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A objectividade do mundo como 'subjectividade visível'.

2. Aspectos da narrativa

2.1. O narrador como sujeito de tipo fenomenológico: a libertação do olhar e do sentido do mundo por meio de uma redução poética.

2.1.1. A objectividade do mundo como 'subjectividade visível'.

O "eu" narrador, na medida em que reflecte uma mudança constante de direcção de intenção, que leva à descoberta de realidades sempre novas, particularmente no mundo da linguagem, é, como já dissemos, expressão de uma redução fenomenológica, espelho do movimento que conduz o pensamento de questão em questão e de intuição em intuição até à essência das coisas. Daí, também, ser possível considerar este "eu" narrador como um quase alter ego do autor, que, tal como o ego, deve ser encarado como subjectividade absoluta, que nunca é dado em pessoa, pois, "se fosse dado directamente, não diferiria da própria consciência, a única dada directamente a si mesma, e o 'outro não seria mais que um momento do

meu ser" (Schérer, 1977: 83). O "eu" narrador repercute o olhar de Walser, um olhar que é, ele próprio, servindo-me das palavras de Merleau-Ponty, "incorporação do vidente no visível" (#/>WDescamps, 1972: 209).

A modernidade de Walser reside, exactamente, no facto de ele ter consciência de que, no momento mesmo da escrita, o texto deixa de di^er aquilo que ele queria ter

dito, na medida em que ele é, imediatamente, ultrapassado pela intenção actual.

Segundo Merleau-Ponty, a experiência que fazemos do mundo não é a de uma rede de relações que determinariam cada acontecimento, mas a de uma totalidade aberta cuja síntese não pode ser concluída, já que o cogito não constitui.31 A coisa não é dada,

mas sim perpetuamente retomada. A cada instante surge o fazer futuro que modifica o momento presente. Como já aqui foi referido, o tempo não é uma linha, mas sim uma rede de intencionalidades. Segundo Bakhtin, a posição do sujeito no mundo é determinada pelo seu corpo e é, a partir dele, que ele olha o mundo, "I am situated as it were on die border of die world I see" (apud Jefferson, 1989: 154) e "the body is not something self-sufficient, it is in need of the other, in need of his recognition and form-bestowing activity" {ibid.). Sem o outro, o corpo não possui forma, já que o eu não tem acesso directo a ele. A diferença fundamental entre o eu e o outro reside exactamente no facto de aquilo que, para um, é fragmento, sensação, é objecto total para o outro. Segundo Bakhtin esta seria a razão por que o outro é autorI'criador {ibid.). Assim, o corpo é, com efeito, logo à partida, corpo fenomenal e corpo objectivo.

Por sua vez a consciência está sempre voltada para fora, para o objecto, para aquilo que está perante nós, o Gegenstand. Um objecto visual, se bem que ofereça ao

olhar uma das suas faces, esconde sempre outras: "Uma visão correcta e focalizada

rodeia-se sempre de uma zona curva onde o visível se dissimula sem no entanto estar ausente" (Lyotard, 1990: 25). A visão actual conserva consigo a imagem percepcionada no momento anterior sob outro ângulo. Da sua síntese resulta a

identificação do objecto, que nunca chega a ser completa e que um olhar ulterior poderá até anular.

"A arte não reproduz o visível, mas torna visível", escreve Paul Klee em 1920, no seu Credo Criativo [apuá Chipp, 1996: 183). Observar é um acto eminentemente temporal na medida em que para que a nossa atenção se concentre num outro aspecto do objecto, ou num outro objecto, é necessário abandonar o que se via antes, resultando daí a consciência de que todo o visível encobre uma face invisível. Como diz Klee, "as coisas parecem assumir um sentido mais lato e mais diversificado, frequentemente aparentando contradizerem a experiência racional de ontem. Busca-se realçar o aspecto essencial do acaso." (ibid: 186), pois "a natureza não é apenas o que os olhos podem ver. Ela mostra também as imagens interiores da alma - as imagens que ficam do lado de trás dos olhos. Não é por acaso que a obra de Walser é, por muitos, comparada à pintura de Klee e à música de Satie. E isto, porque, como referem Susan Bernofsky e Tom Whalen:

Even the reader familiar with the work of, say, Kafka, Nabokov, Beckett and Donald Barthelme will not necessarily be prepared for Walser's self-re flexivity, his synapse-quick associations, his unfathomable irony. [...]. "No naive artist was ever this complex.. (1992: 7)

Algumas passagens de Der Spa^ergang são exemplares no tocante aos jogos de linguagem a que Walser se entrega por inteiro:

Ihre Leistung, Herr Dúnn, ist alies in aliem phantasielos, und Ihr Werk beweist emen Mangel an Intelligenz. An diesem Anzug haftet etwas Erbámliches, etwas Kleinliches, etwas Albernes, etwas Hausbackenes, etwas Lãcherliches und etwas Ângstliches. (p. 46)

1st denn nicht jede Musik, auch die kárglichste, fur den schõn, der das Wesen und die Existenz der Musik liebt? [...] Gemalte Landschaft mitten in der wirklichen Landschaft ist kapriziòz und pikant. (p. 59)

Úbrigens war das Haus graublau angestrichen und hatte hellgoldengriine Fensterláden, die zu lãcheln schienen, und rundherum in einem Zaubergãrtchen dufteten die scónsten Bliimen. (p. 59).

Walser escreve pelo prazer da linguagem, ele desenha, com as palavras, linhas, umas vezes rectas, outras vezes em zigue-zague, unindo pontos dispersos no horizonte. Não é possível falar de uma descrição de personagens, no sentido canónico do termo. As figuras são pontos, como tantos outros, no horizonte walseriano. Herr Dunn é um exemplo entre outros da personagem fruto de uma descrição que pressupõe a capacidade de juntar e reter numa só presença um certo número de momentos distintos, já que a consciência implica memória, no sentido husserliano de retenção, isto é, ela é consciência de percepções precedentes. Como foca Ingarden em A Obra de Arte Literária, "não só é impossível que o leitor possa apreender a 'objectividade da imaginação' concebida pelo autor, mas também que o autor possa apresentar várias vezes a mesma objectividade na sua identidade" (1973: 34). Qualquer obra aspira à "'retenção' do único, onde a diferenciação do um e do múltiplo não teria lugar ou tempo" (Lyotard, 1989: 165).32

Nesse esforço de retenção, Walser faz uso de forma inquestionavelmente exímia daquilo que Ingarden designa como o "estado potencial implícito" (1973: 108) das significações nommais das palavras33, na medida em que esses elementos

potenciais, embora não actualizados, se aproximam da sua actualização ao serem

sugeridos. Vejamos, assim, o caso de Herr Dunn, cujo nome, logo à partida, se revela

portador de um sem-número de significações não actualizadas, mas, como já dissemos, induzidas. Deste modo, surge, provavelmente, no leitor, a imagem de um

" Cf. Roman Ingarden (1973), A Obra de Arte Literária, p. 76: " e m obras de arte literária a multistrauficação da 'matéria' leva a uma polifonia curiosa de características estéticas de tipos heterogéneos e m que as características pertencentes a tipos diversos não se justapõem, p o r assim dizer, estranhamente mas tecem entre si diferentes relações".

Ibid., p. 109: "as palavras singulares, particularmente os nomes, têm a sua plena significação

precisamente graças às diferentes relações que a palavra em causa m a n t é m com outras escolhidas. Geralmente, apenas uma fracção da plenitude desta significação é actualizada ficando o resto potencial e implícito."

homem magro, de estatura mediana, com dedos nodosos. Sabemos que ele é alfaiate e, levados por conteúdos de outros aspectos concretos outrora vividos, podemos facilmente imaginar esta figura, vestindo uma longa bata preta em tecido acetinado preto. Solícito, quase subserviente, ele apresenta-se, contudo, seguro da sua arte, da qualidade do seu trabalho, pelo que o "eu" narrador de triunfante se vê, inesperadamente, na necessidade de retirar as suas tropas, findas que se encontram as

munições. Permito-me aqui um pequeno parêntesis para lembrar o recurso neste

trecho a todo um vocabulário bélico (gewaltsam, vernichtend, Attacke, Niederlage, Truppen, Gefecht, etc.)"''4, explicável, creio, de forma plausível, como ressonância da

situação mundial de que Walser só aparentemente se mostrava alheio nos seus textos35.

Quanto às munições linguísticas utilizadas pelo "eu" narrador contra o alfaiate, a sua força destruidora encontra-se bem patente na repetição 'impiedosa' da palavra

etnias e no escárnio histriónico resultante do uso preponderante de palavras contendo

sons prolongados e agudos, como, por exemplo, o som |e], e que sugerem bem a força que a palavra pode ter quando usada como arma: "An diesem Anzug haftet etwas Erbármliches, etwas Kleinliches, etwas Albernes, etwas Hausbackenes, etwas Lãcherhches und etwas Àngstkches." (DS: 46). Assim, guiados pelo texto, apreendemos a figura de Herr Dunn de uma forma quase intuitiva, ainda que não perceptiva, mas sim imaginativa, no sentido sartnano do termo36, já que "a

exposição não pode por si própria levar à doação intuitiva dos respectivos objectos" (Ingarden, 1973: 217).

Cf. Robert Walser (1985), DerSpa&rgang, p. 44-47.

53 Cf. Peter UtZ (1998), Tatt^ aufden Riinderfí Robert Walsers "Jet^eiUtil, p. 327.

E m L'Imaginaire, livro IV, Conclusão, Sartre considera que "Para que uma consciência possa imaginar, é necessário que possa extrair de si mesma uma posição de recuo em relação ao m u n d o " {apud Audry, 1972: p. 187); é, assim, necessário que "ela possa colocar o m u n d o na sua totalidade sintética e, ao m e s m o tempo, que ela possa colocar o objecto imaginado c o m o fora de alcance em relação a este conjunto sintético" {ibid.; p. 186).

No ensaio "The picture of Nobody", Christopher Middleton observa, no que respeita ao arabesco na obra de Walser, que ele:

can explore dimensions of verbal comedy which are inaccessible to any prose of representational nature. Often what is said may be out of all proportion to what is said about, but in such way that the statement creates its own proportions, its own world of imaginative forms, (apud Bernofsky/ Whalen, 1992: 13)

A passagem supracitada, em que o "eu" narrador nos relata a sua ida ao alfaiate, é um exemplo claro disso mesmo. Não é demais sublinhar a autonomia da palavra na obra literária do autor que faz dele, como refere Elias Canetti, "der verdeckteste aller Dichter." (1978: 12).

Como diz Ingarden, o modo de parecer diz respeito não só a qualidades capazes de se darem visualmente, mas também "a todas as qualidades directa e fenomenalmente captáveis" (1973: 213). Wassily Kandinsky resume de forma exemplar o conceito de essência dotada de vida interior de cada objecto, a que chama ressonância interior do objecto, quando afirma que "O 'concreto', reduzido ao mínimo, deve ser reconhecido na abstracção como o elemento real de efeito mais intenso." (apud Chipp, 1996: p. 161). A ressonância interior de um texto assume particular riqueza e interesse nos elementos não-ditos de que nos fala Eco, considerando como não-dito todo o elemento não manifesto à superfície e que deve ser actualizado a nível da actualização do conteúdo37. Por outras palavras, a significação é, simultaneamente,

noética e noemática.38 Seríamos levados aqui a corroborar as palavras de Jean-

François Lyotard que, fiel a Husserl, nos diz, na sua obra 0 inumano:

o pensamento ausculta um 'horizonte', visa um 'noema', um tipo de objecto, uma espécie de monograma não conceptual que lhe fornece configurações intuitivas e que abre 'à sua frente' um

Cf. Umberto E c o (1993), Leitura do texto literário, Lisboa, p. 53-56. Cf. Paul Ricoeur (1996), Teoria da Interpretação, Lisboa, p. 24-25.

campo de orientação e de espera que é mais do que um frame. (1989: 24).

A relação sujeito-objecto é, assim, de certo modo, invertida, já que o objecto percepcionado ganha autonomia e movimento próprios. Referindo-se à obra literária em geral, André Gide escreve "ce n'est pas pour nous, c'est pour elle que chaque chose est importante. Que ton oeil soit la chose regardée." (apudTLvzns, 1989: 33) - não creio restarem dúvidas de ter sido este o grande postulado de Robert Walser ao longo de toda a sua vida literária.

2.1.2. A dualidade de percepção da nature2a: a sua dimensão