O ARGUMENTO NORMATIVO DE HAYEK
4- A ordem liberal, o mercado e a competição.
(O mercado) Porque é que a ordem liberal é aquela em que existe a máxima possibilidade de cumprimento do maior número de planos individuais? Porque essa ordem assenta noutra ordem espontânea: a ordem da economia de mercado. A essa ordem veio Hayek dar o nome de catallaxia, definindo-a do seguinte modo: “[a]
catallaxia é aquele tipo especial de ordem espontânea que é produzido pelo mercado,
resultando da actuação das pessoas de acordo com as regras dos direitos de propriedade, das obrigações e dos contratos”125
. O mercado é, ao mesmo tempo, uma ordem menor e maior do que as Grandes Sociedades contemporâneas. Menor, porque dentro da Grande Sociedade existem relações sociais que não se regem pelas regras do mercado. Maior, porque é a única ordem que abarca toda a humanidade. Esta ordem surgiu a partir do momento em que as pessoas começaram a trocar os bens que produziam. De uma economia de subsistência passou-se para uma economia de troca, na qual passou a ser fundamental definir com clareza o que pertencia a cada um e as condições da sua transferência pelo consentimento. É importante assinalar que este
argumento utilitarista. Mas não é nesse sentido que Hayek defende o progresso. Progresso será um processo de aprendizagem, no qual o homem realiza o dom da sua inteligência. Neste caso, a liberdade é valiosa, não porque conduza a um estado de coisas que consideremos desejável, mas porque permitirá a realização do homem enquanto ser inteligente. É a própria acção livre a desejada, por si mesma, porque é nela que o homem se revela. Não interessam os fins que são prosseguidos, interessa antes a própria prossecução de fins. Assim, apesar de haver uma predominância de argumentos consequencialistas, existirá decididamente uma linha de argumentação de carácter kantiano, baseada na dignidade e no valor do indivíduo. Mas não existiria em Hayek qualquer asserção de que o indivíduo deve ser livre de prosseguir determinados fins porque ele é o mais habilitado para identificar os seus interesses. Cf. KUKATHAS, Hayek and Modern Liberalism, cit., pp. 130 a 139. Parece-nos consistente este ponto de vista, segundo o qual Hayek fundamenta o valor da liberdade em considerações deontológicas e em considerações consequencialistas. Mas levanta-se a seguinte questão, que só analisaremos mais à frente: será que essa dupla fundamentação é internamente compatível?
125 F.A.H
AYEK, LLL, vol. II, p. 109. A catallaxia distingue-se das economias. Uma economia é aquela prática social definida pela prossecução de um conjunto unitário de fins (ex: a economia doméstica, uma empresa) e pressupõe a posse do conhecimento de como atingir esses fins. Já a catallaxia não está ao serviço de uma hierarquia unitária de fins, e caracteriza-se pela dispersão do conhecimento que nela é utilizado. Como é fácil de ver, a catallaxia é uma ordem espontânea e as economias são organizações integradas naquela. Cf. idem, LLL, vol.II, pp. 107 a 108.
início de colaboração entre os indivíduos não implicou a assunção de fins concretos a serem prosseguidos por todos. Pelo contrário, cada um realiza a transacção tendo em vista a prossecução de fins próprios. A natureza da operação não exige objectivos comuns. É, até, beneficiada com a existência de objectivos distintos. Então, pelo funcionamento do mercado, os indivíduos acabam por servir os fins uns dos outros, não precisando para tal de os aprovar ou até de os conhecer. Assim, a catallaxia é um instrumento de reconciliação de conhecimentos e objectivos muito diferentes. Tais objectivos não têm de ter uma natureza egoísta. O que se passa é que são diferentes. A sua compatibilização pacífica é conseguida pelo mercado. Este vai ser um instrumento ao serviço de uma multiplicidade de fins distintos e incomensuráveis. Esse é o seu grande mérito. Poder-se-ia, no entanto, dizer que o mercado privilegia os fins económicos em relação aos outros fins. Mas, responde Hayek, a verdade é que não existem “fins económicos”. No mercado, verifica-se uma distribuição de meios tendo em vista uma ulterior realização dos fins de cada indivíduo. Esses fins últimos são sempre “não económicos”. Os chamados “fins económicos” são, quanto muito, meios ao serviço dos fins últimos das pessoas126.
(O funcionamento do mercado) Como todas as ordens espontâneas, a ordem do mercado guia as acções dos indivíduos e assegura uma certa coincidência entre as suas expectativas recíprocas. Mas distingue-se das restantes por ser aquela que permite a maior produção e consumo de bens e serviços. Nas palavras de Hayek:
“(...) o jogo da catallaxia (...) é um jogo produtor de riqueza (e não aquilo a que a teoria dos jogos chama um jogo de soma nula), isto é, um jogo que conduz a um aumento do fluxo de bens e das perspectivas de satisfação das necessidades de todos os participantes”127
.
126 Cf. idem, LLL, vol. II, pp. 107 a 113. 127
Mas como é que o mercado chega a estes resultados? Porque a catallaxia é o sistema no qual se chega à utilização mais eficiente das informações e técnicas conhecidas dos mais variados membros da sociedade. O processo que permite essa eficiência é a competição. A competição entre os produtores de bens e serviços é descrita como um procedimento de descoberta de conhecimentos. Através da competição descobre-se o que as diferentes pessoas querem adquirir e o que estão dispostas a fazer para tal. É um procedimento indispensável para descobrir quem fará melhor aquilo que os outros querem. As informações e técnicas dispersas por milhões de pessoas e não conhecidas na sua totalidade por nenhuma pessoa em particular são mobilizadas de forma superior pela competição. Isto não significa que a competição seja aquela fórmula mágica que nos permita chegar ao mítico estado da “concorrência perfeita”, com uma utilização óptima das informações, técnicas e oportunidades de adquirir conhecimentos dispersos pelos milhões de agentes económicos. Mas é aquele processo que permite uma maior aproximação, ao longo do tempo, a esse óptimo, que está em constante variação128.
128 Cf. idem, LLL, vol. III, pp. 66 a 74. Gray salienta a diferente razão que é aduzida por Hayek em
relação a Mises para a impossibilidade do socialismo: não se trata apenas do problema de cálculo da recolha e tratamento das informações dispersas por milhões de pessoas. Trata-se, mais do que isso, de essas informações, esses conhecimentos, serem em grande medida conhecimentos tácitos ou práticos, que não podem sequer ser expressos em termos teóricos ou técnicos. O problema do socialismo não é o da sua ineficiência mas o da sua impossibilidade. Quanto à análise crítica que Mises faz do socialismo, cf. LUDWIG VON MISES, Socialism – An Economic and Sociological Analysis, The Liberty Fund, Indianapolis, 1981 (primeira edição de 1932). Israel Kirzner desenvolveu este ponto de vista ao salientar a importância do empresário na economia de mercado e o facto de este agir muitas vezes de acordo com intuições, sendo a sua função principal a de procura de informação, e não a de utilização de informação já existente. O mercado é um procedimento de descoberta de informação. Mas Hayek veio notar que, se existe uma prevalência do conhecimento prático, disperso por milhões de indivíduos, não deixa de existir no mercado um conhecimento sistémico acessível a todos: esse conhecimento é fornecido pelo mecanismo dos preços. Aliás, todo o conhecimento incorporado nas tradições tem este carácter sistémico, pertencendo a toda a sociedade. A concepção hayekiana das instituições sociais como portadoras de conhecimento representa, segundo Gray, uma mudança do paradigma das ciências sociais, que antes consistia na avaliação dessas instituições de acordo com parâmetros definidos de moralidade. Cf. JOHN GRAY, Hayek on Liberty, cit., pp. 34 a 40. Cf., ainda, ISRAEL M.KIRZNER, The
Open-Endedness of Knowledge: Its Role in the FEE Formula, The Freeman, Vol. 36, Nº 3, Março
1986, pp. 85 a 90; idem, The Market Process: An Austrian View, in Groenweld, K./Maks, J.A.M./Muysken, J. (eds.), Economic Policy and the Market Process, Austrian and Mainstream
Essa utilização muito eficiente dos conhecimentos dispersos pelos indivíduos redunda num elevado grau de coincidência de expectativas. Mais precisamente, no maior grau possível de coincidência de expectativas e, consequentemente, na máxima satisfação possível do maior número de planos de vida individuais, nos quais se exprimem os fins individuais. O mercado é aquela parte fundamental da ordem liberal que permite essa maximização, que dissemos ser uma das duas razões pelas quais essa ordem é preferível129.