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3 A ESCRITA DO DESASSOSSEGO: O DIÁRIO DOS

3.2 ASPECTOS GERAIS: UM HERÓI DENTRO DO

3.2.1 A Obra

O Amanuense Belmiro144 é um romance atípico dentro do panorama da ficção brasileira publicada na década de 30 do século XX145. A obra destoa das narrativas regionais e sociais publicadas naqueles anos, representadas nas obras de autores como Jorge Amado e Graciliano Ramos146.

O tema do Amanuense Belmiro trata das possibilidades humanas no relacionamento com a vida, com o amor, a profissão e a arte como impossibilidades de plena realização. A impossibilidade de não se realizar, tanto pela condição econômica do burocrata, quanto pela idade, que não é avançada, mas assim o personagem a considera, é tratado repetidamente no diário. O que prevalece na existência do humilde empregado são aspectos prosaicos existenciais, parcamente vivenciados, e contraditoriamente repletos de significados por serem reelaborados na

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ANJOS. Op. Cit. 145

Uma das características do romance de 30 é a preocupação em tratar sobre temas sociais e regionais da sociedade brasileira. Um dos marcos iniciais dessas narrativas é O Quinze, de Raquel de Queiroz, de 1930. Contudo, as narrativas da década também se utilizaram de inovações temáticas e linguísticas propostas pelos modernistas, e não podem ser reduzidas ao regionalismo. As obras de Cyro dos Anjos são tipificadas como intimistas, mas ultrapassam esse conceito por seu caráter hibrido, capaz de dialogar também com a filosofia e com o ensaio.

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Graciliano Ramos e Jorge Amado são outros grandes representantes da chamada Geração de 30. São Bernardo, de 1934, e Capitães de Areia, de 1937, se inserem bem no ideário estético e estilístico do movimento, revelando características e conflitos das classes sociais nordestinas.

rica vida interior do personagem e transformados na prosa intimista do diário íntimo dele. Sofisticada, repleta de humor ironia e lirismo, essa narrativa foi reconhecida pela crítica literária como um dos grandes romances intimistas da geração de 30147.

Desde sua publicação em 1937, o livro tem conseguido mais admiradores que detratores, o que a princípio pode ser algo a se estranhar, já que é um romance com uma forte característica melancólica, e a trama, muitas vezes, não progride por causa dos devaneios do narrador-protagonista.

Seu estilo único e desvinculado de qualquer escola vigente obteve primeiramente uma recepção crítica cautelosa para somente depois de alguns anos receber a aderência incondicional do público e da crítica. Esses dados referentes à recepção do romance são amplamente analisados no livro A recepção crítica do Amanuense Belmiro148, de autoria de Ana Paula Franco Nobile149. Nessa obra, a autora cataloga diversos artigos publicados em várias regiões brasileiras, nos últimos três meses do ano de 1937, ano da publicação do romance.

Esses textos são unânimes em afirmar a maturidade narrativa do texto de Cyro dos Anjos como algo atípico para um autor estreante. A força do texto, que foi escrito em apenas dois meses pelo autor mineiro, deve-se a sua origem, uma série de crônicas que o autor escreveu entre 1933 e 1935 nos jornais A tribuna e Estado de Minas150, usando o

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Um autor da geração de 30 que talvez não seja tão mencionado, mas não é menos importante é Érico Veríssimo, ele também abordou a solidão de forma realista e como também como fábula, no caso da obra Incidente em Antares. 148

NOBILE, Ana Paula Franco. A recepção crítica de O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos. São Paulo: Annablume, 2005.

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O livro de Nobille traz um perfil sobre a recepção crítica do Amanuense Belmiro no ano em que foi lançado, 1937. Ao contrário das críticas de jornal da contemporaneidade, nas quais dificilmente encontram-se críticas desfavoráveis, pois mais comumente leem-se resenhas ou mesmo resumos das histórias, a obra da estudiosa traz inúmeras resenhas desfavoráveis que qualificam o livro ou como uma mera imitação do estilo machadiano ou como uma mistura indesejável de gêneros.

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Os jornais citados foram publicados na capital mineira, cidade em que Cyro dos Anjos exerceu fecunda atividade intelectual. As crônicas escritas nesses jornais nunca foram publicadas em livro, mas devem ser publicadas pela editora Globo, nas obras reunidas de Cyro dos Anjos. A Coordenação do projeto e a fixação do texto ficaram a cargo do professor da UFMG Wander Melo Miranda, responsável também por selecionar e publicar a correspondência entre Cyro e Drummond.

pseudônimo Belmiro Borba. A primeira crítica do texto teve dificuldade em classificar o inusitado romance:

Essa dificuldade da crítica literária em dar um lugar para Cyro dos Anjos dentro do panorama da literatura brasileira, é dado relevante e revelador, pois põe à mostra o surgimento de um escritor notadamente diferente da maioria que publicava àquela altura da década de 30. O fato de Cyro ter rompido com um modelo de literatura que se exigia documental e imposto um outro, trouxe desconforto à crítica literária brasileira, que reconhecia, na classificação do romance e do seu autor, uma tarefa arriscada e complexa151.

Essa tarefa da crítica de classificar uma obra como pertencente a determinado gênero é atualmente menos arriscada; contudo continua complexa, pois analisar o amanuense Belmiro é se enredar num texto rico, repleto de uma intertextualidade que contempla vários autores clássicos da literatura brasileira e mundial.

O gênero diário se caracteriza em O amanuense Belmiro152 como sofisticado e contraditório é insuficiente para atender os dilemas da alma do funcionário público insatisfeito. A tarefa que consiste em analisar as contradições do gênero diário íntimo não pode deixar de se aprofundar nas antinomias da personalidade do protagonista apresentadas no subitem abaixo.