BASES POLÍTICAS PARA O ECOTURISMO
B ASES POLÍTICAS PARA O ECOTURISMO NO P ARANÁ
7 RESULTADOS E DISCUSSÃO
7.1 A NTECEDENTES DO ECOTURISMO NO LITORAL DO P ARANÁ
A identificação da região do litoral paranaense como pólo de ecoturismo por parte do governo federal, e área prioritária para a prática de turismo em áreas naturais por parte do governo estadual, revela, por um lado, o reconhecimento da sua vocação para o ecoturismo, em função das condições de preservação dos diversos atrativos naturais, culturais e históricos presentes, e por outro, o seu potencial, visto que já existe uma infra-estrutura turística razoável, com um bom acesso e uma rede de hospedagem e alimentação de boa qualidade, além de estar próxima de Curitiba e São Paulo, principais centros emissores de ecoturistas.
Contudo, a preferência dos turistas que vêm à região está fortemente focada no turismo de sol-e-praia, como pode ser observado na temporada de 2002/2003, quando quase 80% dos visitantes procuraram a região para esse tipo de turismo (PARANÁ, 2003).
A partir do final do século XX, começam a acontecer iniciativas para reversão deste quadro. A indústria do turismo, organizações não governamentais e a academia, começaram a se organizar para um melhor aproveitamento das áreas naturais preservadas e não preservadas, bem como para alavancar a atividade de forma a maximizar os benefícios e diminuir os custos sociais, econômicos e ambientais do ecoturismo. Essas ações são apresentadas a seguir.
7.1.1 Ações voltadas para criar as condições para o desenvolvimento do ecoturismo no litoral do Paraná.
7.1.1.1 Organização do setor
A organização do ecoturismo no litoral paranaense foi iniciada pela indústria do turismo, buscando o ordenamento da atividade junto aos pequenos empreendedores, para otimizar a gestão do negócio, planejamento, formatação e aperfeiçoamento dos produtos ecoturísticos oferecidos, sua promoção e a gestão local.
Em 1999, empresários, produtores rurais e empreendedores da região, realizaram o
“Primeiro Encontro Antonina, Morretes e Guaraqueçaba – Portais do ecoturismo no litoral paranaense”, realizado em Antonina. O objetivo do encontro foi o de orientar futuras políticas, programas, estudos e trabalhos de ecoturismo no litoral (CARTA DE ANTONINA, 1999).
Neste encontro foi elaborada a “Carta de Antonina, Morretes e Guaraqueçaba”
reconhecendo o potencial ecoturístico dos municípios em questão, e a necessidade de maior divulgação dos atrativos naturais e culturais para que o visitante prolongue sua estadia.
Também reconhece que o ecoturismo é uma alternativa econômica importante na promoção do desenvolvimento sustentável, para que os municípios atendam as necessidades básicas dos moradores, e garantam sua qualidade de vida. Também destaca que a população deve ser envolvida para se atingir a equidade econômica.
A carta também reconhece que, à época, a região não apresentava alternativas econômicas para a melhoria da qualidade de vida das comunidades. A falta de prioridades políticas, em matéria econômica, social e ambiental, estava ocasionando a estagnação da economia, a exploração indiscriminada de recursos naturais e a ausência de fundos para a conservação e manejo das áreas protegidas. Faz recomendações para a implementação da infra-estrutura para o turismo e ecoturismo, identificando o papel do setor público e as parcerias que deveriam ser realizadas, assim como o papel da iniciativa privada.
Na mesma linha do encontro de Antonina, foi realizado em Morretes, em 2002, a “I Oficina Melhores Práticas para o Ecoturismo – Pólo Morretes”, promovida pelo FUNBIO, através do programa “Melhores Práticas para o Ecoturismo”e com o apoio de instituições oficiais de turismo estadual e municipal em parceria com a iniciativa privada (MPE, 2002).
O objetivo da oficina foi propor ações de operacionalização da estrutura física e dos roteiros existentes no município, definir indicadores de monitoria e avaliação para o Ecoturismo na região, definir a forma de atuação dos agentes locais e elaborar um cronograma para implantação de um plano de gestão a partir de 2003.
A nível governamental, o ecoturismo também tem sido favorecido, através de diversas parcerias entre as agências de fomento e capacitação, bem como pela liberação de financiamentos para execução de projetos voltados para o turismo de modo geral.
Em 2005, começou a ser desenvolvido pela SETU, um programa visando a integração dos municípios do litoral, denominado “Programa de Regionalização do Turismo no Litoral do Paraná” com os objetivos de discutir e integrar ações de planejamento e desenvolvimento do turismo sustentável no Litoral do Paraná, entre as esferas do poder público, iniciativa privada, ONGs e outras instituições envolvidas com a atividade, como universidades e conselhos gestores das UCs. O Programa está na fase de implementação da Governança Regional com a implantação da Agência de Desenvolvimento do Turismo Sustentável do Litoral do Paraná - que será constituída como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIP, com o papel de fazer a ponte entre os empresários e instituições
atuantes no turismo na região com o governo estadual e federal (SILVA9, 2007 - comunicação pessoal) .
Um dos resultados do programa foi o lançamento do “Projeto Litoral do Paraná:
emoções o ano inteiro”, em desenvolvimento desde 2006, com o objetivo de impulsionar o turismo na região, tentando superar os efeitos da forte sazonalidade. O projeto é uma parceria entre a Secretaria Estadual de Turismo, o SEBRAE, Prefeituras e empresários dos sete municípios, e outros órgãos como IBAMA, IAP, Conselhos das Unidades de Conservação e ONGs. As ações do projeto estão divididas em três temas:
•••• capacitação e qualificação;
•••• infra-estrutura; e
•••• articulação, parceria e mercado: divulgação e venda.
O “Programa de Certificação do Turismo Sustentável” está sendo desenvolvido no litoral pelo Instituto de Hospitalidade do Brasil. Iniciado em 2006, se inscreveram para participar do programa, até o momento, 5 pousadas da Ilha do Mel, 1 hotel e 1 pousada em Paranaguá e 3 pousadas em Morretes. A previsão é que o até o final do ano de 2007, sejam certificadas os primeiros estabelecimentos (CARLOS GNATA, 2007 – comunicação pessoal).
7.1.1.2 Apoio para populações locais
Já há algum tempo se reconhece que o turismo convencional é incompatível com os valores e princípios da conservação ambiental no litoral paranaense (SPVS, 1999). Em função disso, diversas instituições vem promovendo o ecoturismo para estimular o uso controlado dos recursos naturais, por meio de métodos que causem baixo impacto, ao mesmo tempo em que tentam oferecer alternativas de renda às populações do entorno das UCs, que enfrentam uma diminuição da produtividade das suas práticas tradicionais, e privação de parte de seu território.
A primeira iniciativa foi o projeto “Ecoturismo de Base Comunitária no Parque Nacional do Superagui”, iniciado na comunidade da Vila da Barra do Superagui, em 1999, pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental – SPVS. O projeto promoveu cursos e seminários de capacitação envolvendo a comunidade no levantamento da oferta turística. Como resultado, o projeto esperava o desenvolvimento de um modelo de
9Daniela Meres Silva é diretora da regional do Litoral do Instituto de Ecoturismo do Paraná.
ecoturismo que atendesse à realidade de uma área composta por um mosaico de unidades de conservação (SPVS, 1999). Por falta de financiamento o projeto não teve continuidade.
Outro projeto da SPVS é o de “Conservação do Papagaio-de-cara-roxa (Amazonas brasiliense)”, que incluiu, entre os seus objetivos, a busca de geração de renda através da capacitação de condutores turísticos e incentivo ao ecoturismo na Ilha das Peças, local considerado um dos principais sítios de ocorrência da espécie. A partir de 2003, iniciaram diversas oficinas de capacitação para os moradores da Vila das Peças, envolvendo a organização, condução e segurança de visitantes (SPVS, 2007).
Em 2006, a SPVS iniciou o projeto “Modelo para o Ecoturismo com Base em Sistema Cooperativo no litoral norte do Estado do Paraná”, com apoio do Ministério do Meio Ambiente, por intermédio do Subprograma Projetos Demonstrativos Mata Atlântica (PD/A).
Tem como objetivo desenvolver e implantar um modelo de ecoturismo com base em sistema cooperativo, focado na consolidação de roteiros ecoturísticos em uma região de grande importância para a conservação da biodiversidade. Os municípios atendidos compreendem Antonina, Guaraqueçaba e Morretes. O Projeto tem como preceito a atividade turística que envolva o desenvolvimento do capital humano e social. Foram contatados cerca de 120 pequenos empreendedores na região, entre pousadas, restaurantes, artesões e barqueiros.
Destes, 40 se interessaram pelo processo e estão participando das oficinas de capacitação para trabalhar com o ecoturismo, aprendendo a identificar e formatar roteiros. Até o final de 2007 o projeto espera ter formado a cooperativa e, em 2008, na fase final, ocorrerá a incubação da cooperativa, que visa dar apoio aos cooperados na gestão e comercialização dos roteiros (SPVS, 2007a).
O Grupo Integrado de Aqüicultura e Estudos Ambientais da Universidade Federal do Paraná (GIA/UFPR), está realizando, desde 2006, o “Projeto Cultimar” para criar novas fontes de renda para as comunidades tradicionais da região litorânea, de forma sustentável, sem descaracterizar o ambiente natural ou práticas tradicionais, por meio de interação da maricultura, o turismo e o artesanato. Em parceria com a SPVS, com duas agências de turismo, e com a Associação de Condutores da Ilha das Peças, vem oferecendo cursos de história natural e cultural da região, auxiliando os condutores locais no melhor aproveitamento dos atrativos naturais e culturais da região (GIA, 2007).
O instituto de Pesquisas Ecológicas – IPE, iniciou, em 2003, o projeto “Manejo de Pesca, Maricultura e Turismo Responsável” como alternativas sustentáveis para as comunidades do entorno do PARNA do Superagui. O objetivo do projeto, com relação ao Turismo Responsável, é avaliar o potencial atual da atividade na região, e suas tendências,
analisando a viabilidade econômica dos empreendimentos voltados ao turismo. Até 2007, já foram realizadas duas oficinas de capacitação sobre o atendimento ao turista, para os interessados das Vilas das Peças e Superagui. Houve a participação de representantes de pousadas, restaurantes e seus funcionários, campings, bares, embarcações, condutores de visitantes e membros da comunidade local que hospedam visitantes em suas casas, totalizando 29 pessoas nas duas comunidades. Os dados disponíveis estão relacionados ao levantamento dos meios de hospedagem nas Vilas da Barra de Superagui, Vila das Peças e Bertioga.
Também está em andamento o “Programa de Informação para Turistas e Pescadores Amadores”, com o intuito de produzir material impresso para orientação com relação ao manejo da área e informações sobre os atrativos (IPE, 2007).
7.1.1.3 Capacitação técnica de mão de obra
A falta de capacitação de mão de obra local é um dos fatores que dificultam o desenvolvimento do turismo de forma geral, e no litoral paranaense isso não é diferente.
Tentando mudar essa realidade, em 2006, o Instituto de Ecoturismo do Paraná, realizou na Ilha do Mel, o “Curso de Capacitação de Condutores em Áreas Naturais – Ilha do Mel”, financiado com recursos do FUNBIO.
O público alvo do curso foi os moradores das vilas de Nova Brasília e Encantadas.
Com duração aproximada de cinco meses, teve uma carga horária de 131 horas de aulas teórico/práticas, organizado em 6 módulos (Meio Ambiente, Educação Ambiental, Turismo, Técnicas de condução de Grupos, Primeiros Socorros e Estágio supervisionado). O curso capacitou 24 jovens para atuarem como guias locais na Ilha do Mel. A próxima etapa é o fomento à criação de uma cooperativa para que possam atuar de forma profissional e legalizada (SILVA, 2007- comunicação pessoal).