3.2 DA DEMOCRACIA CONSTITUCIONAL E AS RELAÇÕES COLETIVAS DE TRABALHO
3.2.1 A ordem democrática e a Constituição Federal de
O Constituinte de 1988 inaugura o Texto Constitucional, em seu artigo 1º, ressaltando ser o Brasil um Estado Democrático de Direito, e apresentando como fundamentos da República Federativa do Brasil alguns valores, dentre os quais pode-se destacar a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e o pluralismo político.
Em complemento a tais ideais, ainda naquele artigo, em seu parágrafo único, o Constituinte deixou clara a origem popular do poder estatal, assegurando ao povo o exercício de tal poder, por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos da própria Constituição.
Trata-se de dispositivo que não deixa qualquer dúvida acerca do caráter democrático do Texto Constitucional e do caminho constitucional idealizado, a ser percorrido pela sociedade brasileira, visando-se ao estabelecimento de níveis mínimos de “humanidade”, seja do ponto de vista econômico, social ou político a cada um dos nacionais.
Trata-se da implementação, ou ao menos do direcionamento da sociedade brasileira, da formulação de Lincoln citado por Canotilho129 quanto à essência da democracia, absolutamente adequada aos valores Constitucionais: governo do povo, pelo povo e para o povo.
Tais valores são reafirmados com aqueles indicados no aludido artigo 1º, através do qual se visa a prevalência da vontade do povo sobre a de qualquer indivíduo ou grupo. A opção do constituinte visa ao exercício e controle do poder nacional pelo povo e ao direcionamento deste mesmo do poder em benefício do mesmo povo.
Tal qual já apontou Rodolfo Pamplona Filho130, a partir do conceito etmológico, a palavra democracia tem sentido na idéia de “governo do povo”, tal qual denuncia a sua origem grega (demos = povo; e kratos = poder).
De acordo com Manoel Gonçalves Ferreira Filho131, o conceito de democracia é um conceito histórico, já que vários são os tipos de democracia que a doutrina distingue. A democracia direta seria aquela em que as decisões fundamentais são tomadas pelos cidadãos em assembléias. A democracia indireta seria aquela através da qual o povo se governa por meio de representante ou representantes, que, escolhidos, tomam em nome do povo e presumivelmente em seu interesse as decisões.
Já a democracia representativa, originária do governo representativo do final do século XVIII, fundado na idéia exposta por Montesquieu, diz que “os homens em geral não têm a necessária capacidade para bem apreciar e consequentemente bem decidir os problemas políticos. Assim, no interesse de todos, essas decisões devem ser confiadas aos mais capazes, aos representantes do povo”132. Ocorre que, com o sufrágio universal, os representantes vieram a ser escolhidos por todo o povo, o que, segundo Manoel Gonçalves Ferreira Filho133, tornou o governo representativo democrático.
Para José Afonso da Silva, o Estado Democrático se funda no princípio da soberania popular, que impõe a participação efetiva e operante do povo na coisa pública, participação que não se exaure na simples formação das instituições representativas, que constituem um estágio da evolução do Estado Democrático, mas não o seu completo desenvolvimento, mas visa a realizar o princípio democrático como garantia geral dos direitos fundamentais da pessoa humana134.
O Estado de Direito, fundado na submissão ao império da lei, divisão de poderes e enunciado de garantia dos direitos individuais, pura e tão somente não bastou para o completo atendimento das necessidades sociais135.
A conjugação dos dois fatores, como um Estado Democrático e de Direito, impõe “a criação de um conceito novo, que leva em conta os conceitos dos elementos componentes, mas os supera na medida em que incorpora um componente revolucionário de transformação do status quo”136.
A democracia implica autogoverno e exige que os próprios governados decidam sobre as diretrizes políticas fundamentais do Estado137. Contudo, a democracia que o Estado Democrático de Direito realiza, na lição de José Afonso da
Silva138, visa a muito mais do que o mero exercício do poder de decisão pelos cidadãos; pretende:
Ser um processo de convivência social numa sociedade livre, justa e solidária (art. 3º, i), em que o poder emana do povo, e deve ser exercido em proveito do povo, diretamente ou por representantes eleitos (art. 1º, parágrafo único); participativa, porque evolve a participação crescente do povo no processo decisório e na formação dos atos de governo; pluralista, porque respeita e pluralidade de idéias, culturas e etnias e pressupõe assim o diálogo entre opiniões e pensamentos divergentes e a possibilidade de convivência de formas de organização de interesses diferentes da sociedade; há de ser um processo de liberação da pessoa humana das formas de opressão que não depende apenas do reconhecimento formal de certos direitos individuais, políticos e sociais, mas especialmente da vigência de condições econômicas suscetíveis de favorecer o seu pleno exercício.
Como conclui José Afonso da Silva139, a Constituição de 1988, através do Estado Democrático de Direito, abre a perspectiva de realização social profunda pela prática dos direitos sociais que ela inscreve e pelo exercício dos instrumentos que oferece à cidadania e que possibilita concretizar as exigências de um Estado de justiça social, fundado na dignidade humana.
Desta forma, mesmo que do ponto de vista histórico não se verifique a expressão do pluralismo das fontes de Direito expressamente consagrados no Texto Constitucional, é possível apontar a sua consagração em questões pontuais, tais quais no que tange ao político (art. 1º, inc. I), partidário (art. 17), de idéias e de concepções pedagógicas (art. 206, III), o econômico (art. 170) e o cultural (art. 215 a 217).
Nesse contexto, cumpre apurar o pluralismo na Constituição de 1988, notadamente no que concerne às relações de trabalho. Com efeito, seguindo a mesma linha de outros textos constitucionais, não se verifica a consagração expressa do pluralismo jurídico entre os valores previstos no Texto brasileiro. Contudo, tal fato não impede que se reconheça a existência de tais valores, notadamente quando se realiza uma interpretação sistêmica do próprio Texto Constitucional, notadamente a partir dos desígnios do Estado Democrático de Direito instaurado no artigo 1º do Texto, como já salientado.
3.2.2 O pluralismo nas relações de trabalho, a Constituição Federal e a