Não é exagerado dizer que, no Brasil, a condução da ajuda humanitária a migrantes e refugiados tem sido levada a cabo e alcançado algum resultado positivo graças, sobretudo, ao papel historicamente assumido por entidades e organizações integrantes do chamado Terceiro Setor75. Muitas dessas entidades, também denominadas Organizações Não-Governamentais (ONGs), têm somado esforços na proteção e inclusão dos deslocados, com vistas à construção de uma “sociedade civil mundial” (IANNI, 2004).
Helion Póvoa Neto (2004, p. 51), em arguta observação, diz que as entidades ligadas a ao Terceiro Setor estariam impulsionando a criação do que ele denomina “bancos éticos”, que são destinados ao investimento na melhoria de vida dos migrantes que se deslocam e fixam permanência em países em desenvolvimento.
Maritza Farena (idem), convicta do papel proeminente das mencionadas entidades paraestatais, chega a afirmar que “Para fazer valer seus direitos, os migrantes contam apenas com a boa vontade de ONGs e advogados militantes de direitos humanos” (p. 329).
Ainda que esse tipo de descrição possa parecer superlativo, não deve restar dúvidas de que, ao menos no Brasil, as Organizações Não-Governamentais (tanto as locais, de atuação nacional quanto as internacionais), de acordo com autores como Guimarães et alli (2004, p. 14), conseguem articular e estabelecer parcerias profícuas com instituições públicas e privadas, e, mais importante, são capazes de sensibilizar parte considerável da sociedade civil para a necessidade de amparo de integração dos migrantes e refugiados.
São essas entidades que, ao revés da responsabilidade do poder público, costumam oferecer aos migrantes desolados serviços de assessoria jurídica especializada (em serviços de regularização migratória), assistência psicológica, de
75 Ainda que não haja consenso sobre a definição dessa expressão, considera-se apropriado o
conceito e a interrelação trazidos por Oswaldo Hajime Yamamoto, para quem “A (vasta) literatura acerca do ‘terceiro setor’ costuma identificar as entidades do ‘terceiro setor’ como organizações privadas (não-governamentais), sem fins lucrativos, autogovernadas e de associação voluntária”. Cf. em YAMAMOTO, Oswaldo H. Políticas sociais, "terceiro setor" e "compromisso social": perspectivas e limites do trabalho do psicólogo. Psicologia Social. [online]. 2007, vol.19, n.1, pp. 30-37. ISSN 1807- 0310.
tradução, cursos de formação profissionalizante para geração de renda própria, apoio a iniciativas de empreendedorismo etc.
Em São Paulo, são tidas como referências na assistência ao migrante entidades como o Centro de Apoio ao Migrante, ligado ao Serviço de Pastoral do Migrante (SPM), e a Cáritas Arquidiocesana76. Embora tenham matriz confessional (ligadas à Igreja Católica), dedicam-se ao amparo indistinto de estrangeiros de diferentes credos, etnias e procedências nacionais.
Mas existem ONGs de atuação mais abrangente, como o Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (criado em 2009) e a Conectas Direitos Humanos (criada em 2001).
A primeira se propõe a contribuir para a promoção de políticas migratórias no continente sul-americano, dando especial ênfase para os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais (DESCA) a serem estendidos em favor dos imigrantes.
Verificados os seus objetivos e projetos, o CDHCI permite entrever quais seriam os pontos nevrálgicos para a reformulação de uma nova política migratória: atualização da Política Nacional de Imigração e de Proteção ao Trabalhador Imigrante, do Projeto de Lei relativo ao novo Estatuto do Estrangeiro, criação do Conselho de Migração e Integração na UNASUL, fortalecimento da Campanha Nacional pelo Direito ao Voto dos imigrantes, apoio à adesão à CTMF, criação da Frente Parlamentar pelos Direitos dos Imigrantes etc77.
A Conectas, por sua vez, busca “promover a efetivação dos direitos humanos e do Estado Democrático de Direito, especialmente no Sul Global - África, América Latina e Ásia”78. Embora não cuide especificamente dos direitos das
76 Registre-se, por oportuno, que a valiosa contribuição da Igreja Católica, no Brasil, para a
humanização no tratamento jurídico-legal dispensado aos estrangeiros deve ser registrada é de longa data. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1980, logo após a promulgação do Estatuto do Estrangeiro, criticou de modo uníssono suas normas, dada a postura discriminatória aos estrangeiros adotada pelo legislador (BONASSI, op. cit., p. 62)
77 Cf. em: <http://www.cdhic.org.br/v01/?page_id=16>. 78
De acordo com o site da organização, ela “Desde janeiro de 2006, [...] tem status consultivo junto à Organização das Nações Unidas (ONU) e, desde maio de 2009, dispõe de status de observador na Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos. Cf. em: <http://www.conectas.org/ institucional>.
pessoas em movimento, muito recentemente assumiu uma postura ofensiva e vanguardista na crítica dirigida à política migratória brasileira, já sob o governo da Presidente Dilma Roussef.
É oportuno ressaltar que o papel desempenhado pelas ONGs não é apenas de cunho assistencial, mas também correcional. Com efeito, elas contornam parcialmente a ausência do Estado [que deveria ser] providente, e ainda denunciam o cinismo do Estado burocrático.
Pela atuação diligente da Associação Nacional de Estrangeiros e Imigrantes no Brasil (Aneib), veio a público, em agosto de 2011, o fato lastimável de que, dos “45 mil imigrantes ilegais beneficiados pela Lei da Anistia promulgada em 2009 pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 66% podem perder o direito por causa dos “'trâmites excessivos e injustificados'”79.
As ONGs, em razão dos recursos materiais e humanos que exigem, no tocante à advocacy que desempenham em causas de relevo social, costumam sediar-se nos grandes centros, como São Paulo. Porém, não é ocasional enxergar seu estabelecimento e atuação em cidades médias e pequenas (de população média inferir a 300 mil habitantes, por exemplo).
Em Boa Vista, Roraima, o Centro de Migrações e Direitos Humanos (CMDH) – originado pela fusão entre o Centro de Apoio ao Migrante e ao Indígena de Roraima (CAMIC) e o Centro de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH) –, vinculado ao catolicismo diocesano, desenvolve trabalho de acolhimento de grupos marginalizados, bem como de denúncia a violações de direitos humanos, com trabalho reconhecido pela sociedade local, embora sem apoio (em forma de subvenções) por parte do ente público.
Além dessas entidades do Terceiro Setor (não governamentais), as agências especiais ligadas a ONU, em especial a ACNUR, tentam envolver-se nas regiões onde há vulnerabilidade na condição de existência dos migrantes, embora tenha que centrar atenção para as realidades mais calamitosas.
79 Cf. em: <http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2011/08/10/imigrantes-ilegais-anistiados-no-
Em todo caso, as estratégias a serem adotadas na maioria das cidades da Amazônia, para o fortalecimento de políticas públicas em favor de migrantes e refugiados, devem levar em consideração esses dois fatores: ausência de compromisso institucional e orçamentário do Estado, de um lado, e falta de repasse de verbas públicas e investimentos privados – e [por conseguinte] estruturação deficitária – para as ONGs que atuam na área.
4 OS IMIGRANTES NA AMAZÔNIA BRASILEIRA: ENTRE FAUSTO E
ORFEU
Desde o período colonial (sécs. XVI-XIX), há registros históricos de estrangeiros que se embrenharam na região hoje compreendida como a Amazônia brasileira, a fim de estabelecer, fortalecer ou defender seus domínios em regiões estratégicas às margens do Rio Amazonas e seus afluentes. A presença de portugueses era marcante, mas outros imigrantes (espanhóis, holandeses, franceses e ingleses) também se aventuraram pelas florestas da região a partir das vias fluviais.
No começo do séc. XVII, com o desbravamento do Rio Amazonas, a partir da foz, pela expedição comandada por Pedro Teixeira80, disseminaram-se as
notícias sobre a abundância de minas de metais preciosos (sobretudo, ouro e prata) na bacia amazônica (HORCH, 1985). Em 1776, o padre jesuíta João Daniel publica
O tesouro descoberto no máximo rio Amazonas, “uma obra noticiosa sobre a atualidade amazônica de sua época, bem como um plano metódico de política econômica” (RODRIGUES, 1979, p. 96).
A Amazônia penetrável a partir das terras brasileiras surgiu na mítica ocidental como um paraíso – o “paraíso perdido”, como Euclides da Cunha tempos depois a chamou –, o fascinante El Dorado, conforme a descrição trazida por Paes Loureiro (2001): “[...] o grande mito que passou a absorver e imantar o espírito de aventura das conquistas foi e continua sendo o do El Dorado. A terra das belas e bravas Amazonas ou Icamiabas é, ao mesmo tempo, um paraíso na terra e o lugar do ouro, da riqueza sem fim” (p. 471).
80
Rosemarie Erika Horch (1985, p. 233) adverte que “o pioneirismo da penetração amazônica por vias fluviais cabe a Francisco de Orellana que havia se aventurado a percorrer estes emaranhados caminhos fluviais, descendo o Rio Amazonas, procedendo de Quito em 1541/42 [...] No entanto, Pedro Teixeira foi o primeiro a fazê-lo no sentido contrário: iniciando pela foz e retornando pelo mesmo caminho”.