Pode-se constatar a sensibilidade ufanista entre civis e militares que se dirigiram para os interiores coloniais? O que dizer dessas tensões, já que havia o predomínio da sensibilidade ufanista? Quais foram seus desencadeamentos entre esses grupos e mesmo fora deles? Tais indagações podem ser obtidas sob a luz da interpretação de um conjunto de documentos publicados pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Trata-se de “Notícia da Conquista e Descobrimento dos sertões do Tibagi, na Capitania de São Paulo, no Governo do General Dom Luis Antônio se Souza Botelho Mourão conforme as ordens de sua Magestade”. 37
As afrontas e a luta pelo território colonial arrastaram- se desde o Tratado de Madrid, em 1750, até a ampliação das tensões, entre os anos de 1761 e 1765. 38 Assim, as raízes do ufanismo não se encontram apenas nos embates internos entre os paulistas e portugueses, mas nos conflitos com os espanhóis e, relacionam-se às formas de ressentimento enraizadas. Entre tais posições havia o indígena que figura como uma massa inerte em meio a este processo, mas indispensável ao projeto civilizatório lusitano. A ênfase do Marquês de Pombal estava nos domínios ultramarinos, e desse modo, levou adiante um “nacionalismo” liberal que trazia consigo a idéia de “progresso” e de “felicidade” às “populações subjugadas”. 39
O novo momento administrativo e militar na capitania de São Paulo trazia das construções letradas as sensibilidades ufanista e ressentida. Note-se que Pedro Taques e Frei Gaspar da Madre de Deus tinham aproximações com D. Luis Antonio de Souza Botelho Mourão e, por outro lado, Cláudio Manuel da Costa tinha afinidades com o Marquês de Pombal e com o Governador da Capitania do Rio de Janeiro, Albuquerque Coelho de Carvalho; além do mais o marquês de Pombal tinha relações diretas e também truncadas com o Morgado de Mateus.
As recordações dos tempos gloriosos das aventuras dos paulistas em desbravar áreas inóspitas e desoladas, apresar grupos indígenas, encontrar ouro, influenciou não só a escrita dos “documentos” militares, mas também a intenção de obter promoções, honrarias, créditos, concessões e enriquecimento. Principalmente quando o caminho para a ascensão social se dava a partir dessas estratégias. Mas o sucesso dependia das ações durante as expedições
37
A documentação organizada por J. Carlos Lisboa, em 1962 é variada: é composta de ordenações, correspondências e relatórios militares.
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Ver BALHANA, Altiva Pilati; MACHADO, Brasil Pinheiro; WESTPHALEN, Cecília Maria. História do
Paraná. Curitiba: Grafipar, 1969. 39
militares, eficiência no comando das tropas, o fiel cumprimento das determinações reais e do Capitão General da Capitania de São Paulo, e enfim, a própria superação em relação aos oficiais de mesma patente.
As sensibilidades e emoções que submergem nos relatórios das missões de exploração dos sertões do Tibagi revelam as aspirações e desejos pessoais, fracassos e desânimos, que ora se direcionam para o interior da corporação militar, e ora para os espanhóis e para os grupos indígenas. Elas foram mais intensas, pois tratava-se de confrontos diretos e, portanto reais, ao contrário da retórica histórico-poética.
O desdobramento do ufanismo nos interiores da colônia e a perspectiva do seu oposto, ou seja, a do ressentimento, manifestou-se em planos de ocupação desses “espaços” entre os membros das expedições militares durante a exploração dos sertões do Tibagi, e também em suas relações com o poder metropolitano.
A ambiciosa missão de reconhecimento de espaços ignotos na Colônia estava a cargo de D. Luis Antonio de Souza Botelho Mourão (1722-1798), Morgado de Mateus, que assumia o posto de Capitão General e Governador da Capitania de São Paulo. Sua iniciativa modernizadora e “reformista” foi ousada; seguiu seus próprios propósitos e acabou pagando caro por isso, pois suas idéias admitiam certa independência das decisões metropolitanas, e dos sistemas de poderes na colônia.
Notavelmente os laços familiares da Casa de Mateus à coroa portuguesa se estabeleceram nos campos “militar, administrativo e cultural”. D. Luis Antonio de Souza herdara a nobreza, e por influência de seu Avô, D. Luis de Souza, uma tradição militar. Se aos três anos de idade já era soldado, aos treze era promovido a Sargento-Mor de Batalha e, aos 16 reconheciam-se seus serviços na Província de Entre Douro e Minho, na Guarnição do Castello de S. Thiago da Barra da Villa de Viana. No ano de 1749 foi nomeado Mestre de Campo de Auxiliares do Distrito de Porto. Casou-se com Dona Leonor Ana Luisa José de Portugal em 1756. Contudo, o Mestre de Campo teve o reconhecimento e prestígio na corte com o episódio da Guerra dos 7 anos, em 1762, quando Portugal não aderiu ao “Pacto de Família” Bourbon. (BELLOTTO, 1979).
Os avanços franco-espanhóis sobre Portugal foram intensos sobre a região de Miranda do Douro, Bragança e Chaves, as quais capitularam. Contudo, no avanço para Vila Real, houve resistência popular que praticamente mobilizou a incursão militar inimiga, o que mostrava o despreparo militar português, e deu a oportunidade de o exército português se reorganizar. D. Luis Antonio de Souza participou da resistência ao Norte. Ele retomou Vila
Real e as passagens de Homezio e Rio Tua, terminando por expulsar as tropas do Márquez de Sarriá do território luso.
Foi promovido a Coronel de Infantaria e, acumulou os títulos de Morgado de Mateus (Moroleiros, Sabros e Cumieira), de Fidalgo da Casa de Sua Majestade e de seu Conselho, Senhor Donatário da Vila de Ovelha do Marão, de Alcaide Mor da Cidade de Bragança, de Comendador da Comenda de Santa Maria de Vimioza da Ordem de Cristo, e de Governador do Castelo da Barra de Viana. 40
Certamente o desempenho no episódio militar contra os franco-espanhóis foi crucial para seu prestígio na corte, principalmente quando o exército português precisava de bons exemplos. Mas deve-se acreditar que também pesaram o prestígio de seu avô, e as influências da família de sua mulher (Souza Coutinho), a nobreza política e a nobreza hereditária, para que o Morgado de Mateus assumisse a administração da Capitania de São Paulo. Ainda mais quando havia um estado de beligerância com os espanhóis na colônia.
Disto resultará o retrato de um caráter autoritário, com um sentido de autoridade e hierarquia levado às raias do exagero no qual a tenacidade em relação aos desafios caracterizar-se-á por uma coerência a toda prova. O moralismo e o ritual cotidiano de piedade e religião – entendamo-los dentro de sua época; a disciplina e o autoritarismo, na sua formação fortemente eivada do militar; a tenacidade, a teimosia e a inflexibilidade, ao transmontano. E este temperamento, se de um lado podia servir da melhor forma à causa do centralismo, por outro lado, chocar-se-ia, inevitavelmente com a maneira de ser dos paulistas. 41
Os sertões do Tibagi eram áreas indefinidas entre os domínios português e espanhol na América e, permanecia como “terra de ninguém”. Sem delimitações precisas a região tornou- se objeto de diferentes interesses. Desse modo, a valorização territorial passou a ter grande peso nos discursos militares. Como os conflitos ainda estavam mornos no Iguatemi, e mais intensos no Sul da colônia, D. Luis Antonio colocou em prática a estratégia de “incomodar” os espanhóis nessa área confinante. A armadilha foi denominada “diversão pelo Oeste”.
40
BELLOTTO, Heloísa Liberalli. Autoridade e conflito no Brasil Colonial: o governo do Morgado de Mateus em São Paulo (1765-1775). São Paulo: Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1979, p. 65.
41
Para D. Luis, esta tomada de posição em relação ao Oeste podia ser um paliativo para a ação agressiva no rio da Prata, já que esta lhe fora desaconselhada por seus superiores. Não interessava Portugal tomar, na América, atitudes contrárias às que ocorriam na Península Ibérica, onde as coroas procuravam contemporizar a respeito de suas divergências. 42
O Morgado de Mateus reuniu-se com o Vice-Rei Conde de Cunha para estabelecer estratégias de ocupação territorial, e ordenou-se a ocupação do Iguatemi pela Serra de Apucarana. Em 1767, por exemplo, determinou-se ao Coronel Francisco Pinto do Rego “que adentrasse pelo sertão de Guarapuava, que fazia frente à Serra de Apucarana e ocupou-se essa região”. 43
Notadamente, as informações sobre o Coronel Francisco Pinto do Rego são ambíguas, e revelam as tensões do período nos limites da capitania de São Paulo. Machado D’Oliveira informa sobre sua nomeação e sua disposição para reconhecer aqueles sertões; contudo, ele não a realizou, pois “como se lhe não provesse dos meios de leva-lo a effeito, e não os tivesse próprios para esse mister, foi dispensado de similhante comissão”. 44
Tudo indica que o Coronel Francisco Pinto do Rego recusou-se a explorar os sertões do Iguatemi por ser indiciado numa suposta conspiração contra o Morgado de Mateus. O juiz de Santos, José Plínio Gomes de Morais, movia contra ele um processo por suspeitar que fosse cúmplice do capelão de Sant’Ana, Francisco Xavier Garcia. O abastado coronel já havia organizado uma comitiva com mais de trezentos homens, mas a expedição não se realizou mesmo depois de lhe ser concedido o perdão pela conjuração.
O Morgado de Mateus não aceitou bem a situação. Em suas analogias superficiais e generalizantes afirmou categoricamente sobre essas motivações pessoais carregadas de engrandecimento, isso sem esquecer os aspectos relacionados à historicidade paulista: “elle se vale da devassa para não realizar a expedição prometida, do que venho de concluir que as idéias destes homens são como as pirâmides do Egyto, que se admiram muito com a grandeza e nada mais”.45
Dessa maneira sob as orientações de D. Luis Antonio ordenou-se uma série de expedições ao Iguatemi, Ivaí, Tibagi e Guarapuava, a fim de conquistar os territórios além do
42
Ibid., 1979, p. 119. 43
FRANCO, Carvalho. Bandeiras e Bandeirantes de São Paulo. São Paulo: Nacional, 1940, p. 292. 44
MACHADO D’OLIVEIRA, J.J. Quadro Histórico da província de São Paulo. Governo do Estado: 1978, p. 157.
45
rio Paraná, “pertencentes ao Paraguai”.46 Entre seus assessores, também estavam os Sargentos-Mores D. José de Macedo Souto Mayor e Castro, Manoel Caetano Zuniga e os respectivos Ajudantes, Teotônio José Juzarte e Manoel José Alberto Pessoa, que seriam, por larga parte de seu governo, seus lugares-tenentes, principalmente na empresa de penetração do sertão.47
O sobrinho do Morgado de Mateus, Afonso Botelho de Sampaio e Souza, ajudou-o nesta tarefa de ampliar os domínios portugueses, fazer frente aos espanhóis e converter as populações indígenas aos propósitos cristãos e metropolitanos. Ele também participara da guerra contra a Espanha, e chegava à colônia, em 1765, como ajudante-de-ordens. Depois, foi promovido ao “posto de alferes”, em 1766. Sua atribuição era realizar “entradas” para os sertões do Tibagi.
No ano seguinte, Afonso Botelho foi promovido a tenente do Regimento de Infantaria de Santos, e dirigiu a construção da fortaleza Nossa Senhora dos Prazeres em Paranaguá. Foi responsável pela fundação de quartéis e de igrejas como a de São José da Marinha (Araripa), Santo Antonio do Registro (Lapa) e Sant’Ana do Iapó (Castro). Comandou onze expedições para os sertões da capitania de São Paulo, das quais pessoalmente a 10ª. (1771) e a 11ª. (1773), após a notícia da descoberta dos “Campos de Guarapuava”. Em 1774, o Morgado de Mateus o promoveu ao posto de Tenente-coronel. 48
Com o final do governo de Mateus, Afonso Botelho foi destituído de suas patentes e, desgostoso, retornou ao reino, momento que lhe foi oportuno para redigir suas memórias e reabilitar sua imagem perante a corte portuguesa. Para remediar tal situação de constrangimento, escreveu correspondência à rainha de Portugal, D. Maria I – A Piedosa, A Louca-, filha de D. José I, O Reformador, dinastia de Bragança, 49 junto com um elaborado e minucioso documento intitulado “Notícia da Conquista, e Descobrimento dos Sertões do Tibagi da Praça de Santos, para cujo efeito passou à Vila de Curitiba e pessoalmente assistiu a todas as entradas e mais diligências, que se fizeram para o dito fim”. Em 1778, ele teve o
46
LEITE, Aureliano. História da Civilização Paulística; enriquecida de vasta bibliografia sobre cousas e pessoas de São Paulo desde 1502 a 1945. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1960.
47
BELLOTTO, 1979, p. 105. 48
GARCEZ FILHO, João Moreira. Notas biográficas sobre Afonso Botelho. In: Do contato ao confronto: a conquista de Guarapuava no século XVIII. São Paulo: BNPO Paribas, 2003, p. 24-25.
49
MATOSO, António G. Compêndio de História de Portugal. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1942, p. 324-367. Com a morte de D. José I, em 24 de fevereiro de 1777, assumiu sua filha D. Maria I. A nova rainha precisou tomar uma série de medidas a fim de remediar as situações do período anterior e dar continuidade às medidas econômicas, sociais, artísticas e pedagógicas iniciadas por D. João V. Ela também anistiou vários presos políticos. Contudo, não anistiou os jesuítas e abriu processo, em 1781, contra o Marquês de Pombal, “réu merecedor de exemplar castigo”, perdoando-lhe castigos físicos.
reconhecimento de sua patente e de suas atividades à coroa pela rainha, além de ser agraciado com a “comenda da Ordem de Cristo e o comando do Terço de Auxiliares de Vila Real”. 50
Na abertura do documento encaminhado à rainha D. Maria I, Afonso Botelho ressalta as virtudes do trono português, a honra em desempenhar tão nobre tarefa nos “espessos e nunca pisados sertões”. Fica clara também a valorização das expedições, consideradas “incômodas e arriscadas” sobre áreas inóspitas, seguindo o objetivo de “plantar” a fé cristã, ampliar os domínios territoriais, explorar o ouro nas serras de Tibagi e Apucarana, ampliando as riquezas metropolitanas. Notavelmente, também estava ali o zelo descomedido da sensibilidade ufanista.
Num momento em que precisava retomar suas titulações e prestígio, valorizou seu passado e suas atividades militares na exploração das terras na América do Sul, sendo que sua “(...) conquista se tentou tantas vezes”, e só ele a conclui “no governo do general D. Luis Antônio de Souza Botelho Mourão, debaixo de cuja disciplina” serviu, o qual franqueara os sertões, denominando-o de “Mina dos prazeres do Tibagi”.51 Seus propósitos eram os de enfatizar o seu “desejo de ser útil à pátria” e cooptar com ela manifestando-se pela plena felicidade de seus soberanos. Originalmente, isso leva-nos a pensar que as raízes desse ufanismo não estariam apenas aqui, mas também do outro lado do Atlântico, nas terras portuguesas. Salientamos anteriormente que as sensibilidades são opostas e convergentes, embora não expliquem plenamente tais valorações.
“Noticia da Conquista...” é composta por correspondências, relatos militares, sonetos, pinturas, listas de mantimentos e de pessoas, entre outros. Mas é proposital dizer que esses documentos diversificados possuem referências às “apreensões” sensíveis e intelectivas desses espaços. Elas apresentam um conjunto de sensibilidades e valorações aos sertões e às ações transcorridas. Notadamente, o que transparece nos documentos são manifestações objetivas e técnicas, de forma que as sensibilidades, na maioria dos casos, foram subjetivas e, apresentaram-se quase como impressões táteis. São como um pano de fundo que evidenciou particularidades e generalidades da condição humana em torno das disputas territoriais, valorizações pessoais e coletivas.
No documento encabeçado por Afonso Botelho há breve referência à gênese da capitania de São Paulo; segundo ele uma das “maiores da América”, o seu desmembramento
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GARCEZ FILHO, 2003, p. 24-25. 51
SAMPAIO E SOUZA, Afonso Botelho de. Notícia da conquista, e descobrimento dos sertões de Tibagi, na capitania de São Paulo, no governo do Governador, e capitão-general Dom Luis Antônio de Souza Botelho Mourão, conforme as ordens de sua majestade. ANAIS DA BIBLIOTECA NACIONAL. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, Divisão de Publicações, [1768-1774], 1956. Vol. 76. Citarei daqui para frente apenas o título abrevidado. Trata-se de uma correspondência sem datação encaminhada à rainha de Portugal, D. Maria I.
para formar as capitanias de Minas Gerais, Goiás, Cuiabá, Mato Grosso e Rio Grande, ou seja, fala de seu “florescimento” e de sua decadência, do estado em que estava a capitania até o novo momento em que ocorreram transformações significativas, as quais ofuscaram os atos dos governos anteriores, ou seja, criticou a substituição do governo do Morgado de Mateus.
Mas Afonso Botelho não se esqueceu do peso da tradição, da densidade do passado e dos seus mais notáveis acontecimentos. Na seqüência do documento, faz menção honrosa ao passado dos bandeirantes paulistas, não esquece “as pisadas dos nossos maiores nos seus descobrimentos” e, procurando sempre a verdade como o único “alvo”, apresenta as memórias das onze expedições militares que se dirigiram para a imensidão da capitania de São Paulo.
A situação de D. Luis Antonio foi bem diferente. Ele também passou pelo processo de reivindicação de suas titularidades e prestígio ao final de seu governo. O reconhecimento de suas atividades na colônia só veio com muito custo, mas não como desejava. As críticas à sua administração centravam-se na sua forma de governar, na obstinação pelo projeto no Iguatemi, estratégias essas que sem margem de dúvidas abalaram os sistemas de poderes na colônia e metrópole. As intrigas com o Provedor Valadares e Alborin, o Bispo Manoel da Ressurreição, o Secretário de negócios da marinha, Martinho de Mello e Castro, e o ouvidor da comarca, Salvador Pereira da Silva colocaram-no em situação delicada a todo “instante”. As autoridades o acusaram de nepotismo, de apropriação dos recursos da coroa, e do desastroso empreendimento no Iguatemi. Segundo Bellotto,
a ligação entre elementos da ‘aristocracia’ local, os camaristas e os oficiais de justiça representaria, para o governador, uma sólida trama a entravalhar-lhe não só o bom andamento da administração colonial, mas todo o sistema administrativo colonial. Desta visão que tinha o Morgado de Mateus desses elementos locais de poder, originara-se provavelmente, a sua constante má vontade para discutir, em bons termos, as questões que se levantaram entre eles.52
As intrigas escondiam, portanto, a troca de acusações e interesses pessoais; no caso do Morgado de Mateus, a arrematação de contratos reais. Com a nomeação de Martim Lopes, em janeiro de 1775, o Morgado de Mateus procurou através de seu cunhado D. Francisco Inocência, ex-governador de Angola, volta honrosa à metrópole. Mas foi infeliz no intento.
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Ao final do mandato, elaborou - como era de praxe - um “testamento administrativo” apresentando um panorama geral da colônia. No início, reconheceu a importância da Guerra do Rio Grande e São Paulo, a necessidade estratégica da conquista do Iguatemi, a necessidade do povoamento e da mineração no Tibagi, o uso de indígenas na colonização; depois distinguiu e justificou os gastos em seu governo, apontou as condições das tropas e a dificuldade de recrutamento, descreveu as edificações, a elevação de vilas, a urbanização, concessão de sesmarias, a criação de casas de fundição, entre outros. Ao final do documento, o Morgado de Mateus apresentou suas impressões sobre as justiças, as câmaras, o clero e sobre os paulistas. Tais questões foram rebatidas veementemente pelo novo governador, que fazia questão de dizer que a situação na capitania de São Paulo era lastimável, a população estava amedrontada, as vilas despovoadas, e que o projeto do Iguatemi tinha sido um grande engano. 53
Somente após a deposição do Marquês de Pombal tentou retomar seu prestígio, encaminhando uma petição à rainha. E em 1781, iniciou-se o processo de sindicância na capitania; e como a maioria dos depoimentos eram de pessoas que haviam lhe servido ou estavam muito próximas, como Teotônio José Juzarte (em geral eram militares e oficiais da justiça), todos eram uníssonos em afirmar a “limpeza de mãos, inteireza e honra” de D. Luis.54 Em razão desses resultados requereu a patente de Brigadeiro como forma de reabilitação, titulação que só recebeu em 1791, e em razão de seu estado de saúde e tempo de serviço. Sua grande estudiosa, Bellotto (1979) esclarece que o Morgado de Mateus voltou para Portugal ressentido, desejava reabilitar-se moralmente, mas não conseguiu, pois seu espírito era dinâmico; queria voltar ao serviço real, e no final de sua vida passou como senhor rural, fato que lhe provocou amargura, terminando seus dias em 1798, solitário em seu solar.
Aqueles trabalhos de encomenda solicitados pelo Morgado de Mateus aos historiadores paulistas tiveram grande influência sobre os documentos da época, principalmente em “Noticia da conquista…” e sobre os comportamentos sociais, como se verá depois. A entonação discursiva propensa à veracidade das informações, a fidelidade aos fatos também admitia receios, temores, e idealizações sobre uma vida idílica cheia de encantos.