CAPÍTULO I: O DIREITO E O ASSÉDIO MORAL
1.8 A OIT e as políticas públicas de trabalho decente 61
A OIT e suas políticas internacionais de proteção ao trabalho e promoção do trabalho digno.
Falou-se pela primeira vez em trabalho decente na 87ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho, em 1999. Trabalho decente é condição fundamental para superar a pobreza, reduzir as desigualdades sociais, de gênero e para a garantia da democracia e do desenvolvimento sustentável.
Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), trabalho decente é aquele desenvolvido em condições adequadas de segurança, salubridade, liberdade e igualdade; alem de ser devida e adequadamente remunerado.131
Para a OIT, as políticas públicas de trabalho decente devem se apoiar em vertentes: a primeira é o respeito às normas internacionais do trabalho, aos princípios e direitos fundamentais do trabalho, como a liberdade sindical, por exemplo, bem como a abolição do trabalho infantil e a eliminação de todas e quaisquer formas de discriminação no trabalho, emprego ou ocupação. A segunda é a promoção do emprego de qualidade; a terceira, a extensão da proteção social e a quarta, o diálogo social.132
A promoção do trabalho decente é uma prioridade do governo brasileiro e do hemisfério americano (OIT, 2006).133 Na Resolução final da Assembleia Geral da ONU, de setembro de 2005, o trabalho decente tornou-se meta fundamental nacional e internacional, calcado nas políticas públicas da chamada “globalização justa”, para o emprego pleno e para a governabilidade democrática nas Américas. Também na Cúpula da Américas, foram assinados a Declaração e o Plano de Ação de Mar del Plata. No Parágrafo primeiro da referida declaração, foi reafirmado o compromisso de combater a fome, a desigualdade, a pobreza, a exclusão social, visando a melhorar as condições de vida dos povos e a fortalecer a democracia. O direito do trabalho, conforme já estabelecido em instrumentos de direitos humanos, deverá ocupar lugar central nas políticas públicas, sendo fundamental a promoção
131 ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Trabalho decente nas Américas: uma agenda
hemisférica, 2006-2015. Brasília: OIT, 2006.
132 Idem. Ibidem.
do trabalho decente para que se atinjam esses desideratos. Reconhece ainda, a referida Declaração, que o trabalho é o instrumento que dignifica e estrutura a vida dos povos, fundamental para a sociabilidade humana.134
Outros fóruns internacionais também reforçaram a necessidade da criação de políticas governamentais internacionais de proteção ao trabalho decente. Numa sessão realizada em abril de 2006, o ECOSOC (Conselho Econômico e Social das Nações Unidas) erigiu como tema central a criação de estratégias – em âmbito nacional e internacional – que propiciem a geração de emprego pleno e trabalho decente, como condição para o alcance do tão almejado desenvolvimento sustentável.135
No Brasil, o trabalho decente é um compromisso do governo brasileiro para com a OIT, desde junho de 2003. Há um Programa Especial de Cooperação Técnica para a promoção de uma Agenda Nacional de Trabalho Decente, em consulta aos órgãos representativos de empregados e empregadores. Essa cooperação prevê quatro áreas prioritárias de atuação: a geração de emprego, especialmente para jovens; a ampliação do sistema de seguridade social; fortalecimento do tripartismo e do diálogo social; o combate ao trabalho infantil e à exploração sexual de crianças e adolescentes, ao trabalho forçado e à discriminação no emprego e na ocupação.136
A agenda nacional de trabalho decente tem três eixos prioritários:137
1) Gerar mais e melhores empregos com igualdade de oportunidades e de tratamento;
2) Erradicar o trabalho escravo e eliminar o trabalho infantil, especialmente em suas formas mais degradantes;
3) Fortalecer os atores tripartites e o diálogo social como instrumento democrático.
Nota-se, portanto, que a OIT e o governo brasileiro, ao estabelecerem, como prioridade número um, a geração de trabalho de qualidade, consideram o trabalho em condições degradantes uma patologia social. Para tanto pretendem implementar políticas salariais de valorização do salário-mínimo, fortalecer o sistema de seguridade social – inclusive para trabalhadores da economia informal, além de políticas públicas de combate à discriminação no trabalho e à desigualdade salarial e de condições de trabalho entre gêneros.
134 MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Agenda Nacional de Trabalho Decente. Brasília, 2006. 135 ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Trabalho decente nas Américas: uma agenda
hemisférica, 2006-2015. Brasília: OIT, 2006.
136 MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Op. cit.
Destacamos, destarte, a preocupação governamental com as condições de trabalho. O governo pretende implementar uma política nacional de segurança e saúde do trabalhador, em consonância com as normas internacionais do trabalho, para garantir um ambiente de trabalho seguro e saudável.138
Pela importância dada o tema pelos organismos nacionais e internacionais, concluímos que é vital a promoção do trabalho decente no Brasil e no mundo para que se possa alcançar o desenvolvimento sustentável, a justiça social e o bem-estar social. Portanto, uma sociedade se sustentar economicamente, politicamente com uma democracia sólida, com a diminuição das desigualdades, faz-se mister o desenvolvimento pleno do ser humano em todas as suas potencialidades, o que somente será possível por meio do trabalho decente. Essa preocupação internacional com a promoção do trabalho decente justifica toda e qualquer preocupação em erradicar ou mitigar quaisquer ameaças aos direitos trabalhistas e aos direitos humanos fundamentais do trabalhador. Vislumbramos o assédio moral, o sofrimento psíquico e o mal- estar no ambiente de trabalho – além de um atentado contra os direitos humanos fundamentais do trabalhador – como um problema urgente na agenda para a promoção do trabalho decente, pois são sinais evidentes de condições precárias de trabalho que obnubilam as políticas públicas de implementação do emprego pleno e do trabalho decente no Brasil.
Ambiente de trabalho seguro, decente e saudável é aquele cuja estrutura permite que o trabalhador desenvolva livremente suas potencialidades e onde é respeitado integralmente, não sendo submetido a condições desumanas ou degradantes para sua saúde (seja física ou psíquica) e onde o trabalhador tem suporte da chefia e de seus colegas e caso adoeça, pode contar com um sistema de assistência público que lhe ofereça todo o suporte necessário para sua recuperação e reintegração às atividades laborais. Importante ressaltar também que, no caso de o trabalhador haver se afastado em razão de doença ocupacional ou relacionada ao trabalho, ao retornar ao trabalho, não sofra discriminação tampouco assédio moral. Para que seja possível esse ambiente de trabalho saudável, é necessário monitorar periodicamente os níveis de estresse, devendo estes ser estudados e controlados por meio da intervenção dos órgãos públicos como o Ministério Público do Trabalho, Delegacias do Trabalho, Sindicatos e órgãos de proteção e promoção da saúde do trabalhador.139
138 MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Agenda Nacional de Trabalho Decente. Brasília, 2006. 139 ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Trabalho decente nas Américas: uma agenda