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CAPÍTULO 2: SÃO BONIFÁCIO E O GRUPO DO PASTO

2.3. O AMBIENTE HISTÓRICO

2.3.1. A ocupação do território

O embrião deste trabalho está nos agricultores do Grupo do Pasto. Para melhor conhecê-los e para entender também a paisagem social/cultural de São Bonifácio, é preciso conhecer um pouco da história da ocupação daquelas terras.

Antes da chegada dos colonizadores europeus, a região onde hoje se encontra o município de São Bonifácio era área de movimentação dos povos Jês e Guaranis (NOELLI, 2005).

Há aproximadamente dois mil anos, os povos Jês, vindos do Brasil Central, passaram a ocupar a região costeira do sul do país, introduzindo a agricultura praticada em clareiras abertas na floresta, onde cultivavam plantas como abóbora, milho, cará, feijão, mandioca e amendoim. Também realizavam o manejo da floresta, com o plantio concentrado de palmiteiros, jabuticabeira, araucárias e outras espécies florestais (NOELLI, 2005).

Pouco antes do ano mil, os povos Guaranis, partindo da região Amazônica, passaram a invadir o litoral, deslocando os Jês para áreas montanhosas e regiões do Planalto. Os Guaranis praticavam agricultura30, pesca, caça e coleta de alimentos; transportavam e inseriam nas regiões que ocupavam, um pacote básico de plantas domesticadas, ao mesmo tempo em que manejavam os recursos florísticos dos novos ambientes ocupados, realizando um manejo agroflorestal (NOELLI, 2005).

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A forma de agricultura praticada pelos guaranis é aquela conhecida como “sistema de coivara”, onde se fazia a roça em clareiras abertas na floresta. Após o esgotamento do solo nas áreas de roça, elas eram abandonadas, e novas áreas eram abertas na floresta. Após um período de descanso (roça em pousio), geralmente entre 10 e 15 anos, as antigas roças eram reativadas, pois o solo já teria recuperado a sua fertilidade natural (NOELLI, 2005).

Mas a história da colonização européia no Brasil fez com que a região do município de São Bonifácio, povoada por indígenas e caboclos até meados do século XIX, se tornasse uma área de colonização germânica.

De acordo com Jochem (2006), o início do processo de colonização não-portuguesa do Brasil ocorreu a partir de 1808, com a abertura dos portos às nações amigas de Portugal, tendo por conseqüência a vinda de inúmeros estrangeiros para o Brasil. A partir deste ano, o governo passou a fomentar a imigração instituindo-a formalmente com a Carta Régia de 1818, que permitia a fundação de colônias estrangeiras por todo o Brasil, concedendo terras e outros benefícios aos imigrantes. Entretanto, muitas das colônias instaladas no Brasil central não foram bem sucedidas, de forma que o primeiro Governo Imperial (1822-1831) buscou condicionar a imigração européia para o sul do Brasil.

Seyferth (1994) explica algumas questões que levaram à concentração do fluxo imigratório para a região sul na segunda metade do século XIX: primeiro, porque se havia criado, no exterior, uma imagem negativa com relação ao regime escravista do Brasil, agravada por denúncias ao processo de colonização. Isso teria ocasionado na Prússia, em 1859, a proibição formal de emigração para o Brasil, depois revogada para os três Estados do sul. Em segundo lugar, o discurso científico da época considerava que as regiões Norte e Nordeste não eram apropriadas para a colonização com europeus, o que era apoiado em parte pela elite brasileira. Soma-se a isto o fato de que o regime de colonização com pequenas propriedades camponesas não interessava aos grandes latifundiários cafeicultores de São Paulo e do Nordeste. Por último, a região sul possuía grandes extensões de terras inexploradas pelos portugueses, que abrigavam indígenas e posseiros caboclos, consideradas “vazios demográficos”, onde era necessário fazer um povoamento “racional”. De acordo com Brasun (1999), este povoamento racional visava consolidar o território, modernizar e aumentar a produção de alimentos e, ainda, promover o exercício do trabalho livre através da instituição de uma classe de pequenos proprietários rurais, até então praticamente inexistente no Brasil.

Os “vazios demográficos” encontravam-se nas regiões montanhosas, onde ainda predominava a floresta virgem, povoada por indígenas e caboclos. As demais regiões sulinas e, principalmente os pampas, já haviam sido colonizadas pelos portugueses a partir do século XVIII, destinando grandes áreas de terras à criação de gado, nas chamadas estâncias (BRAUN, 1999). Por isso, a região sul caracteriza-se por uma divisão espacial entre os pampas, onde se instalaram grandes propriedades pecuárias luso-brasileiras, e as regiões montanhosas, onde se implantaram comunidades camponesas de imigrantes europeus com base na policultura-pecuária, como é o caso do município de São Bonifácio.

Por outro lado, na Europa, o desenvolvimento do capitalismo apontava a migração como saída para o excedente populacional e para os pobres. Conforme estudos de Gregory (1997) apud Braun (1999), o avanço do capitalismo levou também à crescente proletarização dos camponeses e por isso, a necessidade de migrarem - para regiões onde supostamente as terras eram férteis e baratas ou gratuítas - buscando garantir a reprodução de sua condição camponesa.

Braun (1999) avalia que os alemães, particularmente, eram considerados bons agricultores e bons trabalhadores, portanto, imigrantes ideais para povoar vazios demográficos no regime da pequena propriedade rural. De acordo com esta autora, o colono alemão era, na verdade, um substituto do sistema de trabalho escravo, pois povoaria e cultivaria regiões de terras florestais inexploradas, representando uma alternativa de desenvolvimento diferente da pecuária estancieira, e ainda reforçaria a proteção da zona sul do país, freqüentemente ameaçada por invasões pelas populações da Bacia Platina (Uruguai, Paraguai, Argentina).

Assim, o século XIX e primeira metade do século XX, foram marcados pela colonização alemã, principalmente nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Estes colonos povoaram os vales dos rios, entre o litoral e o planalto, longe das grandes propriedades luso-brasileiras. Foi o caso dos grandes povoamentos dos vales do rio dos Sinos, rio Jacuí e rio Taquari, no RS; rio Itajaí, em SC, e também do pequeno povoamento do vale do rio Capivari, em São Bonifácio. Uma característica marcante desta colonização foi o regime de pequenas propriedades policultoras, relativamente isoladas, com certa autonomia e comércio em pequena escala (SEYFERTH, 1974).

Em Santa Catarina, os primeiros camponeses alemães chegaram em 1828, e em 1829 fundaram a colônia de São Pedro de Alcântara, localizada às margens da primeira estrada que levaria a Lages, o Caminho das Tropas. Com o passar do tempo, novas linhas de colonização foram formadas, e em 1860, constituiu-se o núcleo colonial Teresópolis, localizado na confluência dos rios Cedro e Cubatão, abrigando imigrantes católicos e luteranos provenientes, em sua maioria, da região das planícies da Westphalia, na Alemanha. A partir de 1863, descontentes com a situação do local, por falta de apoio do governo e de terras próprias para o cultivo, os colonos iniciaram novas linhas de colonização, começando pelo desbravamento das margens dos rios Cubatão e Cedro em direção às suas nascentes. Formaram ainda as linhas coloniais do rio São Miguel, rio Novo, rio Salto e rio Capivari (FATMA, 1976; SOCIOAMBIENTAL, 2001).

Desta forma, e a partir de 1864, começou a ser colonizado o vale do rio Capivari, que daria origem a São Bonifácio. Em 1918, a colônia foi elevada à categoria de Distrito com o nome de São Bonifácio do Capivari e só em agosto de 1962, foi fundado o município de São Bonifácio, através da Lei n° 840, que o emancipa político-administrativamente do município de Palhoça.