laicos deveriam recepcionar a normatização internacional em seu ordenamento jurídico para efetivar as liberdades dentro do Estado Democrático de Direito.
No plano teórico, tudo funciona perfeitamente, po-rém, o que se viu no princípio do século XXI foi uma realidade cindida do plano teórico. Especialmente em decorrência dos atentados terroristas de 11 de Setem-bro de 2001, os Estados laicos adotaram posturas am-bíguas em relação à tolerância religiosa e uma série de medidas foram adotadas em contrariedade ao primado da neutralidade.
Os Estados laicos se mostraram intolerantes e a pos-tura neutra de outrora ganha contornos de intolerância à medida que alguma ameaça se manifesta no plano in-ternacional. Assim, o Estado Democrático de Direito é mais ou menos laico na exata proporção de sua intole-rância.
GONÇALVES, Antonio Baptista. O estado democrático de direito LAICO e a “neutralidade” ante a intolerância religiosa. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 10, n. 2, 2013 p. 66-85 82
A efetivação da proteção do ser humano e da conse-guinte efetivação das liberdades e do exercício da tole-rância perpassa definitivamente pela laicidade/tolerân-cia do Estado Democrático de Direito. Não há como ignorar leis que segregam direitos religiosos, limitam e restringem as liberdades das minorias religiosas.
Se os Estados pregam e preconizam a tolerância, não podem, na prática, ser intolerantes. Porém, é exatamente o que acontece com a França,76 com a Turquia,77 com a Austrália,78 com a Dinamarca79 e com os Estados Unidos da América,80 apenas para citar alguns Estados laicos.
A neutralidade inexiste em matéria religiosa. Um Estado Democrático de Direito não pode criar lei que favorece esta ou aquela religião, seu primado fundamen-tal é se manter neutro, seja no cenário externo ou no interno. Porém, sob o mote da segurança a neutralidade é ignorada.
Os Estados Unidos da América, um dos membros do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, portanto, um dos Estados responsáveis pela promoção da paz e da tolerância entre os Estados-na-ções em resposta aos atentados terroristas de 11 de Se-tembro de 2001, deflagraram uma guerra contra o ter-ror, ao partir para um conflito bélico, primeiro contra o Afeganistão e, depois, contra o Iraque.
Um dos Estados que deveria lutar contra a guerra e estabelecer os Direitos Humanos e a dignidade da pes-soa humana foi o primeiro a abandonar a neutralidade ao adotar postura extremamente intolerante no que tan-ge à religião, ao instituir um centro de torturas contra pessoas, em sua maioria islâmicas, localizado na Baia de Guantánamo.
Na Baia de Guantánamo não existem direitos e ga-rantias e muito menos tolerância religiosa. A posição é salvaguardar a segurança do Estado.
76 Aliás, sobre a questão francesa, existem, ainda, alguns agra-vantes de intolerância com a introdução da Lei nº 228/2004, que proíbe o uso de sinais e vestimentas religiosas ostensivas nas escolas públicas de primeiro e segundo graus em todo o território francês.
77 Proibição do uso do véu islâmico nos colégios públicos.
78 A autorização de a polícia obrigar a mulher a tirar sua burca sem mais justificativas.
79 Se uma pessoa se declarar muçulmana no controle de imi-gração ao preencher o formulário de ingresso no País, sua entrada será sumariamente rejeitada.
80 A caça às bruxas com o vilipêndio de direitos por meio da Baia de Guantánamo, na qual um incontável número de muçulmanos foram levados de seus lares para serem torturados com o intuito de indicarem o paradeiro dos líderes de células terroristas.
E como fica a neutralidade? A Organização das Nações Unidas? O Sistema de Direitos Humanos? A resposta é simples: a soberania interna, como vimos, é intocável. E como os Estados Unidos da América não ratificaram o Estatuto de Roma que institui o Tribunal Penal Internacional, não há como se julgar crimes con-tra a humanidade cometidos por aquele Estado.
Na mesma esteira temos uma série de medidas into-lerantes praticadas pelos Estados laicos que abandona-ram a neutralidade para impingir a intolerância religiosa no cenário interno, portanto, no qual detêm soberania plena.
De tal sorte que a neutralidade do Estado laico se encontra prejudicada por conta de um instrumento que os organismos internacionais ainda não conseguiram en-contrar, ou seja, um caminho para viabilizar uma igual-dade e uma tolerância: a soberania interna dos Estados.
O limite dos organismos internacionais é o cenário externo. Ainda não é possível forçar um Estado a ser mais democrático, a respeitar a neutralidade e a garantir as liberdades em seu âmbito interno, pois a soberania ainda é inquestionável.
Por isso, o entrave para a questão da intolerância religiosa passa diretamente pela soberania interna do Estado Democrático de Direito. Enquanto os próprios Estados não implementarem modificações em seu ce-nário interno, o âmbito externo ainda permanece em compasso de espera.
O efeito prático da adoção de medidas de tolerância e, de assunção de liberdades não corresponde ao plano teórico por puro e completo desinteresse dos próprios Estados que se dizem democráticos e laicos.
De fato, os Estados ainda convivem com o mesmo problema que os corrompeu e deflagrou as duas Gran-des Guerras Mundiais: a busca por poder.81
Para Ives Gandra da Silva Martins:
O homem, que tem sua própria individualidade, mas que só sobrevive coletivamente, não dirige no Estado Moderno, como não dirigia, nas estruturas políticas passadas, seu destino, sendo este definido 81 Com efeito, o jogo político não deixa de lado qualquer Estado, por insignificante que seja, os afrontamentos mais remotos se refle-tem em toda parte, bem como os meios de guerra não deixam em segurança ponto algum do planeta. FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Especulações sobre o futuro do Estado. In: MARTINS, Ives Gandra da Silva (Coord.). O estado do futuro. São Paulo: Pioneira, 1998. p. 103.
GONÇALVES, Antonio Baptista. O estado democrático de direito LAICO e a “neutralidade” ante a intolerância religiosa. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 10, n. 2, 2013 p. 66-85 83 por aqueles que assumem o poder, legitimamente
ou não, e que, na esmagadora maioria das vezes, ambicionam apenas ter o poder pelo poder, inclusive nas mais avançadas democracias do mundo.82
A solução para a intolerância dos Estados laicos e o regresso à neutralidade perpassa pela superação do Estado-nação e seus interesses internos. Enquanto os Estados não efetivarem sua postura neutra no que tange à tolerância religiosa, os conflitos permanecerão.
Como salienta Celso Ribeiro Bastos e Samantha Meyer-Pflug:
[...] o Estado deve manter-se absolutamente neutro.
Isso implica no fato de ele não poder discriminar entre as diversas igrejas e templos existentes, quer para beneficiá-los, quer para prejudicá-los. A separação entre Estado e religião vem prevista no inc. I do art.
19 da Constituição de 1988, que declara ser vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.83
A paz tão almejada ainda não se efetivará enquanto o cenário de “neutralidade” dos Estados Democráticos de Direito não for convertida para uma neutralidade efetiva e a palavra “laico” seja levada a cabo.
No modelo que temos hoje, com a laicidade refém da intolerância do próprio Estado, inviabiliza-se a neu-tralidade e a assunção das liberdades, tanto no plano interno quanto no cenário internacional.
10. c
onsiderAçõesFinAisO modelo estatal parece ter alcançado uma incom-patibilidade com o que se busca em termos de liber-dade, igualdade e fraternidade na sociedade global do século XXI, pois o modelo de busca pelo poder ainda persiste e a mão controladora do Estado ainda obsta-culiza a assunção das liberdades no cenário interno e, por conseguinte, promove a inaplicabilidade do próprio sistema de tolerâncias no cenário internacional.
82 MARTINS, Ives Gandra da Silva. O Estado do futuro. In:
MARTINS, Ives Gandra da Silva (Coord.). O estado do futuro. São Paulo: Pioneira, 1998. p. 17 e 18.
83 BASTOS, Celso Ribeiro; MEYER-PFLUG, Samantha. Do di-reito fundamental à liberdade de consciência e de crença. Revista de Direito Constitucional e Internacional, São Paulo, n. 36, p. jul./set. 2001.
Para que a neutralidade seja efetiva no plano inter-nacional, é necessário que os Estados modifiquem sua postura intolerante no cenário interno em que são so-beranos. Assim, ainda não há que se falar em um siste-ma plurinacional que convive de forsiste-ma harmônica em busca da paz se os sistemas nacionais ainda buscam al-ternativas para, justamente, caminhar na direção oposta da paz.
O Estado Democrático de Direito se mostra plural, em sua maioria com uma Constituição aberta, com a possibilidade de harmonia entre os povos, o respeito às diferenças e a tolerância como mote fundamental desse Estado. Porém, o que se vê nas Constituições democrá-ticas não se aplica na realidade desses mesmos Estados.
Assim, a humanidade vive o entrave de buscar sua liber-dade e depender do Estado para concedê-las, porém, na prática, o primeiro não se vê satisfeito por ineficiência do segundo.
É preciso se efetivar o modelo teórico, uma vez que todos os primados, todas as liberdades pretendidas já estão estipuladas e estabelecidas, porém, ainda lhes falta efetivação. E, sobre isso, o problema perpassa pela ca-rência da efetiva neutralidade do Estado laico.
Toda a apresentação em torno do que vem a ser Es-tado e como que esse adquiriu o contorno hoje conhe-cido de Estado-nação foi necessário para poder mostrar que o que se pretende, enquanto sociedade plural, não corresponde à realidade desse mesmo Estado-nação e, este, sim, representa o problema moderno a ser sanea-do para desanuviar o sentimento de uma nova guerra, pois, a cada dia temos a impressão de que uma guerra mundial, uma vez mais se aproxima. Uma guerra ou, no mínimo, uma bipolarização entre o Ocidente e o Orien-te no que tange à questão religiosa. E, assim, qualquer passo democrático não calculado pode eclodir uma be-ligerância mundial.
Essa visão parece ser uma antecipação do cataclisma e o suprassumo do pessimismo; todavia, foi com esse pensamento, o de se evitar a destruição do ser humano que se desenvolveu e se criou a Organização das Nações Unidas e seu primado de Direitos Humanos. No entan-to, transcorridos pouco mais de 60 anos, o que se vê é um comprometimento parcial, com enorme relutância em efetivar o que se assume no plano internacional no âmbito interno.
A humanidade ainda padece com essa relutância dos Estados. A neutralidade efetiva é o caminho a ser
pavi-GONÇALVES, Antonio Baptista. O estado democrático de direito LAICO e a “neutralidade” ante a intolerância religiosa. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 10, n. 2, 2013 p. 66-85 84
mentado para a consolidação do que busca a Organiza-ção das Nações Unidas: a tolerância religiosa e a liber-dade para pensar, agir, acreditar e expressar sua fé. Que não seja preciso mais uma guerra para os governantes perceberem que a disputa por poder é, de fato, o maior obstáculo a ser superado.
r
eFerênciAsBASTOS, Celso Ribeiro; MEYER-PFLUG, Samantha.
Do direito fundamental à liberdade de consciência e de crença. Revista de Direito Constitucional e Internacional, São Paulo, n. 36, jul./set. 2001.
BERARDO, Telma. Soberania e direitos humanos: recon-ceituação com base na dignidade da pessoa humana.
2003. f. Tese (Mestrado na área de concentração de Di-reito Constitucional)—Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2003.
BOBBIO, Norberto. O Terceiro ausente. Tradução Danie-la Versiani. Barueri: Manole, 2009.
BOBBITT, Philip. A guerra e a paz na história moderna: o impacto dos grandes conflitos e da política na formação das nações. Tradução Cristiana Serra. Rio de Janeiro:
Campus, 2003.
BONAVIDES, Paulo. Teoria geral do estado. 8. ed. São Paulo: Malheiros, 2010.
CASSAMANO, Marco Aurélio. Política e religião: o esta-do laico e a liberdade religiosa à luz esta-do constitucionali-smo brasileiro. 2006. f. Tese (Doutorado na área de con-centração de Direito, Estado e Sociedade)—Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006.
ÇEVIK, Abdülkadir. Globalização e identidade. In:
VARVIN, Sverre; VOLKAN, Vamik D. (Orgs.). Violên-cia ou diálogo?: reflexões psicanalíticas sobre terror e terrorismo. Tradução Tânia Mara Zalcberg. São Paulo:
Perspectiva, 2008.
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2003.
DALLARI, Dalmo de Abreu. Elementos de teoria geral do estado. 19. ed. São Paulo: Saraiva, 1995.
DALLARI, Dalmo de Abreu. In: VIEIRA, Oscar Vilhe-na (Coord.). Direitos humanos, estados de direito e a construção da paz. São Paulo: Quartier Latin, 2005.
DICIONÁRIO do pensamento social do século XX.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
DICIONÁRIO Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
DOMINGOS, Marília de Franceschi Neto. Escola e lai-cidade: o modelo francês. Interações: cultura e comunida-de, Uberlândia, v. 3, n. 4, p. 153-170, 2008.
EMILIANO BARREIROS, Lucas. El derecho interna-cional contemporáneo y el problema de la soberanía: un intento de reconciliación. In: PINTO, Mónica. (Org.).
Las fuentes del derecho internacional en la era de la globalización.
Buenos Aires: Eudeba, 2009.
FERRAZ JÚNIOR, Tercio Sampaio. Direito constitucio-nal: liberdade de fumar, privacidade, estado, direitos hu-manos e outros temas. São Paulo: Manole, 2007.
FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Especulações sobre o futuro do Estado. In: MARTINS, Ives Gandra da Silva (Coord.). O estado do futuro. São Paulo: Pioneira, 1998.
FRANÇA, R. Limongi. Enciclopédia Saraiva de direito. São Paulo: Saraiva, 1977. v. 53.
GIDDENS, Anthony. O estado-nação e a violência. Tra-dução Beatriz Guimarães. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2001.
GRANDE enciclopédia larousse cultural. São Paulo:
Nova Cultural, 1998. v. 12.
HINSLEY, F. H. El concepto de soberania. Tradução Fer-nando Morera e Angel Alandí. Barcelona: Labor, 1972.
HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Os Pensadores).
HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções 1789-1848. Tra-dução Maria Tereza Teixeira e Marcos Pimentel. 25. ed.
São Paulo: Paz e Terra, 2010.
HOBSBAWM, Eric. A era dos impérios 1875-1914. Tra-dução Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo.
13. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos. O breve século XX 1914-1991. Tradução Marcos Santarrita. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
HOBSBAWM, Eric. Globalização, democracia e terrorismo.
Tradução José Viegas. São Paulo: Companhia das Le-tras, 2007.
GONÇALVES, Antonio Baptista. O estado democrático de direito LAICO e a “neutralidade” ante a intolerância religiosa. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 10, n. 2, 2013 p. 66-85 85
HOBSBAWM, Eric. J. A era do Capital 1848-1875. Tradução Luciano Costa Neto. 15. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
HOBSBAWM, Eric. Nações e nacionalismo desde 1780. Tra-dução Maria Celia Paoli e Anna Maria Quirino. São Pau-lo: Paz e Terra, 2011.
MARTINS, Ives Gandra da Silva. O Estado do futuro. In:
MARTINS, Ives Gandra da Silva (Coord.). O estado do futuro.
São Paulo: Pioneira, 1998.
MIRANDA, Pontes de. Democracia, liberdade, igualdade: os três caminhos. Campinas: Bookseller, 2002.
MORRIS, Christopher W. Um ensaio sobre o estado moderno.
Tradução Sylmara Beletti. São Paulo: Landy, 2005.
SILVA, De Plácido e. Vocabulário jurídico. 28. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2010.
SILVA, José da. Liberdade, realidade política e eficácia da constituição. In: ROCHA, Maria Elizabeth Guimarães Teixeira; MEYER-PFLUG, Samantha Ribeiro. Lições de direito constitucional em homenagem ao professor Jorge Miranda. Rio de Janeiro: Forense, 2008.
SMITH, Anthony D. Criação do estado e construção da nação. In: HALL, John A. (Org.). Os estados na história.
Tradução Paulo Vaz, Almir Nascimento e Roberto Brandão.
Rio de Janeiro: Imago, 1992.
STOESSINGER, John G. O poder das nações: a política internacional de nosso tempo. Tradução Jamir Martins. São Paulo: Cultrix, 1978.
SUNDFELD, Carlos Ari. Fundamentos de direito público. 4. ed.
São Paulo: Malheiros, 1997.
Um direito sem estado? Direitos humanos e a formação de um novo quadro normativo global Law without the state? Human rights and the formation of a new global regulatory framework
Anderson Vichinkeski Teixeira Rafael Köche
doi: 10.5102/rdi.v10i2.2561
Um direito sem estado? Direitos humanos e a formação de um novo quadro normativo global Law without the state? Human rights and the formation of a new global regulatory framework *
Anderson Vichinkeski Teixeira**
Rafael Köche***
r
esumoA transnacionalidade e a policontexturalidade do fenômeno jurídico começa a colocar em crise uma noção de Direito que há muito estava sedimentada: um Direito que só existe porque existe Estado. Há tamanha ambivalência nessa noção que seria possível dizer que o Estado seria um produto do Direito (cons-tituinte), ao mesmo tempo em que o Direito seria um produto do Estado (constituído) – mesmo no plano internacional. Nesse contexto, apesar dos efeitos da ressignificação da noção de soberania, o Estado acaba sendo uma forma de organização que ainda não conhece substituto. Ainda que haja di-vergências entre as teorias jurídicas dominantes, de um modo geral, todas se fundamentam em uma instância centralizada de decisão que produza aquilo que se pode denominar “Direito”, em uma clara aproximação a uma domestic ana-logy. Assim, uma questão fundamental deve ser posta: há Direito sem Estado?
Ou, há Direito sem uma instância centralizada de decisão que declare o “sentido oficial”
em termos de normatividade? Admitindo isso como verdadeiro, toda a teoria do direito ocidental acabaria condenada a revisitar seus pressupostos básicos para compreender o fenômeno jurídico, em um contexto em que o Direito não seria produto de uma estrutura institucionalizada, verticalizada e centra-lizada de poder, mas produto de uma intersubjetividade, difusa, descentrali-zada e multidimensional, em que a formação de múltiplas conexões (relações) estruturaria um Direito mais próximo da figura de uma rede (normativa), um Direito fundamentado em paradoxos, uma teoria pluriversalista dos Direitos Humanos, de modo a reavaliar as atuais concepções de sociedade civil e, por conseguinte, de Direito dos Povos.
Palavras-chave: Direito. Estado. Sociedade. Globalização. Direito dos povos.
A
bstrAct:
The transnationality and polycontexturality of the normative phenomenon begins to set in crisis a notion of Law that had long been cemented: a Law that only exists because the State exists. This notion is so ambivalent that could say that the State would be product of Law (constituent) at the same time that Law would be product of the State (constituted) – even internationally.
In this context, despite the effects of reframing notion of sovereignty, the
* Recebido em 27/08/2013 Aprovado em 23/10/2013
** Doutor em Teoria e História do Direito pela Università degli Studi di Firenze (IT), com estágio de pesquisa doutoral junto à Faculdade de Filosofia da Université Paris Descartes-Sor-bonne. Estágio pós-doutoral junto à Università degli Studi di Firenze. Mestre em Direito do Estado pela PUC/RS. Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito (Mestrado/Dou-torado) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Advogado. Outros textos em: www.andersonteixeira.com. Email: [email protected].
*** Mestrando em Direito Público pela Uni-versidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISI-NOS). Bolsista de Mestrado do CNPq. In-tegrante do Projeto de Pesquisa “Direitos Humanos e Transnacionalização do Direito”
(UNISINOS). Advogado. Email: rafakoche@
gmail.com.
TEIXEIRA, Anderson Vichinkeski; KÖCHE, Rafael. Um direito sem estado? Direitos humanos e a formação de um novo quadro normativo global. Revista de Direito Internacional, Brasília, v. 10, n. 2, 2013 p. 86-100 88
State ends up being a form of organization that knows no substitute. Although there are differences between dominant theories of Law, in general, all are based on centralized instance of decision that produces what mi-ght be called “Law”, a clear approach to a “domestic analogy”. Thus, a fundamental question must be put: Is there Law without the State? Or, is there Law without a centra-lized instance of decision that declares the “official meaning” in terms of normativity? Assuming this to be true, the whole Western theory of Law ultimately doomed to revisit its basic assumptions to understand the normative pheno-menon, in a context which Law wouldn’t be product of an institutionalized, vertical and centralized power structure, but product of an diffuse intersubjectivity, decentralized, multi-dimensional, which the formation of multiple connections (relationships) would structu-re a Law neastructu-rer the figustructu-re of a (normative)network, a Law grounded in paradox, a pluriversalistHuman Rights theory, in order to reassess current conceptions of civil society and, therefore, Peoples’sRigths.
Keyword: Law. State. Society. Globalization. People’s Rigths.
1. c
onsiderAçõesiniciAisNenhum ramo do saber ficou imune às mudanças ocorridas nos últimos anos. A intensificação das re-lações sociais em escala mundial conecta localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorridos a muitas milhas de distância e vice-versa.1 Em um cenário pós-Holocausto, o final do século XX e o início do século XXI nota-bilizam-se pelas transformações na forma de explicar a realidade, pelo desenvolvimento daquilo que vem se chamando de revolução tecnológica, pela expansão das relações internacionais e transnacionais e, claro, pelos efeitos da globalização. Inúmeros outros fatores dariam conta de descrever parcialmente a sociedade contem-porânea, mas nos concentraremos apenas nesses, pois
1 GIDDENS, Anthony. The Consequences of Modernity.Cambridge:
Polity, 1990, p. 61-9. “Hoje vivemos num mundo em que o fracasso da colheita de látex na Malásia afeta profundamente os trabalhadores em Birmingham ou em Detroit, enquanto uma negociação na bolsa de valores de Nova Yorke pode arruinar os produtores de cacau da África Ocidental, que pouco sabem da existência de Londres, e com certeza não conhecem nada sobre ações ou sobre valores”. (CROSS-MAN, R. H. S. Biografia do Estado Moderno. Trad. Evaldo Amaro Viei-ra. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas, 1980, p. 18-9).
entendemos que são suficientes para desenvolver um pano de fundo mínimo capaz de retratar as relações in-tersubjetivas e intertextuais (discursivas) capazes de “pro-duzir sentido” para fins deste texto. Por isso, a principal noção que estará por trás deste escrito será a noção de globalização,2 ainda que se fizesse necessária uma análise crítica desse processo.
Tais mudanças foram tão devastadoras para as teo-rias sociais, políticas e jurídicas contemporâneas, que o advento da internet, por exemplo, levou muitos autores a anunciar o “fim das cidades”, uma vez que ela perde-ria a sua necessidade, visto que as pessoas podeperde-riam estar
“conectadas” vivendo no topo de uma montanha suíça ou no meio de uma pradaria americana. Como as pessoas não precisa-riam se mover, até mesmo os problemas de tráfego se-ria reduzidos. Como bem assinala Manuel Castells, “tais prelúdios de longe não se concretizaram”. Ao contrário:
estamos (vi)vendo o maior movimento de urbanização da história.
Soulignons tout d’abord que toutes les prédictions faites par des futurologues depuis vingt ans ont été démenties. Par exemple, la fin de la ville a été annoncée mille fois en considérant qu’à partir des technologies de communication, ou d’Internet, la ville perd de sa nécessité, car les individus peuvent habiter au sommet d’une montagne suisse ou au milieu d’une prairie américaine et rester connectés. Dès lors les personnes n’auraient plus besoin 2 Quando nos referimos à globalização, estamos nos referindo a um fenômeno mais abrangente que um mero “conjunto de estra-tégias para realizar a hegemonia de conglomerados industriais, cor-porações financeiras, majors do cinema, da televisão, da música e da informática, para apropriar-se dos recursos naturais e culturais, do trabalho, do ócio e do dinheiro dos países pobres”. (CANCLINI, Néstor García. A globalização imaginada. São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 29). Dentre as variadas terminologias existentes para descrever esse processo, talvez “globalização” não sintetize a pluridimensionali-dade fenomênica a que estamos nos referindo, contexto sobre o qual estamos partindo. Reconhecemos que talvez o termo “mundiali-zação” exprima com mais propriedade o sentido desse processo, em razão da alta carga semântica que a “globalização” acabou as-sumindo. Para fins deste texto, ressaltamos, no entanto, que o leitor deve ler esses termos como sinônimos desse processo, permeado por dinâmicas plurais, de intensificação e multiplicação das relações, que ex-trapola as fronteiras nacionais, transformando as referências mod-ernas centradas nas nacionalidades. Trata-se, assim, de um processo, pluridimensional, contraditório, paradoxal e ambíguo, na linha que trabalha autores como: GIDDENS, Anthony. (The Consequences of Modernity.
Cambridge: Polity, 1990); TOURAINE, Alain (Um novo Paradigma:
para compreender o mundo de hoje. Tradução de Gentil Avelino Titton. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2007); BECK, Ulrich (O Que é Globalização? Equívocos do globalismo. Respostas à globalização.
Tradução de André Carone. São Paulo: Paz e Terra, 1999); HELD, David e MCGREW, Anthony (Prós e Contras da Globalização. Trad.
Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001); e SEN, Amartya (Globalizzazione e libertà. Milano: Mondadori, 2003); para ficarmos apenas nestes.