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A oralidade na concepção do professor Ricardo

3. A ORALIDADE NO CONTEXTO DA ESCOLA: o espaço da oralidade no Ensino

3.2. O professor de língua portuguesa e sua concepção de oralidade

3.2.1. A oralidade na concepção do professor Ricardo

A entrevista com o professor Ricardo havia sido programada para o horário vago do professor, que acontecia após a sua primeira aula. Portanto, o esperávamos na sala dos professores com o gravador já preparado para a gravação e o roteiro de perguntas no caderno usado para as anotações do diário de campo. O professor, a passos tranquilos, adentra a sala dos professores com um sorriso agradável e me cumprimenta.

Após retribuir o cumprimento de PR, ele se senta à mesa. Seus braços repousam sobre a mesa com naturalidade, no entanto, deixando entrever alguma ansiedade, que interpretei como um pouco de nervosismo, dada a novidade da situação.

Como o tempo disponível era restrito ao horário vago do professor, procuramos ser objetivos, explicando-lhe o teor das perguntas e a que se destinavam. Após esses rápidos esclarecimentos, posicionamos o gravador na direção do professor e começamos a gravação da entrevista:

/.../

P: O que é pra você a linguagem oral?

PR: Bem + BAsicamente é/ u::ma das principais formas de comunicação que a gente tem + não é? E + assim +((com tom de explicação)) agora que ainda::: há um mito + assim + de que se fala eRRAdo e que há uma distância MUITO GRANDE ainda da fala e da escrita/ e de FATO HÁ/ ((sendo incisivo, levantando as sobrancelhas e abrindo mais os olhos)) + não é::? + assi::m + até pelo/ o modo como a sociedade foi construída + não é ((rápido)) toda ++ a/ uma parte pobre outra rica/ uma parte com um + com um direito ao conhecimento outra não + e então isso gerou FALARES no Brasil que diferenCIA e ÀS VEZES há o preconceito nesse sentido + não é ? e uma fala + né? de uma determinada região fica + é + vamos dizer assi::m + é:: estigmatizada + né ? e pra ela ser + se adequar + à norma culta + não é? é bem mais complexo + a gente passa por um + realmente é mais difícil

P: ((Expressamo-nos, afirmando com a cabeça))

P: Como você acha que deve ser o ensino da linguagem oral na escola?

PR: + Eu acho que da maneira mais + envolvente para o aluno + que ele se identifiq/ com o que está sendo falado + não é? + e deve ser MUITO estimulado + a falar + porque + sempre eles falam + que assim + o objetivo é ensinar + a você produzir + grandes + textos, não é? + ESCRITOS + mas a parte + oral? ((gesticula com a mão)) ++ No dia-a-dia se usa mais a linguagem oral do que escrita ((argumentando a favor do que diz))+ e no entanto + é + TUDO + é:: tudo assim + só tem valor se for escrito. A oralidade + ninguém/ninguém pensa mais em como construir + em como SEDUZIR ou envolver as pessoas através de um diálogo + não é? e sim + escrevendo + e tem gente que não consegue + e aí? + Só vai ter valor se conseguir escrever? Não é? +

PR assinala como “mito” a forma equivocada de se avaliar a fala segundo os parâmetros de organização da escrita, asseverando que “de fato” há diferenças entre uma e outra forma de se comunicar. PR atribui essas diferenças no modo de falar à forma como a sociedade foi organizada, com diferenças sociais influenciando a linguagem e suas formas de construção e estruturação e menciona o preconceito linguístico como conseqüência desse equívoco.

Mesmo sem especificar a distância que existe entre fala e escrita e sem discriminar as distinções acerca dos usos formais e informais que ambas as modalidades podem facultar, a depender da situação comunicativa, PR apresenta uma visão de linguagem oral sintonizada com os conceitos desenvolvidos na sociolinguística, ainda que não tenha recebido, em sua graduação, as contribuições teóricas que as concepções sociointeracionistas da linguagem oferecem.

Quando diz que a linguagem oral é o recurso comunicativo mais usado nas interações cotidianas, seu comentário remete à pesquisa coordenada por Marcuschi (2005) sobre os usos e características da fala e da escrita, mencionada no primeiro capítulo deste trabalho; ao comentar a forma como a sociedade foi construída, gerando “falares”, PR parece se referir às causas da variação linguística, lembrando- nos os trabalhos de Bortoni-Ricardo (2004) que tratam das características

sociolinguísticas da sociedade brasileira e suas formação; no que se refere ao preconceito que esses diversos falares podem provocar, encontramos eco, por exemplo, em Bagno (1999), que tem estudado sobre o preconceito linguístico.

Isso nos chamou a atenção e nos questionamos de onde surgia sua sintonia com tais ideias. Posteriormente, em conversa informal com PR, soubemos que ele estava frequentando o curso do Gestar II.

PR indica ainda que o ensino da linguagem oral vem sendo preterido em razão de que se deve produzir “grandes textos” escritos e ressalta a supervalorização que a modalidade escrita recebe em nossa sociedade, em detrimento da modalidade oral. PR argumenta que a oralidade também deve ser muito estimulada em sala de aula.

Assim, é possível, mais uma vez, identificar semelhanças entre essas e as ideias veiculadas por pesquisadores já mencionados neste trabalho, como ANTUNES (2003) e MARCUSCHI (2005), BATISTA (2001), dentre outros, que revelam que a oralidade não é objeto de estudo no ensino de Português, mas que é necessário inseri-la nesse contexto.

PR observa que a oralidade permanece com seu valor de importância porque é o recurso utilizado por pessoas que não dominam o código escrito. Ainda nessa resposta, pode-se perceber que PR defende ideias que reconhecem o valor da linguagem oral nas relações em sociedade.

PR explicita que o aluno deve ser muito estimulado a falar, levando-me a refletir que praticar a oralidade em sala de aula é entendida por muitos professores de língua portuguesa, como estudo e desenvolvimento da habilidade oral. Esse equívoco parte da ideia de que uma prática pedagógica que trabalha a oralidade é aquela que permite que os alunos se expressem com espontaneidade. Porém, isso não chega a situar, de fato, a oralidade como objeto de estudo. Crer que esses procedimentos podem desenvolver habilidades orais que são requeridas em contextos mais formais pode comprometer os objetivos do estudo da oralidade em aulas de Língua Portuguesa.

P: Como é que você tem trabalhado a linguagem oral com seus alunos?

PR: Bem + procuro trabalhar de forma divertida + né? + na medida do possível + e assim + a gente começa trabalhando + eu/ pelo menos + né? + trabalho textos prontos que eles apresentam + lêem + fazem interpretação + leitura expressiva + que eu gosto muito disso + e:: + depois eu procuro fazer com que eles na sala de aula + FALEM + eles produzam seus textos pra dar respostas + pra comentar + tô sempre estimulando + começo eles pr + proferindo uma palavra + e DEPOIS o aluno vai se soltando e vai conseguindo dizendo mais coisas + com bem mais coerência + se eu/ quando eu alcanço isso eu fico satisfeito.

P: muito bem ((sorrindo)) + você pode se indentificar + professor?/.../ ((mencionamos o nome do professor)) ? PR: /.../ (( fala seu nome completo)) + professor de Língua Portuguesa da escola /.../ ((diz o nome da escola)) de Parnamirim

P: Muito obrigada + professor ((sorrindo)) PR: De nada ((sorrindo também))

As menções de PR sobre seu trabalho com a oralidade em sala de aula referem-se ao trabalho com “textos prontos’’, bem como produção textual para dar respostas e para fazer comentários. Essas descrições resgatam o alerta para a distinção que Antunes (2009) nos faz entre desenvolver e treinar. É possível treinar a oralidade nesses momentos e em outros também mencionados nos PCN, como por exemplo, em debates (PCN, p. 25). No entanto, desenvolver a oralidade exige considerar um estudo da oralidade com um programa sistemático de ações pedagógicas que desenvolvem competências linguísticas, como a coerência verbal, dentre outras, própria de debates, conferências, palestras, etc, cuja realização se dá em torno de um eixo temático. Além da coerência verbal, podemos mencionar como pertinente ao estudo da oralidade a desmistificação de que a fala se opõe à escrita e que é o lugar do erro, do informal; a compreensão e aceitação das variedades linguísticas como características da língua; a habilidade de escutar com atenção e

respeito os diferentes tipos de interlocutores; a habilidade de produzir textos orais em contextos formais e informais, etc.

Os diálogos que são gerados em situações de ensino-aprendizagem oferecem ótima oportunidade para a partilha de informações, o confronto de ideias e também representam oportunidades para o professor averiguar e sondar como determinado conhecimento está sendo assimilado. Porém, essa interação dialogal que pode e deve acontecer nas aulas não consegue suprir as demandas que a diversidade de gêneros orais coloca em situações públicas de comunicação.

Essas implicações, porém, devem estar programadas no planejamento anual do professor de forma sistemática e não de forma oportunista em momentos de estudo em sala de aula. A atenção deve voltar-se para o processo evolutivo de desenvolvimento da competência oral dos alunos nas mais variadas situações comunicativas, formais e informais.