4 – ANÁLISE DOS DADOS
4.1. A ONG E O PROJETO
Um aspecto que me chamou atenção nos dados de identificação dos entrevistados é relativo às datas de ingresso destes na ONG. No que diz respeito aos multiplicadores, é possível observar que uma delas entrou para o EMCANTAR em 1996 (no início das atividades da ONG), outra em 1999 e outros três em 2001. Ao observar essas datas, é possível perceber que todos participavam da ONG há pelo menos sete anos. Outra constatação é que todos começaram a participar da ONG antes do projeto começar a existir, sendo que duas das multiplicadoras estão nele desde o início, em 2002.
Ao falar sobre a data de ingresso no EMCANTAR, uma das multiplicadoras mostrou sua trajetória dentro da ONG e o histórico da ONG. A entrevistada comentou sobre um dos projetos (e suas mudanças de nome) e o núcleo de estudo sócio-ambiental:
& " # " ) * + % , $ ) " - ) . ) $ ) $ ) * + ) ) /&%0%1 % 23%
Assim, a entrevistada reforçou a importância da questão ambiental para o trabalho da ONG e mostrou o trânsito dos multiplicadores nos diferentes projetos. Neste caso, a multiplicadora participou do projeto que mudou de nome algumas vezes antes de entrar para o Cantadores do Vento.
Durante as entrevistas, houve casos de multiplicadores que, ao responderem questões sobre as músicas do projeto acabaram falando da ONG como um todo, conforme esclarecido por uma das multiplicadoras:
%%%! " 4 $
&0.,5*,6 " $ . + !% %%%! 7
. 8 $ &0.,5*,6% 0 )
4 . %%%! "
) 4 # &0.,5*,6 "
. % & &0.,5*,6 /&%0%1
% 293%
Assim, para dar respostas referentes ao projeto, muitos entrevistados falavam da ONG, como no exemplo acima. Isso também apareceu nas respostas de outros entrevistados e foi possível perceber que nestes casos, as pessoas estavam há muito tempo envolvidas com o trabalho da ONG e já tinham participado de outros grupos antes de entrarem para o Cantadores do Vento. Uma das participantes
comentou: & $ $ ) $ %%% ,
. $ % ' : ; * < =
(E.P.2, p. 8). Para exemplificar suas preferências musicais no Cantadores do Vento, ela acabou por falar de uma música que foi apresentada antes mesmo do projeto começar a existir.
Esse longo tempo de permanência dos multiplicadores e de alguns participantes no projeto e na ONG indica a possibilidade de que eles já estavam familiarizados com o estilo de músicas trabalhado pelo EMCANTAR quando da realização da coleta de dados, mesmo porque a maioria deles já participava de outros projetos da ONG antes do início das atividades do projeto. Para Green (1997,
2006, 2008), a familiaridade está associada aos significados musicais inter-sônicos, uma vez que, por ter familiaridade com determinado estilo, o indivíduo torna-se capaz de perceber as inter-relações existentes entre os elementos que compõem uma música ou que são recorrentes neste estilo.
4.2. OS MULTIPLICADORES
No período de realização das observações havia três multiplicadoras que estavam sempre presentes em todos os encontros do grupo. Elas pareciam ser as responsáveis pelo projeto. Em função do que destacavam durante as oficinas (a dança que acompanhava as músicas, as máscaras, figurinos e cenário), observou- se uma forte presença de elementos cênicos. Como eram as multiplicadoras que chamavam atenção para estes aspectos, a pesquisadora ficava em dúvida se alguma delas possuía formação musical. Neste sentido, fazia reflexões relativas às implicações que a formação dessas multiplicadoras poderia ter para as experiências musicais proporcionadas pelo projeto.
Além dessas três multiplicadoras que estavam no projeto desde o início do ano, outros três começaram a participar das oficinas em outubro. Durante os encontros foi possível perceber que eles estavam muito envolvidos com a criação dos arranjos musicais para o espetáculo e com a execução instrumental. Eles formavam o conjunto que o grupo denominava a “banda”. A percepção de que as multiplicadoras estavam em todas as oficinas e que alguns não estavam sempre presentes ocorreu durante a segunda observação, na qual houve um momento, ao final do encontro, em que eles fizeram uma avaliação da oficina. No início, M.3 e M.5 alegaram que o foco da oficina estava muito forte na parte cênica e que a música estava ” (D.C.2, p. 6-7). A partir deste comentário, M.2 sugeriu que fossem feitos ensaios que focassem mais a parte musical, para aproveitar a presença daqueles dois multiplicadores que não participavam das oficinas durante o ano todo (D.C.2, p. 7). Da mesma forma que M.3 e M.5, a partir da quinta observação, outra multiplicadora começou a participar como instrumentista (D.C.7, p. 1). Contudo, durante as oficinas não ficou claro qual era a função de cada um dos multiplicadores dentro do projeto, de modo que foi preciso buscar o esclarecimento desta questão no momento das entrevistas individuais.
Uma das entrevistadas explicou este assunto: 7 # 0%1 0%2 0%> " ) 4 $ ) ? %%%! ) $ @ $ %%%! /&%0%9 % 23%
Esta resposta fez saber que havia três responsáveis diretas pelo projeto e que outros multiplicadores participaram da montagem do espetáculo para contribuir com a parte musical, mais precisamente para tocar os instrumentos. No caso específico desta multiplicadora, a contribuição foi na percussão. Outro multiplicador também explicou a sua forma de participação no projeto:
, 1AAB!
% & $ # $ %
0 " #
C 4 /&%0%D % 23%
Assim, ele esclareceu que não participou do processo de construção do espetáculo, mas que contribuiu com a apresentação do final do ano. Em função dessa forma de participação, ele não freqüentou o projeto durante o ano todo; apenas a partir do segundo semestre, e mesmo assim, declarou não ter ido às oficinas todas as semanas.
Esses dois trechos de entrevistas, juntamente com as observações, esclareceram que esses multiplicadores começaram a participar das oficinas para contribuir com a apresentação do final do ano. Como se tratava de um espetáculo cênico-musical e as multiplicadoras que coordenavam o projeto possuíam mais vivências nas artes cênicas, especificamente na dança, esses multiplicadores colaboraram com a elaboração dos arranjos das músicas do espetáculo e formaram a banda que acompanhava os integrantes do projeto como instrumentistas. Isso aconteceu no segundo semestre, momento em que começaram os ensaios para a apresentação do espetáculo no final do ano e coincidiu com o período de observações desta pesquisa.
Esses multiplicadores da banda tinham outras funções dentro da ONG ou coordenavam outros projetos. Assim, tornou-se evidente que, embora o projeto tenha sido apontado pela coordenadora da ONG como um dos que estavam mais
focados na música, ele era coordenado por multiplicadoras com vivências nas artes cênicas. Considerando a diretriz de educação sócio-ambiental da ONG, a forte presença de atividades cênicas nas oficinas observadas e o fato do projeto ser coordenado por pessoas com vivências nas artes cênicas, parecia ser mais provável que eu encontrasse evidências de significados delineados nas observações.