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Capítulo III: Cuba pelos jornais 3.1 Como o discurso é construído?

A NORMALIZAÇÃO, UM PROCESSO LONGO E EXTENSO

Embora ambos os países não tivessem laços formais desde 1961, eles partiram para mudar essa realidade, isso não significa que eles estejam no limiar da plena normalização. A normalização é um longo processo que vai além do estabelecimento das relações diplomáticas e a abertura de embaixadas, disse Jacobson. "No caminho até a normalização continuaria sendo discutindo temas mais complexos que refletem as profundas diferenças entre os dois países", acrescentou.

"Este será um processo longo e complexo que vai exigir trabalho de ambos os lados, o que deve resolver as questões pendentes da agenda bilateral", disse por sua vez a chefe da delegação cubana. Ela disse que, para o nosso país, o levantamento do bloqueio é essencial para normalizar as relações, entre outras questões pendentes. No entanto, Vidal reiterou a vontade do governo cubano para que continue sustentando com o governo dos EUA diálogo respeitoso, com base na igualdade soberana e na reciprocidade, “sem prejuízo da independência nacional e a autodeterminação de nosso povo."

Para Cuba, isso significa respeito pelos sistemas políticos, econômicos e sociais de ambos os Estados e evitar qualquer forma de interferência no mercado interno ou ameaça para os elementos políticos, econômicos e culturais de ambos os países, Vidal apontou. “Ninguém pode almejar que, para melhorar as relações, Cuba tenha que desistir de seus princípios”, disse ela.

A chefe da delegação local também reconheceu a disposição do presidente dos EUA de realizar um debate sério e honesto com o Congresso para atingir o objetivo da política imposta mais de meio século contra Cuba.

Enquanto isso, Jacobson explicou os desafios em materializar a decisão anunciada pelos presidentes Barack Obama e Raúl Castro para tentar superar uma relação que há mais de 50 anos não tem sido baseada na confiança.

A esse respeito, ela disse que os novos regulamentos anunciados pelo Departamento do Tesouro e do Comércio na semana passada demonstram a amplitude e profundidade com que os Estados Unidos já implementaram o compromisso do Presidente de uma nova direção na política que os EUA afirmam em relação a Cuba. Vidal, por sua vez, reafirmou o compromisso de Cuba para a melhoria do clima bilateral e a vontade de ir mais longe para normalizar as relações bilaterais. Ela acrescentou que, como vizinhos próximos, Cuba e Estados Unidos deveriam identificar áreas de interesse comuns em que podem desenvolver a cooperação para o benefício de ambos os países, da região e do mundo.

Em resposta à pergunta sobre o tema dos direitos humanos, ela esclareceu que essa questão não foi discutida na reunião da manhã e disse que, no período da tarde, haveria um outro workshop para analisar questões bilaterais e de cooperação entre ambos os países. “Os dois países têm diferenças profundas e diferentes pontos de vista sobre assuntos diferentes, mas podem coexistir de forma civilizada e pacífica, reconhecendo e respeitando essas diferenças”, disse ela.

NOVAS POSSIBILIDADES DE COOPERAÇÃO

Durante essa quinta-feira à tarde, as partes realizaram uma reunião sobre questões de interesse mútuo e cooperação. Cuba reiterou a proposta feita há um ano para manter um diálogo respeitoso e numa base de reciprocidade com os Estados Unidos para lidar com as posições sobre os direitos humanos e a democracia, a partir da qual Cuba tem preocupações sobre o exercício dos direitos humanos nos

Estados Unidos. “E, ao mesmo tempo, Cuba acredita que temos experiências interessantes para mostrar e compartilhar no que se refere ao disfrute dos direitos humanos, não só no nosso país, mas também a contribuição que temos feito também, muito modestamente, para a melhoria dos direitos humanos em outros países do mundo e as vidas de muitas pessoas ao redor do mundo”, disse Josefina Vidal. Ela disse ainda, em uma conferência de imprensa, que as delegações analisaram o estado da cooperação em várias questões, tais como a segurança da aviação e resposta a vazamento de óleo. Também foram identificadas outras áreas onde há potencial para estabelecer ou expandir a cooperação bilateral, tais como o combate ao tráfico de drogas, ao terrorismo e às epidemias. "Quanto a este último, a parte cubana propôs a realização de uma reunião para definir as modalidades de cooperação para lidar de forma eficaz e eficiente com o vírus Ebola”.

A delegação de Cuba reiterou a prontidão das suas autoridades para desenvolver intercâmbios com os seus especialistas norte-americanos sobre a monitorização sísmica, áreas marinhas protegidas e hidrografia, e para participar de pesquisas conjuntas sobre espécies marinhas. Além disso, foi proposta a criação de colaboração científica em um grupo de áreas como a proteção do ambiente, a mitigação das mudanças climáticas e a prevenção de desastres naturais. Seguiram com a disposição em discutir a delimitação da Zona Oriental no Golfo do México e estavam interessados nos próximos passos para a implementação de um plano piloto para estabelecer o serviço postal entre os dois países.

Em relação às telecomunicações, Vidal assegurou que Cuba estabeleceu a disposição em receber empresas de telecomunicações dos EUA para explorar oportunidades de negócios neste campo que sejam benéficas para ambas as partes. Por outro lado, através de uma declaração escrita distribuída à imprensa, o secretário de Estado adjunto para Assuntos do Hemisfério Ocidental manifestou a disponibilidade do seu país em continuar o diálogo bilateral sobre questões importantes, incluindo aquelas em que há diferenças significativas.

O texto também afirma que a sessão foi marcada pelo estabelecimento de um diálogo construtivo e encorajador. Neste sentido, uma das perguntas respondidas pela chefe da delegação cubana estava se referindo ao impacto das medidas e regulamentações anunciadas pelo governo dos EUA.

Vidal disse que a delegação dos EUA ofereceu uma visão geral das medidas que são conhecidas e os regulamentos emitidos em 16 de janeiro que explicam como se aplicarão as disposições. "As medidas estão indo em uma direção positiva ao modificar alguns aspectos do bloqueio contra Cuba", disse ela. "Cuba espera que o presidente dos Estados Unidos, no exercício dos seus poderes executivos, continue modificando aspectos adicionais do bloqueio de forma significativa para que possa se esvaziar de conteúdo essa política que permanece". Ela acrescentou que continua a estudar os regulamentos, que são complexos e são necessários os conselhos de advogados para ter compreensão de sua magnitude e alcance.

Diante de uma pergunta da agência norte-americana AP, Josefina Vidal apontou para um parágrafo específico do comunicado emitido pela delegação norte- americana, que diz: "Como um elemento central da nossa política, nós pressionamos o governo cubano a melhorar as condições de direitos humanos incluindo a liberdade de expressão. "Afirmo que a palavra ‘pressão’ não é usada no encontro. Não é uma palavra que se usa nesse tipo de conversações ", disse Vidal. "Cuba tem demonstrado, ao longo de sua história, que nunca respondeu ou responderá por pressões de nenhuma parte das quais provenham", assegurou ela.

Ela esclareceu que houve uma troca na qual cada parte alegou visões e concepções que dispusessem sobre o exercício dos direitos humanos. Cuba reafirmou a sua proposta para ter um diálogo específico em data a ser determinada a manter um diálogo respeitoso, numa base de reciprocidade, para resolva a abordar as nossas posições sobre direitos humanos e democracia, disse ela.

"O que eu espero é um futuro melhor para os nossos países. Há vizinhos, temos profundas diferenças, mas temos visto como os países do mundo com profundas diferenças podem conviver pacificamente, civilizadamente, em função de encontrar soluções para problemas comuns, e, assim, contribuir para um maior bem-estar para o resto do mundo", disse ela.

"Estou confiante de que, independentemente das diferenças que existem entre Cuba e os EUA — pois elas existem e vão se manter, porque temos convicções muito fortes, tanto por razões históricas e culturais, etc. —podemos encontrar uma convivência pacífica para discutir nossas diferenças com respeito e avançar na cooperação em áreas de interesse comum ".

Ela disse que não tinha um aparelho para medir os níveis de confiança, mas ambos os governos carregam um intercâmbio sobre as possibilidades de trabalho conjunto em certas áreas.

O que permitiu a essas reuniões, concluiu ela, foi confirmar que estamos interessados em continuar a trabalhar nessas áreas e, por sua vez expandir a nossa cooperação para benefício mútuo. "Eu acho que é um bom começo."

Íntegra de reportagem 13 - Transcrição e tradução de reportagem Granma/Visita EUA a Cuba Fonte: GRANMA. Cuba e Estados Unidos, o início de um novo capítulo. Disponível em: <http://www.granma.cu/cuba/2015-01-23/cuba-y-estados-unidos-el-comienzo-de-un-nuevo-

capitulo>. Acesso em jan. 2015.

Uma das noções fundamentais da AD materialista são as condições de produção, que nos remetem às relações de forças que constituem uma prática discursiva. A relação entre homens é desigual, assim como os lugares que ocupamos e os poderes que exercemos, seja do ponto de vista histórico ou do ponto de vista cotidiano. Essa assimetria está em jogo também nos discursos, seja ele num texto de um jornal ou num tratado internacional.

Essas desigualdades, no entanto, não são naturalmente produzidas nem são realidades inquestionáveis, mas são, sobretudo, práticas que se instauraram, produzindo um efeito evidente (ideológico). No entanto, assim como há práticas que mantêm certa coesão social, há rupturas. Essas rupturas são uma espécie de alteração sobre os sentidos instituídos (normalizados), algo que questionará a pretensa obviedade das relações humanas. A linguagem, pelo seu poder simbólico e concreto, materializa essa disputa pelos sentidos sobre a sociedade, registrando no discurso a assimetria do mundo. Quando

falamos em história, considerando o interdiscurso, é preciso ressaltar que há uma disputa sobre a memória, pois, como nos disse Marx (2013), o motor da história é a luta.

As condições de produção de um discurso trazem os lugares de onde Cuba é falada, revelando uma tomada de posição sobre o que se esse País representa (PÊCHEUX, 1997). As representatividades são práticas de linguagem, como elaborou Foucault (1999), as quais causam a impressão de serem a única maneira de um real existente. Como não há relação direta entre linguagem e mundo, a relação funciona por causa do imaginário (ORLANDI, 1994). Esse imaginário não tem uma concepção psicológica, mas concreta, dos ditos e não ditos, do que se deve dizer e do que se precisa dizer, em determinas condições imediatas, sociais e históricas.

É a partir dessa prática de dizer Cuba como o lugar que o jornal Granma, participa do conflito social no interior do conflito político, e diz que os EUA devem “respeitar” o sistema político, econômico e social da Ilha, reiterando que Cuba não desistirá de seus “princípios” e não poderá retomar os laços até que o “bloqueio” seja destituído. Se para o jornal O Estado de S. Paulo o restabelecimento “pleno” das relações diplomáticas ocorrerá em seis meses, para o Granma esse é “um novo capítulo” da história entre os dois países. Desse modo, o jornal cubano “bagunça” a estabilidade narrativa dos jornais internacionais, produzindo efeitos (outros) sobre a retomada das relações diplomáticas com os EUA.

Se antes a palavra “bloqueio” se inseria em uma discursividade de memória do jornal cubano, para que seus danos não fossem esquecidos pelas práticas discursivas, agora a palavra também se insere em uma discursividade que reivindica ações concretas para o fim do bloqueio, porque o reatamento das relações diplomáticas é uma chance, material, para o fim das leis que formam uma “política imposta mais de meio século contra Cuba”.

Quando o jornal, por meio de Josefina Vidal, diz que a Ilha não abre mão de sua “soberania”, seu dizer se relaciona com outras imagens que reverberam no político, as quais incidem na memória e na produção dos sentidos sobre como Cuba quer se fazer ver. Entre esse modo de se querer mostrar está a imagem da Revolução. Ter o mundo olhando para a Ilha é uma condição para esse dizer, que o Granma quer intermediar; como uma

prática política, que fala no plural — nosso país — porque quer representar o todo, afirmando sua posição frente aos EUA.

Há algumas FD que estão em confronto na reportagem, o que nos faz refletir sobre o que isso significa como oposição ou como incompreensão do que é Cuba por parte dos EUA. A AD nos convida a compreender os sentidos produzidos pelos discursos; olhar para essa reportagem também é um exercício para entender o que é importante para os EUA e como o jornal diz isso. Na primeira reunião entre os dois países, o governo americano quis reafirmar a importância da reabertura das duas embaixadas como símbolo político do reatamento das relações diplomáticas. Quem pede isso, no texto, é Jacobson, representante dos EUA. Mas por que isso é importante para o governo estadunidense? É importante desestabilizarmos os sentidos evidentes no texto.

Jacobson fala de sua posição-sujeito que se filia à FD do governo dos EUA. Nessa posição, seu discurso deve ser produtivo para os próprios americanos. As embaixadas e, principalmente, as relações diplomáticas, que é o que em última instância está sendo dito, são objetos materiais muito importantes para o estado capitalismo. Ou melhor, são a própria materialidade discursiva do capitalismo.

Os objetos materiais que são importantes para os EUA não são os mesmos que importam para Cuba, como, por exemplo, a questão do bloqueio e a bacia de Guantánamo- que está sob domínio dos EUA desde o início do século XX, quando a ilha era uma neocolônia dos Estados Unidos (MÁO, 2007). Quando o governo americano não fala sobre Guantánamo, esse silêncio também é uma forma de dizer. O silêncio é uma forma de não entrar no outro.

Os EUA, numa campanha de democratizar Cuba, expõem os objetos e artefatos deles, ainda que apenas discursivamente. O Granma, ainda que dê maior destaque para Josefina Vidal, mostrando as demandas de Cuba, ou seja, seus objetos materiais- discursivos, media um conflito histórico que o país trava com os EUA. Nesse aspecto, a Revolução Cubana é reafirmada. A Ilha se posiciona em relação à sua soberania nacional e à sua independência.

A reportagem do jornal cubano deu maior destaque a Josefina Vidal do que a Roberta Jacobson, colocando a representante cubana sempre em primeiro plano na narrativa, mostrando as preferências e a hierarquização discursiva do jornal. O Granma se referiu à relação entre os dois países como “estagnação”, evitando expressões como “meio século de inimizade” ou “conflito”. “Estagnação” parece ser uma palavra mais neutra, mas os sentidos de confronto estão em jogo e eles migram para outras palavras, isto é, o jornal não se isenta de uma posição discursiva, como quando diz que as relações devem se concretizar “sem o prejuízo da independência nacional e da autodeterminação de nosso povo”. Dizer assim, e não de outro jeito, aciona uma filiação de memória sobre como o Granma e o sujeito político (Josefina Vidal), em uma FD da Revolução Cubana e em uma FD de soberania nacional, que se relacionam com as imagens que Cuba tem para essas formações. São dizeres que se inscrevem desde muito antes da Revolução Cubana, ainda no contexto da independência, com José Martí, quando a Ilha deixou de ser colônia da Espanha, mas se tornou uma neocolônia dos Estados Unidos (MÁO, 2007).

A FD, que estamos chamando de Soberania Nacional, se constitui uma rede de saberes que se atualizam a cada acontecimento, com permanências e rupturas sobre o que significa a independência nacional a partir da defesa da soberania, que poderia ser derivada da defesa da Revolução, uma vez que o jornal ressalta que é preciso “respeito pelos sistemas políticos, econômicos e sociais”. A defesa de sua soberania ora relembra uma a relação histórica com o próprio sentido de independência, ora é uma maneira de mobilizar seus saberes a partir de novas condições de produção desse discurso: um momento de reaproximação diplomática com um sistema político que produziu um “bloqueio” para Cuba. É a atualização da memória, no devir histórico (MAIA, 2014).

Esse discurso da soberania nacional se relaciona com o discurso da Revolução Cubana, ainda que não sejam a mesma coisa. A Revolução possibilitou a independência de Cuba em relação aos EUA e os sentidos de social, da união, que a Revolução Cubana trouxe aparecem nos enunciados quando o jornal, pelo discurso indireto, fala “nós”, “nosso povo”, “nosso país”. Esses enunciados constituem uma espécie de uniformidade sobre como o Granma se enxerga em sua posição social: como representante do Partido Comunista Cubano. E mais: como representante da população. Esse dizer no plural, ainda no discurso indireto, é uma espécie de apropriação das identidades dos cubanos que o Granma realiza para projetar o seu discurso.

O processo discursivo da reportagem produz sentidos para a relação entre Cuba e os EUA que se encontram nos seguintes enunciados: “mas ainda há muito a ser feito”, “estagnação”, regras guiarão a restauração”, “ambos os lados”, “diálogo respeitoso”, “vizinhos próximos”, “diferenças profundas”, “diferenças significativas”, “profundas diferenças”, “independente das diferenças”.

É o diferente sendo significado e produzindo sentidos (outros) a cada uso, deslizando entre uma tentativa de diálogo e um conflito permanente. As diferenças de Cuba em relação aos EUA, mobilizadas pelo Granma, produzem outros efeitos de sentidos se presarmos na apropriação do jornal El País, que direcionou para Cuba o significado do diferente em relação ao mundo, em um lugar inferior. O diferente que se configura no Granma produz uma identidade a Cuba em relação aos EUA, um lugar de autoridade, um lugar que decide e a que não está sujeito. Essa imagem é bem distinta do modo como também o jornal O Estado de S. Paulo construiu discursivamente o mesmo “fato”. Isso mostra que, quando falamos, assumimos posições, mesmo não querendo reconhecê-las. “Elas existem [as diferenças] e vão se manter”, diz o jornal cubano.

O Granma formula, no discurso indireto, que “nosso país continua injustamente na lista de Estados patrocinadores do terrorismo internacional”. Ele poderia dizer a mesma frase de outro modo? Se ele dissesse: “nosso país continua na lista de Estados patrocinadores do terrorismo internacional”, seu efeito seria o mesmo? Quando o enunciado “injustamente” se inscreve no texto do Granma, este se posiciona para um lugar de vítima, acionando a memória sobre o bloqueio, lembrando que, em 1996, o País foi adicionado à lista de países que praticavam o terrorismo, e que, em 2001, Cuba foi transferida para a lista de países que apoiam o terrorismo, uma ação política que desqualificou o País na política internacional. Por isso, para o jornal, “mudar essa realidade [o reatamento das relações) não significa que eles estão no limiar da plena normalização”. Essa frase é muito forte, porque mobiliza uma polêmica, desestabilizando qualquer ideia que direciona a interpretação sobre esse acontecimento como algo a ser resolvido “plenamente” em seis meses, como disse o Estado de S. Paulo. Reatar “plenamente” as relações, para o Granma, é improvável, porque ainda que os dois países reatem suas relações, as diferenças continuarão.

Quando o jornal cubano traz a questão dos direitos humanos, esse dizer se coloca em oposição ao que foi dito pelos EUA na mesma reunião. O Granma, desestabiliza o

sentido sobre os direitos humanos quando este formula que “ Cuba tem preocupações sobre o exercício dos direitos humanos nos Estados Unidos”. O jornal faz dessa maneira, porque “numa realidade histórica, em que se é obrigado a reconhecer que sempre se ocupam determinadas posições no conflito constitutivo das relações sociais, não se pode fazê-lo neutramente” (ORLANDI, 1987, p. 13). Ele realiza uma transferência em relação aos sentidos sobre o que seriam os direitos humanos e sobre o lugar social dos EUA, colocando em questão que as palavras não têm um significado intrasferível, mas que, ao contrário, os sentidos estão sempre à deriva.

O trecho da reportagem “Cuba tem preocupações sobre o exercício dos direitos humanos nos EUA” pode funcionar como uma ironia, que não é entendida como figura