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4.2 ANÁLISE DO DISCURSO DAS ENTIDADES REPRESENTADAS NA ADPF n.º 442 SOBRE O ABORTO

4.2.2 A ocultação do argumento da sacralidade da vida

O valor transcendental da vida, costumeiramente representado por uma crença religiosa que sacraliza, é frequentemente utilizado para fundamentar uma postura ética e ideias, que exteriorizadas pelas partes ou intrinsecamente presente de maneira mais tímida, contornou a batalha argumentativa sobre a trimestralidade do aborto na audiência pública (90). E em nome do valor intrínseco da vida humana elegeu considerações morais absolutas que qualquer pensamento ou fato contrário é tratado como verdadeiro insulto ao dom divino de criar a vida, o que gera uma condição de universalização de um lado do discurso (56, 91).

Em outra perspectiva, verificou-se por uma grande parte dos representantes dos grupos religiosos, uma nítida intenção de não vincular o debate ao argumento da sacralidade, buscando impor aspectos científicos morais e jurídicos, para justificar suas posições contrárias à descriminalização.

Na fala abaixo se exemplifica como a sacralidade e a religiosidade que envolvem o dilema da vida junto ao tema do aborto podem ser camufladas:

E não venho defender a vida sob uma perspectiva religiosa, mas, como professora de Filosofia do Direito, como advogada, como antropóloga, como mulher, enfim, como ser humano, com a clara convicção de que, acolher essa ADPF seria um aborto jurídico, que esquartejaria os membros da completude sistêmica do nosso ordenamento jurídico, atingindo o núcleo da alma dos valores constitucionais garantidos aos brasileiros, a partir dos verdadeiros propósitos do legislador, que instituíram o nosso Estado democrático de Direito.” (R9PV).

Muitas vezes, dentro do texto analisado, observamos que até mesmo aqueles representantes de entidades religiosas (ou os que possuem notória participação como líderes religiosos) não embasam suas argumentações da sacralidade da vida como meio de estabelecer o convencimento para quem se fala ou argumento principal do discurso.

Essa referida afirmação pode ser confrontada com as audiências públicas com a mesma temática, que ocorreram no Congresso Nacional, mostrando que, contrariamente ao que se notou no STF, o conteúdo possui grande apelo religioso pela vida sacra.

Justificam-se os discursos através da motivação para quem se fala e qual público se busca atingir, pois é certo que dentro do STF o debate contém maior tecnicidade e formalidade jurídica, o que, por si só, afasta, em parte, a utilização de argumentos religiosos calorosos e a teatralidade que normalmente é estabelecida nas casas do Congresso, onde o maior alvo é determinado pela representatividade política.

Tal suposição foi, inclusive, trazida ao debate pela entidade R2PE, que falou sobre a intenção de alguns participantes de obscurecer nos debates a própria sacralidade como argumento principal, no intuito de buscar fortalecimento junto à opinião pública e ao próprio tribunal que possui um viés técnico, conforme abaixo se transcreve:

Não escondo o lugar de onde falo e discordo de quem mascara as suas razões religiosas com supostos argumentos jurídicos ou científicos. (R2PV)

Em contraponto à obscuridade da sacralidade presente nos discursos pró- vida, o argumento religioso assume outro papel no discurso pró-escolha, ou seja, de fonte de empoderamento da tese, sobre a premissa de que a religião e as outras áreas do conhecimento podem caminhar em conjunto:

Mas farei isso, em um primeiro momento, de um lugar bastante particular, o lugar escolhido pelo Papa Francisco para se posicionar em relação a essa questão: Olhar para aquelas que deveriam ser as primeiras a serem consideradas, as mulheres. É desse lugar que me posiciono pela dignidade das mulheres, pelo respeito aos seus direitos mais fundamentais. (R2PE)

Seguindo ainda a linha argumentativa da entidade acima apresentada, verifica-se a abordagem sobre a laicidade do Estado que é um dos assuntos, utilizados nos debates para contrapor argumentos religiosos e uma visão da vida como algo intocável, se posicionando, portanto, no sentido de admissão da análise religiosa do tema sem o apelo de slogan, mas como modo de investir poder aquelas mulheres de fé que são colocadas diante da situação de interrupção da gravidez e enfrentam tal dilema:

Chamo as palavras do Papa, o que, neste espaço, poderia ser considerado inadequado, pois o Brasil é um país laico. Sabemos, porém, que as mulheres católicas recorrem ao aborto em grande número, indicando mesmo as pesquisas que são a maioria das mulheres que abortam no nosso País, e sua fé religiosa conta no momento da sua decisão, conta também o peso da ilegalidade e a possibilidade de serem maltratadas ou mesmo presas. É tendo essas mulheres em meu horizonte que trago o Papa Francisco nesta intervenção.” (R2PE)

Na fala da representação R6PV está presente o caráter religioso, inicialmente como elemento de legitimação do discurso. Porém, no inteiro teor de sua manifestação não são trazidos elementos transcendentais como forma de fortalecer seus argumentos, ao contrário, utiliza-se a todo instante os aspectos técnicos e jurídicos, mas defendendo o pluralismo religioso como forma de legitimidade paraestabelecer um debate democrático.

Discute-se que a questão em debate não pode ter parâmetro religioso, e que somos fundamentalistas, fanáticos, extremistas, dentre outros termos

pejorativos, simplesmente porque insistimos em defender a cultura judaico- cristã. (R6PV)

No discurso acima a entidade representada termina sua explanação manifestando firmemente a posição da entidade que representa, trazendo neste momento o discurso bíblico que espelha influência da moral religiosa e da atribuição de uma equiparação entre crime e pecado:

Por fim, em quarto e último lugar, diante dos fatos narrados e os fundamentos apresentados, a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, em abril de 2013, por ocasião da 41ª Assembleia Geral ordinária, realizada aqui na Capital Federal, por unanimidade de seus membros, exarou posicionamento quanto ao abortamento nos seguintes termos: a CGADB, Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, é contrária a esta medida do aborto, por resultar em uma licença ao direito de matar seres humanos indefesos, na sacralidade do útero materno, em qualquer fase da gestação, por ser um atentado contra o direito natural da vida. A palavra de Deus diz: "e não matarás o inocente (Êxodo 23:7)”. (R6PV)

Ainda na linha da abordagem da sacralidade, como pano de fundo para as críticas sobre o aborto, menciona-se a explanação do representante da P1PV, que em nenhum momento citou qualquer termo que fizesse alusão à religiosidade. É notório que o representante era Senador e retratava em seu mandato ideias do movimento evangélico dentro do Congresso Nacional. E o fato de não utilizar argumentos religiosos reforçam o olhar do estabelecimento de uma verdadeira estratégia dialógica, levando-se em conta ainda que o mesmo atuou em audiências públicas sobre o tema no Senado, o que trouxe um endurecimento sobre os melhores elementos a serem abordados, pois lá se utilizava do clamor religioso para sedimentar sua representatividade.

Não podemos concluir que a sacralidade da vida, como elemento constituidor do discurso pró-vida, tenha sido esquecida ou que houve um reconhecimento da ausência de expressividade por parte daqueles que compõem este movimento pró-vida, mas que diante de estratégias de debate vem sendo coberta por um véu, no sentido de afastar críticas e contra-argumentos que a diminua no debate, em razão do estabelecimento religioso de uma moralidade universal e impositiva.

De outro modo, resta também uma percepção que o debate à luz da sacralidade da vida carrega uma relevância maior para aquelas religiões de caráter cristão, pois nas falas das instituições israelitas e muçulmanas a vida adquire

latente caráter de não ser um bem inatingível, podendo ser mitigada sua existência diante de fatores práticos e religiosos.

A percepção acima citada pode ser verificada no discurso da seguinte entidade:

Assim como a religião age para aconselhar e acolher a decisão da mulher que opta pelo aborto, recomendo que o Estado constitua equipes multidisciplinares para aconselhar e acolher essas mesmas mulheres. No final das contas, existe algo que aproxima nós, os religiosos, e os senhores, agentes do Estado: Temos uma oportunidade de sermos relevantes em um momento tão crítico na vida de uma mulher e de seu entorno. Somente o seremos se nossa postura for de acolhimento e instrumentação para o aprofundamento daquela decisão, porque, no final das contas, a decisão do indivíduo será tomada conosco ou apesar de nós. (R4PE)

O representante R4PPE, ao contrário de outros expositores religiosos que se posicionaram antagonicamente ao aborto, traz fundamentos bíblicos da palavra para justificar a defesa da vida (mas não de qualquer vida) abordando aspectos indiretos de uma prevalência da dignidade, e justificando através do texto sagrado como o judaísmo entende o debate ciência e religião quando trata das fases gestacionais do feto:

Deus coloca diante de nós a vida e a morte, mas nos indica que devemos escolher a vida. A pergunta crítica é o que significa escolher a vida em cada uma das circunstâncias. Qual vida? A vida de quem? Qual aspecto da vida? Saúde mental também é vida (...), no entanto, o aborto é permitido, na tradição judaica clássica, não somente nesses estágios iniciais da gravidez. Existem algumas fontes importantes que eu vou citar, agora, que contam casos em que há conflito no momento do nascimento, no momento do parto, entre a manutenção da gestação e a integridade física da mãe. (R4PE)

Por fim, apesar de qualquer argumento religioso que se posicione contra a descriminalização do aborto, os dados trazidos pela pesquisadora expositora da U9PE, que possui intensa participação em audiências públicas relativas ao tema do início da vida e aborto, informam que, independente da concepção religiosa da mulher, o aborto acaba sendo realizado na prática:

Uma em cada cinco mulheres aos quarenta anos, nós as conhecemos na casa ou na comunidade, aos domingos na igreja ou no culto. Elas processam religiões: 56% delas são católicas; 25%, evangélicas. Ela é a mulher comum brasileira. (U9PE).

A religiosidade e o dogma estabelecido nos núcleos religiosos sobre o aborto, qualificando-o como pecado, não se mostram como argumentos suficientes para afastarem o cometimento do ato, pressupondo que apesar de haver uma predominância religiosa no Brasil de religiões cristãs, o aborto é comum em todos os setores da sociedade.

Tal colocação corrobora com outra parte da pesquisa que trata da estigmatização da mulher, já que o aborto, que é discutido não só social, mas também religiosamente, lhe impõe um sentimento de culpa com a repressão do pecado, a partir da ideia de que, ainda no Éden, foi ela quem corrompeu o homem. Isso de acordo com a visão cristã, prevista na literatura bíblica.

A sacralidade intrínseca ao aborto é matriz de estigma, pois, independente da criminalização existente, é notório que a mulher sofre em razão da cultura religiosas e moral que trazem como componente principal a atribuição da “culpa”, conforme elemento presente na falas do representante da U8PE: “Este é um momento importante para mostrarmos como direito e cultura se encontram, e, especialmente como a lei pode reproduzir padrões culturais opressivos a determinados grupos sociais”.

A condenação e penalização religiosa, assim como a própria criminalização da conduta, são instrumentos opressores e estigmatizadores, uma vez que não impedem o ato abortivo e buscam, através da condenação e expiação da mulher, desqualificar sua vontade e autonomia, fato que ocorre não só nos abortos ilegais, mas também naqueles que a lei prevê a proteção da mulher. Nos serviços hospitalares, que prestam o aborto legal, em caso de estupro ou nos casos que a gravidez ofereça risco de vida, são frequentes comportamentos e protocolos que colocam a mulher em uma situação indigna:

Recentemente, foi noticiado que o principal hospital de assistência ao aborto por estupro no país teria agora uma médica responsável que se define como católica. Em que importaria a crença privada e liberdade religiosa de uma gerente de um hospital público para o cuidado de mulheres que passaram por um estupro e buscam o aborto legal? Medo ou desejo de que ela não levasse adiante os serviços do aborto legal e seguro. (U8PE)

Na fala acima, se percebe que a sacralização presente não seria somente considerada em relação à vida, mas também em relação à condenação moral

indireta do ato, ao definir que o serviço de abortamento legal possui como diretriz um direcionamento católico, notoriamente contrário à prática em qualquer circunstância.

Estigma é uma avaliação moral negativa sobre determinados sujeitos ou comunidades, produzida quando estes violam expectativa de normalidade hegemônica de papéis sociais ou um padrão impositivo de adequação moral. Associação Brasileira de Antropologia

(...)

Quando se trata de gravidez resultante de estupro, o estigma impede que o aborto legal seja praticado como um direito e forma de cuidar da saúde das mulheres e meninas.

A dupla moral existente na nossa sociedade, ao mesmo tempo em que considera o estupro um crime repugnante, condena e discrimina a mulher vítima. (U8PE)

Destarte, na sacralização da vida como algo divino e intocável, verifica-se que na prática torna-se necessário questionar se a transformação social do Estado Democrático não superou tal aspecto, no que tange à necessidade de atuação pragmática de uma aplicação ética para a preservação de vidas femininas, e de um reconhecimento de amadurecimento natural de valores sociais que refletem o progresso de conceitos médicos (antes não existentes), e de outros princípios que foram consolidados sobre a noção de um referencial nos Direitos Humanos.