1 REVISÃO DE LITERATURA
1.2 POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO ESPECIAL NA PERSPECTIVA DA
1.2.2 A oferta do AEE e seus espaços de atendimento
A política atual considera o AEE como um atendimento que pode ocorrer dentro das escolas regulares, no espaço denominado Sala de Recursos, e também nos centros especializados, considerados escolas especiais que, além do atendimento exclusivo, pode também oferecer o atendimento educacional complementar ou suplementar, no contraturno ao da escola regular. O AEE também pode ser realizado por instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos, conveniadas com a Secretaria de Educação ou órgão equivalente dos Estados, Distrito Federal e Municípios.
Conforme Borowsky (2013), a Educação Especial veio, ao longo desse arcabouço legal, se reconfigurando no processo de inclusão escolar. Na atual Política, a modalidade Educação Especial se orienta pela chamada Educação Inclusiva; o atendimento complementar em Salas de Recursos é entendido como “Atendimento Educacional Especializado (AEE)” e pode ser realizado nas escolas ou em centros especializados, públicos ou privados; e a sala de apoio é chamada de Sala de Recursos Multifuncionais. Essa reconfiguração transmite a ideia de que a relação público/privado, considerada existente por meio de convênios, esteja se fortalecendo, e que a Educação Especial passa a ser um serviço de ordem técnica, que não precisa acontecer dentro da escola, ao contrário, é legitimada pela oferta de Educação Especial privada.
Quanto a esse aspecto, a orientação e a oferta do AEE devem levar em conta as especificidades dos estudantes com NEE e a qualidade desse atendimento, não se limitando
apenas à racionalização de recursos. Borowsky (2013) contribui com a discussão sobre como se deu a relação entre a educação pública e privada na Educação Especial brasileira, e aponta suas contradições. Sobre este aspecto, a autora destaca que, enquanto a política avança na possibilidade de matrículas de pessoas com deficiência como direito público, permanece com antigas concepções quanto a esse atendimento ser ofertado pelo setor privado. Apresenta, ainda, uma discussão a respeito dos custos para o Estado, ao mostrar que a frequência de estudantes com deficiência em escolas públicas regulares é mais barata do que na escola conveniada, e que, dessas formas mencionadas, a mais onerosa para o Estado é a oferta exclusiva em escola especial pública.
As políticas educacionais, no percurso histórico da Educação Especial, privilegiaram as instituições privadas. Essa tendência parece continuar nos tempos atuais, pois, ao apresentar o AEE como referencial para essa Política Nacional, com incentivo a convênios com instituições privadas; ao considerá-lo como alternativa de garantia do direito à educação para as pessoas com deficiência; e, ao considerar que esse atendimento irá resolver, ou quiçá, sanar as lacunas quanto às demandas exigidas pelos estudantes que necessitam de um atendimento pedagógico individualizado, o Poder Público sinaliza para uma política que requer a expansão da escolaridade universal, sem estar atento às peculiaridades advindas, tanto dos estudantes, quanto do sistema educacional brasileiro.
Nessa direção, Peroni (2011) ressalta que o Poder Público, historicamente, deixou de se responsabilizar pela Educação Especial e, quando estava passando a ser entendida como um direito, a nova conjuntura de racionalização de recursos dificulta a implementação de políticas, com qualidade, e restringe a ampliação de escolas públicas de Educação Especial. Para melhor compreensão dessa discussão, a Figura 1 apresenta uma análise dos dados do Censo Escolar5do Ministério da Educação (MEC/INEP) sobre o quantitativo de matrículas de estudantes com deficiência, Transtorno Global do Desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, atendidos em Classes Especiais ou Escolas Exclusivas e em Classes Comuns (estudantes incluídos) no período de 2007 a 2013.
5 O Censo Escolar é um levantamento anual de dados estatísticos educacionais de âmbito nacional, coordenado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).
Ao verificar a Figura 1, é possível perceber que o processo de inclusão escolar está ocorrendo, ou seja, o acesso às escolas vem acontecendo. A cada ano se observa o crescimento do número de matrículas de estudantes incluídos e, consequentemente, uma redução nas matrículas dos estudantes de classes especiais e escolas exclusivas, apesar de que, essa redução não foi observada nos últimos três anos, para a classe especial e escola exclusiva, período em que esse número ficou acima das 193 mil matrículas. No entanto, com o objetivo de fazer uma análise mais detalhada do conteúdo da Figura 1, foi desenvolvida a Tabela 1, que apresenta o mesmo conteúdo da Figura 1, acrescida de sua evolução percentual e de informações referentes às matrículas totais contidas no Censo Escolar MEC/INEP (BRASIL, 2014).
Tabela 1 – Evolução anual das matrículas por tipo de atendimento - 2007 a 2013
Ano Classe
Regular Percentual Classe Especial e escola exclusiva
Percentual Soma Classe Especial e classe regular Evolução Matrícula total (milhões) 2007 304.882 47% 341.781 53% 646.663 - 53,029 2008 374.537 54% 315.553 46 % 690.090 7% 53,233 2009 387.031 61% 252.687 39% 639.718 -7% 52,580 2010 484.332 69% 218.271 31% 702.603 10% 51,550 2011 558.423 74% 193.882 26% 752.305 7% 50,973 2012 620.777 76% 199.656 24% 820.433 9% 50,545 2013 648.921 77% 194.421 23% 843.342 3% 50,042
Fonte: Sinopses Estatísticas da Educação Básica - (INEP, 2007-2013). 304.882 374.537 387.031 484.332 558.423 620.777 648.921 341.781 315.553 252.687 218.271 193.882 199.656 194.421 0 100.000 200.000 300.000 400.000 500.000 600.000 700.000 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Classe Regular Classe Especial e Escola Exclusiva
Figura 1 – Quantitativo de matrículas de estudantes com deficiência, transtorno global do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação por Tipo de Atendimento – Educação Básica no Brasil, 2007 a 2013
Com base nos dados da Tabela 1, verifica-se que, no período, houve uma tendência de crescimento anual de matrículas dos estudantes da Educação Especial em classe regular, que passou de 304.882 em 2007, para 648.921 em 2013, com a expressiva evolução de 113%. Por outro lado, nas classes especiais e escolas exclusivas houve uma redução de 43%, passando de 341.781 em 2007, para 194.421 em 2013. Já o total do público alvo da Educação Especial passou de 646.663 em 2007, para 843.342 em 2013, o que significou uma evolução de 30%.
No entanto, o total de matrículas na escola básica caiu de 53.028.928 em 2007, para 50.042.488 em 2013, o que significou uma redução de 5,6%, ou seja, houve uma ampliação da matrícula dos estudantes público alvo da Educação Especial, ante uma retração nas matrículas de estudantes na Educação Básica. Assim, é possível inferir que esteja havendo um aumento do número de diagnóstico desse público alvo.
Corroborando essa análise, Meletti e Bueno (2011) fizeram comparativo semelhante, referente ao período de 1998 a 2006, e constataram que em 1998 existiam 337.326 matrículas em Educação Especial, o que correspondia a 0,76% de um total de 43,9 milhões de matrículas na escola básica; e que esse número passou, em 2006, para 700.624 matrículas em Educação Especial, o que representou 1,25% das 55,9 milhões de matrículas totais (MELLETI; BUENO, 2011). Com base na análise efetuada no período de 2007 a 2013, verifica-se que esse índice passou de 1,22% em 2007 (646.663 matrículas em Educação Especial e 53 milhões na Educação Básica) para 1,65% em 2013 (843.342 matrículas em Educação Especial e 50 milhões na Educação Básica).
Em relação ao Distrito Federal, a Tabela 2 também mostra que o acesso às escolas vem acontecendo, e que, a cada ano, houve crescimento do número de matrículas de estudantes incluídos e uma redução das matrículas em classes especiais e escolas exclusivas.
Tabela 2 – Evolução anual das matrículas no DF, por tipo de atendimento - 2007 a 2013
Ano Classe
Regular Percentual Classe Especial e escola exclusiva Percentual Total
2007 6.096 45% 7.501 55% 13.597 2008 7.924 55% 6.502 45% 14.426 2009 6.990 57% 5.255 43% 12.245 2010 9.225 65% 4.894 35% 14.119 2011 10.785 71% 4.384 29% 15.169 2012 10.983 73% 4.131 27% 15.114 2013 11.563 74% 3.990 26% 15.553
Com base nos dados da Tabela 2, pode-se observar que houve, no DF, uma tendência de crescimento anual de matrículas dos estudantes da Educação Especial em classe regular, que passou de 6.096 em 2007, para 11.563 em 2013, com uma evolução de 90%. Por outro lado, nas classes especiais e escolas exclusivas houve uma redução de 47%, passando de 7.501 em 2007, para 3.990 em 2013. Já o total de matrículas do público da Educação Especial passou de 13.597 em 2007, para 15.553 em 2013, o que significou uma evolução de 14%.
A análise efetuada na Figura 1, mostra que houve uma evolução de matrículas de estudantes com necessidades educacionais especiais no sistema educacional. Entretanto, quando se observa o número de matrículas dos estudantes público da Educação Especial em classes especiais ou escolas exclusivas, constata-se que, no Brasil, o maior número de matrículas, equivalentes a 71,9% se concentra nas instituições privadas e 28,1% correspondem aos estudantes matriculados em escolas públicas, conforme Tabela 3. Sobre este aspecto, Borowsky (2013) ressalta que, “políticas de conveniamento fazem com que as instituições privadas sem fins lucrativos atendam a maior parte dos sujeitos da Educação Especial, durante um longo tempo. A reforma do Estado reforça essa situação, já que era uma prática comum da Educação Especial” (BOROWSKY, 2013, p.322). Essas discussões sobre a não responsabilização do Poder Público pela Educação Especial ficam evidenciadas quando se observa os dados da Tabela 3, que apresenta a evolução, em termos de quantitativo de matrículas e de participação percentual das instituições privadas e da escola pública, na Educação Especial, referente ao período de 2007 a 2013.
Tabela 3 – Quantitativo de matrículas em instituições privadas e escolas públicas (em classe especial ou escola exclusiva), no período de 2007 a 2013
Ano Instituição
Privada Percentual Pública Escola Percentual estudantes Total de 2007 224.112 64,3% 124.358 35,7% 348.470 2008 204.475 63,9% 115.449 36,1% 319.924 2009 163.556 64,7% 89.131 35,3% 252.687 2010 142.887 65,5% 75.384 34,5% 218.272 2011 130.798 67,5% 63.084 32,5% 193.882 2012 141.431 70,8% 58.225 29,2% 199.656 2013 139.794 71,9% 54.627 28,1% 194.421
Fonte: Sinopses Estatísticas da Educação Básica (INEP, 2007-2013).
Pela avaliação dos dados apresentados na Tabela 3, constata-se que, no Brasil, a participação das escolas públicas, nas classes especiais e escolas exclusivas, vêm diminuindo
a cada ano, em termos quantitativos e em termos percentuais, quando comparados com a participação das instituições privadas. Conforme já mencionado, nos dados referentes ao ano de 2013, das 194.421 matrículas em classes especiais e escolas exclusivas, apenas 54.627 matrículas, ou 28,1% do total, foram efetivadas nas escolas públicas; enquanto que 139.794 matrículas, ou 71,9% do total, foram efetivadas em escolas privadas.
Essas informações podem indicar que esteja havendo uma migração das matrículas da Educação Especial, antes efetivadas na escola pública, para as escolas exclusivas em instituições privadas; ou que o processo de inclusão esteja ocorrendo de forma mais lenta nas instituições privadas, que reduziu o número de matrículas em 37,6% no período, enquanto nas escolas públicas, a redução foi de 56,1%. Conforme abordado, a atual Política Nacional prevê o chamado AEE, e esse atendimento pode ocorrer dentro das escolas regulares (antes denominados espaço da Sala de Recursos) e também em centros especializados ou instituições especializadas (escolas especiais e classes especiais). Dessa forma, as instituições privadas, dentro da perspectiva da chamada inclusão, foram transformadas, nesse novo modelo, em atendimento (AEE) em turno inverso ao da escola regular. Assim, é possível inferir que o Estado se coloca como provedor não da Educação Especial, mas do chamado AEE que transfere apoio financeiro às instituições privadas, em detrimento à escola pública.
No contexto das políticas educacionais, a Educação Especial, desde 2001, já vinha sendo tratada como um serviço. Nesse sentido, quando se observa a redução do espaço das escolas públicas em benefício das instituições privadas, constata-se que a Educação Especial, nesse novo contexto, configura-se como uma prestação de serviços, com objetivo de racionalização de custos. Em outras palavras, espaços que deveriam ser ocupados, por dever, pelo Poder Público, são apropriados pelo setor privado por meio de parcerias e convênios. Assim, pode ficar fragilizada a proposta educacional de inclusão conduzida pela rede de ensino público aos estudantes com graves comprometimentos, com consequente descaracterização de uma educação capaz de satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem de todos.
Nessa direção, Ferreira (2006) levanta a hipótese de que as atuais relações sociais e políticas públicas vigentes, bem como a exclusão social, especialmente dos grupos mais vulneráveis podem reforçar políticas assistencialistas e privatizantes, o que limitaria, de forma significativa, as possibilidades da escola pública. Especificamente no que se refere às pessoas com deficiência, existe o desafio, para o Poder Público e para a sociedade civil, de superarem
a visão de que a educação dessas pessoas pode ser resolvida apenas com o repasse da responsabilidade e de recursos financeiros do Estado para as organizações não governamentais.
Romero e Noma (2009) entendem que as instituições de caráter privado representam significativo papel para o atendimento educacional destinado às pessoas com necessidades especiais, porém com representativo vínculo mantido com o Poder Público. Com efeito, a oferta de serviços educacionais sendo compartilhada com a sociedade civil, orientada pelos critérios da negociação e da parceria entre os serviços públicos e privados, reforçou o discurso a favor da minimização do Estado, legitimando-se na valorização das ações de caráter privado, sejam filantrópicas, sejam lucrativas. Nesse sentido, os autores chamam atenção para o fato de que a diluição das iniciativas estatais, no que condiz ao acesso aos direitos sociais, esteve instituída nesse mesmo período em que se potencializaram os discursos em defesa da educação pública e universalizada.
Cabe ressaltar que a histórica luta dos anos de 1980 e 1990, pela democratização do ensino, sobretudo, da Educação Básica, implicava a exigência de qualidade dos serviços, de acesso, de permanência dos estudantes e de conclusão da escolaridade como um direito social. Entretanto, nesse percurso histórico, a reforma do Estado brasileiro nos anos de 1990, significou a redução de sua atuação nas políticas públicas e sociais, a redefinição dos limites entre o público e o privado e a constituição da esfera do público não estatal. De acordo com Romero e Noma (2009),
Mudanças na relação entre o Estado e a sociedade civil resultaram na transferência da responsabilidade estatal de oferta e manutenção da educação para as organizações sociais e na institucionalização de desigual divisão de responsabilidades entre as esferas administrativas federal, estadual e municipal (ROMERO; NOMA, 2009, p. 17).
Assim, pode-se afirmar que o percurso histórico da Educação Especial foi favorável à valorização e fortalecimento de atendimentos mediados por organizações privadas sem fins lucrativos, filantrópicas e assistenciais. É sabido que a participação da sociedade civil não é novidade na Educação Especial, mas o que se demonstra é uma nova versão do que já ocorre desde a década de 1990, face ao contexto neoliberal que começou a emergir a partir daquela década.
Diante do exposto, considera-se que a educação tem um papel fundamental para reduzir a internalização de políticas que reforçam os interesses capitalistas. Entretanto,
conforme Prieto (2006), essa não é uma tarefa fácil, mas é importante romper com as armadilhas neoliberais e lutar por políticas que mantenham o sentido público da educação, bem como do serviço educacional, como direito social. Para tanto, é necessário exigir a revisão do papel do Estado para que ele assuma como prioridade a administração e o financiamento das políticas sociais, particularmente as de educação.
No contexto do Distrito Federal, ao contrário do que vem ocorrendo em âmbito nacional, verificou-se que está sendo mantido esse sentido público da educação, pois, conforme Tabela 4, a participação de instituições privadas em classe especial e escola exclusiva apresentou um percentual bem inferior, quando comparado com os dados do país.
Tabela 4 – Quantitativo de matrículas em instituições privadas e em escolas públicas no DF (classe especial ou escola exclusiva), no período de 2007 a 2013
Ano Instituição Privada
Percentual Escola Pública Percentual Total de estudantes 2007 1.294 17,3% 6.207 82,7% 7.501 2008 1.045 16,1% 5.457 83,9% 6.502 2009 755 14,4% 4.500 85,6% 5.255 2010 679 13,9% 4.215 86,1% 4.894 2011 640 14,6% 3.744 85,4% 4.384 2012 489 11,8% 3.642 88,2% 4.131 2013 612 15,3% 3.378 84,7% 3.990
Fonte: Sinopses Estatísticas da Educação Básica (INEP, 2007-2013).
Pela avaliação dos dados apresentados na Tabela 4, constata-se que no DF, ao contrário do que ocorre no âmbito nacional, além de ser bem expressiva a participação da escola pública, ainda vem sendo reduzida a participação das instituições privadas nas classes especiais e escolas exclusivas, tanto em termos quantitativos, quanto em termos percentuais. Em 2007 as instituições privadas tiveram 1.294 matrículas, equivalentes a 17,3%, e, em 2013, esse número passou a 612 matrículas, equivalentes a 15,3%. Por outro lado, nas escolas públicas o número de matrículas caiu de 6.207 em 2007 para 3.378 em 2013, apenas em função do processo inclusivo dos estudantes, pois o percentual subiu de 82,7% em 2007 para 84,7% em 2013.
Feitas essas considerações a respeito do Distrito Federal, observa-se que é possível à revisão do papel do Estado no que diz respeito à priorização na administração das políticas sociais, especialmente no que se refere à Educação Especial pública. Nessa direção, uma ação que deve marcar as políticas públicas de educação é a formação de professores para o
atendimento aos estudantes com necessidades educacionais especiais, frente às demandas de uma educação inclusiva. Esse tema que será tratado na seção a seguir.