3 Televisão brasileira
3.2 A ascensão da Rede Globo
3.2.2 A Nova República
Primeiro governante civil depois do Regime Militar, José Sar- ney é eleito pelo Colégio Eleitoral vice-presidente na chapa enca- beçada por Tancredo Neves, que morre sem ter sido empossado. Sarney assume a Presidência em 15 de março de 1985 e ocupa o poder até 15 de março de 1990, ficando no cargo um ano a mais do que o previsto pela Constituição.38
A expressão “Nova República”, criada por Ulysses Guimarães para designar o plano de governo da Aliança Democrática, foi assu- mida por Sarney como sinônimo de sua administração, período de governo marcado por medidas econômicas ineficazes no combate à inflação e na recuperação da economia brasileira, sem, contudo abrir mão do privilégio das elites que o apoiavam, e pelo estabeleci- mento de uma nova Constituição em 1988.
Durante o seu governo, José Sarney enfrentou várias denúncias de corrupção, que o envolveram pessoalmente, sendo um dos casos mais notórios o da construção da Ferrovia Norte-Sul, que ligaria o Ma- ranhão, seu estado natal, a Brasília. Sarney também se recusou a aca- bar com o chamado arcabouço autoritário, como eram conhecidos os dispositivos legais remanescentes da ditadura militar, através dos quais reprimiu duramente algumas mobilizações dos trabalhadores da época, duramente assolados pela recessão econômica dos anos 1980, cuja in- flação atingiu patamares elevados ao final de seu mandato.
José Sarney estabeleceu com os parlamentares no Congresso uma relação acima dos próprios partidos, sendo um dos fundadores
38 Em 1984, juntamente com outros dissidentes do PDS, Sarney passou a integrar a Frente
Liberal, que o lançou vice-presidente da República na chapa de Tancredo Neves (PMDB), tendo sido eleito de forma indireta em 1985, formando a chamada “Aliança Democrática”, composta por políticos remanescentes do período militar, a exemplo de Jorge Bornhausen, Antônio Carlos Magalhães e Aureliano Chaves. Para saber mais sobre este período histó- rico, ver DREIFUSS, R. Armand. O jogo da direita na Nova República. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 1989.
do chamado “Centrão”39, bloco conservador que impediu maio-
res avanços por ocasião da elaboração da Constituição de 88, com base na nomeação de cargos e concessão de canais de emissoras de rádio e TV (“coronelismo eletrônico”, como ficou conhecido pelo termo criado por Paulino Motter)40, além da liberação de verbas
para obras, que favoreceram seus projetos pessoais, sendo o mais polêmico deles a extensão do mandato presidencial para cinco anos.
Segundo Liedtke, José Sarney foi o governante que mais con- cedeu concessões para novas emissoras.41 Foram autorizadas 1.028
emissoras em um período de quatro anos (1985-1988), sendo duas delas para seus familiares no Maranhão, grande parte foi expedida durante as negociações com o Congresso para aprovar a extensão de seu mandato. Para que se perceba o que representa este número de concessões, basta comparar com os números de anos anteriores, apresentados por Graça Caldas (1998).42
No período de 1922 a 1963, foram 807 outorgas de emissoras de rádio AM, FM e TV em UHF. Nos 20 anos de regime militar (1964- 1984) foram 1.240. Quem articulou a distribuição de emissoras no pe- ríodo Sarney foi Antonio Carlos Magalhães, antigo “coronel” baiano, famoso pela frase de “quem tem televisão, rádio e jornal, está sempre no poder”43, como parece ter sido confirmado por sua trajetória política.
39 DREIFUSS, R. Armand. O jogo da direita na Nova República. 3.ed. Petrópolis: Vozes,
1989, vide especialmente o capítulo II, intitulado “A construção da máquina de ação cons- tituinte”, p. 109-180, que analisa em detalhes todo o processo que culminou com a elabora- ção da nova Carta.
40 MOTTER, Paulino. O uso político das concessões das emissoras de rádio e televisão no governo Sarney. RJ: Comunicação & Política: Cebela, vol.1, nº. 1, ago.nov. de 1994,
p. 89-115.
41 LIEDTKE, Paulo Fernando. Governando com a mídia: duplo agendamento e enquadra-
mento no governo Lula (2003-2006). Florianópolis: Programa de Pós-Graduação em So- ciologia Política [Doutorado], 2006, p. 132-133.
42 CALDAS, Graça. Políticas de comunicação no Brasil: de Sarney a FHC. Ensaios e Comu- nicação, Campo Grande: Uniderp, v.1, n. l, abr. 1998, p.43-44.
43 Idem, p. 43, referindo-se a reportagem de Bob Fernandes na Folha de São Paulo de
O ex-presidente da República José Sarney, de acordo com Liedtke, defende tese semelhante. Indagado por Sérgio Lírio em reportagem da revista Carta Capital sobre a oligarquia que a família do ex-presidente representa no Maranhão, Sarney afirma que seus familiares são todos de classe média, pois “a única participação em empresas e relativa à atividade política: jornal, rádio e televisão”, acrescenta que isto “é por motivos políticos. Se não fossemos po- líticos, não teríamos necessidade de ter meios de comunicação.” 44
Desta forma, de acordo com Mattos, assim como no regime militar, o governo da Nova República também se utilizou da mídia eletrônica para obter respaldo popular. Tanto a TV Globo como as demais redes de televisão continuaram a servir ao novo governo da mesma forma que serviram ao regime militar.45 Portanto, o favo-
ritismo político nas concessões de canais de TV prolongou-se até o governo da Nova República, de José Sarney, adquirindo uma nova roupagem nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Iná- cio Lula da Silva.
O sistema brasileiro de radiodifusão é considerado um ser- viço público e as empresas que o integram sempre estiveram sob o controle governamental direto, uma vez que o Executivo era quem detinha, até 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Consti- tuição em vigor, o direito de conceder e cassar licença e permissão para uso de frequências de rádio ou de televisão.46
O capítulo da Comunicação Social da Constituição de 1988 estabeleceu novas normas e diretrizes para a concessão de emissoras de rádio e televisão, anulando os critérios casuísticos utilizados até então. A partir da sua promulgação, o ato de outorga ou renovação da concessão de uma emissora passou a depender da aprovação do
44 LÍRIO, Sérgio. Carta capital. Não tenho culpa, edição n. 369, 23/11/2005. 45 MATTOS, Sérgio. Op.cit., p.134.
Congresso Nacional e não apenas da decisão pessoal de quem esteja no exercício da Presidência da República. Também o cancelamento da concessão ou permissão, antes de vencido o prazo de dez anos para emissoras de rádio e de quinze anos para emissoras de televi- são, depende de decisão judicial. 47
Apesar das inovações, a Constituição de 1988 não conseguiu impedir, por exemplo, que as concessões de retransmissoras mistas de TV, distribuídas pelo governo Sarney durante a votação de mais um ano para o seu mandato, fossem transformadas em 1999 em “micro geradoras regionais”, com possibilidade também de veicu- lar espaço publicitário. A mudança começou em maio de 1999, sem necessidade de novas licitações (como manda a lei), cabendo seu controle automaticamente aos atuais proprietários. 48
Além de transformar 180 retransmissoras de TVs educativas em geradoras locais, o Ministério das Comunicações e a Anatel ini- ciaram no ano 2000, governo Fernando Henrique Cardoso (FHC), o processo de reserva de novos canais para futuras emissoras de bai- xa potência. Tanto as novas concessões como a transformação de retransmissoras em geradoras foram feitas com base no Decreto n° 3.541, assinado pelo presidente e o ministro das Comunicações, Pi- menta da Veiga, no dia 6 de maio de 2000. Outro decreto, assinado em maio de 1998 pelo presidente e o então ministro das Comunica- ções, Luiz Carlos Mendonça de Barros, já previa essa possibilidade.49
O novo decreto permite a transformação de retransmissoras mistas de televisão educativa — figura criada por portaria durante o governo de José Sarney - em geradoras regionais. Segundo Jar- bas Valente, então superintendente de Serviços de Comunicação de Massa da ANATEL, “a ideia é permitir que cada município tenha
47 Idem, p. 62.
48 Idem, ibidem, que lembra que a denúncia foi feita por Rubens Glasberg, na revista Carta
Capital de abril-maio de 99.
(sic) um canal gerador.”50 A concessão dessas e de novas emissoras,
na verdade, contraria promessa feita pelo primeiro governo de FHC, quando o então ministro das Comunicações, Sérgio Motta, afirmou que não haveria mais distribuição gratuita de canais de televisão como ocorreu no governo Sarney, passando a ser concedidos por meio de licitação pública.
Contudo, de acordo com dados, até julho de 2000, existiam trezentos pedidos de concessão de geradoras educativas na Secre- taria Nacional de Radiodifusão. Segundo o então secretário de Radiodifusão, Paulo Minicucci, doze tinham sido aprovados, 120 deveriam ser negados e 168 encontravam-se em estudo, podendo ser autorizados. O interessante desta situação é que o governo dis- pensou licitação para TVs educativas e se alguém tiver interesse em um canal basta registrar uma fundação, enviar a documenta- ção ao Ministério, aguardar a autorização do mesmo e da Presi- dência e, depois, a aprovação por maioria simples no Congresso Nacional. 51