ARGENTINA: O CONFLITO NO MONUMENTO A JULIO ARGENTINO ROCA.
4.8. A nuvem colaborativa paira sobre os conflitos sociais.
artistas que chamam a atenção utilizando-se do local e do monumento como atrativo para a propagação das ideias, ou ainda, realizando visitas a escolas de todo o pais, proferindo palestras, mostrando vídeos sobre os feitos de Roca sob o prisma das mortes dos índios e a tomada de suas terras, são os provocadores. Para eles é mais importante propagandear a ideia e criar uma massa critica e cidadã do que promover a simples a retirada arbitraria do monumento ou mudar os nomes de avenidas e escolas, como diz o sociólogo Mariano Szkolnk, um militante que faz palestras em escolas em todo o país. “Não é porque conseguimos mudar o nome da escola, da avenida que dormimos
laureados. Não. Temos que continuar porque o problema não é o nome da escola, o problema somos nós”. (SZKOLNK, em depoimento. Tradução nossa).
O terceiro grupo, também formado por intelectuais, jornalistas e políticos, atua politicamente: são os políticos. Estes possuem a intenção de mobilizar a classe política para debater o tema e com esse intuito criam projetos de leis bem elaborados e por vezes, polêmicos. Sabendo da luta inglória (e do resultado já esperado, ou seja, a não execução dos seus projetos de lei) os políticos afirmam que têm o intuito de alcançar a sociedade utilizando-se de um meio legitimado: os projetos de lei e o parlamento. Todas estas categorias estão mescladas, mesmo que distintas, pois possuem um objetivo comum, criando uma relação colaborativa mesmo que sem vínculos reais.
4.8. A nuvem colaborativa paira sobre os conflitos sociais.
Após diversas entrevistas com vários grupos e indivíduos que atuam de alguma forma no movimento que pede a retirada do monumento de J.A. Roca, apreendemos uma característica importante nesta pesquisa: o objeto aqui estudado se constitui em um complexo fenômeno social, uma vez que detectamos não um, mas diversos grupos ou movimentos independentes e ao mesmo tempo correlatos, o que não necessariamente os faz comungar dos mesmos ideais, intenções ou estratégias de ações.
Estes grupos e indivíduos atuam em sua maioria de forma estanque, independente, sem sequer comunicar-se com os demais ou ainda sem conhecê-los. De fato, as duas únicas figuras comuns a todos os grupos são o intelectual Osvaldo Bayer e o próprio Roca, obviamente.
Um olhar mais acurado nos levou a criar um entendimento sobre o funcionamento deste complexo de movimentos que chamaremos de Sociation
collaborative Cloud, uma elaboração balizada no conceito de “sociação” de Simmel
associado à ideia de “computação em nuvem”, muito utilizado hoje por empresas e usuários finais da web e da “internet colaborativa”.
Nos habituamos a estudar movimentos sociais onde havia aparelhamento e centralização quase que absoluta do meio veiculador, fosse através de sindicatos, de associações ou de outros conflitos. È como se um usuário utilizasse todas as aplicações instaladas em seu computador ou servidor, o que geraria altos custos, resposta lenta e burocratizada além da possibilidade de ruídos de comunicação de ambos os lados.
Já na computação em nuvem todo o aparato de hardware e software encontra-se instalado e configurado na internet, disponíveis em servidores, que podem ser acessadas por qualquer terminal com permissão através do seu navegador, por isso a expressão nuvem, pois os dados são gerados a armazenados na internet, em data-centers, fora da empresa. (BASTO, 2010)
Em um sistema de computação em nuvem, há uma redução significativa da carga de trabalho. Computadores locais não têm mais de fazer todo o trabalho pesado quando se trata de rodar aplicações, em vez disso, a internet que faz às vezes de nuvem lida com elas. A demanda por hardware e software no lado do usuário cai. A única coisa que o usuário do computador precisa é ser capaz de rodar o software da interface do sistema da computação em nuvem, que pode ser tão simples quanto um navegador web, e a rede da nuvem cuida do resto. (BASTO, 2010)
Quando se aplica a ideia de computação em nuvem à pesquisa aqui proposta, estabelece-se uma correlação com as características dos movimentos contra a permanência do monumento a Roca em Buenos Aires, sobretudo no tocante ao exercício das ações, efetivadas sem instrumentos custosos ou estruturados, pautados em intervenções e divulgação de vídeos e postagens em blogs na internet.
Outro aspecto que pode ser considerado afim à computação em nuvem é a não existência do núcleo gestor (hardweare): o que existem são as ideias (softweare), e nada mais. A ideia de sistema de ação em nuvem pode, portanto, ser considerada complementar à de “Comunicação Colaborativa”.
A concepção de “colaboração” nestes conflitos sociais segmentados é equiparada a ideia de “comunicação colaborativa”, cada vez mais usual no intenso processo de
midiatização do mundo contemporâneo, capitaneada, sobretudo, pela internet e pelas mídias digitais. Essa expansão também é quantitativa graças à multiplicação do numero de usuários e dos instrumentos criados e utilizados (softwares). A relação da internet e sua interação com as sociedades já foi bem definida por Castells. De acordo com ele,
O surgimento de um novo sistema eletrônico de comunicação caracterizado pelo alcance global, interação de todos os meios de comunicação e interatividade potencial está mudando e mudará para sempre nossa cultura (CASTELLS, 2006, p.123).
A interação que Castells ressalta está se transformando em algo ainda mais plural e descentralizado; explicitando melhor: não são apenas os meios oficiais de noticias, sejam eles jornais impressos, TV e/ou rádio que protagonizam essas transformações. As informações, que agora são produzidas e propagadas de forma diferenciada, também podem ser divulgadas de forma individual, para milhares de pessoas direta ou indiretamente.
A ampliação das praticas comunicativas, nas quais a participação dos usuários é cada vez mais intensa como em Blogs183, vídeos disponíveis no Youtube184, Websites colaborativos e redes sociais185 (software sociais) são algumas das ferramentas presentes na Internet que estão estimulando os usuários a produzirem atualmente os seus próprios conteúdos. (BELTRÃO, 2010, p.7)
Todas estas possibilidades de interação no meio “Web” se expandem, como o termo criado por O´Reilly (2005) o “WEB 2.0”. Em seu artigo, o autor demonstra uma serie de ferramentas e motivos para entender essas experiências colaborativas como outro momento da internet e logo, um novo momento nas sociedades que fazem uso dela. Entende-se como WEB 2.0, nos termos de Alex Primo:
As práticas ligadas a uma combinação de técnicas informáticas (...), a um momento histórico, a um conjunto de novas estratégias mercadológicas para o comercio eletrônico e a processos de interação social mediados pelo computador (PRIMO, 2006, p. 01)
183 É uma pagina da web cujas atualizações (posts) que podem ser textos, vídeos ou fotos, enquetes etc..
são organizadas cronologicamente. Estes posts podem ter diversos autores, não apenas do detentor do blog.
184 Site que permite postagem (upload), acesso de vídeos autorais ou não,além da interação a partir de
comentários (posts).
185 Ferramenta de interação social virtual, os mais famosos são o Orkut, Wikipédia, Facebook, MySpace e
O que nos interessa aqui não é o processo mercadológico e sim a possibilidade de produção, interação e compartilhamento de informações. A partir desta perspectiva serão utilizados os conceitos de função massiva e pós-massiva propostos por Lemos. De acordo com ele, a função massiva é aquela constituída de um fluxo centralizado de informação, com o controle editorial do polo de emissão, utilizados por grandes empresas e conglomerados econômicos. As mídias de função massiva são centradas, na maioria dos casos, em um território geográfico nacional ou local.
As mídias e as funções massivas tem o seu (importante) papel social e político na formação do público e da opinião pública na modernidade. São aquelas dirigidas para a massa, ou seja para pessoas que não se conhecem, que não estão juntas espacialmente e que assim tem pouca possibilidade de interagir (LEMOS, 2007:04)
Já a função pós-massiva, o que nos interessa de fato, é a atribuição em que qualquer um pode produzir conteúdo, ou melhor, uma informação, sem que haja necessariamente empresas filtrando e mediando isso. Sabemos que a ideia de dispositivos pós-massivos antevém a existência da internet, a exemplo dos fanzines, das rádios comunitárias e dos flyers. No entanto, a abrangência e a possibilidade recursos formais aliados à abrangência e à facilidade do acesso é um grande diferencial, mesmo que o foco possa ser local, sua abrangência é irrestrita.
O que queremos ressaltar na relação das ações envolvidas no conflito em torno do monumento a Julio Argentino Roca e sua relação com a comunicação colaborativa é que assim como neste meio de comunicação, cada vez mais utilizado, a disseminação das informações e conteúdos relacionados ao conflito são equivalentes. Não existe um único polo emissor de informação formal ou instituído que centraliza sua divulgação. Apesar de todos os grupos envolvidos conhecerem Osvaldo Bayer e os admirarem, eles não recebem diretamente ordens, ou ainda, não o têm como uma liderança.
Assim, tal como as comunicações colaborativas, contrárias ao modelo Broadcast, a atuação do conflito em seus diversos elementos (indivíduos e grupos) independentes envolvem ações e comunicações que seguem um novo modelo. A forma multi direcional segue, (com variações nas informações) “indo de um-para-um, um-para-
muitos, passando pelo poucos-para poucos e chegando ao muitos-para-muitos”
(BELTRÃO, 2010, p. 10).
Assimilando a ideia de “nuvem em conjunto” com a de “colaboração”, podemos conceituar como sendo esta a forma de atuação do conflito relacionado ao monumento de Julio Argentino Roca na Argentina. Sociation collaborative Cloud refere-se ao modo
como o conflito, que possui vários atores relacionados a uma causa em comum, sem que exista uma rede (de contatos) evidente, real, comunicativa ou eficaz, acaba por configurar uma ajuda mutua racionalizada. As ações de cada individuo ou grupo envolvido acabam por fortalecer todo conflito por meio de “ações em nuvem” e/ou “colaborativas”. Assim o local do conflito se reconfigura como uma “ação social midiática colaborativa”.
O não funcionamento como rede186 evidencia o não conhecimento das partes entre si e assim como o desconhecimento das ações em si, que não possuem o mínimo de coordenação integrada. O que é compreendido como SCC não necessariamente age de forma positiva no que se refere à colaboração; isto pode ser as vezes interpretado por outros grupos como concorrência ou algo negativo. Em geral, contudo, este fenômeno exerce sim um papel positivo, que se soma às ações dos movimentos.Como nos fala em entrevista Andrés Zerneri do movimento do Monumento a Mulher Originária,
Não é bom para o movimento danar o monumento, porque isso cria uma imagem negativa, ou pelo menos discutível do movimento, facilmente aparecem na imprensa um aspecto negativo do movimento, desta forma irão chamar a atenção mais para Roca como alvo de ações vândalas que para o personagem histórico Roca como autor de genocídio, ações como essas para o grupo Monumento da Mulher Originária” não ajudam em seu processo. Também é negativo para o processo segundo Zerneri o projeto de lei que pede a retirada do monumento, para ele, isto engancha o seu projeto, o legislador pensa estar contribuindo para o movimento, mas na realidade esta prejudicando”. Isto ainda de acordo com Zerneri porque se ele logra êxito em seu projeto, ele seria o único ganhador, o único responsável e ainda nosso projeto ainda é débil porque não temos ainda a quantidade necessária de bronze para efetuar o monumento, e ainda caso o projeto de lei não logre êxito, “o que é muito mais provável, isso aparece como algo já discutido, que dificulta uma ação mais engajada no futuro. Em suma para este movimento “O projeto não deve ser tratado pelo legislativo e sim pelo povo”(ZERNERI, 18/08/2009. Tradução nossa).
Em nenhum momento eles se associam e/ou criam estratégias unificadas. A deputada Cecilia Merchan sabe da existência do movimento “Monumento a La mujer
originária” assim como o professor Marcelo Valko187. Entretanto, estes elos não existem de forma factual, uma vez que sabemos por meio da pesquisa que muitos
186 Rede no sentido de, onde exista um contato entre as partes envolvidas, contato este que possibilite a
comunicação direta ou indireta das informações relacionadas à ação.
187 Prof. Titular da cátedra “Imaginário Étnico, Memória e Resistência” da Universidade Popular Mães da
indivíduos envolvidos não conhecem ou não se interessam em se envolver e se unir a grupos já existentes, criando assim uma complexa relação em que apenas as finalidades são compartilhadas. Estas características que a principio podem parecer dificultadoras para o bom funcionamento estratégico das ações do conflito, por serem tão fragmentadas e dispersas, sustentam a ação conflituosa, uma vez que a linha divergente (o lado favorável à permanência do monumento) não consegue encontrar formas de combater grupos tão dispersos e sem vínculos formais entre si.
5. CONCLUSÃO
A America Latina se demonstrou, na contemporaneidade, um território extremamente profícuo para a proposta desta dissertação, afinal os diversos casos de conflitos sociais simbolizados por monumentos de arte pública, que ocorrem concomitantemente, possuem características de fundo similares. Outro aspecto que pode e deve ser destacado é o entrelaçamento destes conflitos com as mudanças históricas, sociais e políticas pelas quais passam estes países.
Apesar das dificuldades encontradas, a exemplo dos poucos textos produzidos sobre o tema; das enormes distâncias percorridas durante a pesquisa; da necessidade da formação e/ou expansão de uma rede de contatos e da consequente interlocução com diferentes línguas e sotaques; a pesquisa contou também com relevantes contribuições de pesquisadores e intelectuais que, individualmente, contribuíram com a criação de um importante banco de dados sobre as convergências entre os acontecimentos isolados e que, por sua vez, contribuíram para a delimitação do fenômeno como um todo. Tudo isso permitiu uma analise multifacetada do objeto de pesquisa.
Agregar e relacionar esta imensa quantidade de dados que falavam de países, personagens, movimentos sociais e conflitos foi outra grande dificuldade. A angústia do cientista social, munido de tantas referências, foi conseguir criar um trabalho que, focado em seu objeto, desse conta de contemplar de forma ampla e ao mesmo tempo, sem dispersão, as imensas possibilidades de abordagens.
Na edição final do conteúdo da dissertação foi inevitável dispensarmos exemplos, depoimentos, imagens, entre outros elementos, que muitas vezes cativam no âmbito pessoal, mas que não podem ser acrescentadas ou suprimidas sem levar em consideração as informações que possuem maior potencial explicativo e maior pertinência didática.
Na construção do processo de pesquisa o primeiro passo foi contextualizar a recente história política e social dos países estudados. Na sequencia, fez-se necessário descobrir quais seriam as fontes primarias escolhidas dentre os movimentos sociais envolvidos, dentre os representantes do poder público e dentre os cidadãos, que representariam a sociedade civil, não alheia ao fenômeno social estudado.
Um fator foi crucial e decisivo para que não houvesse “contaminação” ideológica a partir da introdução nos diferentes círculos envolvidos no conflito. De forma geral, alguns grupos sabem da existência de outros, que compartilham mesma causa, mas têm
não de todos. A partir da identificação deste fato, em nenhum momento durante a pesquisa foi aventado o discurso ou mesmo a existência de qualquer outro individuo ou grupo pesquisado anteriormente, ao interlocutor presente. Cada grupo ou individuo foi tratado de forma estanque e em todos os casos os próprios entrevistados apontavam – e eram estimulados a isso – seus opositores e seus colaboradores. As informações recolhidas criaram o complexo desenho de uma rede colaboradora, cujos membros operavam isoladamente visando o mesmo objetivo. Estas operações, realizadas de forma estanque, não se resumiram apenas aos movimentos sociais, mas englobaram também entidades do poder público que algumas vezes apoiavam, também direta e conscientemente, os movimentos sociais.
Compreendida a complexa constituição destes grupos foi dado outro importante passo: entender suas motivações. Os esforços para isso aumentaram exponencialmente à medida que os grupos tinham cada um, argumentos que apesar de próximos, não poderiam ser considerados iguais: as tendências políticas/ideológicas poderiam ser socialistas; anarquistas de direita nacionalista; étnicas; sociais ou mesmo de natureza pessoal, de cunho “modista”. Todo esse espectro de opiniões tende a colorir o fenômeno.
Para que houvesse uma “unidade” objetiva na diversidade de movimentos sociais fez-se necessário delimitar pontos convergentes entre os fenômenos ocorridos nos diferentes países latino-americanos. O principal ponto a ser ressaltado, identificado durante todo o processo de entrevistas com os agentes envolvidos nos conflitos latino- americanos, é a finalidade do engajamento. Este ponto em comum circunscreveu o perfil destes movimentos na medida em que estes estabeleceram a presença imagética do monumento como o centro de todas as ações. Nítido e declarado por todos, os conflitos simbolizados pelos monumentos comemorativos vão muito além do monumento, do metal e da pedra. O incomodo sempre existiu, mas, porque surgem agora tantos conflitos correlatos?
Como na marcha das tropas em um desfile militar, a America Latina caminha compassadamente. Toda esta movimentação ganhou fôlego a partir da compreensão do que vem a ser o “revisionismo histórico”, movimento que se originou no fim da ditadura militar, no fim da década de 1980 (com exceção de Cuba) e fortaleceu-se nos discursos, artigos, aulas, palestras, livros e ações influenciadas pelos movimentos sociais de base de esquerda e/ou catalisados pela abertura política democrática e de direitos políticos.
Desta forma, o monumento antes intocável, inerte, ganhava vida após ser questionado não como arte ou como patrimônio, mas como representação de algo ou alguém.
Questionar o monumento, por sua vez, não se relacionava apenas com o passado da nação, mas também com o modo como a sociedade do país passaria a se “enxergar” (imagem nacional). Em segundo lugar, o movimento revisionista tem ver com o modo como esta nação quer ser percebida e ainda – talvez – mais importante, com a maneira como esta nação se relaciona com as diferenças (multiculturalidade) dentro de um mesmo espaço físico, político e histórico.
A possibilidade de articulação política mais intensa (e protagonista) de um, dois, ou mais grupos, sejam eles de minorias ou não, cria necessariamente uma complexidade incomoda dentro dos Estados. O exercício da ação política sem o uso do autoritarismo é uma experiência ainda em construção na America Latina; por vezes, ainda há temor em relação a um hipotético revanchismo da esquerda. Assim, as mudanças dentro da sociedade e da política requerem adaptações, de ambos os lados.
Esta habilidade de dialogar, de jogar politicamente, de adaptar-se a novas possibilidades e realidades, envolvendo inclusive personagens e símbolos, (monumentos comemorativos, por exemplo) cujos grupos políticos conservadores ou de tendência de direita hoje são remanescentes, demonstram o perfil de uma sociedade. Evidentemente que alguns grupos que estão diretamente relacionados a certos personagens e fatos históricos empraçados188 são e serão sempre mais resistentes a deportação, retirada ou mesmo substituição de seus símbolos originários (quase totêmicos) dos espaços públicos. No entanto, é nesta disputa (conflito) que a sociedade civil intervém de forma forte e por vezes acintosa, acionando atores políticos, intelectuais, e provocando a opinião pública a fim de fortalecer e evidenciar uma vontade coletiva. Os grupos políticos mais relutantes agem como bem expressa Guiseppe Tomasi Di Lampedusa, em sua obra “O Leopardo”: “tudo deve mudar, para
que tudo fique como está189”. “Ficar como está” significa a manter o poder político nas
mãos da “aristocracia190”.
A permanência (ou não) destas mudanças e seus direcionamentos, por sua vez, resultarão em fatores complexos dentro das dinâmicas sociais. Tais mudanças,
188 Me dou a liberdade de aportuguesar o termo “emplaçado” do castelhano que me parece tão auto
explicativo e eficaz que o utilizarei como um neologismo.
189 Frase dita no Romance IL Gattopardo (o leopardo), pelo Principe Falconeri no momento da
decadência, ou falência da aristocracia siciliana durante o chamado Risorgimento(1815-1870).
190 O termo aristocrata é usado como uma ilustração ao que queremos dizer uma classe social pequena,
evidentemente, são sutis, simbólicas; são as ações sociais como as exemplificadas aqui neste trabalho.
Cerca de vinte anos após o fim dos regimes militares na America Latina (com exceção de Cuba), o processo político e social ousou galgar mais espaço a partir de políticas de esclarecimento sobre o período ditatorial. Utilizando um lema que é fartamente conhecido no continente, “não perdoar, não esquecer, liberdade sempre,
ditadura nunca mais”, os movimentos sociais passaram a pedir o fim das anistias para
os militares envolvidos em crimes durante o período ditatorial; a abertura de arquivos; a investigações das ações militares durante o regime e a busca por desaparecidos dentre