Boissy d‟Anglas, o deputado relator do projeto de Constituição de 1795, assim discursou às vésperas da aprovação desse texto pela Convenção Nacional:
A igualdade civil, eis tudo o que o homem razoável pode exigir. A igualdade absoluta é uma quimera; para que pudesse existir, seria preciso que existisse igualdade total no espírito, na virtude, na força física, na educação e na fortuna de todos os homens. Em vão a sabedoria se extenuaria para criar uma constituição se a ignorância e a falta de interesse pela ordem tivessem o direito de serem aceitas entre os guardiões e administradores desse edifício.
Nós devemos ser governados pelos melhores, os melhores são os mais instruídos e os mais interessados na manutenção das leis. Ora, com pouquíssimas exceções, os senhores só encontrarão homens assim entre aqueles que, possuindo uma propriedade, são ligados ao país que a contém, às leis que a protegem e que devem a essa propriedade e ao conforto que ela proporciona a educação que os tornou apropriados para discutir com sagacidade e justiça as vantagens e desvantagens das leis que determinam o destino da pátria. [...] Um país governado pelos proprietários é de ordem social, aquele onde os não-proprietários governam está em estado de natureza39.
O sentido e o tom não eram novos. O Abade de Sieyès, do panfleto incendiário Que é o terceiro estado?, já havia escrito, com palavras talvez ainda mais esclarecedoras, que:
Os infelizes destinados aos trabalhos extenuantes, produtores dos prazeres de outrem, que recebem apenas o mínimo para sustentar seus corpos sofridos e carentes de tudo, esta multidão imensa de instrumentos bípedes, sem liberdade, sem moralidade, sem faculdades intelectuais, dotados apenas de mãos que ganham pouco e de uma mente onerada por mil preocupações que só servem para os fazer sofrer [...], é a estes que chamais de homens? São considerados civilizados (policés), mas já viu um só capaz de entrar na sociedade?40
39 Apud TULAR, op. cit., p. 256.
40 SIEYÈS, Emmanuel Joseph de. Ècrits politiques. Paris: R. Zapperi, 1985, p. 236.
Malgrado tudo o que já fora escrito sobre os direitos “naturais” dos homens e sua igualdade “essencial”, esses e tantos outros discursos da época tiveram a apreciável virtude, hoje incomum nos pensadores liberais, de explicitar com clareza no que realmente acreditavam os liberais: no limite, levavam em conta apenas seus interesses, conveniências e preconceitos de classe – ao ponto de um fato não-natural, não intrínseco às pessoas, como a propriedade e/ou renda, ser tomado como critério jurídico para a concessão de direitos.
Mas isso não chegava a ser propriamente surpreendente, pois correspondia, com muita sinceridade, a uma certa visão de mundo há muito dominante, e que só fora reforçada pelo grosso da produção filosófica-política do liberalismo europeu e norte-americano: a convicção de que não bastaria alguém nascer do ventre de uma mulher para ser imediatamente reconhecido como humano, ou como “integralmente” humano. Conforme a condição social, o gênero, a origem racial e até geográfica desses assim nascidos, ainda faltaria adquirir ou desenvolver certas “qualidades” ou “atributos” antes de serem dados por plenamente humanizados – o que justificava, sem qualquer constrangimento moral, a restrição parcial de seus direitos, ou a sua interdição completa. Tudo perfeitamente lógico e racional.
Refazendo os passos da velha trilha misógina que provinha, no mínimo, do Velho Testamento e da antiguidade filosófica greco-romana, o mesmo arqui-liberal revolucionário constitucionalista Abade de Sieyès já havia avisado às mulheres do seu lugar na nova sociedade:
Não pode haver em gênero algum uma liberdade ou um direito sem limites.
Em todos os países, a lei fixou caracteres preciosos, sem os quais não se pode ser nem eleitor, nem elegível. [...] E as mulheres estão, em toda parte, por bem ou por mal, impedidas de receber essas procurações 41.
Para aquelas mulheres notáveis que, remando na contra-tempestade, desfraldaram o discurso da igualdade legal de gêneros, como Claire Lacombe, organizadora da Sociedade das Mulheres Revolucionárias, e Olympe de Gouges, outra antecipadora, não restou senão o gume da guilhotina.
Thomas Robert Malthus, pastor anglicano oriundo de uma família proprietária de terras na Inglaterra, também já condenara os trabalhadores como culpados da própria miséria, por “insistirem” em casar cedo e ter muitos filhos. A partir do altissonante
41 SIEYÈS, Que é o terceiro estado?, op. cit, p. 82.
diagnóstico (cujo equívoco logo seria demonstrado) de que a população “cresce numa progressão geométrica e os meios de subsistência apenas numa progressão aritmética”, enunciava, quase com regozijo, que essa reprovável expansão populacional só podia ser remediada por freios “positivos” (guerras, ondas de fome e epidemias que dizimavam a classe trabalhadora) ou por freios “preventivos” (convencer os trabalhadores a retardar seus matrimônios e à abstinência sexual) 42.
Mais ainda: os não-proprietários são “meninos” que nunca atingirão a maioridade (Constant). Os trabalhadores assalariados são “instrumento com voz” (Edmund Burke) ou “instrumentos bípedes sem moralidade e sem faculdades intelectuais” (Sieyès). Os operários que se revoltam são como “vândalos e godos” (Tocqueville). As massas que irrompiam na Revolução Francesa eram os “hunos que estão entre nós” (Mallet du Pan). Os operários rebelados da indústria da seda de Lyon são uma “nova invasão de bárbaros” e os escravos são “mercadoria”, tanto quanto cavalos, ouro ou marfim (Locke). As “raças”
colonizadas não podem desfrutar da liberdade porque são “bárbaras” e não estão na
“plenitude de suas faculdades” (Stuart Mill). Os árabes são como “animais nocivos”. A igualdade não pode abarcar os “povos semi-civilizados” (Tocqueville)43.
Acresçam-se os negros já escravizados nas Américas, a “reserva”
humana da África e os asiáticos, que já começavam a ser tratados a canhoneiras. Na convicção liberal mais arraigada, esse contingente vasto e variado de pessoas não havia ascendido à condição de humanos ou, ao menos, de humanos integrais.
E mesmo isso não bastava:
[...] a tradição liberal é, implícita ou declaradamente, atravessada por um refrão social-darwinista: já que a miséria não questiona propriamente a ordem social existente, os pobres são os que fracassaram, aqueles que, por preguiça ou incapacidade, foram derrotados ou aniquilados no âmbito da imparcial “luta pela existência”, da qual fala, antes de Darwin, o liberal Herbert Spencer. Segundo este, não se deve ir contra a lei cósmica que exige a eliminação dos incapazes e fracassados: “Todo esforço da natureza consiste em livrar-se deles, limpando o mundo de sua presença e abrindo espaço para os melhores”. Todos os homens estão submetidos a uma espécie de juízo divino: “Se realmente tiverem condições de viver, vivem, e é justo que
42MALTHUS, Thomas Robert. Ensaio sobre a população. São Paulo: Nova Cultural, 1996, pp. 243 e seguintes, 246 e 249.
43 Cf. LOSURDO, Domenico. Marx, a Tradição Liberal e a Construção Histórica do Conceito Universal de Homem. Ensaio publicado na revista Educação e Sociedade, número 57, volume especial número 17. Campinas:
CEDES, 1996.
vivam. Se realmente não tiverem condições de viver, morrem, e é justo que morram”44.
Não espanta que a linguagem soe aterradoramente familiar: ela conheceria a mais imensa prosperidade, dias de verdadeira glória, na primeira metade do século XX, quando, fervida até a ebulição num caldeirão de boa tecnologia e desatada fúria, viria a dar suporte a genocídios cientificamente programados e industrialmente executados.
Sem esse senso comum anti-humanista (não há outro modo de designá-lo) largamente difundido pelo liberalismo, teria sido, moralmente, algo mais árdua aquela vitoriosa empreitada levada a cabo pela parceria da cruz com a espada até meados do século XX: assaltar os territórios ancestrais de outros povos, roubar-lhes os recursos, massacrar os que não se submetessem e, até quase o final do século de Marx, também colocar a ferros os sobreviventes, comercializá-los, como se faz com carvão ou gado, e submetê-los a trabalho forçado e a castigos corporais enquanto não morressem.
Essa crua ontologia da desumanização axiológica da maioria dos humanos tinha seu cerne cravado nesta convicção crucial: a recusa de conceber o homem como ser genérico-universal. Essa recusa permitia tomar como perfeitamente “natural” a situação inferior da mulher, “natural” a interdição dos direitos políticos aos pobres (em certas circunstâncias, até de alguns de seus direitos civis45), “natural” a recusa de quase todos os direitos aos povos coloniais, assim como “natural” a recusa, agora sem exceções, de todos os direitos aos escravos. Mais tarde, recolhendo esse veneno secularmente destilado pelos liberais, o nazismo lhe daria um seguimento perfeitamente lógico ao desdobrá-lo numa antropologia do descarte, solução “terminativa” que estendeu a desumanização às raças
“inferiores”, aos comunistas e outros opositores políticos, aos homossexuais, aos doentes mentais et allii 46.
Mas, na França, o restante da última década do século XVIII não passou de um desfile de golpes e contragolpes entre frações da nova classe dominante, e de muita
44 Idem.
45 Pela Lei dos Pobres de 1814, a Inglaterra suprimiu a caridade das paróquias e, em seu lugar, instituiu um auxílio-subsistência destinado apenas aos que aceitassem a internação em workhouses onde, além do trabalho compulsório, eram obrigados a se separar da mulher para evitar a procriação. O sociólogo liberal Thomas Robert Marshall aponta que “[...] os indigentes abriam mão, na prática, do direito civil da liberdade pessoal devido ao internamento na casa de trabalho, e eram obrigados por lei a abrir mão de direitos políticos que possuíssem. Essa incapacidade permaneceu em existência até 1918”. MARSHALL, Thomas Robert. Cidadania, classe social e status. Rio de Janeiro: Zahar, 1967, p. 72.
46 A persistência dos preconceitos, das muitas formas de discriminação e da revigorada xenofobia, são indicativos de que, longe de desconstruída, essa ontologia da desumanização segue sendo ideologicamente realimentada neste século XXI, malgrado alguma dissimulação cínica.
repressão sobre as manifestações de desencantamento do povo. A derradeira e tardia tentativa de fazer a revolução avançar além da cartilha econômico-social da burguesia foi a Revolta dos Iguais, abortada por um delator, cujos conspiradores, comandados por Gracchus Babeuf, haviam divulgado um Manifesto dos Iguais, programa para uma república baseada na propriedade coletiva das terras e no fim das “revoltantes distinções entre ricos e pobres”. Foi esmagada, centenas de prisões e de deportações. Seus líderes, a começar por Babeuf, foram decapitados em 1797.
Não demoraria, e a burguesia francesa, exausta e ansiosa por um novo César que superasse suas cisões internas e pusesse fim às turbulências do período revolucionário, aceitaria que sua Constituição fosse rasgada. Por meio do golpe de estado de 10 de novembro de 1799 (18 de Brumário, pelo calendário da Revolução) cederia o poder, com mal-disfarçado bom grado, a Napoleão Bonaparte, a “pessoa adequada para concluir a revolução burguesa e começar o regime burguês”47. Um mês depois, era imposta ao país outra Constituição, que instituiu o autoritário regime do Consulado e que, no seu próprio texto, já nomeou Napoleão como Primeiro-Cônsul. Mero prelúdio para que esse general brilhante, que conquistaria quase toda a Europa continental e exportaria pelos países ocupados as instituições da França burguesa, viesse a se tornar imperador absoluto em 1804.
Mesmo ano em que promulgou seu célebre Código Civil, o mais consumado estatuto da defesa da propriedade privada, adotado como modelo em tantos países do ocidente pelo restante do século que se iniciava. E apenas dois anos depois de, sensibilizado pelos rogos dos fazendeiros das Antilhas, haver restabelecido a escravidão nas colônias, que fora abolida em 1794. Nesse ínterim, desde as ardorosas proclamações jusnaturalistas dos propagandistas revolucionários, que já soavam como ecos antigos, o próprio direito experimentara um câmbio revelador:
Enquanto o jusnaturalismo é o mundo das leis estáveis da burguesia na filosofia, o positivismo jurídico do século XIX é o mundo das leis estáveis da burguesia dentro do Estado. A diferença reside no exato período em que o poder político-estatal era absolutista para a sua transformação em poder burguês. Em quinze anos – de 1789 a 1804 – aquilo que era a declaração filosófica das leis universais do homem já era o código civil positivado na França48.
Um sinal dos novos tempos: Napoleão proibiu os soldados franceses de cantarem A Marselhesa, o mais popular hino revolucionário da França. Tornara-se perigoso
47 HOBSBAWM, op. cit., p. 92.
48 MASCARO, Alysson Leandro. Crítica da legalidade e do direito brasileiro. São Paulo: Editora Quartier Latin do Brasil, 2003, p. 48.
permitir que o povo continuasse entoando, a plenos pulmões, “às armas, cidadãos, formai vossos batalhões!”49.
Enfim, é hora de se extrair um balanço do legado liberal dos direitos humanos que a Revolução Francesa faria reverberar no imaginário das burguesias de quase todos os países do ocidente. Inspiradas nesse imaginário, elas o reproduziriam, pouco mais, pouco menos, nas constituições e nas leis que outorgariam aos seus próprios países. Esse balanço pode ser sintetizado em oito pontos.
Primeiro: os direitos humanos dos liberais tinham a assumida inspiração no muito diverso caudal filosófico do direito natural, cuidadosamente selecionado e adaptado aos interesses e preconceitos da classe que comandara a transformação revolucionária, redundando numa noção individualista e abstrata de homem, um homem socialmente descontextualizado e a-histórico.
Segundo: representaram o triunfo ideológico e legal de uma concepção não-universal de ser humano, concepção restrita a uma matriz branca, masculina, rica ou quase rica, e de padrão civilizatório eurocêntrico.
Terceiro: operaram uma cisão ideal no indivíduo. De um lado, o
“homem”, assim considerado na sua vida concreta e cotidiana na “sociedade civil”, esfera
“privada” na qual tem existência real sob as delícias ou tormentos próprios à sua particular inserção social. De outro lado, o “cidadão”, um construto político-jurídico que, formalmente,
“igualaria” as pessoas nas suas relações com o Estado – pois este, esfera “pública”, alegadamente “neutra”, não levaria em conta as contradições atuantes na sociedade civil.
Quarto: os direitos humanos consagraram, acima de tudo, as garantias sem transigências da propriedade privada – claro, para os que a conseguissem obter e manter, fosse por quais meios fossem.
49 O historiador Mário Maestri relata: “No início do século 19, os soldados franceses enviados por Bonaparte para vergar a barbárie e restabelecer a civilização na parte francesa da ilha de Santo Domingos, futuro Haiti, escutavam, ao longe, assustados e perplexos, o ressoar da canção querida que seus oficiais lhes proibiam cantar.
Eram os negros insurretos que, entoando a Marselhesa, surgiam da profundeza da noite para desbaratar as linhas do exército invicto”. A Marselhesa só foi adotada como hino nacional quando da proclamação da Terceira República francesa, em 1870. Cf. MAESTRI, Mário. Porque não canto o hino nacional. In: Correio da Cidadania, edição virtual acessada em 23/11/2009, às 15:12 horas, no seguinte sítio virtual:
www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=3974&Itemid=9&bsb_midx=-1.
Quinto: entronizaram a igualdade perante a lei, a igualdade civil (supressão dos estados ou ordens). Na prática, pouco menos que uma irrisão, considerando-se que essa igualdade formal coexistia, sem qualquer desconforto moral, com a brutal desigualdade social que o capitalismo triunfante alastrava pela Europa, com a renovada inferioridade (inclusive, legal) das mulheres, com a redução à subserviência, manu militar, dos povos não-europeus, com o tráfico negreiro gerador da diáspora africana e abastecedor da escravidão nas colônias, e o com o massacre dos indígenas americanos.
Sexto: asseguraram a liberdade individual (ainda assim, não para todos, como visto). Cada um que dela tirasse o melhor proveito na reconhecidamente dura luta pela vida. Esse novo binômio legal – igualdade/liberdade – permitiu que emergisse a figura jurídica do “sujeito de direitos”, indispensável à mola mestra do capitalismo, a livre contratação.
Sétimo: os direitos políticos deixaram de ser privilégios de estamentos.
Passaram à titulariedade dos que fossem ricos ou quase isso, pois o voto tornou-se censitário, salvo em alguns estados norte-americanos, e assim permaneceria por mais cem anos.
Oitavo: o que hoje se designa por direitos econômicos, sociais e culturais não eram sequer cogitados no catálogo dos direitos humanos imaginados pelos pensadores liberais. A classe operária, a duras penas, ainda estava por escrever esse capítulo.
Eram esses, portanto, e com esses precisos significados, os direitos humanos concretamente encontráveis nos países mais avançados do mundo ocidental ao tempo de Karl Marx e Friederich Engels, e sobre os quais eles não tardariam a dedicar sua reflexão.