5. PARA FIRMAR UMA BASE TEÓRICA E OS PRESSUPOSTOS CONCEITUAIS
5.3. TEXTO E DISCURSO
5.3.1. A noção de texto e sua complexidade
A noção de texto se revela complexa. Não é fruto do acaso a diferente abrangência que lhe é atribuída pelas diversas escolas e autores.
A noção de texto, numa aproximação inicial, guarda relação com a sua etimologia: texto tem a ver com ‘tecido’, com algo que usufrui a característica da ‘textura’, aliás, com o fato de contar com todos seus elementos organizados e relacionados entre si, fundando uma unidade (Calsamiglia, Tusón, 2002:219). Nesse patamar de pensamento, o que um texto tem a dizer, tem a ver, a principio, com as instruções que são passadas pelas articulações travadas entre os seus diferentes componentes lingüísticos que se encontram
56 Interlocutores que, com maior ou menor vantagem teórica ou não, podem ser chamados de ‘enunciador’ e
‘enunciatário’ na teoria da enunciação ou de “actantes” (atuantes) ou de participantes, a partir de Tesnière, termo preferido na semiótica. A nossa opção aqui, a este fim, é pelo termo ‘interlocutor’ mais familiar e conhecido apesar de aberto a diversas conotações teóricas. Reservamos o termo ‘atuantes’ para todos os fatores – pessoais ou não pessoais, individuais ou coletivos - que atuam dialogicamente nos processos de interação.
“tecidos” entre si. Mas, as próprias articulações revelam instruções de sentido embutidas em pressuposições, implicaturas lógicas, restrições semânticas ou marcos compreensivos vários. O texto passa a ser enxergado como uma trama de relações intrínsecas, como uma trama de articulações a desafiar o pesquisador. Assim nasce o filão da lingüística do texto.
No âmbito da reflexão sobre a linguagem, a adoção do texto como unidade de estudo lingüístico – e não apenas gramatical, exegético, filológico ou literário – marca o início da superação da perspectiva de análise apenas frasal, com o que se passa a centrar esforços na revelação das articulações existentes entre as frases. E são, como adverte Hjemslev, os atores sociais, através da sua competência, aqueles que atribuem a solidariedade entre as partes do texto (Lozano, Pena, Marín, 1999:19-21).
Marcuschi, L.A. (2003:III:7-10), ao realizar o que qualifica como ‘breve história lacunar” da lingüística do texto, divide as concepções de texto segundo ele seja visto: a) na perspectiva estrutural, como uma estrutura coerente de sentenças; b) como unidade, ao mesmo tempo, lingüística e comunicativa, privilegiando a organização tópica; c) voltada para a comunicação, como um evento comunicativo num contexto de interação.
Observaremos como respondem a estas concepções, de alguma forma e de modo diferenciado, os lingüistas Adam, Weinrich, Van Dijk, Beaugrande e Dressler, Pessoa Barros, Orlandi, Maingueneau, François, Bakhtin e Marcuschi L.A.
Adam (1991:9) - a título de hipótese de trabalho e a fim de abranger a extrema heterogeneidade dos ‘gêneros do discurso’, tal qual assinalada por Bakhtin - delimita o texto formalmente como um tipo de estrutura, ao propor a seguinte definição: “Um TEXTO é uma estrutura hierárquica complexa que compreende n seqüências –elípticas ou completas – do mesmo tipo ou de tipos diferentes”.
Weinrich (apud Marcuschi L.A. , 2003:III 1,5 ) concebe o texto como “uma seqüência ordenada de signos lingüísticos, entre duas interrupções bem marcadas da comunicação”. A partir dessa premissa, numa perspectiva de caráter estrutural, defenderá a identificação da lingüística apenas com a lingüística de texto, o que Marcuschi, nessa cita, entende ser um exagero. Para nós, ao colar critérios estritamente formais a uma experiência de interação existencial, torna ambíguo e menos relevante seu conceito pois fica enquadrado na perspectiva estrutural.
Van Dijk (2001:55,93) por sua parte, apresenta a noção de texto como um construto teórico que consegue ter uma correspondência apenas indireta com o seu uso na vida quotidiana; concebe-o como um construto de macroestruturas a partir do construto de orações. Conceitua o texto como seqüência de orações que possuem uma macroestrutura; a
macroestrutura do texto é uma representação abstrata de sua estrutura global de significação (Van Dijk, 1973:55). Para ele é estabelecida uma correlação de interação mútua entre texto e contexto. Observa na mídia a existência de uma relação sistemática, não arbitrária, entre as formas estruturais e os significados globais, condicionando o processamento cognitivo do texto (Van Dijk, 1991:2-4). Conclui que a produção e compreensão de textos, por sua natureza interativa, constituem uma forma de ação social (Van Dijk, 2000:23). Poderíamos enquadrar esta visão na do texto como unidade, ao mesmo tempo, lingüística e comunicativa, privilegiando a organização tópica.
É mérito de Beaugrande e Dressler (1997:31) o esforço de caracterização dos caminhos que levaram a alcançar com rigor científico uma descrição e explicação do texto e seus diversos tipos. Eles rompem com os modelos que priorizam aspectos legalistas e prescritivos para o reconhecimento da textualidade e optam por um enfoque dinâmico, integrado e compreensivo da linguagem a partir de um horizonte probabilístico, não determinista e não estático:
“Deve-se tentar descobrir regularidades, estratégias, motivações, preferências e valores por defeito, em lugar de regras e leis. As tendências dominantes permitem realizar uma classificação mais realista dos fenômenos do que as categorias estritas. A aceitabilidade e a adequação são dois critérios que têm que cumprir um texto e que têm mais importância que a gramaticalidade e a correta formação. Os processos de raciocínio humano são mais essenciais para utilizar e transmitir o conhecimento mediante textos que as provas lógicas57.
Estes autores entendem que a textualidade se apóia no discurso (Beaugrande e Dressler, 1997:263) e que o problema mais premente a ser resolvido é o de como funcionam os textos na interação comunicativa dado que uma ciência do texto deve ser capaz de entender e de explicar tanto os traços característicos dos textos quanto aqueles que os diferenciam. Nesta direção é que consideram o texto como um evento comunicativo que tem que cumprir sete normas de textualidade, a saber: coesão, coerência, relações de causalidade, atitude de
57 “Hay que intentar descubrir regularidades, estrategias, motivaciones, preferencias y valores por defecto, en
lugar de reglas y leyes. Las tendencias dominantes permiten realizar una clasificación más realista de los fenómenos que las categorías estrictas. La aceptabilidad y la adecuación son dos criterios que ha de cumplir un texto y que tienen más importância que la gramaticalidad y la correcta formación. Los procesos de razonamiento humano son más esenciales para utilizar y transmitir el conocimiento mediante textos que las pruebas lógicas”.
aceitabilidade por parte do receptor, informatividade ou transmissão de informações conhecidas ou novas, situacionalidade ou relevância na situação em que aparece, e a intertextualidade (1997:35-46).
Em relação a estas normas de textualidade, Marcuschi (2003:III:7-10), faz a observação de que a coesão “não é tida como um princípio de boa-formação textual” e que a coerência “será definida como um ponto de vista ou uma operação sobre o texto”. O autor, a partir de um percurso cognitivo, mesmo reconhecendo que gera os problemas decorrentes de realizar a sua definição dentro de uma perspectiva estrutural – ainda que não saussuriana -, lança sua própria proposta na que fica claro o predomínio da consideração do texto dentro de um horizonte comunicativo. Desta forma se aproximam, como mostraremos mais adiante, sem colidir, texto e discurso:
“Texto é um evento lingüístico social e cognitivo, de natureza comunicativa, falado ou escrito, de qualquer extensão, organizado de acordo com os princípios morfológicos, sintáticos, semânticos, pragmáticos e cognitivos das línguas envolvidas” (Marcuschi, L.A., 2003:III:12).
Esta noção satisfaz porque inclui o fato de ter que ser considerado um evento organizado de acordo com uma série de princípios, de índole lingüística e cognitiva, que pode comunicar algo em função das instruções de sentido que suas articulações internas suscitam nos interlocutores presentes. Porém, para nós, o texto assim caracterizado não consegue escapar duma espécie de “contaminação de caráter discursivo” que surge em razão da sua manipulação por algum leitor. Seria uma espécie de maldição do continuum texto – discurso que salientava Bakhtin.
Marcuschi, L. A. (2003,V,1-12) analisa vários modelos textuais cognitivos em que o conhecimento é visto “como o resultado de um conjunto entrelaçado de operações mentais”, dentro de um contexto, quando é ativada uma série de conhecimentos prévios (enciclopédicos, lingüísticos, interacionais, globais, etc.) que, por sua vez, ativam redes semânticas que estão organizadas na memória, seja por reações intra-conceituais, seja por relações inter-conceituais e que resultam em unidades armazenadas na memória. Identifica como modelos de relevância textual: os “frames ou enquadres, os esquemas – que funcionam como ‘andaimes ideacionais’, os scripts ou roteiros, os cenários e os modelos mentais globais - que comportam relações espaciais, temporais e causais. Avalia, igualmente, algumas carências nos diferentes modelos: falta uma noção de língua como atividade sócio-cognitiva,
sistêmica e organizada; falta uma explicação do funcionamento da língua; falta uma visão adequada do texto como fenômeno social e histórico; não é suficientemente contemplado o princípio da indeterminação lingüística; falta uma reflexão mais sistêmica sobre os gêneros e a tipologia textual. Carências que sinalizam para a necessidade de traçar novas perspectivas teóricas dada a complexidade inerente à noção de texto. O autor tem consciência de limitações que são deixadas de lado quando se quer falar em lingüística textual.
Barros (1990:90), na saga da lingüística de Hjemslev e da semiótica greimasiana, apresenta o texto como objeto de significação e objeto cultural de comunicação entre sujeitos, sendo “o resultado da junção do plano do conteúdo, construído sob a forma de um percurso gerativo, com o plano da expressão”.
Orlandi (1987:139-140) inclui na sua visão de texto a situação discursiva; portanto, como um evento comunicativo num contexto de interação:
“Texto como unidade de significação, como multiplicidade de efeitos de sentido; é unidade diferente que a soma das frases: é conceito que acolhe o processo de interação e a relação com o mundo pela (e na) linguagem” [...] “O texto é tudo o que organiza os fragmentos correlacionados da linguagem e situação (ou recortes), portanto, que tem compromisso com as condições de produção e a situação discursiva.”
Maingueneau (2002:56,61), na mesma linha, define o texto como um enunciado apreendido como um todo, como uma totalidade coerente que pertence a um gênero.
Pensamos que com propriedade, François (2003,66-67) adverte para o perigo de atribuir ao texto aquilo que é aportado pelo receptor, de confundir a compreensão do texto com aquilo que o receptor pensa. O mesmo autor (2004) trata como texto todo discurso - oral ou escrito – que se encontre em situação terceira, aliás, fora das condições primeiras de sua enunciação; ele existe e age independentemente da forma em que foi produzido.
Bakhtin (1997:305) assinala que “o texto é a realidade primária e o ponto de partida para qualquer disciplina no campo das ciências humanas”87; portanto, nada mais natural do que sua diversidade e suas variadas possibilidades de articulação interdisciplinar. Em seus apontamentos, dos anos 1959-1961, quando assinalava as intuições de pesquisa sobre
87 “el texto es la realidad primaria y el punto de partida para cualquier disciplina en el campo de las ciencias
os problemas do texto, por ele propostas e desejadas, vai mais longe ao explicitar a contextualização dialética e holística própria de qualquer texto dentro de seu âmbito específico, ao apreendê-lo como projeto e sendo visto como enunciado:
“O texto como enunciado incluso na comunicação discursiva (cadeia textual) de uma esfera dada. O texto como uma espécie de mônade que reflete em si todos os textos possíveis de uma esfera determinada de sentido” [...] “Por trás de cada texto está o sistema da língua [...] corresponde-lhe todo o repetido e reproduzido e todo o repetível e reproduzível, também todo quanto existe dentro dum texto dado (seu caráter determinado). Mas, ao mesmo tempo, cada texto (visto como enunciado) é algo individual, único e irrepetível, no qual consiste todo seu sentido (seu projeto, aquilo para o que se tinha criado o texto)” (2002:295-296)88.
O texto como tratado por Bakhtin reflete o continuum ao qual nos acolhemos. Isso não significa que a segmentação que fizemos como construto teórico – documento, texto, discurso – deva ou possa ser considerada simétrica com a conceituação por ele realizada. O ponto de partida – o sistema da língua - talvez pode corresponder-se com o texto como documento ou como corpus. Já o tratado é como mônade que reflete todos os textos possíveis corresponderia a colocar o que chamamos de texto num contexto de relação dialógica; o tratado como enunciado corresponderia em parte ao que chamamos texto, em parte ao que chamamos discurso.
Queremos acolher-nos a essa visão dialógica do texto como sendo um enunciado projetado para ter sentido; visão em que é dilatada sua significação num dimensionamento contínuo que vai do único e específico até quase um infinito.